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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cobertura do Comporte-se no II ESGAC

Nos dias 15, 16 e 17 de junho aconteceu em Jataí, cidade localizada no Sudoeste Goiano, o II ESGAC, com a temática “Contribuições para o Desenvolvimento Humano”. O evento é uma iniciativa interinstitucional que teve origem nas jornadas de Análise do Comportamento da Universidade de Rio Verde (FESURV) e hoje conta com a participação da Universidade Federal de Goiás (UFG - Campus Jataí e Campus Goiânia), Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS - Campus Paranaíba), Universidade de Rio Verde (FESURV – Campus Rio Verde) e Faculdade Mineirense (FAMA – Campus Mineiros). 


Segundo os organizadores André Bravin (UFG/UnB), Fábio Baia (FESURV/FAMA/UnB) e Juliano Konamota (UFMS), o Encontro objetiva, reunir e promover o debate entre professores, estudantes, pesquisadores, autoridades regionais e integrantes da comunidade. fruto de uma parceria entre professores de diferentes Universidades da região (UFG, FESURV, UFMS, FAMA) que se uniram para fortalecer a Análise do Comportamento. Visa propiciar um contexto para atualização dos conhecimentos, promoção de parcerias estratégicas entre o setor público e privado e sociedade, bem como o aprimoramento aplicado dos psicólogos o que provê um retorno do saber científico à própria região, favorecendo o cumprimento do papel social da Academia. 

Em um de seus aforismos, a poetiza goiana Cora Coralina diz o seguinte: “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes”. Seguindo essa premissa, posso dizer que o evento foi recheado de saber e sabedoria. Os convidados Carlos Medeiros, Cláudio Herbert Silva, Dênis Zamignani, Elisa Heck, Hélder Gusso, Juciléia Souza, Roberto Banaco e Robson Cruz nos brindaram com excelentes apresentações, simpatia e descontração. 

O II ESGAC contou com cerca de 340 inscritos, se consolidando como um dos maiores, senão o maior, evento de Análise do Comportamento do Centro-Oeste. O Comporte-se se orgulha de ter participado realizando a cobertura e agradece o empenho dos organizadores para que estivéssemos presentes. Peço para que os participantes que tiraram fotos as enviem para o email: rodrigo@comportese.com a fim de que sejam publicadas no Blog. Segue um vídeo com algumas fotos do evento, em breve publicarei as outras.



terça-feira, 1 de maio de 2012

Tô curtindo Análise do Comportamento, e agora? Segunda parte

Pessoal, seguindo a mesma linha da postagem anterior (link), deixo mais sete dicas para quem está curtindo Análise do Comportamento. Espero que sejam uteis. Como no último texto, peço ajuda aos mais vividos para contribuírem com sua experiência no espaço do blog destinado aos comentários. Abração!


1) Participe/crie grupos de estudo. 

Se a sua Universidade não oferece grupos de estudo, comporte-se! Mobilize os seus colegas. Os grupos oferecem um espaço super bacana para discussão de textos e fomento de projetos de pesquisa, além de poder se tornar um meio de confraternização. Quando são feitos sob a supervisão de um professor, podem gerar certificados (lembre-se do Lattes). 


2) Participe/crie Ligas Acadêmicas de Análise do Comportamento. 

Uma liga acadêmica é uma entidade sem fins lucrativos, formada por um grupo de alunos com um interesse comum e que se reúnem para realizar atividades práticas e teóricas sobre um dado tema, supervisionados por profissionais da área. É uma rede de estudantes que desejam e criam oportunidades de trabalhos científicos, didáticos, culturais e sociais no espaço acadêmico ou extra-acadêmico, além de organizar tentar mediar a organização de atividades extracurriculares de ensino, pesquisa e extensão, neste caso, em Análise do Comportamento. Algumas Universidades, como a UFPA, UFC, UFSJ, UFPI e Univasf, possuem ligas acadêmicas,. Se sua Universidade ainda não possui uma, comporte-se! Mobilize os seus colegas, entre em contato com os representantes de outras Ligas... 




3) Participe de projetos de pesquisa, extensão e estágios extra-curriculares 

Invista em sua carreira e devolva para sua comunidade um pouco do que tem aprendido. Participar de projetos de pesquisa, extensão e estágios, além de dar uma incrementada no seu Lattes, é uma excelente oportunidade para aprofundar seus conhecimentos no assunto, e pode ser um pontapé importantíssimo para a sua atuação no mercado de trabalho. 

4) Estude Inglês. 

Grande parte dos artigos publicados na área está em inglês. Um curso de inglês instrumental pode ser suficiente para facilitar a leitura de textos e garantir seu ingresso em um bom programa de Mestrado. Mas se você quer ir longe (publicar em periódicos internacionais, trocar correspondências com grandes autores estrangeiros...), é importante dominar esse idioma. Então, comporte-se! Matricule-se já no cursinho de inglês mais próximo, é bem provável que sua Universidade disponibilize um, quanto mais cedo melhor. 

5) Ciência é cooperação, não é competição. 

Aprendi essa lição com meus orientadores André Bravin (UFG/UnB), Marcelo Henriques (UFG) e Fábio Baia (FESURV/FAMA/UNB). É auto-explicativa. Nós estamos inseridos em uma comunidade e se quisermos garantir sua existência é importante que aprendamos a cooperar. Segue uma citação de um artigo do Abib (2001) que discorre, entre outras coisas, sobre cooperação: 

“Práticas de sobrevivência cultural referem-se então a práticas que contribuem para construir uma cultura mais pacífica, e os que se engajam nessas práticas visam o pacifismo. E se uma violência intolerável aflige várias culturas, engajar-se na sobrevivência de todas elas por um pacifismo universal significa, por um lado, promover cooperação, solidariedade e apoio; e por outro, desestimular a competição. 

