sábado, 20 de fevereiro de 2010

Matando o bicho de sete cabeças??

Muita gente me olha perplexa quando eu falo que pesquiso Leitura Recombinativa -, ou mais especificamente, Efeito de Consequências Específicas sobre a Emergência de Leitura Recombinativa.

É, o nome dá medo mesmo, mas só a primeira vista. Pensando na quantidade de dúvidas que este nome gera, eu pensei em explicar brevemente aqui, sem adentrar a detalhes teóricos - já que este post é destinado a aqueles que não dominam os conceitos da Análise do Comportamento -, do que se trata a minha pesquisa.

Antes de explicar o que é leitura recombinativa, é importante dizer que, no livro Comportamento Verbal, Skinner dizia que a pessoa pode aprender a ler sob controle de sílabas, mesmo quando a ela se ensinam apenas palavras completas. Aí está o X da questão.

É importante explicar também que este tipo de ensino geralmente é feito com crianças que possuam Necessidades Educacionais Especiais (NEE). Este grupo de crianças possui dificuldades em fazer ou ler mais do que o que lhes foi diretamente ensinado.

No meu experimento eu ensino através do Matching To Sample um conjunto de 4 palavras para os participantes. As palavras são compostas por duas sílabas cada. As sílabas que se alternam nas palavras são: BA, DI, VO, GE. As palavras do primeiro conjunto são: BADI, BAVO, GEVO, GEDI.

O Matcing To sample funciona da seguinte maneira: é apresentado um estímulo sonoro (palavra falada) quando o participante clica no botão Play, no centro da tela (ele ouve a palavra BADI).
Ao mesmo tempo em que ele ouve esta palavra, aparece um símbolo maluco no canto da tela, criado especialmente para este estudo (de modo a garantir que nenhum dos participantes jamais tenha tido algum contato com ele), o qual deverá ser associado à palavra ouvida.

Assim acontece também com as outras palavras: BAVO, GEVO e GEDI (elas são treinadas em processo de exclusão, no qual uma palavra previamente treinada é excluída; e fading in, no qual uma nova palavra é inserida no treino). 

Em cada treino destes, é apresentada uma consequência específica (cores, para o grupo 1; figuras para o grupo 2. Cada sílaba possui uma cor ou figura correspondente, a qual deve entrar em relação com a sílaba nos treinos - posteriormente é realizado um teste para verificar isto), exceto para o grupo 3, no qual apenas aparece a palavra correto em cada tentativa.

Quando eu termino o treino destas palavras, eu aplico um teste de leitura recombinativa, no qual as sílabas das palavras são invertidas. Ficam assim: DIBA, VOBA, VOGE, DIGE - formando o segundo conjunto de palavras. Se o participante atinge 80% ou mais de acerto eu já passo para o teste do conjunto 3 de palavras; no qual as sílabas aparecem em combinações que não haviam aparecido antes. Fica assim: VODI, BAGE, DIVO, GEBA. 

Repare que no segundo conjunto as sílabas apenas trocam de posição na palavra. No terceiro, cada sílaba aparece junto de outra sílaba que não havia aparecido junto antes. Deste modo:

Conjunto 1: BADI, BAVO, GEVO, GEDI;
Conjunto 2: DIBA, DIGE, VOBA, VOGE;
Conjunto 3: VODI, BAGE, DIVO, GEBA.

Depois do teste de leitura recombinativa eu aplico um teste para verificar se as consequências específicas entraram ou não em relação com as sílabas. Este teste é feito da seguinte maneira:

- Primeiro eu apresento uma das sílabas no centro da tela, como estímulo modelo. Nos cantos da tela aparecem os estímulos que foram apresentados como consequências nos treinos (cores e figuras), os quais o participante deve escolher um deles de acordo com a sílaba que está no centro da tela  (em outras palavras, ele deve escolher a cor ou figura correspondente a sílaba treinada).

