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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Entrevista exclusiva com o psicólogo Júnio Rezende (XII JMCC)

Dando continuidade às matérias referentes à XII JMCC, segue abaixo uma instigante entrevista acerca da relação Psicologia-Neurociência. Júnio Rezende, psicoterapeuta e pós-graduando em Análise do Comportamento Aplicada, tratou do tema com propriedade, entusiasmo e otimismo.


1) Inicialmente, Júnio, conte-nos um pouco sobre suas trajetórias acadêmica e profissional.

Me formei em Psicologia no final de 2009, no Centro Universitário Newton Paiva, em Belo Horizonte. Atualmente sou psicólogo clínico e venho prestando serviços na área de avaliação educacional desde a graduação. Estou cursando a especialização em Análise do Comportamento Aplicada, também na Newton Paiva. Sou bolsista de Apoio Técnico pelo CNPq junto ao grupo de pesquisas da UFMG dedicado à aprendizagem relacional e aquisição de função simbólica, vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE). Além disso, venho estudando, sob o enfoque da Análise do Comportamento (AC), temas de meu interesse como Educação, questões sociais e a relação entre a Psicologia e a Neurociência, muito disso com um precioso grupo de amigos de BH, apelidado carinhosamente de Círculo da Savassi. (A título de esclarecimento, nenhuma das instituições a que estou vinculado têm qualquer responsabilidade -- para além da influência intelectual, claro -- sobre as opiniões expressas aqui.)


2) Charles Darwin balançou o mundo quando propôs o selecionismo como modelo de explicação para a origem das espécies. B. F. Skinner, no século passado, trouxe essa forma de pensar para a Psicologia. Em que o selecionismo consiste e de que forma podemos aplicá-lo ao estudo do comportamento humano?

Basicamente, o selecionismo consiste no processo que faz com que um traço qualquer, biológico ou comportamental, persista em detrimento de outros. No estudo do comportamento humano, ele significa inverter a ordem de causalidade geralmente difundida pelas teorias psicológicas (acadêmicas ou a popular). A partir do selecionismo, compreende-se que eventos que se seguem ao comportamento, e não apenas um evento que o precede, são os responsáveis por determinar sua forma futura. Em outras palavras, uma forma linear e mecanicista de explicar o comportamento é questionada para dar lugar a uma forma historicista.

Por exemplo, alguém poderia dizer que eu lhe respondo essa pergunta porque tenho vontade de fazê-lo. Assim, algo imediatamente anterior (a minha "vontade") determina o comportamento que se segue (responder à pergunta), em cadeia, de forma linear. A Análise do Comportamento, em um viés selecionista, explicará de forma diferente. A partir dela, um comportamento (como "responder a uma pergunta") é visto como uma possibilidade entre muitas outras. Eu poderia recusar-me a responder, poderia criticar a pergunta e pedir que fosse reformulada, poderia elogiá-la antes de responder, poderia ignorá-la e fazer a você eu mesmo uma pergunta... Enfim, para cada comportamento humano que ocorre, uma série de outros deixa de ocorrer.

O selecionismo explica isso analisando não unicamente as condições precedentes, as quais justificariam o próximo elo da cadeia, mas analisando o valor adaptativo do comportamento. Assim, responder à sua pergunta foi o comportamento selecionado, nesta ocasião, por ser, necessariamente, o mais adaptativo. É melhor para mim que eu me comporte respondendo-a da forma como o faço e não me comportando de qualquer outra forma. Esse valor adaptativo, que a torna a melhor opção, foi, por sua vez, determinado como tal a partir de uma série de experiências pessoais passadas. Minha história tornou este comportamento melhor para este momento. É o valor futuro do comportamento, e não alguma tendência anterior (como a "vontade"), que explica o comportamento observado.

É importante frisar que o valor adaptativo de diferentes possibilidades de nos comportarmos no presente foi determinado no passado, à medida que nos comportamos e fomos expostos às consequências de nossas ações. Daí o selecionismo ser denominado uma explicação "historicista" para o comportamento, diferente de explicações mecanicistas, que são imediatistas.


3) Você, juntamente com Ramon Cardinali, trouxeram para a XII JMCC a proposta de que o selecionismo pode também ser aplicado à Neurociência. Como seria isso?