Enfim, defender o pacifismo é engajar-se em práticas que promovem a sobrevivência das culturas como cooperação, apoio, solidariedade, tolerância, compaixão”. (p. 111) 

6) Corrija eventuais erros de professores e colegas sendo sempre assertivo. 

Se eu tivesse a oportunidade de ter um encontro com Moisés, imploraria para que ele incluísse em sua tábua mais um mandamento: Seja Assertivo! Caballo (1996) afirma que o comportamento assertivo, ou socialmente habilidoso, é um conjunto de comportamentos emitidos pelo indivíduo em um contexto interpessoal, que expressa os sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos desse indivíduo de um modo adequado à situação, o que geralmente resolve os problemas imediatos da situação e minimiza a probabilidade de futuros problemas. 

Creio ser muito saudável participar de debates epistemológicos e rebater críticas infundadas acerca do Behaviorismo Radical. Uma ferramenta bacana para te auxiliar em discussões desse tipo é o livro “Sobre o Behaviorismo”, do próprio B. F. Skinner, facílimo de ser encontrado, porém com alguns erros de tradução. 

7) Bullying Acadêmico 

Durante sua jornada acadêmica – e profissional – você, costumeiramente, irá encontrar pessoas proferindo absurdos e os creditando à Análise do Comportamento. Apelidos como: ratistas, rato, rato branco, rato de laboratório não serão incomuns. Vez por outra você será atacado – sim, atacado! – com impropérios travestidos de academicidade simplesmente por se intitular Analista do Comportamento. A meu ver, são estratégias falaciosas para tentar afetar negativamente um corpo teórico bem constituído que tem produzido excelentes resultados em diversas áreas. 

Comporte-se! Mas sempre assertivamente. Explique o quanto atitudes desse tipo podem ser prejudiciais para um debate científico e para a consolidação da Psicologia como ciência. Se persistirem, use os recursos administrativos que sua Universidade dispõe. 

Para fechar com chave de ouro, aí vai uma lição direto da fonte: “Faça acontecer! Este tem sido o meu tema favorito, fazer o melhor a partir daquilo que você tem.” (B. F. Skinner) 



Referências Bibliográficas 

Abib, J. A. D. (2001). Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14, 107-117. 

Caballo, V.E. (1996), Manual de técnicas de terapia e modificação do comportamento. São Paulo: Santos.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tô curtindo Análise do Comportamento, e agora?

Dicas para quem está começando 

Salvo algumas exceções, a Análise do Comportamento não é muito prestigiada pelos cursos de Psicologia do nosso País. Sofremos com a ausência de professores, com a falta e sucateamento de laboratórios, com a falta de livros da área e por aí vai. Além de todas essas intempéries, ainda temos que aturar um turbilhão de críticas infundadas e preconceitos. 

Se ainda assim você escolheu se tornar um Analista do Comportamento (ou está pendendo para isso) merece os meus parabéns! Este post é dedicado a você, que – como verá – não está sozinho no mundo. 

No texto que em questão organizei algumas dicas feitas especialmente para acadêmicos (de Psicologia, ou não) que por alguns motivos estejam se sentindo atraídos pela episteme analítico-comportamental. Em função das novas regras editorias (textos de no máximo duas laudas), as dicas estarão divididas em duas postagens. Esse texto é um produto da minha – curtíssima – história dentro dessa abordagem, portanto peço uma forcinha aos mais vividos para incrementá-las utilizando nosso espaço para comentários. 



1) Seu professor não responde por todos os Analistas do Comportamento. 


 Não é estranho que o seu interesse pela abordagem seja, principalmente, em função do carisma de um determinado professor. Isso não é ruim, mas merece algumas considerações. Os padrões comportamentais dos membros da nossa comunidade científica são tão diversos como o armário de sapatos da socialite Narcisa Tamborindeguy¹. Temos sujeitos que variam desde uma reprodução fidedigna do arquétipo que nos deram (cientistas sisudos, com parcas habilidades sociais, trancados em laboratórios cheios de bichinhos) até os mais expansivos. Portando não utilize o seu professor como parâmetro para se envolver – ou não - com qualquer abordagem. 


2) Busque conhecimento! 


 Essa dica – emprestada do nosso E.T. midiático, Bilu² - permeará todas as outras. Temos na internet diversos bancos de dados que disponibilizam arquivos quentíssimos a todo o momento. Revire esses bancos de dados, garimpe os livros da sua biblioteca, vasculhe sebos³, pentelhe os seus professores (comedidamente), visite blogs regularmentre. Corra atrás... Comporte-se! 
É possível encontrar algumas sugestões de bancos de dados e periódicos analítico-comportamentais na ala “docs” do nosso grupo no facebook4. 



3) Participe de eventos. 