- Depois isto é invertido. Aparece o estímulo que foi apresentado como consequência no centro da tela (cores e figuras), e as sílabas aparecem nos cantos dela. O participante deve escolher a cor que foi treinada em correspondência àquela sílaba.

- Em um último passo, a sílaba é falada, e o participante escolhe o estímulo (cor ou figura) correspondente, tal qual no primeiro teste.

Se o participante não atinge 80% de acerto nos testes anteriores, eu treino com ele o conjunto 2 de palavras. A única diferença deste treino com o treino do conjunto 1 é que aqui são usadas as palavras do conjunto 2.

Ao final são realizados testes de recombinação com o conjunto 3 de palavras; testes para verificar se as sílabas entraram em relação com suas consequências; e testes de comportamento textual, no qual todas as palavras treinadas são apresentadas junto a outras combinações não treinadas. Se o participante lê todas as palavras, inclusive as não treinadas, pode-se dizer que houve leitura recombinativa.

Bom, esta foi uma explicação breve e sem detalhes teóricos; o que, obviamente, deixa muito a desejar quando se fala em descrição de um trabalho científico. Como explicado no início do texto, a finalidade aqui é ser simples. Quem tiver interesse em conhecer o trabalho de fato, descrito de maneira minuciosa, me envie e-mail que eu disponibilizo.

7 comentários:

Joana (Paradigma) disse...

Parabéns pelo interessante e útil blog. Vamos indicá-lo no nosso twitter!
um abração, Joana Singer - Paradigma - Núcleo de Análise do Comportamento

Alessandra disse...

que complicado, Neto.

Neto disse...

Oi Joana, obrigado pelos parabéns. Fico feliz que tenha gostado. Agradeço a indicação, e volte sempre por aqui. ;)

Neto disse...

Alessandra, qualquer dúvida é só dizer. Tentarei ajudar.

Senhorita Porquê disse...

Que legal! Adorei!
Acho muito interessante esse fenômeno de formação de classes de equivalência e também o procedimento de matching to sample!


Eu participei de outra pesquisa, também, nesse caso, na Escola Experimenbtal de Primatas do Laboratório de Psicologia da UFPA, em que se pesquisa comportamento simbólico, a emergência de classes de equivalência e tal em cebus apella através do procedimento de matching to sample.
Já ouvistes falar dessas pesquisas por lá?


Mas, depois de 6 meses, eu saí da pesquisa. Hoje eu tô no Laboratótio de Psicobiologia, pesquisando sobre efeitos comportamentais da intoxicação por alumínio em ratos submetidos a modelos de memória.
Não tem jeito, as neurociências, mesmo antes de entrar na Psicologia, sempre me chamaram! =P


A propósito...!!! Eu falo do que fiz e do que faço mas não deves fazer ideia ainda de quem é!!! Eu sou a Jesiane, da UFPA, que participa lá do grupo virtual de análise do comportamento. Lembra? rsrs...

Neto disse...

Oi Senhorita Porquê. Já ouví falar sim, e muito, destas pesquisas. Já lí algumas, inclusive. Conheço o Abraão, já assistí apresentações dele nas quais falava a respeito. Assistí também a um simpósio na SBP do ano passado com um pessoal daí, da escola experimental de primatas. Você anda bem envolvida nas pesquisas, hein? To gostando de ver.

Bom, neuro é uma das áreas que gosto. Sou um dos membros fundadores da liga de neuro em minha faculdade... logo...rsrsrs...

E assumo que não esperava que fosse a Jesiane!!! Adorei saber, aliás. Obrigado por estar acompanhando minhas postagens :D Sinto-me honrado. E, pergunta besta, é claro que me lembro de quem é.

Bjs.

Senhorita Porquê disse...

Olha, um dos fundadores da liga de neuro, legal!!!


Ah, por nada! Acompanho agora sempre que posso!
Com as aulas voltando amanhã, talvez eu não tenha mais tanto tempo assim pra net, mas, como disse, sempre que der eu acompanharei!


Beijos!

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