O que nós fizemos foi levar ao público da XII JMCC, de forma resumida, uma ideia que vem sendo trabalhada pela pequenina parcela de analistas do comportamento que estão em contato direto com a Neurociência. Contrariamente a muito do que se diz sobre a AC, o próprio B. F. Skinner, proponente do Behaviorismo Radical, deixou claro, num artigo de 1966, que o comportamento das pessoas "é simplesmente a fisiologia de uma anatomia". Com isso ele não quer retratar-se sobre tudo o que disse -- e viria a dizer -- acerca do papel do ambiente na determinação do comportamento, mas apenas frisar que, sem o substrato biológico pertinente, não existe comportamento. Esse é um fato muito bem estabelecido pela Neurociência, mas que a Psicologia pode ignorar caso se interesse apenas por lidar com a pessoa tal como ela chega quando busca os serviços do psicólogo e não se interesse por compreender de forma mais completa o que permite a tal pessoa se comportar como o faz.

Guiado pelo interesse em conhecer como a seleção do comportamento atua sobre o substrato biológico, Larry Stein investigou a atividade de células nervosas de forma análoga àquela pela qual os analistas do comportamento têm investigado, com sucesso, o comportamento de humanos e outros animais. O procedimento -- nomeado pelo autor como um análogo do condicionamento operante -- foi muito bem controlado, pois as células foram isoladas do organismo e colocadas em solução aquosa, tendo sua atividade (o potencial de ação), e não um comportamento qualquer do organismo que poderia se valer delas, como alvo da experimentação.

O resultado foi empolgante: utilizando-se um neurotransmissor estimulante como consequência reforçadora -- a dopamina --, foi possível controlar a frequência da atividade celular sob estudo. Testes foram realizados para aumentar e para diminuir a frequência da atividade (reforçamento e extinção, respectivamente), a consequência reforçadora foi empregada de forma contingente e não-contingente aos potenciais de ação, e outras substâncias, inócuas e depressoras, foram também empregadas. Tudo isso para controlar as variáveis importantes e estabelecer, enfim, que a atividade dos neurônios estudados é determinada -- selecionada pelas consequências -- tal qual o comportamento dos organismos intactos.

O que Ramon e eu tentamos fazer na Jornada foi aprensetar passo-a-passo os princípios comportamentais e epistemológicos necessários para se compreender a importância e alcance desses achados, e propor que isso nos ajuda a pensar sobre o futuro -- sabe-se lá o quão distante de nós -- das ciências do comportamento.


4) Há uma questão que vive a colocar meus melhores neurônios para trabalhar. Afinal, Júnio, Neurociência e Psicologia abordam problemas semelhantes de formas distintas ou, alternativamente, abordam problemas também distintos?

Os meus também têm trabalhado um bocado nisso! Boa pergunta. Acho que nem um, nem outro, exatamente. Tanto a Neurociência quanto a Psicologia estão interessadas em explicar aquilo que vemos as pessoas fazendo todos os dias, desde um simples choro de bebê até uma decisão moral complexa. No entanto, os melhores psicólogos e neurocientistas desenvolveram seus campos de atuação dando origem a ferramentas poderosas para a análise de fenômenos muito diferentes.

Por um lado, somos hoje capazes, entre uma série de outras coisas, de observar a atividade do nosso cérebro em tempo real no desempenho de atividades cognitivas sofisticadas, tecer correlações e descobrir se algo vai mal em termos biológicos. Por outro, fomos capazes de descrever leis do comportamento que nos permitem, em um bom grau, prever como alguém se comportará quando exposto a determinadas condições ambientais. Ambas são tecnologias poderosas, imprescindíveis, orientadas para um mesmo fim (em suma, o bem-estar das pessoas), mas ainda assim diferentes. Em termos metodológicos, as variáveis independentes são, em geral, distintas: os psicólogos manipulam o que está fora do organismo enquanto os neurocientistas manipulam o que está dentro, ambos esperando influenciar a atividade do organismo em si.

Portanto, acho que as duas ciências estudariam o mesmo problema, diferentes subproblemas, de formas distintas mas -- como acreditamos -- sob alguns princípios básicos comuns. Um pouco mais complicado do que a sua pergunta aponta, parece, a partir do que nós aprendemos até agora.


