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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Por trás dos tiros - Entenda o Bullying e as suas consequências.


A presente entrevista foi dada pelo Psicólogo Marcelo Souza, parte da equipe do Comporte-se para a construção de uma matéria sobre Bullying chamada "Por tras dos tiros" do Jornal Comunicação da Universidade Federal do Paraná - UFPA. (Abril, 2012)

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1. Embora o Bullying tenha se tornado um assunto de conhecimento geral, nem sempre os motivos dos agressores são conhecidos. Há algo que explique por que alguns jovens praticam esse tipo de violência?

R – Existem diversas variaveis que podem ajudar a entender essa questão. A motivação de um agressor pode ter diferentes funções. Sabemos que em muitos casos, o agressor obtem aprovação social e reconhecimento pelas agressoes no meio que está inserido e essa aprovação funciona como combustivel para que a violência seja continua e crescente. Geralmente o agressor é um individuo com baixa autoestima que encontra nas agressoes a um individuo menor ou mais fraco o reconhecimento social que não poderia ser encontrado de outra forma. Em minhas pesquisas e atendimentos, percebo que existem dois tipos de agressores.

O primeiro tipo é o agressor ativo, aquele que pratica a violencia, a provocação e a humilhação de outro individuo. O segundo tipo e o que eu considero mais cruel são chamados de agressores passivos. Eu chamo de passivos por que não participam diretamente da violencia, mas são aqueles que dão risada das piadas, e dão o reconhecimento social ao agressor gerando um ciclo interminavel de violência. Geralmente é um grupo grande que somado ao agressor ativo, acaba se tornando um exercito que deixa a vitima mais encolhida e com mais medo de reagir às provocações. Em tese não existe uma motivação que possa ser generalizada para todos os casos, mas o reconhecimento social da violencia está presente em grande parte dos casos.


2. Os agressores geralmente possuem características em comum ou algo que os torne bullies em potencial? É possível traçar um perfil para os agressores?

R- Como disse anteriormente, os agressores geralmente são pessoas com baixa autoestima, com problemas de autoconfiança, intimidade e notóriamente tem uma capacidade de empatia muito prejudicada. Não conseguem se colocar no lugar do outro e de fato em muitos casos podem até sentir prazer com as provocações e violência. Não é possivel determinar um perfil padrão que possa ser generalizável, pois cada agressor tem uma história de vida e vai ser nessa história de vida que iremos encontrar explicações sobre a motivação dele para a violência. Embora exista uma topografia de ação parecida em todos os casos de bullying, podemos dizer que existem funções diferentes a cada um dos agressores.


3. E quanto às vítimas, há como traçar um perfil geral?

R- As vitimas possuem algumas caracteristicas em comum. Geralmente são pessoas que possuem uma baixa assertividade e habilidades sociais prejudicadas. São calados, timidos e podem apresentar problemas mais intensos como a depressão e transtornos de ansiedade. O Bullying podem não ter ligação direta com o comportamento da vitima e sim com algum outro aspecto que ela possui. Podemos citar como exemplo, um nariz maior, uma orelha de abano, cor da pele e etinia nos casos de racismo ou outros problemas fisicos. Obviamente, não são todas as vitimas que vão apresentar as caracteristicas comportamentais ditas anteriormente, pois muitas outras variaveis influem como a resiliencia, tolerancia a frustração, capacidade de lidar com o sofrimento etc...


4. Quanto ao cyber bullying, por que esta forma é considerada mais violenta? De que forma a Internet pode "proteger" o agressor?

R- O Cyber Bullying é uma forma de violência relativamente nova que envolve a agressão e humilhação através da internet.  É considerada mais violenta por que a vitima não sabe de onde está vindo o ataque e ao invés de ter um agressor, pode-se ter dezenas ou centenas de agressores. Podemos pensar também que o alcance da internet é muito grande e com isso, mais humilhações podem ser adicionadas por pessoas que estão fora do convivio social da vitima aumentando então o poder destrutivo do Bullying. Um efeito interessante da internet é que as vitimas de bullying tem utilizado a internet para contra atacar os seus agressores contando com o anonimato que a internet proporciona.

Nesse caso, a vitima se torna agressor. O ambiente virtual protege a identidade e nesse ambiente não existe forte, fraco, timido ou calado, pois todos tem o mesmo poder de atacar sem possibilidade de contra ataque.
A vitima pode atacar um agressor muito maior se quiser e sua identidade vai ser preservada pelo anonimato. No Brasil não existe uma legislação especifica sobre Cyber Bullying, mas a justiça tem se empenhado em criar e desenvolver leis que protejam as pessoas de serem vitimizadas pela internet.


5. A Internet, por proporcionar o anonimato, tem aberto portas para que tipos de violência existentes no convívio social se estendam também para as redes sociais?

É notório que o Bullying e Cyber Bullying nos mostram algo muito maior que apenas a violência direcionada a uma vitima especifica. Mostra também que existe uma falta de dialogo entre pais e filhos, existe uma deficiencia de orientação na escola sobre valores éticos e morais e existe em nossa cultura uma permissividade inadmissivel em relação à violência. Episódios de humilhação, agressão verbal e agressão fisica se transformam em “brincadeira de criança”, pois não se tem a cultura de entender os problemas que tais “brincadeiras” causam a uma criança e posteriormente a um adulto.

A internet através do anonimato possibilita que um nivel muito maior de crueldade seja aplicado, pois quase sempre o agressor está protegido e a vitima está bem caracterizada. Muitas vezes a agressão pela internet tras, nome, telefone, numero de documentos e endereço da vitima, alem de ser crime passivel de prisão para o agressor, ainda expoe a vitma a mais violência. O Bullying e Cyber Bullying é a ponta do iceberg para uma realidade mais assustadora, a de uma cultura dominada por controle coercitivo e aversividade.


6. O senhor diz que algumas marcas ficam para a vida toda. O que é possível fazer é um "controle de danos". Como se dá esse controle?

Algumas marcas realmente ficam por toda uma vida. Uma criança vitima de violencia vai se transformar em um adulto com sérios problemas de autoestima e de relações pessoais pobres na imensa maioria dos casos. Pode se tornar uma pessoa calada, com medo da vida, muito introvertida com habilidades sociais muito baixas. Em grande parte dos casos, transtornos de humor como a depressão e transtornos de ansiedade como síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e até transtorno de stress pós-traumático costumam se instalar nas vitimas, levando a uma vida de intenso sofrimento com necessidade de intervenção especializada como Médicos Psiquiatras e Psicólogos.

Podemos salientar que muitos agressores na vida adulta também foram agredidos na sua infancia. Na psicologia temos um ditado que diz que “nem todo abusado se torna um abusador, mas todo abusador já foi um abusado”. Isso quer dizer que essas crianças que estão sofrendo com os maus tratos hoje, podem se tornar potenciais agressores no futuro e com isso o ciclo de violência nunca para.

O controle de danos tanto para a criança, adolescentes ou adultos que estão sendo vitimas de agressões pode ser feito em tres frentes. A primeira é a notificação da vitima ou de seus cuidadores ao local onde as agressões estão ocorrendo. Se acontece na escola, os pais devem primeiramente notificar os diretores e cobrar providencias, se for no trabalho, os supervisores ou chefes devem ser notificados e assim por diante.  A segunda frente é a judicial. Caso exista agressão fisica, ameaças de morte, publicação de documentos, endereço ou fotos na internet, a policia deve ser notificada através de boletim de ocorrencia com representação ao Ministério Publico, para que o poder judiciário tome as medidas apropriadas.

A terceira frente é a da saude, como disse anteriormente, Transtornos de Humor e Transtornos de Ansiedade costumam se instalar nas vitimas e para que esses problemas sejam cuidados, é necessário um encaminhamento para tratamento psicológico e em muitas vezes o tratamento psiquiatrico com o médico.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Redução de Danos e a Prática de Uso e Abuso de Substâncias Psicoativas

Atualmente, debates sobre uso e abuso de substâncias psicoativas (SPA), ilícitas ou não, têm ocupado a mídia, os governos e cidadãos em diversas partes do mundo. SPA ou Drogas Psicotrópicas podem ser definidas como aquelas “que atuam no sistema nervoso central e que de alguma forma modificam o funcionamento cerebral” (Almeida & Barbosa Filho, 2006), que englobam desde o cafezinho, remédios antidepressivos até cocaína e maconha. Embora substâncias legalizadas como remédios antidepressivos possam ter efeitos danosos, as visões condenatórias são mais voltadas para a as chamadas drogas de abuso, ainda que o uso dessas substâncias, a exemplo do cânhamo, remonte a 4000 a.C. (na China) e 3000 a. C. (no Turquistão, atuais Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão) (Escohotado, 2004).


