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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Desvendando a Neuropsicologia (Parte II): a herança da psicologia

Erica Vila Real Montefusco, Psicóloga pela Universidade Federal do Ceará (2009), Pós-Graduada em Neuropsicologia pela Faculdade Christus (2011) – Fortaleza, CE 
Paulo Estêvão da Silva Jales, Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará (2011) – Fortaleza, CE 




Em nosso post anterior (que você poderá acessar clicando aqui) discutimos como a compreensão sobre o encéfalo foi se desenvolvendo ao longo da história da ciência. Partimos dos estudos de filósofos gregos até chegarmos à tensão entre as teorias localizacionista e unitarista reunidas, por fim, no modelo de “sistema funcional”. Tais discussões germinaram, quase que exclusivamente, nos campos da anatomia, da fisiologia e da biologia 

Com relação à psicologia, esta ainda não havia estabelecido o seu lugar como disciplina científica, sendo as discussões sobre a “essência humana” travadas na área da filosofia. Todas as ciências tiveram sua origem na filosofia, separando-se dela em algum momento da história. A psicologia concretizou a sua separação em meados do século XIX e só foi firmar-se como área de pesquisa após 1940. No seu surgimento, era comum referir-se à psicologia como “ciência da mente” e o método de investigação adotado era a introspecção, tributo das influências que a Filosofia lhe legara (ver Baum, 2006, capítulos 1 e 2, para uma discussão mais completa). 

Faremos agora um rápido passeio pela história da psicologia. Veremos que o relacionamento atual entre a Análise do Comportamento (AC) e a Neuropsicologia (NP) se confunde, um pouco, com a própria história da psicologia. Apesar de ambas as áreas nutrirem-se de estudos de um mesmo tronco comum, seus ramos cresceram separadamente. 


Tensão na psicologia, round I: humanos x não-humanos

Comecemos um pouco mais longe, com Charles Robert Darwin (1809-1882): suas proposições sobre a seleção natural causaram verdadeiro ‘rebuliço’ (furor), pois abalaram os fundamentos do antropocentrismo vigente. Em conjunto com a teoria da herança genética (desenvolvida na primeira metade do século XX) foi que nasceu a teoria moderna da evolução, a qual sustenta o posto de paradigma dominante na ciência até hoje. 


Charles Robert Darwin (1809-1882)
Um pressuposto básico da teoria da evolução é a de que as espécies, mesmo possuindo características diferentes, possuem muitas semelhanças, já que compartilham a mesma história evolutiva. Tal pensamento abriu espaço na ciência para que o estudo com animais não-humanos pudesse, algum dia, elucidar certos aspectos do ser humano. 

Podemos citar como exemplo o fisiologista russo Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), que ficou conhecido por seus experimentos de condicionamento com cães, e donde derivou suas proposições teóricas sobre o comportamento humano. Paralelamente, Hermann Ebbinghaus (1850-1909) buscava medir e analisar os processos complexos em humanos, como a memória. 


Essas duas linhas de pesquisa criariam uma tensão acirrada ao se encontrarem na psicologia: surgiram separadamente e deixaram um legado forte de discordância. Apesar de que, desde Darwin, a continuidade evolucionária ser um fato pouco contestável, a relevância dos resultados de uma área para outra é assunto controverso. 


Tensão na psicologia, round II: introspeccionismo x objetivismo

A “ciência da mente”, como era conhecida a psicologia no século XIX, tinha como principal método o instropeccionismo. Podemos definir rapidamente este método como a capacidade de “olhar” os eventos internos (ou da mente) que ocorriam em uma pessoa. Wilhelm Maximilian Wundt (1832-1920) realizou vários estudos com este método em seu laboratório na universidade de Leipzig. 

No entanto, a introspecção passou a ser rejeitada como método de estudo válido em psicologia, e em seu lugar surgiam as proposições objetivistas, que buscavam um método mais confiável, verificável e replicável. Em 1913 , John Broadus Watson (1878-1958) publicou o artigo “Psicologia como o behaviorista à vê” rejeitando a introspecção como método e atacando a definição da psicologia como “ciência da consciência”. Watson argumentou que a psicologia poderia se tornar uma verdadeira ciência ao utilizar os métodos objetivos já existentes em outras disciplinas e advogou que os eventos “não observáveis” eram invenções desnecessárias. 