A Análise do Comportamento possui aplicações em diversos contextos. Podemos dizer que onde há interação ente um organismo e um ambiente, há uma possibilidade de estudo/intervenção. Participar de eventos te possibilitará: conhecer a dimensão dos campos de atuação, conhecer as linhas de pesquisa que estão sendo desenvolvidas, ficar por dentro das novas publicações, conhecer o trabalho dos institutos que oferecem cursos na área (extensão, formação e pós-graduação), ficar por dentro dos eventos que teremos e – não menos importante - você terá a oportunidade de confraternizar com estudantes e professores da área. Enfim, é muito bom. Ah! Além de tudo isso, ajudará a dar um up! no seu Lattes5 (o cartão de visita dos acadêmicos). 

Atualmente temos um grande evento anual da área no Brasil, o Congresso da ABPMC. Além desse, várias Jornadas de Análise do Comportamento e eventos vinculados aos institutos que oferecem pós-graduação na abordagem são realizados nos quatro cantos do nosso País6. 


4) Participe das redes sociais 


É possível interagir com estudantes e profissionais da área em diferentes ferramentas da internet. Seguem os principais meios de comunicação dos behecas brasileiros: 

Lista de emails no Yahoo!: http://br.groups.yahoo.com/group/COMPORT/

A partir desses grupos, é possível tirar dúvidas, travar debates, sugerir leituras, receber dicas de leituras, conseguir referências raríssimas e, quem saber, achar o amor da sua vida. 


5) Flexibilize sua linguagem sem perder a coerência epistemológica. 


Nossa comunidade científica possui uma linguagem hermética que se distancia do resto da Psicologia. Estudar Análise do Comportamento exige um processo de re-alfabetização. Quando nos dedicamos a ensinar ou discutir algum assunto com pessoas que não são da área, é importante aliviarmos um pouco nossa rigidez terminológica. 

Ao contrário do que alguns imaginam, podemos falar de mente, sentimentos, intenção, liberdade, psicoses, neuroses, associação livre e o diabo à quatro sem medo de nos distanciarmos da expertise analítico-comportamental. Mas é preciso levar em consideração nossas peculiaridades epistemológicas, que contrastam com grande parte das abordagens psicológicas vigentes e do senso comum. 


6) Leia sobre outros assuntos. 


Existe muita coisa boa sendo produzida em outras áreas, não se prive de estudá-las. Além disso, transitar em diferentes assuntos provavelmente aumentará suas chances de ser socialmente reforçado. 



Notas 

2- Mais sobre o E.T. Bilu: http://pt.wikipedia.org/wiki/ET_Bilu
3- Um site maravilhoso e cheio de pechinchas é o: www.estantevirtual.com.br 
5- Mais sobre a plataforma Lattes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Plataforma_lattes
6- Para ficar por dentro do calendário de eventos, você pode participar do grupo "Jornadas e Encontros de Análise do Comportamento" no facebook: https://www.facebook.com/groups/183498388401750/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Contribuições para um professor-cientista

Quando alguns fatores, como a baixa remuneração, a falta de estrutura física adequada para o ensino, uma formação acadêmica deficitária ou cheia de vieses políticos e outros entraves entram em cena é possível prever o que está por vir. Se levarmos em consideração o papel que o professor exerce em nossa comunidade, deveríamos dispor de todos os recursos possíveis a fim de garantir uma formação acadêmica adequada e a boa realização do seu ofício, mas estamos longe disso.

Apesar do desabafo inicial, o texto a seguir não se propõe a fazer uma discussão essencialmente política ou ideológica sobe as funções do professor, e sim apresentar de forma bastante sucinta as contribuições de B. F. Skinner para o papel do professor dentro de uma perspectiva cientifica de educação.


Em uma proposta científica para a educação, definir as funções do professor é um passo importante para um resultado final satisfatório. Em muitas de suas obras (1988/1991, 1984, 1981a, 1981b, 1973, 1968/1972, 1968, 1965, 1953/2007), Skinner traz contribuições interessantes sobre como o professor poderia atuar a fim de alcançar os objetivos educacionais visados pela comunidade onde a relação de aprendizagem está inserida.

Para Skinner (1972), o professor é o principal responsável por planejar as principais contingências de reforço a fim de “facilitar a aprendizagem”. Compete a ele formular os objetivos educacionais finais e intermediários e dispor as condições necessárias para que o aluno se comporte de acordo com os mesmos, de modo a produzir conseqüências que contribuam para a manutenção e instalação do comportamento emitido. Nesse sentido, o professor deve ter um bom planejamento de seus objetivos: “Apenas definindo o comportamento que queremos ensinar podemos começar a pesquisar as condições das quais ele é função e a planejar um ensino efetivo” (p. 173).

Segundo Zanotto (2000), o docente deve considerar aspectos relativos à história de vida do aluno a fim de conhecer o repertório que ele já possui e as variações da suscetibilidade aos reforçadores disponíveis na situação de ensino. Além de poder, caso seja necessário, planejar condições especiais de ensino. É importante que o professor entenda as condições sob as quais a aprendizagem ocorre a fim de tornar mais eficiente, não só no ensino da matéria e de habilidades almejadas, mas também no gerenciamento da sala de aula.

Uma tarefa também importante no trabalho do professor é arranjar contingências que favoreçam a generalização dos conteúdos e habilidades aprendidos na escola para um ambiente natural. A partir das contingências organizadas em sala de aula, é preciso preparar o aluno para que ele possa enfrentar as contingências naturais da vida. O professor deve agir no sentido de tornar o seu aluno cada vez mais independente. Conforme descrito por Skinner (1972): “quanto melhor o professor, mais importante é que ele liberte o aluno da necessidade de auxílio instrucional” (p. 136).