Alguns poucos estudos realizados durante o século XVIII mostram a visão que se tinha de SPA na época. Por exemplo, apontavam o uso de álcool como escolha do sujeito, estando sob seu total controle (Leite, 2006). Já no século XIX, ganha força a idéia de que o uso contínuo de álcool e ópio seriam “doenças da mente” ou “transtornos da vontade”, além de existir uma predisposição hereditária para o uso (Leite, 2006). Ainda neste período, por influência psicanalítica, considerou-se que a necessidade do uso de SPA se daria por haver uma grande quantidade de energia psicológica com dificuldades de alojar-se no consciente (Leite, 2006). Em ambas as visões do século XIX, permanece a noção de necessidade de um tratamento – farmacológico ou psicológico – de um transtorno.



Por outro lado, uma política organizada pela Organização Mundial de Saúde denominada Redução de Danos (RD) traz uma perspectiva diferente sobre SPA, originada do Relatório Rolleston no ano de 1926 (Leite, 2006; O’Hare, 1994). Como funciona, então, a estratégia de RD? Segundo O’Hare (1994), é possível que se pense que a total abstinência de SPA seria o mais adequado, porém deve-se reconhecer que o consumo é algo estreitamente ligado à história de vida dos usuários, o que não impede que sejam ajudados para evitar as conseqüências mais danosas do uso. Logo, a RD “reconhece que as pessoas continuarão a se utilizar de SPA, como sempre o fizeram ao longo da história” (O’Hare, 1994, p. 67). Sendo assim, não se busca eliminar o uso (embora seja um ideal considerado entre redutores), mas uma forma de torná-lo menos danoso à saúde e à vida social. É também estratégia de prevenção de doenças, buscando a redução da probabilidade de infecção do pelo HIV e contração de hepatites, sendo realizada a distribuição de materiais para o uso das drogas (seringas e agulhas esterilizadas, água destilada para diluir a droga, pano umedecido com álcool etc) que garantam um uso limpo, além de preservativos e lubrificantes. Há também a propagação de informações sobre drogas (com cartilhas informativas, por exemplo), medidas de higiene e instruções sobre alimentação e hidratação antes, durante e após o uso de SPA (Leite, 2006).

As ações de RD, não são uma novidade e já vem sendo utilizadas em diversos países, como na estratégia regional de Mersey, Inglaterra (O’Hare, 1996), na Holanda, Canadá e Austrália (Marlatt, 1999). Então, se entendermos o uso e abuso de drogas como práticas culturais, ou seja, “um conjunto de comportamentos emitidos por uma comunidade de indivíduos” (Leite, 2006, p. 17) e transmitidos por sucessivas gerações, o seu estudo a partir das noções de metacontingências, macrocontingências e contingências comportamentais entrelaçadas¹ parece pertinente. Leite (2006) elaborou um plano de intervenção a ser aplicado em comunidades com ações de RD a partir da base teórica analítico-comportamental, assumindo que: 

"A articulação entre a Análise do Comportamento e o conceito de redução de danos pode vir a produzir estratégias de intervenção eficazes para a implementação deste último como uma política de saúde pública eficaz para lidar com a questão do uso, abuso e dependência de drogas" (Leite, 2006, p. 8).



Uma vez que a RD é uma abordagem não coercitiva em relação ao uso de SPA, visa não segregar o usuário de seu ambiente social, mas sim a possibilidade de buscar atendimentos de saúde e informações acerca do consumo. É imprescindível que o treino de repertórios comportamentais que levem à redução ou consumo seguro de SPA não fique à parte do ambiente natural do sujeito. Ainda de acordo com Leite (2006), as estratégias de RD devem ser incorporadas a diferentes estruturas assistenciais, comunitárias e administrativas, a exemplo do Programa de Saúde da Família (PSF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).

Assim, se a RD se propõe a um trabalho direto na comunidade, faz-se necessária a elaboração de uma estratégia de planejamento cultural. Tendo isto em vista, a proposta inicial de Leite (2006) é a de realizar uma pesquisa sondando os problemas da comunidade para então buscar analisar metacontingências e contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) ligadas ao foco do trabalho, o que permitirá uma melhor delimitação, além de possibilitar um planejamento adequado. O próximo passo é o de “criar condições para que contingências de reforçamento individuais sejam mantidas naquela comunidade” (Leite, 2006, p. 33), ou seja, aqui entrariam os interventores do grupo como contingências de suporte – funcionando como antecedentes ou conseqüências –, utilizando-se de intervenções diretas de estratégias de RD, oficinas sobre prevenção e RD ou mesmo campanhas publicitárias na comunidade. Outra forma de intervenção possível é a proposta por Caballo (citado por Leite, 2006), utilizando-se do Treinamento em Habilidades Sociais (THS) e de Treinamento em Solução de Problemas (TSP) para ensinar ao grupo repertórios sociais mais adequados, principalmente em relação ao uso de SPA.



Em outro momento, para não deixar as novas práticas mantidas apenas pelos interventores, seria necessário buscar organizações e/ou indivíduos da própria comunidade que possam servir como as contingências de suporte. Considerando aqui que o uso e abuso de SPA não é um acontecimento isolado de outras questões sociais, deve-se também buscar contingências de reforçamento não relacionadas ao uso, mas também para relacionamentos interpessoais, busca de trabalho, estudo, etc. Procura-se então, aparatos da comunidade, tais como cooperativas de produção, grupos artísticos e/ou esportivos, além de formar grupos de redutores de danos, utilizando os jovens como educadores para atingir outros jovens.

Com a instalação e manutenção das novas práticas, espera-se que naturalmente produtos agregados irão surgir – alguns possíveis podem ser a melhoria nos índices escolares, na qualidade de vida e saúde, redução no uso SPA, da criminalidade –, que possivelmente poderão manter as novas contingências entrelaçadas. Neste momento, realiza-se uma nova pesquisa, avaliando os resultados da intervenção em comparação à pesquisa inicial. Se forem positivos, os resultados podem ser divulgados à população, o que também pode vir a funcionar como produto agregado e conseqüência mantenedora da nova metacontingência. Chegando a este ponto da intervenção, as conexões iniciais com as estruturas assistenciais, comunitárias e administrativas ao amparar a comunidade e os novos produtos por ela gerados, possibilitam que o trabalho dos interventores seja encerrado e que a comunidade tenha capacidade de auto-gestão. 

A proposta do autor ainda é geral e não foi, de fato, aplicada. Isso, no entanto, não tira a relevância do trabalho, que é se mostra como uma das inúmeras possibilidades de intervenções de analistas do comportamento em práticas culturais. Entramos aqui (mais uma vez) na importância de se desenvolver ainda mais o campo de estudos experimentais na análise comportamental da cultura de modo a produzir mais conhecimento capaz de embasar propostas de intervenção, levando ao desenvolvimento de tecnologias comportamentais adequadas para a intervenção em diversos problemas sociais, incluindo o uso e abuso de substâncias psicoativas. 

¹O conceito de metacontingências, macrocontingências e contingências comportamentais entrelaçadas e suas aplicações, não sendo aprofundados neste artigo, podem ser melhor compreendidos a partir de uma vasta bibliografia desenvolvida a partir do texto Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.; mas a nível didático e para uma compreensão de maneira sucinta, recomendo a leitura dos demais textos acerca do tema presentes no Comporte-se, de autoria de Elayne Nogueira e Júlia Ferraz. 


Bibliografia:


Almeida, R. N., & Barbosa Filho, J. M. (2006). In: Almeida, R. N. (Org.). Drogas Psicotrópicas. Psicofarmacologia: fundamentos práticos. (pp. 3-24). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Escohotado, A. (2004). História Elementar das Drogas. Lisboa, Portugal: Antígona Editores Refractários.

Leite, F. L. (2006). Redução de Danos e Análise do Comportamento: um Modelo Teórico e uma Proposta de Intervenção Comunitária. Monografia não publicada. Fortaleza: Universidade de Fortaleza.


O’Hare, P. (1994). Redução de Danos: alguns princípios e a ação prática. In: Mesquita, F.; Bastos, F.I. (Org.). Drogas e AIDS: Estratégias de Redução de Danos. (pp. 65-78). São Paulo: HUCITEC.

Marlatt, G. A. (1999). Redução de danos no mundo: uma breve história. In: Marlatt, G.A. (Org.). Redução de danos: estratégias práticas para lidar com comportamentos de alto risco. (pp. 29-43). Porto Alegre: Artes Médicas Sul.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O comportamento religioso


O sinal da cruz dos cristãos, o prostrar-se dos muçulmanos durante as orações, a cerimônia de circuncisão realizada pelos judeus e o jejuar, realizado por diversos grupamentos religiosos, são exemplos do que a nossa cultura designa como comportamento religioso. Esses comportamentos integram o repertório comportamental de diversos indivíduos que compartilham um ambiente social comum, o qual pode ser uma cultura, enquanto grupo social, ou seus produtos, tais como literatura, arte, política, tecnologias ou sistema de produção. 