John Broadus Watson (1878-1958)
O Behaviorismo (Comportamentalismo) de Watson abriu uma larga fenda na psicologia, separando os estudos sobre o comportamento publicamente observável dos trabalhos sobre consciência e processos “mentais”. Extremismos à parte, Watson foi o primeiro a se insurgir com convicção contra uma psicologia imprecisamente definida e com métodos visivelmente questionáveis. Os estudos de Watson são hoje a base de toda a psicologia experimental como a conhecemos e influenciaram bastante os trabalhos de outros behavioristas que vieram depois dele. 

O behaviorismo de Watson foi vítima da força de se próprio nascimento: ao deixar de fora o estudo da consciência e dos processos que não podiam ser publicamente observáveis, suas proposições revolucionárias para a psicologia como um todo foram combatidas com um fervor de revolta. Watson foi obrigado a amenizar suas propostas e a reconhecer (1) a existência dos eventos mentais e (2) que sua ciência era limitada, não sendo capaz de estudar tais eventos (o que ficou conhecido como teoria da caixa-preta, ou seja, os eventos mentais existem, mas não podem ser estudados pela psicologia e, portanto, não são um objeto de estudo válido). 

Plantava-se, aqui, a semente da discórdia entre o emergente comportamentalismo e o embrionário cognitivismo. Ao florescer nos anos que se seguiram, esse gérmen solidificaria ainda mais a divisão entre essas duas áreas, delimitando o campo de trabalho e investigação de cada uma, tal como outrora fizera o muro de Berlim. 

Nos Estados Unidos, o behaviorismo ganhou força e os departamentos de psicologia das universidades foram tomados por pesquisas experimentais com essa orientação. Nesse contexto, Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) emergiu com novos paradigmas sobre o estudo do comportamento. De especial interesse para a presente discussão foi a inclusão dos “eventos mentais” no estudo da ciência do comportamento sob o rótulo de eventos privados.

Skinner argumentou que os “eventos mentais” poderiam (e deveriam) ser estudados pela ciência do comportamento e que a forma de acesso a tais eventos seria o relato daquele que os observa. Desta forma, apesar do fenômeno dos eventos privados só poder ser observado por uma pessoa, o relato sobre tal manifestação é público. Ao mudar o paradigma do behaviorismo de Watson, explicando os fenômenos anteriores e outros para além do escopo daquela teoria, Skinner fundou o Behaviorismo Radical, tornando-se a principal proposição de orientação comportamentalista até o momento. 

A proposta skinneriana, no entanto, não foi suficiente para conciliar os “estudos da mente” com o behaviorismo. Muitos psicólogos tinham dificuldade em aceitar a “simplicidade” dos eventos privados, enquanto outros simplesmente não conseguiam explicar o comportamento humano complexo através de encadeamentos de estímulos e respostas ou de contingências de reforço. Enquanto modelo explicativo da motivação e da emoção, o behaviorismo tinha bons resultados, mas para outros processos como memória e vocabulário a linguagem behaviorista era insuficiente. 

George Armitage Miller (1920-)
Concorrentemente, por volta de 1950, os trabalhos desenvolvidos nas ciências da computação apresentavam modelos explicativos bastante compatíveis com as teorias da psicologia da mente. Na linguística, Avram Noam Chomsky (1928-) lançou propostas inovadoras, além de fazer oposição à algumas das afirmações de Skinner. O psicólogo George Armitage Miller (1920-) elegeu a data de 11 de setembro de 1956 (data do II Simpósio sobre Teoria da Informação, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts) como o nascimento de uma nova ciência que reunia profissionais de várias áreas e que tinha como objeto de estudo os processos mentais: a ciência cognitiva

A neurociência também já dialogava com a ciência cognitiva, mas quando as técnicas de imageamento cerebral da neurologia passaram a ser mais conhecidas e divulgadas a ciência cognitiva deu um salto metodológico para evidenciar a cognição: era agora possível relacionar a atividade do córtex cerebral com estímulos simples e mapear tal atividade. Surgiu, por fim, a Neurociência Cognitiva ou Neuropsicologia (NP), uma área interdisciplinar em sua essência, cujos métodos e modelos explicativos têm alicerce na psicologia, nas ciências da computação, na linguística e na neurociência. 