5) Na sua opinião, e para finalizar, qual seria a importância de entendermos, enquanto psicólogos, ao menos um pouco de Neurociência? Acredita que psicólogos e neurocientistas podem se beneficiar caso trabalhem em equipe?

Mesmo que a tecnologia do psicólogo não seja voltada para alterar diretamente o substrato biológico, não me parece a postura mais interessante ignorar toda uma área do conhecimento que está preocupada, no fim das contas, com o mesmo que o psicólogo está. Alheio às contribuições da Neurociência (e de outras ciências, também, como a Antropologia ou a Economia), o psicólogo se priva de tirar proveito das ideias de pessoas com interesses comuns, cujas investigações poderiam lançar luz sobre problemas comuns, principalmente naqueles pontos onde duas áreas distintas podem se tocar e as fronteiras se esvanecer -- e eles existem! Por outro lado, ao não levar -- de forma inteligível -- para outras áreas o que conhece, o psicólogo perde a oportunidade de contribuir com aquele quadro maior do conhecimento que pretende abarcar o entendimento do ser humano. Isso vale para os neurocientistas, também, ou seus representados lá na ponta, na aplicação, como os médicos, fisioterapeutas, entre outros. Na minha opinião, adotar ou não essas posturas determina se seremos cientistas sensíveis ou meros técnicos.

Quanto ao trabalho em equipe, hoje temos a Neuropsicologia, que deixa claro como a parceria é possível e necessária no âmbito prático. Tecnologias novas vêm surgindo e evidenciando cada vez mais o sucesso da parceria. As técnicas de neurofeedback são um exemplo interessante. Outro, que enche os meus olhos e me emociona de verdade, são os trabalhos do mundialmente aclamado neurocientista brasiliero Miguel Nicolelis, cujos projetos de interface homem-máquina seriam impossíveis sem uma tecnologia de controle operante do comportamento.

Creio que, no futuro, mais e mais interdisciplinaridade será necessária e que até mesmo as duas ciências, com o avanço das tecnologias necessárias, venham a se confundir -- no bom sentido -- num caminho sem volta. Mas antes -- e isso é muito importante -- entendo que seja preciso delimitar muito bem as fronteiras entre Psicologia e Neurociência para que se determine com clareza o papel que cabe a cada ator, de forma que a parceria ganhe em eficiência e efetividade.

domingo, 5 de junho de 2011

Fotos da XII Jornada Mineira de Ciência do Comportamento (JMCC)

Já estão publicadas na nossa página do Facebook algumas fotos da cobertura que fizemos na XII JMCC. Clique aqui e confira!

Conferência de abertura da XII JMCC

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Entrevista com o psicólogo Pedro Henrique Sampaio (XII JMCC)

Segue abaixo mais uma entrevista que fiz para o Comporte-se na XII Jornada Mineira de Ciência do Comportamento (XII JMCC). O entrevistado, Pedro Henrique Sampaio, graduou-se em Psicologia pela PUC-Minas, atua como psicoterapeuta na Unimed e está se especializando em Análise do Comportamento Aplicada pelo Centro Universitário Newton Paiva. Pedro, na ocasião da XII JMCC, proferiu uma provocante palestra sobre alguns problemas do relativismo epistemológico.

Pedro Henrique Sampaio na XII JMCC

1) Inicialmente, Pedro, conte-nos um pouco sobre sua trajetória acadêmica e profissional, bem como sobre quando e como seu interesse pela Filosofia aflorou.

Meu interesse pela Filosofia vem desde muito cedo; já tem cerca de 15 anos que estudo bastante Filosofia. Eu me questionava muito sobre o mundo à minha volta... procurava entender por que as pessoas agem como elas agem, por que pensam no que pensam, se existia Deus, por que eu deveria ou não confiar em meu médico. Então um dia minha mãe me disse que aquilo era Filosofia e me deu o livro "O Mundo de Sofia", do Jostein Gaarder, para ler. Fiquei encantado com o livro e lá tomei conhecimento de alguns filósofos que pareciam ter se indagado sobre coisas similares às que eu vinha me indagando e fui buscar livros deles para ler. Daí não parei mais.