Agradecimentos à Maria Ester Rodrigues e Natalie Brito pelas correções e comentários.

Referências Bibliográficas:

Skinner, B. F. (2007). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes. Publicação original de 1953.
Skinner, B. F. (1991). Questões Recentes na Análise do Comportamento. Campinas: Papirus. Publicação original de 1988.
Skinner, B. F. (1984). The shame of American education. American Psychologist, 39, 947-954.
Skinner, B. F. (1981a). How to discover what you have to say -- A talk to students. The Behavior Analyst, 4 (1), 1-7.
Skinner, B. F. (1981b). Innovation in science teaching [Letter to the editor]. Science, 212 -283.
Skinner, B. F. (1973). The free and happy student. New York University Education Quarterly, 4(2), 2-6.
Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo: EPU. Publicação original de 1968.
Skinner, B. F. (1968). Teaching science in high school -- What is wrong? Science, 159, 704-710.
Skinner, B. F. (1965). Why teachers fail. Saturday Review, 48, 80-81, 98-102.
Zanotto, M. L. B. (2000). Formação de Professores: A contribuição da Análise do Comportamento. São Paulo. EDUC.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Paulo Freire para Analistas do Comportamento

Não é difícil encontrarmos em fóruns de redes sociais, Analistas do Comportamento se queixando sobre a dificuldade de inserção da abordagem alguns contextos. Do outro lado, também é bastante comum lermos críticas de profissionais sobre a linguagem hermética dela, além de questões mal resolvidas acerca de terminologias polêmicas (controle, punição, modelagem...). 

A Doutora Maria Esther Rodrigues (2006), discorre em seu trabalho sobre a necessidade da interlocução entre analistas do comportamento com outras comunidades verbais, a fim de que se façam entender e possam contribuir com mudanças sociais, seja em educação, ou em qualquer outra área.

Um exemplo desta interlocução pode ser observado em Fazzi e Cirino (2003). Os autores buscaram aproximações entre o conceito de autonomia para Paulo Freire e B. F. Skinner encontrando três possíveis semelhanças entre ambas as concepções:



 “1) a autonomia é entendida enquanto comportamento (ação) do sujeito que é aprendido a partir das interações sociais; 2) apesar de serem influenciados por fatores genéticos e ambientais, os seres humanos são capazes de arbitrar sobre estes fatores, sendo esta uma característica fundamental da autonomia; 3) ensinar consiste num dispor de circunstâncias para o desenvolvimento de comportamentos, incluindo a autonomia” (p. 7).

O trabalho em questão conclui que a aproximação entre Skinner e Freire pode contribuir para uma melhor compreensão dos fenômenos educativos e, em especial, da autonomia.
Outro exemplo de interlocução entre propostas analítico-comportamentais e freireanas para a educação vem de Belém, cidade situada no Estado do Pará, onde foi implementado em bairros pobres do município, um projeto de alfabetização de adultos baseado no método Keller (modelo de instrução personalizada) e no método Paulo Freire. A experiência foi exitosa tanto por ter alfabetizado os participantes do projeto, quanto pelo fato de eles terem lutado pela melhoria das condições sócio-econômicas de sua localidade (Amaral, 1983, apud Carmo & Batista, 2003¹). O fato deste programa de alfabetização ter tornado estes alunos autônomos e críticos de sua realidade corrobora com os ideais educacionais de Skinner, que pretendia formar alunos cônscios dos controles os quais estão submetidos a fim de exercer o devido contracontrole (Skinner, 1968). Além disso, corroboram com ideais freireanos, tendo em vista que Freire enfatiza a necessidade de termos uma educação voltada a formar cidadãos éticos, críticos, autônomos e engajados politicamente (Freire, 1996). Em síntese, ambos os trabalhos apontam para possíveis interlocuções e aproximações teóricas (Fazzi & Cirino, 2003) ou aplicadas (Amaral, 1983, apud Carmo & Batista, 2003) que podem favorecer a troca entre áreas (i.e., análise do comportamento e pedagogia), fomentar o respeito mútuo e o desenvolvimento de novas tecnologias.
Paulo Freire
Resolvi escrever sobre algumas semelhanças entre propostas skinnerianas e freireanas após uma discussão em sala de aula em que uma colega sugeriu a impossibilidade de tal feito.

Mas por que Freire?

Paulo Freire é um autor popular entre os pedagogos e tem a virtude de apresentar seus projetos para a educação com uma linguagem acessível aos demais leitores (habilidade que precisa ser mais desenvolvida nas produções analítico-comportamentais). Além disso, seu método se mostrou bastante eficiente na alfabetização de adultos.

Sobre as semelhanças...

