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quarta-feira, 23 de maio de 2012

O comportamento religioso


O sinal da cruz dos cristãos, o prostrar-se dos muçulmanos durante as orações, a cerimônia de circuncisão realizada pelos judeus e o jejuar, realizado por diversos grupamentos religiosos, são exemplos do que a nossa cultura designa como comportamento religioso. Esses comportamentos integram o repertório comportamental de diversos indivíduos que compartilham um ambiente social comum, o qual pode ser uma cultura, enquanto grupo social, ou seus produtos, tais como literatura, arte, política, tecnologias ou sistema de produção. 

Em uma perspectiva analítico-comportamental, o comportamento religioso pode ser entendido como qualquer comportamento verbal ou não verbal que envolve a formação de relações de causalidade entre eventos físicos e eventos que, supostamente, não obedecem às leis naturais. 

Como apontou Skinner (1953/1981), relações comportamentais que envolvem o controle verbal são mais propensas a envolver a formação de relações de causalidade entre eventos independentes entre si. Segundo esse autor, comportamentos cujo reforço é socialmente mediado provem contingências únicas. Contrariamente, para o caso de comportamentos cujo reforço é mecanicamente produzido pela resposta, tais como “arremessar um objeto”, a consequência (nesse exemplo, “objeto longe”) ocorre inevitavelmente, sempre que a resposta ocorrer. Entre a contingência única e a contingência que recorre inevitavelmente, conforme destacou Skinner (1953/1981), “há um contínuo que não pode ser dividido rigidamente em nenhum ponto para se distinguir entre 'superstição' e 'fato'” (pág. 333). Em outros termos, relações entre eventos que se repetem de forma relativamente uniforme e com maior recorrência tornam mais prováveis que descrições precisas dessas relações sejam produzidas. Relações entre eventos que ocorrem poucas, ou até mesmo apenas uma única vez, por outro lado, possibilitam a elaboração de descrições imprecisas e, algumas vezes, místicas, visto que podem relacionar de forma causal eventos que são independentes. 


Essa análise da susceptibilidade à formação de relações acidentais por parte de fenômenos comportamentais que envolvem variáveis verbais lança luz à compreensão dos processos comportamentais que possibilitam a formação e manutenção de crenças e mitos religiosos. Assim, é provável que uma parcela das fontes de controle do comportamento religioso provenha desse tipo de relação acidental entre variáveis funcionalmente independentes, relacionadas apenas verbalmente. 

Apesar de, possivelmente, relações acidentais participarem das contingências que controlam a ocorrência dessa classe de comportamentos, destaca-se que a presença do controle verbal possibilita uma série de relações contingentes que exigem cautela à análise do comportamento religioso tendo por base exclusivamente a noção de seleção acidental ou comportamento “supersticioso”, aos moldes do que foi descrito por Skinner (1948). Tal apontamento remete-nos a uma segunda consideração para a análise de comportamentos religiosos: esses são eminentemente sociais. 

Conforme destacou Herrnstein (1966), os padrões comportamentais religiosos são produtos de uma aprendizagem social. Segundo o autor, o processo de “aculturação” - ou seja, o extensivo processo educacional que antigos membros de uma cultura oferecem aos novos membros - parece incluir a aprendizagem de superstições (p. 45), o mesmo valendo para comportamentos religiosos. Além de aprendidos socialmente, comportamentos religiosos parecem ser, em grande medida, mantidos por consequências mediadas socialmente, seja por um grupo, por outro organismo ou pelo próprio sujeito que se comporta, sob controle de aprendizagens sociais anteriores. Essas consequências podem vir na forma de reforços positivos (ex. prestígio no grupo), reforços negativos (ex. esquiva de supostas punições divinas), punições positivas (ex. críticas do grupo social ou do próprio sujeito que se comporta), punições negativas (ex. perda de títulos ou funções no grupo) ou extinção (ex. ostracismo social para membros “desviantes”). 

Assim, o controle social parece exercer um papel fundamental na instalação e manutenção de comportamentos religiosos, estabelecendo relações de contingência entre o responder e uma série de consequências que, ao longo da vida do indivíduo exposto à aprendizagem dessas relações, se tornaram muito importantes. 

Em suma, diversas variáveis podem ser apontadas como importantes fontes de controle do comportamento religioso, incluindo variáveis verbais, outros tipos de controle social e relações acidentais, as quais podem, isoladamente, influenciar mais ou menos o comportamento, a depender da instância comportamental em análise. 


Referências 

Herrnstein, R. J. (1966). Superstition: a corollary of the principles of operant conditioning. In W. K. Honig (Ed.), Operant Behavior: areas of Research and Application (pp. 33-51). New York: Appleton-Century-Crofts. 

Skinner, B. F. (1948). "Superstition" in the pigeon. Journal of Experimental Psychology, 38, 168-172. 

Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads.). São Paulo: Martins Fontes, 5ª. ed. (Originalmente publicado em 1953).

quarta-feira, 28 de março de 2012

Análise Comportamental da religiosidade


Seria de se esperar que a evolução humana fosse acompanhada pelo investimento cada vez maior no raciocínio lógico e na ciência, e pelo abandono de práticas místicas. Porém, a crença em forças consideradas de ordem superior, criadoras do universo, constitui uma característica presente entre povos das mais diversas culturas e ao longo de diferentes períodos históricos (Rodrigues & Dittrich, 2007).