O Behaviorismo e Cognitivismo permaneceram separados (assim como seus descendentes, a AC e NP) e, normalmente, “onde um trabalha o outro não se mete”. Durante os anos, a tensão entre as duas áreas transformou-se em verdadeira guerra nos campos de batalha da ciência, com acusações mútuas sobre a validade e alcance de cada ciência (Skinner e Chomsky, apenas para citar alguns, tiveram participação ativa nesse processo). 

Dado o presente quadro, seria de se sugerir que as áreas devem permanecer separadas e que cada um conduza os seus estudos sem interferência do outro. No entanto, nos arriscaremos aqui a conciliar os trabalhos desses dois campos do conhecimento. Para isso, argumentaremos, em parte, de acordo com os pensamentos expressos por Catania (1999) em seu livro Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição, capítulo 21. 


Tentando juntar as coisas

Catania (1999) defende que uma postura separatista em nada auxilia na produção de conhecimento científico. Muitas ciências possuem especializações dentro de seu corpus disciplinar, como a anatomia e a fisiologia na biologia, por exemplo, mas isto não significa uma primazia do conhecimento produzido por uma área sobre a outra. Pelo contrário, as explicações em um campo auxiliam, intensificam e renovam as descobertas no outro campo. Já falamos de um acontecimento semelhante no texto anterior, ao discutirmos as teorias localizacionista e unitarista, sintetizadas na teoria do sistema funcional. Também podemos dizer que o Behaviorismo Radical de Skinner fez a mesma coisa (em certo grau) com o behaviorismo de Watson. 

Seria incorrer em sério erro (e até mesmo irresponsabilidade) deixar que as descobertas científicas e seus métodos se tornem exclusividade de um grupo. Tomemos o caso das pesquisas com animais não-humanos. Advogar que os achados sobre o condicionamento animal são irrelevantes para a compreensão da aprendizagem humana (ou vice-e-versa) é obliterar a chance de descobrirmos aspectos elementares semelhantes entre as espécies, turvando, inclusive, nossa chance de delimitar melhor aquilo que é próprio do humano. 

A mesma lógica é aplicável à tensão behaviorismo e cognitivismo. O fato de ambos os campos pronunciarem objetos de estudo diferentes e gestarem conceitos diferentes não é suficiente para justificar uma “incongruência essencial”. Catania (1999) argumenta que as linguagens (forma de falar sobre) da mente e do comportamento acabam por se confundir com os próprios problemas investigados pela AC e pela NP. 

Esse equívoco ontológico dificulta o reconhecimento de que as duas áreas estudam fenômenos diferentes ou que estudam o mesmo fenômeno em níveis diferentes de observação. Os achados da NP sobre os processos básicos pelos quais a memória é estruturada e processada , por exemplo, não invalidam as relações funcionais descritas pela AC no ato comportamento de lembrar. Pelo contrário, as descobertas de ambas as áreas são complementares e não mutuamente excludentes. O intercâmbio de conhecimento científico (e com outras formas de conhecimento também) é bastante fértil para o surgimento de explicações melhores e mais completas. Esse o sentido da produção científica. 


Últimas considerações

Lembramos que a NP é um campo do saber com raízes em heterogêneos e diversificados pressupostos Epistemológicos e Metodológicos, mais do que nos seria possível delinear em um post de blog. O que trouxemos aqui foi uma rápida revisão histórica da AC e da NP, o que poderá ser ampliado em publicações posteriores através de uma revisão. 