Meu interesse pela Psicologia, inclusive, veio através da Filosofia. Através de filósofos tomei conhecimento de Freud e fiquei imediatamente fascinado. Depois, Lacan. Assim, já entrei no curso de Psicologia tendo alguma leitura de Psicanálise e orientei quase toda minha formação neste sentido: continuei estudando bastante Psicanálise, escolhi estágios de orientação psicanalítica, dei monitoria em Psicanálise, fiz pesquisa, grupos de estudo, tudo em Psicanálise. Mas então comecei a frequentar um grupo de estudo em Análise do Comportamento coordenado pelo Marcus Guadalupe. Confesso que fui a princípio apenas para criticar a Análise do Comportamento, mostrar como aquilo estava ultrapassado, como eram filosoficamente ingênuos e que o modelo de ciência que adotavam era antigo e ignorava uma série de coisas importantes. Eu não tinha ideia do quanto estava enganado.

Quanto mais eu lia Skinner e outros analistas do comportamento, mais via que tudo aquilo que falam do behaviorismo radical -- e que uma leitura superficial de Skinner dá a entender -- era completamente equivocado. Em determinado momento tive que admitir que a Análise do Comportamento era realmente a melhor proposta de estudo, e a teoria mais bem fundamentada, sobre os fenômenos ditos "psicológicos".

Desde então tenho orientado minha prática profissional pela Análise do Comportamento. Atuo em consultório particular e também sou psicólogo clínico da Unimed. Fora isso, continuo devorando e tentando produzir algo a respeito de temas acadêmicos que me interessam, a maioria deles relacionados à Filosofia, mas agora norteados pelo behaviorismo radical.


2) Você abordou um problema epistêmico (posso chamá-lo assim?) muito intrigante na XII JMCC, qual seja, o de se explicações diferentes sobre um fenômeno podem ser igualmente boas. Em linhas gerais, em que consiste esse problema e quais critérios podemos adotar para solucioná-lo?

É que existe um debate bem quente atualmente sobre se explicações diferentes são todas igualmente boas, igualmente válidas, igualmente "verdadeiras". Isso na verdade é antigo, vem desde os pré-socráticos, mas teve uma retomada principalmente a partir do século passado, com pensadores que são chamados, por vezes, de "pós-modernos". Protágoras já dizia que "o homem é a medida de todas as coisas" e Pirro de Élis levou isso a extremos do ceticismo... mas foram os filósofos ditos "pós-modernos" que deram a roupagem atual a esse argumento. É muito difícil falar desse assunto sem ser simplista, mas o cerne do argumento é: "qualquer teoria/ explicação/ descrição é igualmente boa porque todas elas são apenas fruto do meio onde surgiram e/ou partem de um viés epistemológico que é, no fundo, necessariamente arbitrário. Assim, só podemos dizer que uma é melhor do que a outra partindo de um ponto de vista específico, de critérios arbitrários que favorecem uma explicação em vez de uma outra".

Na apresentação que fiz, que é também um resumo até imprudente de minhas ideias, procuro apontar alguns problemas dessa ideia, chamada de "relativismo epistemológico", e apontar soluções.

Tenho observado que uma solução eficaz para essa questão e para todos os problemas que envolvem a escolha de uma explicação em detrimento de outra é a adoção de três etapas:

1. Tradução dos termos problemáticos para termos comuns entre ambas as teorias;

2. Caso a tradução não se mostre possivel ou eficaz, chegar ao MMC de toda explicação, que é a razão.

Este (razão) é um termo com muitas definições diferentes e esta palavra já foi dissecada até o osso por alguns filósofos, mas entenda por "razão" simplesmente coisas como fazer sentido, lógica, ter coerência, haver motivos para acreditar naquilo. Ou seja, pode utilizá-lo da forma mais ampla possível.

3. Persuasão. Caso alguma explicação não esteja preocupada com a razão ou não tenha como emitir juízo sob qual a mais bem justificada, você simplesmente descreve ambas, com suas justificativas e consequências. Ouso dizer que, nos embates entre explicações concorrentes que analisei até aqui, quase nenhuma chega até este terceiro ponto. O imbróglio é resolvido no item 1 ou 2. Geralmente só chegam aqui conflitos entre explicações filosóficas ou científicas com explicações religiosas, por exemplo. Ou então explicações de origem puramente conceitual, como você tentar dizer se a análise de Kant sobre o entendimento humano é melhor ou pior do que a de Hume.