Tanto para nós (Analistas do Comportamento), como para Freire, o ensinar é tido como um processo que depende de uma série de arranjos no contexto dos indivíduos, tendo por função não apenas depositar ou transferir conteúdos dos professores para os alunos, mas dar subsídios para que os mesmos possam se desenvolver criticamente quer seja no que diz respeito aos conteúdos previamente estabelecidos, quer sejam nas habilidades importantes para a vida, como a autonomia e a liberdade.
Para ambas as abordagens, a educação é encarada como um instrumento de mudança social. Uma forma de fazer com que o educando conheça melhor o mundo que o cerca a fim de poder lançar mão de diversos recursos afim de contracontrolar aspectos negativos de sua comunidade.
Sobre o papel do professor, também concordamos ao aceitarmos que o docente e o aluno são ativos na relação de ensino-aprendizado, participando dos dois processos. Freire também aponta o professor como fonte de reforçadores e modelo para os alunos, alertando para que ele seja coerente entre o que ensina e o como se comporta no dia – a dia. 
B. F. Skinner
Freire também leva em consideração o conhecimento prévio do aluno, devendo este servir de base para o desenvolvimento posterior das práticas de ensino. Skinner (1968/1972) e Freire (1996) defendem que o processo educativo deva conduzir o aluno para uma leitura mais rigorosa e sistemática do mundo que o cerca. Para tanto, qualquer forma de discriminação deve ser rejeitada e a prática educativa deve estar embasada em pressupostos éticos sólidos, devendo ter a liberdade como tema a ser trabalhado no contexto escolar, cada um segundo as suas especificidades epistêmicas.
O interessante é que quanto mais me aprofundo na leitura dos autores, noto que, apesar de estarem em diferentes contextos e cada um deles possuir um modus operandi e bases epistemológicas próprios, abordam vários aspectos básicos relativos à prática de ensino-aprendizagem que se assemelham em alguns pontos.
É possível - e bastante provável - que possam existir muitas outras semelhanças além das apresentadas aqui, já este é um trabalho interpretativo, e minha leitura se restringiu a apenas um livro freireano - “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” (Freire, 1996) -  e alguns trechos de outras obras do autor. Espero que tenhamos mais trabalhos deste tipo por aqui.
Para finalizar, um aspecto emblemático em Skinner e Freire é a disposição para mudança. Em sua obra “Walden II”, Skinner (1969), através de um romance utópico, expõe suas idéias para a solução de alguns problemas sociais, sugerindo o seguinte: “Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente”. Freire (1996), em sua obra “Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa” nos traz um pensamento bastante semelhante: “É a partir deste saber fundamental: mudar é difícil mas é possível, que vamos programar nossa ação político - pedagógica, não  importa se o projeto com o qual nos comprometemos é de alfabetização de adultos ou de crianças, se de ação sanitária, se de evangelização, se de formação de mão - de - obra técnica”

[1] Amaral, R. S. (1983). Alfabetização de adultos: relato de uma experiência em um bairro periférico de Belém. Manuscrito não-publicado, Universidade Federal do Pará, Departamento de Psicologia, Belém.

Referências

Carmo, J. S. & Batista, M. Q. G. (2003). Comunicação dos conhecimentos produzidos em análise do comportamento: Uma competência a ser aprendida? Estudos em Psicologia, 8 (3), 499-503.
Fazzi, E. & Cirino, S. D. (2003). A Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e uma possível aproximação com a proposta de B. F. Skinner. In H. M. Sadi & N. Castro (Eds.). Ciência do Comportamento: conhecer e avançar. Santo André: ESETec, 3, 11 - 16.
Freire. P. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.  São Paulo: Paz e Terra.
Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo: EPU. Publicação original de 1968.
Skinner, B.F. (1978). Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: EPU.
Rodrigues, M. E. (2006) Behaviorismo: Mitos, discordâncias, conceitos e preconceitos, Revista de Educação, 1 (2), 141-164.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Objetivos no ensino: o quê e para quê ensinar?

Ter de forma clara quais são os objetivos de ensino e quais passos deverão ser tomados para que esse objetivo seja alcançado é fundamental para uma educação de qualidade.

Para uma discussão analítico-comportamental destes objetivos, é importante salientar que para Skinner (1972) ensino é entendido como atividade que deve preparar o aluno para o futuro, possibilitando o desenvolvimento de habilidades e a aquisição de conhecimentos sobre o mundo e sobre si mesmo, necessários à sua sobrevivência como membro da espécie, como indivíduo e como participante de uma cultura.

A educação deve promover a liberdade¹ do aluno, ensinando-o a lidar eficientemente com seu ambiente e a agir por si próprio, tornando-se independente de outros que lhe digam o que deve fazer, aprendendo a alterar os fatores determinantes de seu comportamento, estabelecendo condições que fogem aos padrões pré-estabelecidos, a fim de que o aluno possa reagir a vários tipos de controles externos e a emitir respostas que são comumente caracterizadas como originais.




É necessário arranjar o ambiente educacional a fim de permitir ao aluno o desenvolvimento de um extenso repertório comportamental, que inclua diferentes comportamentos necessários para produzir efeitos sobre a realidade e sobre si mesmo.

A definição do conteúdo do ensino deve ser um trabalho coletivo, do qual devem participar outros profissionais, além do professor. Não obstante o professor ser o responsável por saber o que pode ser ensinado no tempo estipulado pelas agências reguladoras e como o conteúdo deverá ser ensinado, especialistas em áreas do conhecimento podem sugerir alguns pontos relevantes a serem trabalhados em sala de aula.

Ter objetivos e conteúdos claramente estipulados é importante tanto para os professores definirem o seu modus operandi em sala de aula, como para as agências governamentais reguladoras do ensino definirem os seus programas e políticas publicas. Como muito bem traduzido pelo filósofo Sêneca: “Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir”.



Nota

¹ - Para mais informações sobre o conceito de liberdade para a Análise do Comportamento, vide a obra “O mito da liberdade”, de B. F. Skinner, editado pela Summus - SP

Bibliografia

SKINNER, B. F. Tecnologia do ensino. São Paulo: EPU, 1972.