Por ora, nos concentramos em buscar conciliar duas áreas com vocabulários bastante díspares (uma tarefa bastante desafiadora, diga-se de passagem). No entanto, a linguagem não deve ser tratada como barreira intransponível: aqueles interessados no intercâmbio com outros campos do saber devem erguer suas marretas do conhecimento e derrubar, na base do suor, os tijolos das incongruências e divergências. 

No entanto, não seremos aqui ingênuos de afirmar que a separação entre a AC e a NP é apenas uma falha de comunicação. Variáveis históricas não extensivamente definidas atuaram no distanciamento das duas áreas, mas devemos considerar que existem contingências que mantêm essa cisão. Seria interessante que a AC, enquanto ciência que analisa os problemas humanos e propões soluções para tais problemas, atuasse na elucidação das variáveis de controle e na proposição de métodos para unir estas e outras áreas do conhecimento científico. Fica a dica. 


Referências

BAUM, W. M.; Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. 

CATANIA, A. C.; Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. 

GAZZANIGA, M. S.; MANGUN, G.R.; IVRY, R.B.; Neurociência Cognitiva: A Biologia Da Mente. Artmed, 2006.

domingo, 22 de abril de 2012

Desvendando a Neuropsicologia (Parte I): o que é? De onde vem?

Erica Vila Real Montefusco, Psicóloga pela Universidade Federal do Ceará (2009), Pós-Graduada em Neuropsicologia pela Faculdade Christus (2011) – Fortaleza, CE 

Paulo Estêvão da Silva Jales, Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará (2011) – Fortaleza, CE 




Prezados leitores, 

Nosso primeiro post no blog Comporte-se teve como tema a avaliação e possibilidades de tratamento da Doença de Alzheimer. Durante a confecção daquele texto, enfrentamos o desafio de escrever sobre um assunto com uma vasta literatura neurocognitiva e conciliá-lo com o fértil campo da clínica analítico-comportamental que, por sua vez, possui um quantitativo de produções mais modesto sobre o assunto. Consideramos que conseguimos, minimamente, vencer este desafio. 

No entanto, durante o processo de gestação da coluna, sentimos a necessidade de tratar vários assuntos sobre Neuropsicologia que estavam para além do escopo daquela temática: questões de ordem histórica, metodológica e também de nomenclatura. Por esta razão, iniciaremos hoje uma série de posts com o objetivo de dar um panorama geral sobre a  Neuropsicologia , discursando sobre o seu surgimento, métodos, objetivos, vocabulário, unidades de análise e bases explicativas. 

Nossa meta é contribuir para uma melhor compreensão desta grande área nomeada de Neuropsicologia e, com isso, lançar as bases para a discussão de assuntos mais densos dentro deste campo. Em paralelo, buscamos também promover a conciliação entre os discursos Neuropsicológico e Behaviorista os quais, conforme será possível observar, trilharam caminham diferentes e, em certos momentos, antagônicos. 

Desejamos a você uma boa leitura. 



Prelúdio: questões de vocabulário 

A primeira barreira a ser vencida em um texto interdisciplinar é a linguagem. Podemos dizer que nossa forma de falar (e compreender) certas palavras é resultado de um complexo histórico de modelagem do comportamento verbal, cujos reforçadores são distribuídos por uma comunidade. Como a maioria das formas de controle, essa modelagem é sutil e, muitas vezes, não nos damos conta de que as terminologias em uma área possuem um determinado significado que não é compreendido por pessoas de outro campo. A linguagem representa o que é importante para uma determinada comunidade em um determinado momento, estando sujeita a mudança com o tempo e o local (Catania, 1999, faz uma discussão interessante sobre esse assunto no primeiro capítulo de seu livro Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição). 

Um bom exemplo deste fenômeno é a palavra “Comportamento”. Para a maioria dos grupos, comportamento é equivalente à ação, sendo os vocábulos facilmente substituíveis em conversas do cotidiano. Já para aqueles com orientação behaviorista, comportamento é um termo técnico que possui um significado específico: é a relação entre um organismo que reponde e um ambiente emissor de estímulos (organismo e ambiente, resposta e estímulo são também termos técnicos neste contexto). Desta forma, comportamento e ação não são equivalentes dentro da comunidade de analistas do comportamento, e o uso de uma ou outra palavra numa frase mudará completamente o sentido do discurso.