Gostaria de explicar melhor tudo isso, mas ficaríamos horas por aqui. Por enquanto basta dizer que adotar este procedimento já torna improcedente essa igualação absoluta feita entre teorias, coisa tão comum na Psicologia.


3) A propósito, você tratou de algo semelhante em sua monografia da graduação, de vez que buscou traçar um paralelo epistemológico entre a Psicanálise e a Análise do Comportamento. Podemos, afinal, tomar aqueles critérios para comparar, talvez mesmo em termos de eficiência, as abordagens da Psicologia? Se sim, você acha que deveríamos lançar mão de estudos nesse sentido? Quais seriam as consequências de fazê-lo?

Sim, e não só podemos como devemos! Acredito ter explicitado em minha apresentação não apenas a tremenda falácia que é o relativismo epistemológico como também apontado as consequências desastrosas de adotá-lo, caso fosse verdade. Em minha monografia, pude observar que a maior parte dos conflitos envolvendo a Psicanálise e o Behaviorismo Radical, duas teorias aparentemente tão opostas, eram resolvidos operando simplesmente o primeiro item, a tradução. O mesmo pode -- e deve -- ser feito com relação às demais teorias psicológicas.

É difícil prever as consequências disso, mas certamente faríamos uma limpeza nesse samba-do-crioulo-doido chamado "Psicologia", ou ao menos colocaríamos algumas teorias em maus-lençóis. Com isso não estou propondo uma cruzada anti-pluralidade teórica. Muitíssimo pelo contrário! É fundamental que novas explicações surjam o tempo todo e concorram para explicar o mesmo fenômeno. Mas do que adianta se cada um vier com sua teoria e ficar cada uma no seu quadrado, afirmando que é tudo igualmente bom, igualmente verdadeiro, que somos todos lindos, que as crianças crescem, que os passarinhos voam e que as flores desabrocham?  Não se produz nada!

Essa proposta não vem favorecer a Análise do Comportamento, mas vem favorecer a produção de conhecimento. A Psicologia sofre de um terrível descrédito tanto entre as demais ciências quanto entre a população de um modo geral. Esse descrédito é justificado e fruto do que fazemos com ela. Passou da hora de passarmos uma navalha nesse acúmulo de especulações chamado Psicologia e começar a ver quais teorias sobrevivem a um exame crítico e comparativo, quais explicações são devidamente fundamentadas -- independentemente da epistemologia que adotam, tal qual é minha proposta -- e, caso algumas sejam melhores do que as outras em alguns aspectos e outras não, como uma pode contribuir para a outra.

Isso não deveria ser apenas uma questão filosófica, um comprometimento com ciência, não-ciência ou produção de conhecimento; deveria, antes, ser uma questão de ética. Deveríamos fazer isso porque nossas vaidades e crenças pessoais são menos importantes do que oferecer o melhor possível para os nossos clientes. É oferecer o melhor conhecimento possível sobre fenômenos psicológicos para o mundo e o melhor tratamento possível para as pessoas. E, por mais que o contrário seja repetido à exaustão nos cursos de Psicologia, tem como fazer isso sim.


4) Finalizaremos a entrevista pelo modo como muitas entrevistas começam. Conte-nos, Pedro, sobre o que levou você a optar pela Análise do Comportamento (AC) em detrimento das outras abordagens.

Na verdade, demorei muito para me chamar, ou aceitar que me chamem, de analista do comportamento. Porque não tenho nenhum comprometimento específico com a Análise do Comportamento. Meu comprometimento é com o conhecimento, e a Análise do Comportamento é para mim, e até onde estudei, simplesmente o melhor que temos para explicar todo o escopo de coisas que a Psicologia se ocupa. Por enquanto.

Digo isso porque, como toda teoria, vai inevitavelmente acontecer uma das duas coisas: ou o que conhecemos hoje como Análise do Comportamento vai acabar sendo bem modificado e aprimorado, assim como é bem diferente a Física do século XVIII e a Física hoje; ou então a Análise do Comportamento vai dar lugar a uma outra proposta que dá conta dos mesmos fenômenos que ela se dispõe a estudar tão bem quanto ou melhor do que ela.