ZANOTTO, M. L. B. Formação de professores: a contribuição da análise comportamental a partir de uma visão skinneriana de ensino. 1997. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1997.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Educação Baseada em Ciência: da utopia à realidade

É muito comum encontrarmos críticas à aplicação da Análise do Comportamento ao contexto escolar. Porém, como evidenciado por alguns autores, estas críticas não parecem ter bases muito sólidas.

Gioia (2001) objetivou analisar as descrições a respeito da abordagem behaviorista radical contidas em livros introdutórios de psicologia direcionados à formação docente. Para tanto, selecionou 25 livros de psicologia cujos títulos continham os termos educação, aprendizagem ou ensino. Os livros foram analisados quanto à precisão na descrição: a) dos conceitos básicos da análise do comportamento, b) dos princípios do behaviorismo radical e c) da visão de Skinner sobre ensino. Os resultados do trabalho apontam para uma desqualificação da abordagem por esta lidar com animais não humanos, que, no entendimento dos autores dos livros em análise, não “raciocinam”, “conhecem” ou “pensam”, características que os deixariam a mercê do condicionamento de respostas simples e impediria a generalização dos estudos que utilizam estes animais para o entendimento do comportamento humano. Além disso, a autora evidencia o grande número de descrições conceituais incompletas e equívocas. Em geral os livros analisados descrevem a Análise do Comportamento como uma abordagem eficiente, porém inadequada para assuntos maiores e complexos, como a educação.

Rodrigues (1999) realizou um estudo envolvendo 119 profissionais da rede pública de ensino, sendo que a maioria (68,06%) atuava em sala de aula; o nível de formação dos participantes variou do 2º grau em magistério à pós-graduação. Para mensurar a simpatia ou afiliação dos profissionais à Análise do Comportamento, a autora utilizou um questionário englobando diferentes abordagens psicológicas. Foi observado uma não identificação e uma antipatia com a análise do comportamento. A autora discute dois fatores como sendo os preponderantes para que isso ocorra. O primeiro diz respeito à formação de educadores nessa abordagem e sugere investigá-la, e o segundo é a utilização de uma linguagem de difícil compreensão para outras comunidades verbais.

A despeito das inconsistências teóricas dos livros introdutórios utilizados em Pedagogia e da dificuldade em entender os pressupostos analítico-comportamentais, esta abordagem tem apontado grandes contribuições para a Educação (Hubner, Marinott & Cols, 2004).

Recentemente me deparei um o texto do Kester Carrara (2004), que, além de levantar vários aspectos relacionados às contribuições da Análise do Comportamento para a Educação e refutar algumas críticas, enumera 17 princípios utilizados pela comunidade utópica (real, porém baseada em uma utopia) Los Horcones como modelo de ensino para suas crianças, que tem mostrado resultados animadores.

A Los Horcones surgiu em outubro de 1973 com um grupo de 7 pessoas (alguns deles psicólogos comportamentais), interessados na prevenção e solução de problemas sociais. Está localizada no subúrbio da cidade de Hermosillo, capital do Estado de Sonoro, no norte do México. O objetivo de seus membros é criar e desenvolver no presente uma sociedade ou cultura alternativa à dominante. Esta cultura está baseada nos princípios de cooperação, igualdade, pacifismo (não-violência), cooperativismo e respeito ecológico.

A comunidade não se baseia em opiniões ou idéias subjetivas de um líder ou guru, e sim em evidências científicas sobre o comportamento humano. Sua inspiração surgiu por meio da obra de B. F, Skinner, Walden II, escrita em 1948, após a II Guerra Mundial 1.


Os 17 princípios são:

1. O comportamento do professor e do aluno são eventos naturais, ou seja, trata-se de fenômenos observáveis e mensuráveis.

2. O comportamento do professor e do aluno tem causas; não ocorrem sem razão. Seu comportamento é resultado de uma interação com o meio educativo. A definição comportamental difere da definição comum desse termo, ou seja, trata-se de tudo que afeta o comportamento, quer seja um evento físico, químico, biológico ou comportamental.

3. O comportamento do professor e o comportamento do estudante estão sujeitos a explicações com bases científicas, que por sua vez constituem objeto de estudo do behaviorismo.

4. O professor aprende a ensinar efetivamente pelas conseqüências que recebe ao ensinar.

5. O professor não apenas ensina comportamentos aos estudantes, mas também lhes ensina como certos eventos podem ser reforçadores, neutros ou aversivos.

6. A relação entre professor e aluno é bidirecional, afetando-se reciprocamente: daí a importância de manejo do meio que afeta seus comportamentos.

7. Todo professor e todo o estudante são dignos de serem tratados como pessoas, o que inclui evitar eventos aversivos. A ciência do comportamento contribui para que cada pessoa seja tratada com dignidade, evitando punições e priorizando consequências positivas.

8. Por considerar aluno e professor pessoas únicas e não como grupo, a filosofia behaviorista promove a utilização de métodos de ensino personalizados, e sistemas de avaliação não-comparativos.

9. O behaviorismo não considera o ser - humano como passivo diante do ambiente. A ciência do comportamento entende que há interação de meio e pessoas.

10. A filosofia comportamentalista de educação é otimista: isso quer dizer que o comportamento do professor e do estudante não está pré - determinado de modo fatalista. Todo professor pode aprender e ensinar efetivamente e todo estudante pode aprender com êxito.

11. O ensino eficaz requer conhecimento científico sobre como ensinar. O educador precisa adquirir competência na aplicação dos princípios comportamentais.