Por essa razão, adotaremos o hábito de destacar as nomenclaturas técnicas da Análise do Comportamento (AC) com a cor azul e da Neuropsicologia (NP) com a cor verde. Também evidenciaremos quando palavras bem conhecidas da AC forem utilizadas com outro significado através da cor roxa. Quando julgamos necessário, faremos observações em notas ao final do texto. Durante nossa caminhada pelo campo da Neuropsicologia deveremos acumular uma boa quantidade de novos vocábulos, facilitando, assim, a comunicação entre estes dois campos de conhecimento. 


Definindo a Neuropsicologia (NP)

Para Lezak (1995), a neuropsicologia encarrega-se de avaliar o comprometimento neurológico pela via do comportamento (nota 1). Mais especificamente, pode ser entendida como a análise dos distúrbios de comportamento que se seguem a alterações da atividade cerebral normal. Tais alterações podem estar relacionadas ao desenvolvimento anormal do sistema nervoso ou ser adquiridas por eventos ambientais como traumatismos, infecções, uso de substâncias, acidentes vasculares, síndromes demenciais, dentre outros fatores. 

Numa perspectiva mais recente, Cosenza, Fuentes e Malloy-Diniz (2008) definem a Neuropsicologia como um campo do conhecimento que busca estabelecer as relações existentes entre o funcionamento do Sistema Nervoso Central (SNC) (nota 2), as funções cognitivas (nota 3) e o comportamento, em condições normais e patológicas. 

Pautada na interdisciplinaridade, a neuropsicologia baseia-se em conhecimentos advindos da neurologia e da psicologia, e conta também com o suporte de outras áreas da ciência, como a neuroanatomia, a neurofisiologia, a psicofarmacologia, a biologia molecular e a embriologia. 


Uma breve história sobre a compreensão do Cérebro

As investigações que versam sobre a relação entre cérebro e comportamento há muito são descritas. No Egito antigo, há cerca de 3000 anos, estudos já eram realizados, e foram descritos através do famoso Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, o qual revela que os povos egípcios tinham grande conhecimento de neuroanatomia e do funcionamento cerebral, provavelmente devido aos rituais de mumificação realizados (Cosenza, Fuentes e Malloy-Diniz, 2008). 

Entre os gregos, Hipócrates (460-379 AC) acreditava que o cérebro era a sede da mente (nota 4), o órgão que nos habilitava a pensar, ver e ouvir, e era também a sede da loucura e do delírio. Seus estudos foram fundamentais para a consolidação da hipótese cerebral, já que outros estudiosos acreditavam que o coração seria o responsável pelo controle dos processos mentais (Cosenza, Fuentes e Malloy-Diniz, 2008). 

No século XIX, Franz Joseph Gall (1758-1828) foi um dos primeiros a considerar o cérebro como a sede das atividades mentais. De acordo com sua teoria, a Frenologia, a conformação do cérebro e suas diversas protuberâncias tinha relação com a capacidade mental, e cada uma delas controlava órgãos específicos do corpo. Gall admitia a especialização de áreas diferentes do cérebro, que segundo ele atuavam de forma independente, cabendo ao córtex cerebral as funções mais elevadas. Ele também imaginava que havia uma correlação da forma do cérebro com qualidades emocionais e comportamentais, conforme as irregularidades da superfície do crânio (Gazzaniga, 2006). Nessa época, as teorias que afirmavam existir uma relação entre determinadas áreas do encéfalo com atividades específicas ficaram conhecidas como teorias localizacionistas. 