Em uma perspectiva analítico-comportamental, o comportamento religioso pode ser entendido como qualquer comportamento verbal ou não verbal que envolve a formação de relações de causalidade entre eventos físicos e eventos que, supostamente, não obedecem às leis naturais. 

Como apontou Skinner (1953/1981), relações comportamentais que envolvem o controle verbal são mais propensas a envolver a formação de relações de causalidade entre eventos independentes entre si. Segundo esse autor, comportamentos cujo reforço é socialmente mediado provem contingências únicas. Contrariamente, para o caso de comportamentos cujo reforço é mecanicamente produzido pela resposta, tais como “arremessar um objeto”, a consequência (nesse exemplo, “objeto longe”) ocorre inevitavelmente, sempre que a resposta ocorrer. Entre a contingência única e a contingência que recorre inevitavelmente, conforme destacou Skinner (1953/1981), “há um contínuo que não pode ser dividido rigidamente em nenhum ponto para se distinguir entre 'superstição' e 'fato'” (pág. 333). Em outros termos, relações entre eventos que se repetem de forma relativamente uniforme e com maior recorrência tornam mais prováveis que descrições precisas dessas relações sejam produzidas. Relações entre eventos que ocorrem poucas, ou até mesmo apenas uma única vez, por outro lado, possibilitam a elaboração de descrições imprecisas e, algumas vezes, místicas, visto que podem relacionar de forma causal eventos que são independentes. 


Essa análise da susceptibilidade à formação de relações acidentais por parte de fenômenos comportamentais que envolvem variáveis verbais lança luz à compreensão dos processos comportamentais que possibilitam a formação e manutenção de crenças e mitos religiosos. Assim, é provável que uma parcela das fontes de controle do comportamento religioso provenha desse tipo de relação acidental entre variáveis funcionalmente independentes, relacionadas apenas verbalmente. 

Apesar de, possivelmente, relações acidentais participarem das contingências que controlam a ocorrência dessa classe de comportamentos, destaca-se que a presença do controle verbal possibilita uma série de relações contingentes que exigem cautela à análise do comportamento religioso tendo por base exclusivamente a noção de seleção acidental ou comportamento “supersticioso”, aos moldes do que foi descrito por Skinner (1948). Tal apontamento remete-nos a uma segunda consideração para a análise de comportamentos religiosos: esses são eminentemente sociais. 

Conforme destacou Herrnstein (1966), os padrões comportamentais religiosos são produtos de uma aprendizagem social. Segundo o autor, o processo de “aculturação” - ou seja, o extensivo processo educacional que antigos membros de uma cultura oferecem aos novos membros - parece incluir a aprendizagem de superstições (p. 45), o mesmo valendo para comportamentos religiosos. Além de aprendidos socialmente, comportamentos religiosos parecem ser, em grande medida, mantidos por consequências mediadas socialmente, seja por um grupo, por outro organismo ou pelo próprio sujeito que se comporta, sob controle de aprendizagens sociais anteriores. Essas consequências podem vir na forma de reforços positivos (ex. prestígio no grupo), reforços negativos (ex. esquiva de supostas punições divinas), punições positivas (ex. críticas do grupo social ou do próprio sujeito que se comporta), punições negativas (ex. perda de títulos ou funções no grupo) ou extinção (ex. ostracismo social para membros “desviantes”). 

Assim, o controle social parece exercer um papel fundamental na instalação e manutenção de comportamentos religiosos, estabelecendo relações de contingência entre o responder e uma série de consequências que, ao longo da vida do indivíduo exposto à aprendizagem dessas relações, se tornaram muito importantes. 

Em suma, diversas variáveis podem ser apontadas como importantes fontes de controle do comportamento religioso, incluindo variáveis verbais, outros tipos de controle social e relações acidentais, as quais podem, isoladamente, influenciar mais ou menos o comportamento, a depender da instância comportamental em análise. 


Referências 

Herrnstein, R. J. (1966). Superstition: a corollary of the principles of operant conditioning. In W. K. Honig (Ed.), Operant Behavior: areas of Research and Application (pp. 33-51). New York: Appleton-Century-Crofts. 

Skinner, B. F. (1948). "Superstition" in the pigeon. Journal of Experimental Psychology, 38, 168-172. 

Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads.). São Paulo: Martins Fontes, 5ª. ed. (Originalmente publicado em 1953).

sábado, 12 de maio de 2012

Uma reflexão analítico-comportamental acerca das supermães

A ideia desse texto veio a partir de uma pergunta na sala de aula sobre os processos comportamentais. O assunto explanado era extinção e, para melhor compreensão do tema, passei um vídeo conhecido com uma criança chorando deitando-se no chão tentando chamar a atenção da mãe que passa sem olhar pra cena. Ele pode ser facilmente acessado aqui. Expliquei que os comportamentos da criança poderiam ser compreendidos como uma forma de resistência à extinção. Como assim?

A extinção é um processo comportamental definido como a retirada de um reforço contingente a um comportamento. (Skinner, 1953; Moreira & Medeiros, 2006). Já a resistência à extinção pode ser caracterizada pelo aumento da frequência de um determinado comportamento, a variabilidade comportamental e o aparecimento de respostas emocionais. (Skinner, 1953, Moreira &Medeiros, 2006). Com base nesses conceitos explanei que a criança do vídeo em questão, provavelmente estava passando por um processo de resistência à extinção dos comportamentos com função de receber atenção materna. Diante disso, um aluno perguntou: professora, se a mãe der atenção a esses comportamentos de resistência, eles serão reforçados, não é? (orgulho!) Mas e então, o que fazer? Deixar a criança chorando? E a pergunta capciosa: eu posso dizer que essa criança, tão pequena (ela tem uma aparência de 1 ano e meio), está manipulando a mãe?

Com relação às primeiras perguntas, respondi que o ideal seria o que os analistas do comportamento denominam “reforçamento diferencial de outro comportamento”, técnica também conhecida pela sigla DRO. (Moreira e Medeiros, 2006, Catania, 1999). Esse procedimento caracteriza-se pela aplicação da extinção de um determinado comportamento, no caso específico do vídeo, o ato de chorar ou jogar-se ao chão, bem como o reforçamento de outros comportamentos da criança, como, por exemplo, brincar, sorrir, ficar quieta, etc. Diante da resposta, surgiram algumas críticas pertinentes aos pais, e, em especial às mães, que, atualmente não brincam mais com seus filhos, passam o dia trabalhando e os deixam nas mãos dos avós, babás ou ainda, nas creches em turno integral.

No que tange à manipulação da criança, relacionei este comportamento com o uso do termo consciência, explicando que nesse caso é possível não existir esse paralelo, já que essa criança provavelmente não é capaz de falar sobre os seus comportamentos ainda. De acordo com Skinner (1969), a consciência é entendida como a capacidade de descrição verbal das contingências que estão sob controle de um comportamento. Expliquei que as contingências modificam nossos comportamentos, mas não necessariamente, somos capazes de discriminar essa modificação. Aliás, de acordo com Skinner (1974), a maioria dos nossos comportamentos é inconsciente, ou seja, não ocorre essa discriminação. Passei então a explicar que a birra era relativamente comum nas crianças porque durante sua história de vida, seus comportamentos de choro eram seguidos de reforços como atenção, carinho, comida, água, etc. Assim, o chorar torna-se um comportamento bastante fortalecido em seu repertório comportamental.


Quando as crianças ficam maiores, são ensinados e reforçados outros comportamentos, entretanto, ao ser apresentado a extinção, tem-se no repertório da criança um comportamento que já foi bastante reforçado e apresenta-se como uma das primeiras alternativas da resistência: o chorar. O choro é aversivo para os pais, que, muitas vezes, chegam de seus trabalhos cansados, e, como forma de retirar esse estímulo aversivo do seu ambiente, cedem às vontades da criança, tendo seus comportamentos reforçados negativamente.

Considerando as críticas feitas aos pais que não querem mais brincar com seus filhos, fiz a reflexão acerca do papel social das mães, que, ainda hoje, são, na maioria dos casos, mais responsáveis pela criação das crianças, pelo menos na primeira infância. Durante os primeiros meses da criança, a mãe recebe uma licença maternidade pra ficar com seu filho e cuidar dele. Assim, é ela, e, na maioria das vezes, só ela é responsável por observar e dar o que ele quer. Às vezes, costuma-se pensar: muito justo, afinal de contas, é filho dela e ela não está trabalhando, enquanto o pai está. Quando os pais chegam a casa, desculpam-se de estarem cansados e, quando a criança chora, chamam a mãe. Ora, cuidar de crianças deve ser um trabalho bastante cansativo também, além do que, muitas vezes, podem ser mantidos em esquemas de reforçamento com alto custo de resposta e recebimento mínimo de reforços, possivelmente um esquema de razão variável com razões altíssimas. De acordo com Catania (1999), esquemas de razão com taxas muito altas ocasionam a diminuição da taxa de respostas, porque as taxas altas e contínuas passam a ser frequentemente interrompidas por grandes pausas pós-reforços.