12. O reforçamento positivo é mal interpretado quando se diz que: sua aplicação produz efeitos colaterais negativos, como dependência e falta de criatividade. É claro que a aplicação inapropriada de reforçamento positivo produzirá efeitos negativos.

13. A filosofia comportamentalista enfatiza o uso de reforçamento natural na manutenção de comportamento.

14. O uso da extinção e reforçamento de comportamento incompatíveis são técnicas comportamentais propostas pelo comportamentalismo como alternativas ao uso do castigo.

15. A análise do comportamento usa o princípio de modelagem com aproximações sucessivas. É importante esclarecer que a expressão técnica “modelagem” não guarda similaridade com qualquer idéia de “modelar a pessoa” 2.

16. Os professores também devem ensinar habilidades sociais e pessoais, não apenas habilidades acadêmicas. Relacionar-se apropriadamente com outras pessoas, comunicar-se efetivamente, ser capaz de solucionar e prevenir problemas interpessoais, são condutas que a escola deve ensinar e manter nos estudantes.

17. A filosofia comportamentalista de educação promove o ensino de comportamentos pró-sociais (comunitários) que contribuam para um mundo melhor para todos e rejeita a idéia de escola que ensine aos seus estudantes, preponderadamente, sobrevivência fundada na competição, desigualdade e descriminação e que fomenta uma sociedade competitiva, desigual e discricionária. Em Los Horcones ensina-se efetivamente a cooperação, a igualdade, o compartilhamento, a não-violência e a importância dos cuidados com a preservação do meio ambiente.

A simplicidade com que os princípios são apresentados e sua aplicabilidade ao contexto educacional são extremamente relevantes tanto para a comunidade de analistas do comportamento, como para os demais profissionais interessados em educação que ainda possuem uma série de preconceitos contra a abordagem. Vale a pena debatermos sobre eles e criarmos maneiras de aplicá-los em larga escala.

Para quem quiser saber mais sobre os Los Horcones e como esta comunidade aplica a Análise do Comportamento, vale conferir o site: http://loshorcones.org/. Lá vocês encontrarão outros textos sobre educação. Em breve explorarei mais o tema.

Notas:


2- Dizer que modelamos comportamentos e não pessoas diz respeito a uma postura não organicista, partindo do pressuposto que comportamentos são interações entre um organismo e o ambiente. Delimitar nosso objeto (o comportamento) desta maneira abre um leque de possibilidades para intervenções sociais (ambientais) que podem aumentar a probabilidade de comportamentos benéficos para a comunidade em questão surgirem.

Referências:

Carrara, K. (2004). Behaviorismo, Análise do Comportamento e Educação. Em Carrara K. (Org.) Introdução à Psicologia da Educação, seis abordagens (pp. 109-133). São Paulo: Avercam

Gioia, P. (2001) A abordagem behaviorista radical transmitida pelo livro de Psicologia da educação direcionado à formação docente. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo.

Hübner, M. M. C., & Marinott, M. (2004). Análise do Comportamento para a Educação: Contribuições Recentes. Santo André: ESETec.

Rodrigues, M. E. (1999) Algumas concepções de profissionais de educação sobre Behaviorismo. In R. R. Kerbauy

terça-feira, 12 de abril de 2011

Rock Smith: Aprenda a tocar guitarra com seu vídeo game!

Recentemente a Ubisoft (publicadora e produtora de jogos eletrônicos) anunciou o desenvolvimento de um game musical para Xbox 360 e Playstation 3. Até aí nenhuma novidade, já que o mercado está repleto de games desse tipo, como o Guitar Hero, por exemplo.


O grande bum! da empresa, que promete revolucionar o mercado e a utilização dos vídeo games, surgiu com a criação do ROCK SMITH, que permitirá que o gamer jogue (ou toque) com uma guitarra real junto ao seu console – os desenvolvedores prometem que qualquer guitarra poderá ser usada. A biblioteca musical contará com clássicos do rock, como: The Animals, The Black Keys, David Bowie, Interpol, Nirvana, The Rolling Stones:


O slogan é: Play Means Play. Em uma tradução livre: Tocar Significa Divertir-se, ou ainda, Divertir-se Significa Tocar.

Com uma interface intuitiva, o game assegura que leigos aprenderão a tocar guitarra, e que guitarristas de todos dos níveis técnicos poderão expandir seus repertórios e se divertir.

E a psicologia nisso tudo?

Há bastante tempo Skinner nos presenteou com alguns textos sobre o ensino mediado por máquinas. Para que a aprendizagem de um novo repertório* fosse efetiva, alguns aspectos deveriam ser levados em consideração no desenvolvimento de uma programação de ensino:

1. O indivíduo deve compor sua resposta*, em vez de escolher entre alternativas.

2. Ao adquirir um comportamento complexo*, o indivíduo deve percorrer uma seqüência cuidadosamente planejada de passos, algumas vezes de extensão considerável, cada passo deve ser tão pequeno que possa ser sempre dado sem esforço e, no entanto, ao dá-lo o estudante se aproxima um pouco mais do comportamento* inteiramente competente.

3. A máquina deve garantir que cada um destes passos seja dado na ordem cuidadosamente prescrita.

4. A máquina deverá prover o reforço imediato* da resposta correta.

Mas porque usar uma máquina se temos tantos professores à disposição?