Figura 1: O encéfalo
Fonte: http://www.auladeanatomia.com/neurologia/snervoso.htm

Em seguida aos estudos de Gall, o fisiologista francês Pierre Jean Marie Flourens (1794-1867) rejeitou a ideia de que processos específicos estariam restritos a determinadas áreas do encéfalo. Com base em estudos realizados com cérebros de pássaros, ele constatou que 

“[...] lesões em áreas particulares do cérebro não causavam certos déficits duradouros de comportamento. Não importava onde se fizesse a lesão, o pássaro sempre se recuperava. Ele desenvolveu a noção de que todo o cérebro participa do comportamento, uma visão conhecida posteriormente como campo agregado” (Gazzaniga, 2006, p. 21). 
Ainda no século XIX, o localizacionismo voltou a ganhar destaque com os estudos de Paul Broca (1824-1880) e Carl Wernicke (1848-1904). Broca estudou pacientes que foram acometidos por lesões nos lobos frontais do hemisfério cerebral esquerdo, e constatou que estes apresentavam um comprometimento na produção da fala, apesar de preservarem a capacidade de compreender o que lhes era dito. Wernicke, por sua vez, descreveu pacientes que tinham lesões no córtex temporal do hemisfério cerebral esquerdo. Eles apresentavam dificuldade na compreensão da linguagem, apesar de conseguirem falar quase normalmente (Gazzaniga, 2006). 

Figura 2 – Área de Broca e Área de Wernicke
Fonte: http://netnature.wordpress.com

Em meio à oposição localizacionismo-unitarismo, Alexander Romanovich Luria (1902-1977), neuropsicólogo russo, desenvolveu a chamada teoria do sistema funcional. Com base nesses estudos, ele reformula o conceito de função (nota 5), e afirma que as funções são exercidas por sistemas que visam à execução de uma determinada tarefa. 

Ainda com relação ao que abordamos acima, consideramos importante ressaltar que, para Luria, é possível distinguir no cérebro três grandes sistemas funcionais: O primeiro é responsável pela vigília e pelo tônus cortical. O segundo, localizado em áreas do córtex cerebral posteriores ao sulco central (Figura 3), é responsável por receber e processar estímulos oriundos tanto do meio externo quanto do meio interno e o terceiro, por sua vez, é responsável por verificar e supervisionar a atividade mental. As zonas cerebrais atual em conjunto, mesmo estando situadas em áreas cerebrais diferentes. (Cosenza, Fuentes e Malloy-Diniz, 2008). 



Figura 3: Sulco central e sulco lateral
Fonte: http://www.auladeanatomia.com/neurologia/snervoso.htm

Superando o dualismo localizacionista X unitarista, o modelo de sistema funcional alterou a forma como o encéfalo era compreendido, e se tornou muito importante para o estudo da neuropsicologia. Serviu de base para a criação de testes neuropsicológicos, como a Bateria Luria-Nebraska, e influencia pesquisas em neuropsicologia, tendo consequências em especial em com relação à prática da avaliação neuropsicológica e da reabilitação cognitiva. 


Notas

Nota 1: Em todo o presente texto o termo "Comportamento" será utilizado como sinônimo de ação\agir, não sendo completamente equivalente a Comportamento para a AC. 

Nota 2: O Sistema Nervos Central (SNC) compreende o encéfalo e a medula espinhal. 

Nota 3: Funções cognitivas referem-se a processos através dos quais o individuo toma conhecimento do mundo que o cerca. As principais funções cognitivas são: percepção, atenção, memória, linguagem e funções executivas. 

Nota 4: Em NP os termos “mente” e “ mental” são abundantes, uma coisa a qual nós, analistas de comportamento, não estamos acostumados. Para o momento, podemos compreender mente como um fenômeno mediador entre os acontecimentos materiais (estímulos) e as ações dos organismos (respostas). É, por vezes, sinônimo de cognição. 

Nota 5: Mais uma vez, Função tem um significado diferente do usual em AC. Para a NP, função se refere a conjuntos de neurônios relacionados a uma dada tarefa. 


Referências

CATANIA, A. Charles. Aprendizagem : comportamento, linguagem e cognição. 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

GAZZANIGA, M. S.; MANGUN, G.R.; IVRY, R.B.; Neurociência Cognitiva: A Biologia Da Mente. Artmed, 2006. 

Lezak, M (1995) Neuropsychological Assessment, New York: Oxford University Press. 