Assim, o acúmulo de cansaço dessas obrigações e funções de mãe e dona de casa pode resultar no comportamento da mãe de olhar a criança e dar atenção a ela somente quando a criança chorar, pois enquanto ela está quieta, pode-se aproveitar o tempo e fazer algo pra si ou mesmo cuidar da casa. Assim, os comportamentos de chorar são reforçados continuamente, enquanto outros comportamentos como brincar, sorrir e ficar quieto só são reforçados em algumas ocasiões. Se por um lado, esses outros comportamentos tornam-se mais resistentes à extinção, por outro, o comportamento de chorar torna-se mais fortalecido. Ao mesmo tempo, o chorar pode ir adquirindo mais ainda a função de estímulo aversivo, pois ele pode acontecer no momento em que ela estava fazendo algo importante para si, tendo que parar a atividade para ver a necessidade da criança.

Quando acaba o período de licença maternidade, a mãe se depara com o fato de ter que voltar a trabalhar e se separar temporariamente da criança. Ao chegar a sua casa, muitas vezes, tem que cumprir com as mesmas obrigações do período de licença-maternidade, como por exemplo, brincar com o filho, que pede sua atenção. Além disso, tem que alimentá-lo, banhá-lo e ensinar tarefas da escola, caso já estude. Não são raras as vezes que escuto no consultório que só quem faz isso são as mães. Quando os pais vão até a clínica, no momento dessa pergunta, respondem: “as mães tem mais jeito pra essas coisas”.
Assim, muitas vezes, as mães cumprem jornadas duplas de trabalho, trabalhando e cuidando da casa e dos filhos, além do emprego. E o cansaço dessa jornada dupla pode ser ocasião para comportamentos de fuga e esquiva com relação aos choros e birras da criança. Entretanto, a “supermãe”, ou seja, a que cuida dos filhos, do marido, da casa e ainda trabalha fora é o que há de mais valorizado em nossa sociedade, principalmente nesse período, às vésperas do dia das mães. Diante disso, questiono: qual o valor cultural da supermãe?



Inicialmente, a valorização da supermãe parece ser o de parabenizar as mulheres que conquistaram o fato de poder trabalhar fora de casa e continuam cumprindo seu papel de mãe na sociedade, que é colocado como o de cuidar dos filhos. Mas, além disso, essa valorização pode cumprir função de esquiva para os homens, que, muitas vezes, diante das obrigações com os filhos, preferem que a mulher continue a cuidar deles. Além disso, o papel da supermãe pode, muitas vezes, ser enxergado como uma obrigação materna. A obrigação tem um teor de controle aversivo, podendo gerar, futuramente, subprodutos ligados a esse processo, como a diminuição da frequência de outros comportamentos e o aparecimento de respostas emocionais. Assim, essa prática cultural, apesar de ter consequências em curto prazo que a mantém, pode trazer consequências em longo prazo aversivas para as famílias. A partir da reflexão sobre a função social que o termo supermãe possui, lançamos aqui a discussão sobre possibilidades de mudança.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Agressividade: Sujeitos agressivos ou circunstâncias que produzem agressão?

Existe grande dificuldade em se definir o que é agressividade ou como ela pode ser exercida, muito embora, a princípio possa parecer simples. Para Leite (1987) a definição de agressão leva em conta três tendências: a definição por características topográficas da resposta (como estapear, cuspir, chutar, morder etc.); definição pelas condições antecedentes ou estímulos que antecedem um episódio agressivo (como a frustração ou estados emocionais como a raiva e a cólera) e, por último, pelas consequências que o comportamento em questão provoca no ambiente social (estimulação aversiva ou danos a outro organismo). No último caso, o principal problema da definição seria o fato de que se pode causar estimulação aversiva a outro sujeito de forma acidental e não intencional. Já um comportamento mal sucedido em causar prejuízo ou aversividade a outrem também não poderia aqui ser incluído, com no caso de um tiro que não acerta o alvo. 

A intencionalidade em causar dano e ter sido razoalmente bem sucedido nisso, seja direta ou indiretamente, e por qualquer via (por meio de palavras como boatos, fofocas e zombarias, agressão verbal direta, ou por meio de agressão física propriamente dita bem como outras formas de estimulação aversiva como a privação de reforçadores) parece, a nosso ver, dever ser incluída na definição.


A espécie humana é agressiva? Levando-se e em consideração a história da humanidade, pode-se dizer que sim, bastante. Sendo assim, seja no nível explicativo filogenético (o que pode ser mais bem explicado por estudos etológicos) ou cultural, a espécie humana carregaria esse componente como característica ou potencialidade a ser exercida. Evidentemente a agressividade pode ser exercida de inúmeras formas, desde a agressão verbal velada até o confronto físico direto. Porém, a espécie humana é a única que mata sem histórico de confronto. Alguém pode, por exemplo, ser contratado para matar um desconhecido. Também pode-se matar alguém à distância, com ajuda de armas de alta precisão e instrumentos que facilitem a visualização da vítima. Pode-se matar também sem necessidade de visualização da vítima, como no caso da emissão de armas de longo alcance e que possam “viajar” até o alvo, com o simples apertar de um botão. 

Existem indivíduos “agressivos” ou contingências que levam alguém a se comportar agressivamente? Fora os episódios em que se possa causar prejuízo não intencional (apesar do caráter inferencial) ou mesmo de episódios de legítima defesa (autodefesa mediante agressão), é possível dizer que podem existir histórias ontogenéticas que potencializem ou tornem mais provável a ocorrência de comportamentos agressivos. Também é possível dizer que existem episódios que, em si, potencializem a ocorrência de respostas agressivas. Ser alvo de agressão intensa ou mesmo nem tanto, porém repetida, por exemplo, parece ser bastante eficiente em evocar respostas agressivas. A frustração intensa ou menor em doses repetidas também pode ser muito eficiente em gerar episódios agressivos. Trata-se, como de resto em qualquer característica humana complexa, de processo motivado por diferentes fatores e até mesmo com substratos neurológicos diferenciados, a depender do tipo de comportamento agressivo analisado. Para Leite (1987): “Agressão, portanto, é um processo complexo, não unitário, podendo estar sob o controle de múltiplos fatores internos ou externos; pode ser influenciado por fatores genéticos e/ou aprendidos; pode ser instrumental (meio para se alcançar um objetivo) ou não.” (p. 149)


A pesquisa com sujeitos humanos e animais menciona situações frequentemente geradoras de comportamentos passíveis de serem categorizados como agressivos e, portanto, como determinantes da agressividade. Dentre eles, na revisão efetuada por Leite (1987) a frustração, a dor, a estimulação aversiva, a própria punição do comportamento agressivo, o reforçamento positivo à agressão, a aprendizagem por modelação, bem como a ameaça à satisfação ou ameaça de ataque. 

Nos arriscamos a afirmar que situações que provoquem alteração abrupta do estado emocional de um organismo, em consequência de estimulação aversiva, em geral, podem produzir episódios de agressão. Um episódio de frustração bastante conhecido é o da extinção, ou seja, uma condição em que uma resposta anteriormente capaz de produzir reforço passa a não mais ser efetiva, causando uma instigação emocional generalizada que pode incluir respostas agressivas. Em outras situações pode existir dificuldade adicional em definir frustração. A estimulação aversiva em geral provoca o mesmo efeito, especialmente se não existe saída para se livrar da mesma. Perder reforçadores não é estar sob efeito de punição propriamente dita, mas também gera respostas emocionais por ser igualmente “desagradável”. A dor é um excelente exemplo de situação geradora de um estado emocional alterado, com propriedades aversivas, que funciona como condição estabelecedora para o valor reforçador de comportamentos agressivos.
Já o comportamento agressivo punido com agressão, passa a se configurar em situação em que, além da existência de propriedades aversivas da agressão em si, existe o fornecimento de modelo de agressividade. Em outras palavras, a punição “cria mais estimulação aversiva capaz de produzir mais agressão” (p. 161), além de fornecer modelo para aprendizagem social de agressão. Um pai que pune agressivamente o seu filho por ter sido agressivo, por exemplo, está, contraditoriamente, fornecendo modelo de comportamento agressivo ao mesmo.