Tais condições suscitam algumas questões ao analista do comportamento: O que mantém comportamentos religiosos particulares, tais como o ato de rezar privadamente, ou padrões culturais que envolvem o comportamento entrelaçado de diversos sujeitos, tais como rituais de consagração a deuses? Quais os motivos pelos quais a adesão a religiões permanece como prática compartilhada por tantos indivíduos, nas mais diversas culturas? Que contingências favorecem o surgimento e manutenção de práticas religiosas? Há alternativas mais vantajosas do ponto de vista do indivíduo e da cultura para o controle exercido pela religião?

Em uma perspectiva evolucionista, a manutenção de práticas religiosas nas mais diversas culturas ao longo do tempo permite-nos inferir que tais práticas provavelmente têm valores adaptativos importantes. Nessa perspectiva, autores tais como Houmanfar, Hayes e Fredericks (2001) discutem a importância da religião para a sobrevivência das culturas. Skinner (1953/1981), por sua vez, discute a religião enquanto uma agência de controle do comportamento humano, apontando, em uma análise comportamental (individual), as vantagens e desvantagens dessas relações de controle.

Porém, afora algumas poucas publicações, de um modo geral pouca atenção vem sendo dada, na Análise do Comportamento, à discussão da religião (enquanto agência de controle) e da religiosidade (aqui entendida como o conjunto de comportamentos verbais e não verbais e/ou práticas culturais reproduzidas por um grupo social ou um membro desse grupo, isoladamente). Com frequência, esses tópicos são indiretamente tratados no âmbito das discussões sobre “comportamento supersticioso”, de tal modo que o comportamento religioso é abordado enquanto um comportamento cujo responder é controlado por eventos subsequentes independentes da resposta.

Porém, como destaca Herrnstein (1966), os rituais religiosos não são arbitrários, como o comportamento supersticioso originalmente descrito por Skinner (1948), e sim produtos de uma aprendizagem social. Assim, como exemplifica aquele autor, a crença na transubstanciação por parte de um católico particular, por exemplo, não é adquirida por meio de uma relação acidental entre o responder do indivíduo e um evento ambiental reforçador, e sim por meio de reforços mediados pela cultura.

Além de não serem necessariamente arbitrários, outra diferença que pode ser apontada entre comportamentos supersticiosos e comportamentos e práticas religiosas é o fato de esses últimos, contrariamente aos primeiros, serem frequentemente permanentes (no sentido de que recorrem, ao longo do tempo).

Além disso, como bem apontou o personagem fictício Gottlieb, cristão ortodoxo do diálogo proposto por Rodrigues e Dittrich (2007), “é equivocada a consideração de que todos compreendem suas práticas religiosas da mesma maneira” (p. 528). Diferentes cristãos, embora possam reproduzir as mesmas práticas, podem estar sob controle de variáveis diferentes.

Partindo dessas considerações, a análise da religiosidade tendo em vista um processo comportamental único, que estaria na base de todas as práticas religiosas, pode se constituir uma alternativa por demais limitada para a compreensão do fenômeno. Embora processos de seleção e manutenção de respostas por eventos subsequentes independentes possam compor o complexo arranjo de contingências que constituem a religiosidade, seu caráter eminentemente social sugere que, para sua análise, faz-se necessário considerar outras possíveis relações de controle subjacentes a esse fenômeno comportamental/cultural.

Entende-se que propostas de análise que atentem, ao mesmo tempo, para o caráter aparentemente supersticioso e socialmente mediado dos processos de aquisição e recorrência de comportamentos e práticas religiosas podem constituir alternativas adequadas à discussão dos fenômenos em questão.

Na medida em que favorecem a compreensão das relações de controle presentes na religiosidade, tais análises ampliam as possibilidades de previsão e controle de uma parcela importante de comportamentos individuais e de práticas culturais. Dentre outras implicações, o conhecimento de tais relações pode favorecer o desenvolvimento de tecnologias comportamentais em contextos individuais (como na clínica), ou sociais (para o planejamento e/ou intervenções culturais).

Referências

Herrnstein, R. J. (1966). Superstition: a corollary of the principles of operant conditioning. In W. K. Honig (Ed.), Operant Behavior: areas of Research and Application (pp. 33-51). New York: Appleton-Century-Crofts.

Houmanfar, R., Hayes, L. & Fredericks, D. (2001). Religion and cultural survival. The Psychological Record, 51, 19-37.

Rodrigues, T. S. P. & Dittrich, A. (2007). Um diálogo entre um Cristão Ortodoxo e um Behaviorista Radical. Psicologia Ciência e Profissão, 27 (3), 522-537.

Skinner, B. F. (1948). "Superstition" in the pigeon. Journal of Experimental Psychology, 38, 168-172. Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads.). São Paulo: Martins Fontes, 5ª. ed. (Originalmente publicado em 1953).