FUENTES, D.; MALLOY-DINIZ, L.F.; CAMARGO, C.H.P. & COSENZA, R.M. Neuropsicologia: teoria e prática. São Paulo: ArtMed, 2008. 

http://www.auladeanatomia.com/neurologia/snervoso.htm 

http://netnature.wordpress.com 

domingo, 25 de março de 2012

Contribuições da Análise do Comportamento para Avaliação e Tratamento da Doença de Alzheimer

Erica Vila Real Montefusco, Psicóloga pela Universidade Federal do Ceará (2009), Pós-Graduada em Neuropsicologia pela Faculdade Christus (2011) – Fortaleza, CE

Paulo Estêvão da Silva Jales, Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará (2011) – Fortaleza, CE


A velhice é associada, popularmente, a um estado de perdas, limitações e deficiências. Para além das modificações biológicas, há também mudanças psicossociais, incluindo aquelas de personalidade e das relações sociofamiliares, que podem desembocar na chamada “velhice patológica”. Nesse período da vida muitas questões passam a permear o indivíduo, sendo as mais frequentes aquelas relacionadas às doenças e à morte.

Nesse contexto, destaca-se a doença de Alzheimer, que é, hoje, considerada um problema relevante de saúde pública, tanto pelo aumento do numero de casos (decorrentes, dentre outros motivos, do aumento da expectativa de vida), como pelo impacto da enfermidade na vida de pacientes e familiares.

Segundo a literatura da área, não há consenso sobre suas causas. Sabe-se que se trata de um quadro degenerativo do sistema nervoso, de aparecimento insidioso, com déficits precoces na memória recente seguidos pelo desenvolvimento de afasia, apraxia e agnosia após vários anos (TOMAZ, 1996). 


De acordo com o acima explicitado, consideramos importante fazer um parêntese para uma melhor explicação dos termos mencionados. A afasia consiste numa desordem de linguagem consequente a uma lesão encefálica focal (GIRODO e SILVEIRA, 2008). A agnosia ocorre quando o paciente perde a capacidade de reconhecer objetos, sem que se verifique comprometimento dos órgãos sensoriais, e a apraxia pode ser definida como um distúrbio na execução de movimentos aprendidos (GRIEVE, 2006).

Alguns indivíduos podem apresentar alterações da personalidade ou maior irritabilidade nos primeiros estágios. Nos estágios posteriores, podem desenvolver perturbações motoras e da marcha, podendo por fim ficar mutdos e confinados ao leito (DSM-IV, 1995). O mecanismo de atrofia cerebral se dá inicialmente em áreas como o hipocampo, estendendo-se posteriormente a todo o córtex cerebral, afetando não apenas a memória, mas também as demais funções cognitivas (PETERSEN, 2006).

Pessoas acometidas por esta patologia podem se esquecer de datas, de pessoas importantes em suas vidas, assim como perder objetos e demonstrar desorientação em relação ao tempo e espaço. O engajamento em atividades rotineiras diminui, assim como em atividades de convívio social. Podem também se tornar agitados, impacientes, confusos, agressivos, ansiosos ou apresentar comportamento social inadequado. O desempenho cognitivo decai até que, em geral, a morte sobrevém como consequência da inatividade e da manifestação de outras doenças (GIL, 2007).

É importante ressaltar que, independente das alterações neurológicas apresentadas pelo portador de Alzheimer, o diagnóstico dessa doença é primariamente baseado na avaliação dos prejuízos à memória e no comprometimento das atividades cotidianas do indivíduo (fazer compras, voltar pra casa etc) (PETERSEN, 2006).

Perceba-se que o critério da avaliação recai sobre alterações no comportamento apresentado pelo paciente. Um bom diagnóstico deve considerar a conduta passada e presente do paciente, comparando seu desempenho com desempenhos anteriores. Mais do que isso, um bom profissional reconhecerá alterações no ambiente próximo do paciente, estando atento à mudança de atitudes dos parentes, amigos e cuidadores.