Existem, ainda, situações em que o sujeito é francamente reforçado por ter causado danos a outrem, sob forma de elogios, aprovação social etc. Neste caso há um franco fortalecimento do comportamento em situações semelhantes no futuro. Também é possível afirmar que o dano causado à vítima (sofrimento do instigador) possa ter valor reforçador, especialmente nos casos em que o padrão de comportamento agressivo já tem uma história de reforçamento bem sucedida e está bem estabelecida no repertório do agressor. 

Indivíduos que tenham causado sofrimento a alguém ou que tenham sido agentes punidores no passado podem facilmente se tornar alvo de agressão no futuro, tanto em médio quanto em longo prazo. Nesse sentido, algozes facilmente se transformam em vítimas, muito embora nem toda vítima tenha sido algoz (as propriedades do algoz também podem ser generalizadas para potenciais vítimas). 

Qualquer padrão de comportamento agressivo direto ou indireto pode ser aprendido, portanto, seja pelas contingências diretas, pelas contingências instrucionais, seja por observação de modelos fornecidos intencionalmente ou acidentalmente. Uma sociedade coercitiva (com excesso de punição, reforço negativo, fornecimento de privações de várias naturezas, etc.), com tecnologia para destruição avançada e uma filogênese possivelmente facilitadora, tornam a espécie humana especialmente propensa a desenvolver padrões agressivos de comportamento. Isso torna necessário compreender mais sobre contingências geradoras de estimulação aversiva intensa ou repetida (pelo seu potencial gerador de agressão) e desenvolvimento de contingências mais reforçadoras que punitivas, com estabelecimento de relações humanas mais “saudáveis” e menos “destrutivas”, para produção de indivíduos menos propensos a “ataques”; seja em contrapartida, seja por generalização de contingências vividas na história passada.


Como medida inibitória, já vimos que a agressão em contrapartida não é eficiente, uma vez que, ao invés de gerar apenas receio do castigo pode gerar ainda mais agressão. Criar empatia com o outro (capacidade de se colocar no lugar de outrem) parece ser uma boa solução, mas isso só é possível se o outro não for encarado como algoz ou, em outras palavras, se não tiver uma história de interações geradoras de consequências aversivas com o indivíduo cujo comportamento agressivo se deseja inibir. Autores como Gomide (2006, 2010) e Weber (2009) tem ressaltado o papel da família, tanto como garantia de aprendizagem de inibidores internos (como a empatia por outras pessoas – importar-se com o outro-), como pelo fornecimento de modelos de relacionamentos interpessoais que se pautem mais por afetos positivos e pelo reforço de comportamentos incompatíveis com o agressivo. Pais que rejeitam, punem ou que agridem seus filhos podem produzir indivíduos muito pouco sensibilizados com a dor ou danos físicos, morais e materiais que venham a provocar em outros, uma vez que não experienciaram a empatia de outros consigo próprios, nem mesmo dentro da própria família.

A utilização de técnicas educativas coercitivas também é contra indicada em escolas e em qualquer outra agência educacional (orfanatos, creches etc.). Por outro lado, um estilo interacional menos punitivo e menos coercitivo é indicado em relações humanas em geral, seja na família, na escola, no trabalho ou nas relações pessoais, sob pena de estarmos produzindo potenciais agressores, seja de nós mesmos, seja de outras pessoas, num futuro que pode não estar tão distante. Toda forma de controle gera alguma forma de contracontrole e o controle aversivo tende a retornar, naturalmente, de forma igualmente aversiva, seja de modo velado ou explícito.

Referências

Leite, Sergio Antonio da Silva (1987). Agressividade. Em Conselho Regional de Psicologia da Região 06 e Sindicato dos Psicólogos do Estado de São Paulo. Psicologia no Ensino de 2º Grau: Uma proposta emancipadora. São Paulo: EDICON.

Gomide, Paula Inez Cunha (2006). Inventário de Estilos Parentais – IEP: Modelo Teórico, Manual de Aplicação, apuração e interpretação. Petrópolis RJ: Vozes.

Gomide, Paula Inez Cunha Org.(2010). Comportamento Moral: Uma proposta para o desenvolvimento das virtudes. Curitiba: Juruá.

Weber, Lidia (2009). Eduque com carinho: equilíbrio entre amor e limites. Curitiba PR: Juruá.

domingo, 25 de março de 2012

Metacontingência: necessária ou não?

“Aplicar nossa análise aos fenômenos do grupo é um modo excelente de testar sua adequação, e se formos capazes de explicar o comportamento de pessoas em grupos sem usar nenhum termo novo ou sem pressupor nenhum novo processo ou princípio, teremos demonstrado uma promissora simplicidade nos dados”. 
B. F. Skinner (1953/2003, p.326) 

Diante desta citação do livro Ciência e Comportamento Humano, falar em metacontingências – conceito cunhado por Sigrid Glenn (1986) para tratar do estudo da cultura – pode parecer um retrocesso. Sua necessidade ou relevância ainda são explícitas para alguns analistas do comportamento, embora estudos venham sendo exaustivamente realizados, mostrando a metacontingência como “um conceito que auxilia na visibilidade acerca da seleção de práticas culturais” (Gusso & Kubo, 2007, p. 141). 

Em primeiro lugar, metacontingências não tornam um novo campo de análise possível (Carrara apud Gusso & Kubo, 2007), pois a análise da cultura já era contemplada através das contingências de reforçamento, não sendo novidade na Análise do Comportamento (Gusso & Kubo, 2007). Além disso, “o estudo e debate sobre esse conceito não diminuíram a relevância das noções de ‘comportamento’ e de ‘contingência de reforçamento’, e qualquer análise cultural dependerá dessas noções básicas da Análise do Comportamento para se concretizar” (Gusso & Kubo, 2007, p. 143). De acordo com Carrara (apud Gusso & Kubo, 2007), talvez o conceito de metacontingências possa aperfeiçoar as análises e sínteses culturais. Nesse sentido, deve-se questionar: “a noção de metacontingência torna mais eficiente a análise de fenômenos culturais?” (Gusso & Kubo, 2007, p. 142-143); ou seja, ela realmente torna os analistas do comportamento capazes de intervir em uma prática cultural, planejá-la e modificá-la? 

O conceito descreve relações funcionais que envolvem certas contingências entre duas pessoas ou mais (contingências comportamentais entrelaçadas ou CCEs) e seus produtos. As CCEs não são continências comportamentais alargadas ou a mera soma de comportamentos individuais, pois podem permitir resultados que não seriam obtidos por cada indivíduo isoladamente. Além do mais, vale ressaltar o duplo papel dos que participam de uma CCE, o de emissão de uma resposta e o de ambiente para a ação de outro Aqui entramos na definição de prática cultural (PC), que envolve relações comportamentais que fazem parte do repertório de uma pessoa e são replicadas no repertório de outrem da mesma geração e entre sucessivas gerações de indivíduos (Glenn; Glenn & Malagodi apud Andery et al, 2005). Tais relações comportamentais replicadas podem ser entrelaçadas ou não, em outras palavras, pode se tratar de várias pessoas se comportando de maneira similar, não havendo necessariamente um entrelaçamento entre suas respostas. 


Um exemplo de PC dado por Glenn (2004) é o de um restaurante e seus componentes (proprietários, garçons e outros funcionários). Cada um exerce suas próprias funções, desde cozinhar, servir clientes e gerenciar o fluxo de caixa (vários indivíduos se comportando, cada qual com suas conseqüências imediatas), constituindo uma CCE. Porém, cada operante que compõe a prática não conseguiria o resultado do entrelaçamento dos comportamentos, que é a comida servida rapidamente para os clientes, como também a própria ida dos clientes ao local. 

A partir destas considerações, pode-se olhar para o comportamento de cada indivíduo de duas maneiras: provendo conseqüências para o comportamento do outro (mantendo o comportamento individual – relação de contingência) e, por outro lado, produzindo um produto conjunto (PA) resultado do entrelaçamento dos comportamentos (entrando no campo das contingências culturais/metacontingências). Logo, o estudo da unidade cultural não entraria em choque com a já conhecida contingência de reforçamento, mas surgiria a partir dela. (Assim, para se entender esta unidade pode-se recorrer ao sufixo “meta”, que demonstra uma relação hierárquica, pois metacontingências emergem na evolução cultural constituindo-se a partir de continências comportamentais (Glenn apud Andery& Sério, 2005) – não é possível deixar de lado a noção de comportamento já amplamente aceita. Porém, esta noção não têm se mostrado suficiente nas questões relativas à cultura (Andery & Sério, 2005) e a metacontinência vem se mostrando como candidata em potencial para completar esta lacuna. 

Por fim, vale ressaltar a fundamental importância dos estudos experimentais de metacontingências, pois o conceito só poderá ser acuradamente utilizado em possíveis intervenções culturais como ferramenta do analista do comportamento se for adequadamente estudado. 