Como o próprio Skinner apontou, isso não quer dizer que a Análise do Comportamento esteja errada ou que ela seja um fracasso. Ela é simplesmente o melhor que temos hoje e fazemos muito bem em adotá-la. Todo conhecimento que consideramos correto é apenas um conhecimento correto até então, e a AC não é exceção. E ela não é um fracasso, porque são todas as coisas que ela conseguiu que propiciarão que aquilo que vai aprimorá-la ou substituí-la venha a ocorrer. Ela foi, e já é, um sucesso.

O que não quer dizer, obviamente, que não tenhamos um mundo de coisas a fazer por ela ainda. Inclusive criticá-la incessantemente. Só assim se faz ciência.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Entrevista com a Profª Sandra Bernardes (XII JMCC)

Esta é a minha primeira entrevista para o Comporte-se. Quem a concedeu foi a professora Sandra Bernardes, pouco depois de sua conferência de abertura da XII Jornada Mineira de Ciência do Comportamento (JMCC). Como o tema da JMCC deste ano foi "Discutindo os papéis sociais da Análise do Comportamento", Sandra discorreu apaixonadamente sobre os fundamentos e as perspectivas práticas da ética skinneriana. A professora Sandra (como gosta de ser chamada) graduou-se e adquiriu o título de mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sendo que atualmente é professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC) e atua nas seguintes áreas: Terapia Comportamental, Formação de Terapeutas Comportamentais, Ensino de Análise do Comportamento e Behaviorismo Radical.

Daniel Gontijo e Sandra Bernardes (XII JMCC)

1) Como fazemos tradicionalmente, Sandra, gostaria inicialmente que você nos contasse um pouco de sua trajetória profissional, sobretudo no âmbito da Análise do Comportamento (AC).

Então, Daniel, o "destino" contribuiu em parte para o meu encontro com o behaviorismo... porque quando fiz o curso (Psicologia) na UFMG a AC estava chegando, aparecendo, e vindo com muita força! A grande maioria das disciplinas, como a Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Social, partia do ponto de vista da AC. Dessa forma, meu percurso-no-curso foi em AC.

Depois que eu me formei, eu trabalhei na revenda Wolksvagem fazendo pesquisa de comportamento de venda. Foi nessa época que me chamaram para dar aula de AC... e quando eu comecei a lecionar, eu realmente vi que aquele era o meu lugar, que era aquilo que eu acreditava! Mas chegou um momento que eu quase virei psicanalista... porque era pouco reforçador, sabe? Não tinha muito diálogo... o pessoal (da AC) era meio isolado. Foi quando a Adélia chamou a gente e disse: "Vamos praticar!" Não tinha terapeuta comportamental aqui, e ela acabou me chamando para dar aula de Terapia Comportamental na UFMG. Eu não era terapeuta comportamental, mas ela disse que seriam aulas conceituais. Por lá, então, aos pouquinhos a turma (isto é, os adeptos à AC) foi crescendo e crescendo; começamos a trazer pessoas como o Hélio Guilhardi para Belo Horizonte e a AC foi se fortalecendo.

Então, assim, eu acredito que o meu percurso é basicamente "da prática"; leio muito, entendo muito, mas a prática da AC é o que sempre me encantou.

2) Na sua conferência, Sandra, você discorreu sobre o sistema ético skinneriano. O que esse sistema traz de inovador, de diferente em relação a outros sistemas éticos?

O diferencial é ser uma ética comportamental. No texto "Ética de Skinner e metaética" do Abib, no qual ele discute conceitos profundos como realismo e pragmatismo, podemos ter uma noção da ética skinneriana. Os conceitos de tato e mando ajudam muito nesse sentido; as noções de que o bom e o mau são produtos de consequências, também. E nós temos que trabalhar uma ciência do comportamento dentro desse tipo de visão, de homem que conduz o seu próprio destino. Skinner já disse mais ou menos o seguinte: "Nós não sabemos o que o homem pode fazer pelo homem. O homem de hoje é produto do próprio homem." Então, se a gente quer um mundo com condições plenas de desenvolvimento, a gente tem que prover condições iguais para as pessoas. A desigualdade e várias outras coisas ruins não estão aí por acaso.

3) E acerca do bom e do mau, eles existem ou são coisas construídas? O que são esses valores?