Essa perspectiva relacional, que foca a análise não apenas no organismo mas também no ambiente com o qual interage , já há muito é trabalhada pela clínica analítico-comportamental para a qual o treinamento ministrado ao profissional enfatiza a análise de contingências. Isso significa que o analista do comportamento, na sua prática regular, busca, na interação organismo-ambiente, eventos que possam influenciar na frequencia das respostas-alvo. Isso possibilita uma intervenção ampla de auxílio no convivo com a doença de Alzheimer. Ao retirar o foco das limitações e déficits apresentados pelo paciente e direcionar a observação para as contingências que controlam as classes de respostas com alta e baixa frequência, a análise do comportamento privilegia a obtenção de reforçadores e minimiza os produtos colaterais da punição, promovendo uma convivência menos aversiva com os efeitos da doença, tanto para o paciente como para aqueles que lhe são próximos.

Pontes e Hübner (2008), ao falar sobre reabilitação neuropsicológica, apontam algumas razões pelas quais os métodos comportamentais são eficazes no tratamento da doença aqui discutida. Destacam-se a abundância de procedimentos tanto para diminuição de comportamentos-problema como para a instalação de novos comportamentos desejáveis, o estabelecimento de objetivos explícitos e com dificuldade e complexidade graduais, avaliação integrada ao planejamento da intervenção, tratamento individualizado e possibilidade de treinamento dos cuidadores para auxiliar e gerenciar as atividades propostas.

Obviamente que (ainda) não é possível impedir completamente a progressão da degeneração neuronal na Doença de Alzheimer, mas, a análise do comportamento é profícua em arranjar contingências para a proliferação de respostas alternativas que produzam os mesmos reforçadores. Apesar do componente neuroanatômico limitar o comportamento, os anos de prática da clínica comportamental e os resultados apresentados nas mais diversas áreas do conhecimento demonstram que a influencia do ambiente, a estimulação contínua e o treinamento, são capazes de conjurar comportamentos muitas vezes considerados impossíveis (para mais informações sobre o assunto sugerimos a leitura do livro Guia da Clínica Mayo sobre o Mal de Alzheimer, 2006, especialmente o capítulo 6 para esta questão).

O profissional chamado à intervir nos casos de pessoas com idade avançada, notadamente os portadores da doença de Alzheimer, também atua junto à família e aos cuidadores, trabalhando, além do diagnóstico, aspectos do prognóstico, prestando esclarecimentos e fazendo acompanhamento em caso de óbito. Dada a ampla atuação e à expansão dos conhecimentos no campo de trabalho, o psicólogo constantemente se sente estimulado e instigado a coletar dados sobre a patologia, possibilitando uma maior compreensão da Doença de Alzheimer e posterior incremento das práticas e intervenções clínicas, atingindo, assim, o objetivo de promover melhorias na qualidade de vida do paciente e de seus familiares.

Palavras-chave: Neuropsicologia, Doença de Alzheimer, Análise do comportamento.

Referências Bibliográficas

DSM-IV - Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1995.
GIL R. Neuropsicologia. São Paulo: Santos; 2007.
GIRODO, C.M, GIRODO, G.A, SILVEIRA, V.N. Afasias. In: Neuropsicologia teoria e prática. Daniel Fuemtes [et. al].Porto Alegre: Artmed, 2008.
GRAEFF [et. al]. Neurobiologia das doenças mentais. São Paulo; Lemos Editorial, 1996.
GRIEVE, J. Neuropsicologia em terapia ocupacional. São Paulo: Santos, 2006.
PETTERSON, R. Guia da Clínica Mayo sobre o Mal de Alzheimer. Rio de Janeiro, Anima, 2006.
PONTES, L. M. M., HÜBNER, M. M. C. A reabilitação neuropsicológica sob a ótica da psicologia comportamental. Revista de Psiquiatria Clínica, 35 (1); 6 – 12, 2008.
PETERSEN, R. C., STEVES J. C., GANGULI, M., TANGALOS, E. G., CUMMINGS, J. L. & DeKOSKY, S. T. Practice parameter: early detection of dementia: Mild Cognitive Impairment. Neurology. 56,p.1133-1142, 2001a.  Disponível em: <http://www.siumed.edu/neuro/AAA2010/documents/41.pdf> Acesso em: 08 fev 2011.