Referências: 

Andery, M. A. P. A & Sério, T. M. A. P. (2005). O conceito de metacontingências: afinal, a velha contingência de reforçamento é insuficiente? Em Todorov, J. C.; Martone, R. C.; Moreira, M. B. (pp. 149-159). Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: Esetec. 

Andery, M. A. P. A., Micheletto, N. & Sério, T. M. A. P. (2005). A análise de fenômenos sociais: esboçando uma proposta para a identificação de contingências entrelaçadas e metacontingências. Em Todorov, J. C.; Martone, R. C.; Moreira, M. B. (pp. 129-147). Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: Esetec. 

Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture and social change. The Behavior Analyst, 27(2), 133-151. 

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavioral Analysis and social action, 5, 2-8. 

Gusso, H. L. & Kubo, O. M. (2007). O conceito de cultura: Afinal, a “jovem” metacontingência é necessária? Em: Revista Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental, 9, 139-144. 

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório?

Na Psicologia, muitos dizem ser impossível desvendar os mistérios da mente através do método científico - devido à própria natureza deste objeto. Se há quem aposte nisso, o que diriam então sobre o estudo científico de uma cultura, das diversas práticas que a compõem e seus produtos resultantes? Segundo o antropólogo Marvin Harris (1978, p. 13), “os especialistas se empenham em demonstrar que nem a ciência nem a razão podem explicar as variações de estilos de vida da humanidade”. Embora parte importante da obra de Skinner trate do tema, houve décadas sem produção significativa. No entanto, a partir dos conceitos de cultura e metacontingências propostos por Glenn (1986, 2004), finalmente os analistas do comportamento têm voltado sua atenção para o assunto. E o melhor de tudo: não só conceitualmente, mas também experimentalmente.

Pode-se definir de forma sucinta uma cultura como “padrões de comportamento aprendido transmitidos socialmente e também os produtos deste comportamento (objetos, tecnologias, organizações etc.)” (GLENN, 2004). Quanto a sua possível unidade de análise, a metacontingência, no lugar de serem selecionados propriamente comportamentos individuais, são selecionadas certas contingências entre duas pessoas ou mais (contingências comportamentais entrelaçadas ou CCEs) – interações que funcionam como uma unidade integrada, permitindo modificar o mundo de uma maneira que dificilmente ou até mesmo não seria possível para um único indivíduo, gerando e definindo, assim, um produto cultural (produto agregado ou PA). Assim, o comportamento de cada pessoa exerce um duplo papel: de ação e de ambiente comportamental para a ação de outrem (GLENN apud GADELHA, 2010). Além disso, tais interações e PA surgem, modificam-se ou permanecem inalterados (ou seja, são selecionados) por suas conseqüências relevantes para o grupo. Com a ocorrência de um PA e a recorrência sistemática da CCE devido a conseqüências culturais, fala-se então em seleção (GADELHA, 2010).

Faz-se necessário ainda diferenciar metacontingências de macrocontingências. Se em uma metacontingência a conseqüência social é crucial para a sua seleção, em uma macrocontingência há a relação entre uma prática cultural e a soma agregada das consequencias do comportamento recorrente de cada pessoa, que, por sua vez, são mantidos (ou modificados) por seus efeitos para cada indivíduo – e não para o grupo. Por exemplo, ao falarmos do macrocomportamento de “dirigir para o trabalho”, a função entre dirigir e as conseqüências operantes do comportamento de cada pessoa é o que a mantém comportando-se dessa maneira recorrentemente. Por outro lado, milhões de pessoas dirigem com inúmeras funções, o que gera um efeito cumulativo (e.g., trânsito congestionado, poluição etc.) que não é contingenge ao comportamento de nenhum motorista, mas sim ao macrocomportamento da prática cultural (GLENN, 2004).

Há quem possa levantar as seguintes questões: Ok, aqui temos um conceito para definir práticas culturais, mas em que isso nos ajuda? E mesmo assim, como estudar uma prática cultural experimentalmente? A produção em análise experimental da cultura surgiu e tem crescido nos últimos anos, a exemplo de estudos como o de Vichi (2004), Martone (2008), Baia (2008), Nogueira, C. (2009), Andreozzi (2009), Bullerjhan (2009), Caldas (2009), Leite (2009), Oda (2009), Costa (2009), Nogueira, E. (2010), Lopes (2010), Gadelha (2010) e Silva (2011), entre outros, que vêm demonstrando ser possível o desenvolvimento de análogos experimentais de metacontingências e práticas culturais. Os experimentos, de maneira geral, são feitos com pequenos grupos (geralmente de duas a quatro pessoas), sendo compostos por estudantes universitários voluntários. É proposto um jogo ou resolução de problemas individualmente (comportamento operante) e/ou em grupo (CCE). No caso das CCEs, a conseqüência cultural e o produto agregado dependem não do efeito cumulativo das respostas individuais, mas sim do comportamento inter-relacionado dos participantes (GLENN, 2004). Como conseqüência cultural se utilizava fichas (ou bônus) que seriam posteriormente trocadas por dinheiro e o produto agregado variava de experimento a experimento (dependia da tarefa realizada).

No trabalho de Gadelha (2010), e. g., voltado para os estudo das conseqüências culturais, foi desenvolvida uma atividade, onde pontos eram a consequência individual para fazer somas com resultados ímpares; uma CCE possível consistia em os dois participantes realizarem somas, de modo que o resultado do Participante 2 fosse o quadrado do resultado do Participante 1, que constituía o produto agregado (ΣP1 = (ΣP2)²), e a consequência desta CCE era a produção de uma grande quantidade de bônus distribuída igualitariamente entre ambos. Os participantes eram substituídos por outros sem experiência anterior com a atividade, de tempos em tempos, para a verificação da transmissão da prática por sucessivas gerações. Os resultados indicam que foi possível estabelecer uma CCE em laboratório, sendo transmitida para novas gerações (o que define uma prática cultural).

No estudo de Nogueira, E. (2010), utilizou-se a Teoria dos Jogos e, especificamente a situação do Dilema dos Comuns – “há um recurso comum para o qual várias pessoas podem ter acesso” (NOGUEIRA, 2010, p. 15), onde o dilema ocorre entre o ganho individual em curto prazo e o ganho comum em longo prazo. A autora investigou os conceitos de macrocontingências e metacontingências, além dos efeitos de uma intervenção cultural em uma situação onde o ganho individual poderia diminuir drasticamente ou extinguir o recurso comum. O objetivo era intervir em escolhas individuais (macrocomportamento), além de aumentar a interação verbal entre os participantes (intervenção cultural), procurando resultar na produção de CCEs (modificação da prática). Era apresentado aos três participantes um cenário onde havia um tanque com 100 peixes disponíveis, os quais poderiam ser “pescados” através de mini-cartões (que possibilitavam a retirada de 2, 4 ou 6 peixes). Os animais que ficassem reproduziam-se e a nova quantidade era informada. Se, ao final de uma condição, sobrassem peixes, eles seriam divididos igualmente entre os participantes – e cada peixe era trocado por uma quantia de R$ 0,03. Quanto maior a retirada e ganho individual, maior a diminuição na quantidade. Na linha de base, não havia conversa e os participantes não sabiam das escolhas de outrem. Nas condições seguintes, tiveram acesso a esses valores e o diálogo passou a ser permitido a cada duas escolhas. Os resultados indicam que o reajuste na quantidade de peixes teve função de conseqüência cultural externa para CCEs e PA (total de peixes). Nos grupos sem conversa (linha de base), houve esgotamento de recursos. Onde foi permitida a interação verbal, em que outro entrelaçamento das escolhas, os recursos aumentaram, mesmo com a retirada da condição (interação verbal), demonstrando que foi possível alterar a prática cultural, ou seja, que a intervenção foi efetiva – evitando o esgotamento total do recurso.

Os estudos supracitados foram explanados de maneira sucinta, não abarcando todos os resultados e análises possíveis diante dos dados obtidos em ambos. Porém, servem-nos como uma visão geral de como uma prática cultural pode ser estudada em laboratório. Mesmo assim, há quem questione a utilidade de tais experimentos – questionamento comum aos que produzem pesquisa básica em geral. Segundo Selltiz, Wrightsman e Cook (1987) existem três razões básicas para aprender métodos de pesquisa e praticar ciência: adquirir a capacidade de predizer como pessoas e nações se comportarão; entender como funciona o mundo social (descobrindo relações causais); e aprender a controlar os eventos. Aqui chegamos ao ponto do planejamento cultural! Para sermos capazes de planejar práticas efetivas, devemos entender como funcionam e o laboratório nos dá uma importante base para isso. Os analistas do comportamento podem ainda não ser capazes de realizar um planejamento cultural conforme se depreende da obra skinneriana “Ciência e Comportamento Humano”: “propor uma mudança em prática cultural, fazer a mudança e aceitar o mudado” (p. 464, 2003), mas, sem dúvidas, estão sendo dados os primeiros passos rumo a esta direção.