Se os progressos conseguidos recentemente no ensino de novos repertórios a partir de máquinas de ensinar podem tornar uma pessoa hábil em algumas atividades, como: leitura, escrita, manejo de pesticidas, tocar guitarra, então o educador “(...) pode começar a funcionar, não no lugar de uma máquina barata, mas através dos contatos intelectuais, culturais e emocionais daquele tipo todo especial que testemunham sua natureza de ser humano” (Skinner, 1975).

Segundo o doutorando em Análise Experimental do Comportamento e Professor da Universidade Federal de Goiás, André Amaral Bravin, “(...) no caso do Rock Smith, estamos falando de um aprendizado mediado por uma máquina: vídeo-game e a programação do game em si. Que ensina algo: tocar guitarra. E em um contexto lúdico (o próprio slogan diz isso), com feedbacks arbitrários imediatos* (pontos) e co-relacionados com o desempenho (tocar bem), o que provavelmente estabelecerá um repertório eficaz”.

Acredito que o Rock Smith será uma excelente oportunidade para vermos uma “máquina de ensinar” em ação. Além do game ter um layout super bacana e intuitivo, há uma lógica progressiva nos diferentes níveis oferecidos, há a utilização de reforços condicionados*, e suponho que haja uma série de condicionamentos* que aumentarão a probabilidade dos usuários se engajarem na proposta do jogo.

Sinto cheiro de coisas boas no ar...

Agradecimento: Professor Ms. André Amaram Bravin (UFG/UNB)


Bibliografia:

Skinner, B. F. (1975). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo: EPU.

Mais informações sobre o jogo: www.rocksmith.com

* Informações sobre os termos em destaque poderão ser encontradas no nosso Vocabulário de Análise do Comportamento.

terça-feira, 29 de março de 2011

Máquinas de Ensinar: do Pense Bem ao Ipad


Fala pessoal. Meu nome é Rodrigo Oliveira, estou cursando o 9º período de Psicologia na Universidade Federal de Goiás - Campus Jataí e tenho um interesse especial pela Análise do Comportamento, principalmente no que diz respeito a sua aplicação. Sou um dos selecionados para compor o quadro de colunistas do Comporte-se e meu primeiro texto será sobre Educação. Abraços

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Sempre que me remeto ao Tecnologia de Ensino (1975), de B. F. Skinner, fico fascinado com os modelos análogos à sua Máquina de Ensinar¹ que temos hoje, e com as infinitas possibilidades de programações de ensino que podem ser feitas com os recursos a disposição.

Alguns de meus contemporâneos (década de 80 :) ) tiveram a sorte de encontrar um “Pense Bem” embaixo de suas árvores natalinas. Aos que não se recordam, o “Pense Bem” (originalmente, smart start) era um brinquedo com uma carcaça similar a de um notebook, contendo 8 jogos matemáticos e dois de tons, sendo um deles parecido com outro brinquedo das antigas - o Genius, da Estrela. O grande diferencial do produto estava nos livros ilustrados com personagens infantis e comprados separadamente, que permitiam ao usuário responder perguntas sobre história, geografia, matemática e interpretação de textos, escolhendo a tecla correspondente a alternativa correta.



Tudo bem que o produto não preenchia todos os requisitos elencados por Skinner para que uma “maquina de ensinar” fosse efetiva no que se propõe a fazer, mas era mais uma amostra de que a aprendizagem mediada por máquinas poderia ser eficaz e divertida.

Dando um salto para o mundo dos adultos, podemos observar que nosso desenvolvimento no que tange a computadores nas últimas décadas foi tão dinâmico que me sinto inibido de tentar esboçar uma linha do tempo. O principal disso tudo é que com a massificação dos personal computers e a simplificação na utilização de seus recursos, as possibilidades de interação homem – máquina – homem se tornaram infinitas, abrindo um leque de possibilidades para a área educacional.

Recentemente uma nova linha de produtos me chamou atenção. O Ipad, novo tablet da Apple, é um aparelho de 9,7 polegadas que une computador, videogame, tocador de música e vídeo e leitor de livro digital, estando situado entre um smartphone e um netbook. Sua utilização é tão simples que existe uma linha de produção de jogos para gatos (!?):


Crianças ainda de tenra idade “dominam” a máquina com um mínimo de instrução, demonstrando o quanto o sistema operacional é amigável e intuitivo:


Porém o que mais me atraiu nesta geringonça foram os recursos que ela oferece para o desenvolvimento de programas a serem utilizados na aprendizagem de crianças neurotípicas e autistas, que, aliados a sua portabilidade, se tornam uma excelente ferramenta:



No que diz respeito ao autismo, os programas são, em geral, reproduções de tecnologias de ensino com bases analítico-comportamentais, amplamente utilizadas nos Estados Unidos (PECS, TEACCH...).

Vale ressaltar que a revolução tecnológica não é novidade. Na metade do século passado especulava-se que a televisão revolucionaria a educação mundial. O que temos hoje é um excelente meio de comunicação e entretenimento - mas quando nos voltamos à educação formal, poucos heróis conseguem acordar às 5:00 da manhã e digerir um Telecurso.

Skinner, como um bom preditor de comportamentos, se antecipou com relação a muitas demandas sociais e, pasmem, nas soluções para as mesmas. Investir em tecnologias de ensino com os recursos que temos hoje pode se tornar uma grande auxiliar contra os déficits educacionais do nosso País. Mãos a obra.

Agradecimento: Professor Ms. André Amaral Bravin
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