O bom e o mau não existem enquanto coisas em si. Skinner é enfático ao dizer que o bom e o mau não são características dos objetos, das coisas, mas o efeito que essas coisas provocam no organismo. Então, o bom e o mau são estados do corpo na interação. Quando eu falei "para além do bom e o mau", eu estava entrando na questão da ética, do mando skinneriano, e sobretudo da sobrevivência da cultura.

4) Mais cedo, na sua apresentação, você comentou sobre a presença do analista do comportamento nas instituições. Se a gente tem esse saber, esse saber transformador, o que nos impede de transformar, isto é, de nos infiltrar (nas instituições) e transformar?

Os valores das instituições. A direção de uma instituição é no sentido de promover sua própria manuntenção; é uma procura pela manutenção do poder. Então, na medida em que você descreve as condições do controle, o poder fica partido... e então as instituições deixam de ter sentido. Falando num nível menor, nas relações interpessoais, as pessoas não querem que a gente descreva as relações de poder... Imagine descrever as relações de poder de um casal... As coisas poderiam mudar, se equilibrar, nenhum seria mais forte ou melhor do que o outro. As pessoas evitam isso, e isso é verdade também no caso das instituições.

5) Uma última questão, Sandra. Queria que você falasse um pouco sobre o que mudaria caso a maior parte das pessoas deixasse de lado a noção ingênua de liberdade, do eu-iniciador, e em vez disso agarrasse as premissas do determinismo tal como tomadas pelo behaviorismo radical.

Mudaria as possibilidades de controle. Podemos mexer muito mais nas contingências do que diretamente nos sentimentos, por exemplo. O homem autônomo não existe na AC. O "eu" é uma construção social e não é a causa do comportamento. Devemos, portanto, ver quais são as condições da construção do "eu"... porque é aí que podemos mexer.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sorteio de uma Inscrição para a JMCC - Divulgação de Resultados!

A Comissão Organizadora da XII Jornada Mineira de Ciências do Comportamento realizou, junto ao Comporte-se, o sorteio de uma inscrição no evento que ocorrerá nos dias 27 e 28 de maio, no Centro Universitário Newton Paiva - Belo Horizonte. 




O sorteio foi realizado por meio do site sorteie.me, que seleciona de modo aleatório um perfil entre todos os que deram RT no link repassado pelo Comporte-se. 

O perfil da vencedora do sorteio é: http://twitter.com/#!/IsabelladReis

Para quem quiser conferir na página do site sorteie.me, o link é: http://sorteie.me/1MDB48

Conforme informado no post de divulgação do sorteio, serão desclassificados aqueles que já estão inscritos, mas mesmo assim reenviaram o link. Portanto, pedimos à Isabella que entre em contato com a comissão organizadora por meio do e-mail jornada.mineira@yahoo.com.br para confirmar a validade do sorteio e receber as instruções sobre sua inscrição.

Agradecemos a todos os que participaram, e aguardem, em breve realizaremos novos sorteios aqui no Comporte-se. E para quem ainda não se inscreveu e também não foi contemplado com o sorteio, ainda pode realizar sua inscrição no próprio evento. Corra e não perca a oportunidade. 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre o sorteio da inscrição para a XII JMCC

Seria anunciado ontem, dia 25 de maio, às 23:59 o resultado do sorteio da inscrição para a XII Jornada Mineira de Ciência do Comportamento. Entretanto, houve um pequeno problema técnico no site sorteie.me, que esperamos já ter sido resolvido até hoje, dia 26, para que possamos realizar o sorteio e divulgar os resultados. Aguardem notícias. Assim que possível será divulgado o nome do vencedor.

sábado, 14 de maio de 2011

Data Final para Submissão de Trabalhos na Jornada Mineira de Ciência do Comportamento

Termina domingo, dia 15 de maio, o prazo para submissão de trabalhos à Jornada Mineira de Ciências do Comportamento. Corra e inscreva seu trabalho. 

Para submeter sua proposta é preciso estar inscrito no evento. Clique aqui para fazer sua inscrição. Não se esqueça que grupos de alunos que vem de fora da Grande BH obtém descontos especiais para se inscrever na Jornada Mineira de Ciência do Comportamento. Clique aqui para conhecer as condições. 

Feito isto, você deve enviar um e-mail para  jornada.mineira@yahoo.com.br seguindo as instruções fornecidas no site do evento. Clique aqui para conhecê-las.