Bibliografia:

Andreozzi, T. C. (2009). Regras de controle tecnológico e de controle cerimonial: efeitos sobre práticas culturais de microssociedades experimentais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Baia, F. H. (2008). Microssociedades no Laboratório: o efeito de conseqüências ambientais externas sobre as contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos culturais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Bullerjhann, P. B. (2009). Análogos experimentais de evolução cultural: o efeito das consequências culturais. Dissertação de Mestrado. PUC-SP, São Paulo.

Caldas, R. A. (2009). Análogos experimentais de seleção e extinção de metacontingências. Dissertação de Mestrado. PUC-SP, São Paulo.

Costa, D. C. (2009). Dilema do prisioneiro: efeitos das consequências individuais e culturais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Gadelha, T. C. (2010). Evolução cultural em análogos experimentais de metacontingências: seleção de diferentes produtos agregados. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.

Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture and social change. The Behavior Analyst, 27 (2), 133-151.

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.

Harris, M. (1978). Vacas, porcos, guerras e bruxas: os enigmas da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 13-16.

Leite, F. L. (2009). Efeitos de instruções e história experimental sobre a transmissão de práticas de escolha em microculturas de laboratório. Dissertação de Mestrado. UFPA, Belém.

Lopes (2010). Um análogo experimental de uma prática cultural: efeitos de um produto agregado contingente, mas não contíguo, sobre uma contingência de reforçamento entrelaçada. Dissertação de Mestrado. UFPA, Belém.

Martone, R. C. (2008). Efeitos de conseqüências externas e de mudanças na constituição do grupo sobre a distribuição dos ganhos em uma metacontingência experimental. Tese de Doutorado. Universidade de Brasília, Brasília.

Nogueira, C. P. V. (2009). Seleção de diferentes culturantes no Dilema do Prisioneiro: efeito da interação entre a cosequência cultural, escolhas simultâneas e a comunicação. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Nogueira, E. (2010). De macrocontingências à metacontingências no jogo Dilema dos Comuns. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Oda, L. V. (2009). Investigação das interações verbais em um análogo experimental de metacontingência. 2009. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.

Selltiz, C., Wrightsman, L., & Cook, S. (1987). Explorando o mundo social. In: Kidder, L. H. (Org.). Métodos de Pesquisa nas Relações Sociais (vol. 1, ed. 4, pp.1-10). EPU: São Paulo.

Silva, N. C. S. (2011). Custo da resposta no jogo Dilema dos Comuns: análogo experimental de macrocontingências. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Skinner, B. F. (2003) Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes. 

Vichi, C. (2004). Igualdade ou desigualdade em pequeno grupo: Um análogo experimental de manipulação de uma prática cultural. Dissertação de Mestrado, PUC – SP, São Paulo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quem são os Anonymous e como podemos analisar funcionalmente suas práticas?

Texto elaborado em conjunto por Elayne Esmeraldo Nogueira e Esequias Neto




Quem são os Anonymous? Esta é a pergunta que tem tirado o sono do governo e da mídia nos últimos meses. Vários ataques a sites oficiais, sites de grandes empresas de mídia e de instituições financeiras tem sido atribuídos ao coletivo, que cada vez mais, vem ganhando a simpatia popular. Embora poucos saibam do que realmente estamos falando quando nos referimos a eles, uma coisa é certa: os Anonymous entraram para a história.

Este texto propõe uma visão analítico-comportamental das práticas dos Anonymous, e, porque não, da prática cultural “Anonymous”, partindo de uma análise skinneriana do contexto social em que vivemos e do surgimento desse grupo! Para isso, vamos começar falando das práticas culturais e das Agências de Controle na visão analítico-comportamental.

Skinner e as agências de controle

Skinner (1987) afirma que os grandes problemas sociais são fruto de práticas culturais de alguns grupos que são mantidas por consequências a curto prazo, mas que, a longo prazo, são desastrosas para um grupo maior de pessoas. Para a resolução desses problemas, o autor explica que, muitas vezes, propõe-se uma “conscientização”, ou seja, mostrar às pessoas que consequências seus comportamentos estão gerando. No entanto, muitas vezes a estratégia não é eficaz, pois quando se mostram as consequências contingentes aos comportamentos, elas já o controlam por uma história de reforçamento. O que dificulta ainda mais a mudança, é que quando se propõe agir de outra forma, os novos reforçadores ainda não estão presentes para controlar o novo comportamento.

O autor lembra ainda que, para seguir conselhos e sugestões de mudanças de comportamento, uma pessoa tem que ter em seu repertório o comportamento de seguir regras. Além disso, os conselhos oferecidos acerca de problemas sociais são descrições de consequências relativamente distantes da emissão de comportamentos, o que diminui a probabilidade de serem seguidos. Ressalta também que determinados comportamentos são ainda mais difíceis de serem modificados, pois embora apresentem consequências punitivas a longo prazo, no momento, são mantidas por consequências reforçadoras.

Dessa forma, Skinner (1987) propõe que sejam arranjadas contingências imediatas para controlar a emissão desses comportamentos. Ressalta que frequentemente isso é realizado pelas discussões éticas em nossa cultura, e alguns comportamentos que seriam naturalmente reforçados, passam a ser punidos socialmente, ao serem denominados de “vergonhosos”. Nesse sentido, Skinner sugere que os estudiosos do comportamento humano desenvolvam trabalhos que tornem capaz a predição e o controle dos comportamentos de pessoas em grupo, a fim de serem desenvolvidas soluções para os problemas sociais.

Skinner (1953/2003) dedica metade das sessões de seu livro Ciência e Comportamento Humano ao comportamento de pessoas em grupo, sendo uma delas destinada à questão das agências controladoras, que, segundo ele, são o governo, a religião, a psicoterapia, o controle econômico e a educação. Para o autor, essas agências controlam o comportamento humano de um modo especial, pois frequentemente são grupos mais organizados que o restante da população, exercendo sobre ela o poder de reforçar ou punir seus comportamentos. Em suas palavras:
“Uma agência controladora, juntamente com os indivíduos que controla, constitui um sistema social, (...) e nossa tarefa é dar conta do comportamento de todos os participantes. Dever-se-á identificar os indivíduos que compõem a agência e explicar porque têm o poder de manipular as variáveis que a agência emprega. E também analisar o efeito geral no controlado, e mostrar como isso leva à retroação reforçadora que explica a continuação da existência da agência.” (Skinner, 2006, p. 365).
Skinner (1953/2003) afirma que um dos grupos mais obviamente interessados no controle do comportamento humano são as agências governamentais. Historicamente, os governos agem de forma a aumentar ou diminuir a frequência dos comportamentos dos governados, criando teorias e princípios que justifiquem tal prática. O autor propõe a análise dos processos comportamentais pelos quais o governo exerce esse controle. Para isso, torna-se necessário o estudo e a análise do comportamento do governado e como esse comportamento mantém o controle por parte do governo.

Skinner traz que uma das principais formas de controle do comportamento humano por parte do governo é  se utilizando da punição, logo, uma vez que um grupo de pessoas esteja no poder, provavelmente, vai se utilizar da punição para aí se manter. É interessante notar que o uso da punição por parte do governo é uma técnica que se mantém há muito tempo, mesmo que o grupo que está nessa posição mude, posto que o que mantém o uso dessa técnica é comportamento dos governados. O efeito da punição é o de enfraquecimento dos comportamentos considerados inadequados para o governo. Dessa forma, o governo pune e seu comportamento de punir é reforçado positivamente pelo comportamento da população.

Diante do que foi apresentado, é possível observar que o controle exercido pelo governo em nossa sociedade é semelhante ao que descreve Skinner, apesar de sua descrição ter sido realizada na década de 50. A maioria dos atos governamentais visa uma diminuição dos comportamentos realizados em massa pela população. As greves e manifestações muitas vezes são enfrentadas pela polícia com o objetivo de dispersão popular. Outra prática relativamente comum aos governos é a extinção dos comportamentos populacionais de lutar pela resolução dos problemas. É possível observar, por exemplo que um sentimento de desilusão vem crescendo nas pessoas. As nossas formas de lutar não são consideradas, as nossas manifestações contra os atos governamentais não são ouvidas. Talvez, pelo que disse Skinner (1953): o governo e as outras agências de controle “(...) são geralmente mais bem organizadas que o grupo como um todo e, frequentemente, operam com maior sucesso”. Nesse sentido, é preciso que a população seja organizada para emitir o que Skinner denominou de contracontrole, que será exposto a seguir.


Contracontrole diante do controle exercido

Skinner (1953, 1974) adverte que o uso da punição ocasiona uma série de efeitos colaterais, como a eliciação de respostas emocionais, diminuição de outros comportamentos e o fato do comportamento punido muitas vezes só diminuir na presença do punidor. O autor chama a atenção ainda para um efeito colateral em especial: o contracontrole. O contracontrole é o comportamento do organismo de tentar escapar ao controle quando está sendo utilizada a coerção. Nas palavras de Skinner (1985)
“Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador – pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo; apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando – ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole” (Skinner, 1974)
Diante disso, como analisar o comportamento do governo nos últimos anos e o surgimento dos Anonymous?

Anonymous como contracontrole



Segundo os próprios ativistas que se denominam Anonymous, seu objetivo é lutar contra a corrupção e contra o controle governamental e social que ferem os direitos humanos ou que causem sofrimento e dificuldades à maior parte da população mundial. De acordo com um vídeo¹ disponível no youtube, denominado o que são os anonymous e qual seu plano, 22 mil crianças morrem por dia devido à pobreza, situação que atinge 1 bilhão de pessoas no mundo. Paralelamente a isso, o armamento mundial cresce assustadoramente e foram gastos quase 1,6 trilhões de dólares em 2010, representando um crescimento de 50% desde 2001.

Para os Anonymous, as agências de controle "Governo", em todo o mundo, são responsáveis por esses dados. E é contra essas agências e seus atos que tentam lutar. Dessa forma, não é difícil comparar os anonymous ao conceito de contracontrole da Análise do Comportamento. Os primeiros ativistas inspiraram-se no filme “V de vingança” que traz uma célebre frase: “O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo.”. O povo teme seu governo devido ao controle aversivo. Mas o governo é que deve temer seu povo, que tem o poder de contracontrole.

Os anonymous são famosos midiaticamente por hackearem sites do governo, entretanto, nem todos os atos que lhe são atribuídos são de sua autoria. Segundo os ativistas, quaisquer atos que venham a prejudicar uma massa trabalhadora fogem a seus objetivos e ideais. Os sites hackeados do governo cuja autoria é reivindicada pelos anonymous tem o objetivo de chamar a atenção da população para a corrupção e outros atos governamentais relacionados ao órgão responsável pelo site. Como exemplo desses sites, temos os ataques em 2010 às empresas de cartão de crédito, quando, na ocasião, essas empresas haviam bloqueado um site que divulgava informações comprometedoras do governo americano. Outro exemplo são os recentes ataques aos bancos brasileiros, cujo objetivo foi chamar atenção das pessoas aos cortes orçamentários e a corrupção em nosso país. Um outro exemplo das ações dos Anonymous no Brasil, foram os ataques realizados aos sites dos governos da Bahia e do Rio de Janeiro em apoio a greve dos policiais militares e bombeiros.

Entretanto, os anonymous não podem ser considerados simplesmente um grupo de hackers. Os ataques mencionados acima não constituem a maior parte de suas manifestações, apenas são as mais divulgadas pela mídia. As manifestações em prol da chamada “primavera árabe” tiveram grande apoio dos ativistas. Em nosso país, houve o apoio a diversas passeatas e protestos em diversos estados e cidades. Uma rápida busca no youtube com as palavras “Passeatas Anonymous” traz vídeos de vários destes protestos, que ao contrário do que aconteceu nos países árabes e no Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, não reuniu uma grande quantidade de pessoas. Aparentemente os Anonymous brasileiros não estão no mesmo ritmo dos americanos e europeus, que com ataques mais efetivos, tem promovido mudanças mais práticas na sociedade e gerado efeitos mais significativos em relação à mobilização social.

Há ainda um site criado pelos Anonymous brasileiros, o CorrupçãoLeaks, que foi desenvolvido com o objetivo de facilitar a denúncia de corrupção em nosso país. De acordo com os ativistas Hackers que coordenam o site, as denúncias devem ser enviadas junto a algum tipo de evidência ou prova que garanta a sua veracidade, para então, membros ligados aos Anonymous ou jornalistas parceiros possam investigar e tornar públicas as denúncias. O site está em plena atividade e várias investigações já estão sendo realizadas.

Nas ações mencionadas, é possível observar que os comportamentos dos anonymous podem ser analisados como contracontrole aos diversos controles exercidos pelos governos nos diferentes países. Tratam-se de tentativas de escapar ao controle aversivo e chamar a atenção da população à coerção presente em nossa sociedade. Nesse sentido, parece mesmo que os ativistas conhecem a visão de Skinner sobre o controle, que nos chamou a atenção de que quanto maior a organização e o número de pessoas de um grupo, maior é o seu poder. No caso dos anonymous, quanto maior for o número de pessoas reunidas sob esses ideais e quanto maior for sua organização, maior será sua capacidade de contracontrolar o governo.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Pensando a corrupção como prática cultural

Olá leitores do comporte-se! O post de hoje é sobre um tema que muito me interessa, ainda mais se for para relacioná-lo à Análise do Comportamento: a corrupção! Cito, de início, meus alunos que fizeram um ótimo seminário acerca do tema, Costa e cols. (em citação oral, 17 de dezembro de 2011), e me deram inspiração para escrevê-lo para vocês hoje.


Primeiramente, é preciso definir o que é exatamente essa palavra tão debatida no Brasil e infelizmente tão presente quando o assunto é política.


De acordo com o site mundoeducação.com, corrupção vem do latim corruptus, que significaria quebrar em pedaços. O verbo corromper significaria tornar pútrido. Assim, ser corrupto pode significar “quebrar” o poder pra obter vantagens de forma ilícita, ou seja, agir contra a lei para benefício próprio. Ao analisar a origem da palavra, é possível observar que a corrupção poderia estar presente em atos corriqueiros dos brasileiros, como imprimir textos pessoais nos locais que trabalhamos sem o conhecimento da chefia ou mesmo ao passar à frente em uma fila. Essas práticas de se beneficiar ilicitamente por meio de favores encontram respaldo na denominada cordialidade, conceito definido por Buarque de Holanda (1936) como sendo parte da personalidade do brasileiro, que em linhas gerais, pode ser entendida como o tratamento privilegiado aos amigos e conhecidos. A cordialidade está vinculada ao conceito de patrimonialismo, existente desde os primórdios da história do Brasil, em que predomina a ideia de que as relações estabelecidas em âmbito privado se estendem ao domínio público.


Geralmente, entretanto, essa palavra é muito mais usada para designar ações de políticos que cometem crimes de desvios de dinheiro público ou outras formas de ganho de dinheiro ilícito. Talvez porque assumir que nossos atos corriqueiros sejam comportamentos de corrupção seja aversivo demais, o que ocasionaria o comportamento de fuga, que seria o de só denominar corrupção quando o ato está relacionado a atos políticos. Ou talvez porque o controle exercido pela corrupção política é muito grande. Vejamos por que:

Skinner fala em prática cultural em 1953, definindo-a como uma prática de grupo que produz um efeito sobre ele modificando o comportamento individual dos seus membros. Assim, a configuração de uma prática cultural está na repetição dos comportamentos por um determinado grupo e no efeito em comum que mantém esses comportamentos. A corrupção, a partir do apresentado no parágrafo acima, pode ser definida como uma prática cultural.
Essa prática vem ganhando bastante atenção dos brasileiros. Nos feriados nacionais de Independência e Proclamação da República de 2011, houve marchas contra a corrupção política em várias capitais do Brasil. Recentemente, começou uma minissérie global que apresenta a história de um presidente que luta contra as irregularidades na vida política do país. A nossa presidente atual vem ganhando popularidade pela forma como vem lidando com as denúncias de corrupção em seus ministérios. Há algum tempo que já não se aceitam práticas ilícitas de conseguir um “emprego” nas repartições públicas sem que isso seja motivo para repercussões populares de insatisfação.

Contracontrole, de acordo com Skinner (1953) é o ato de um indivíduo ou um grupo controlado se opor ao controle e escapar dele, seja por meio de comportamentos de fuga ou por comportamentos punitivos, como forma de diminuir o controle. Assim, contracontrole seria qualquer comportamento por parte do controlado que venha a reduzir o controle aversivo. Quando há estimulação aversiva, quaisquer desses comportamento são reforçados. Nesse sentido, as tentativas dos brasileiros de conhecer o que é corrupção, ser contra essas práticas e pedir uma maior fiscalização, podem ser compreendidas a partir da noção de contracontrole.

Skinner (1953) afirma ainda que o controle é mais poderoso quando realizado por duas ou mais pessoas que manipulam variáveis que produzem um efeito em comum sobre o comportamento. Ao dissertar acerca da agência controladora do governo, esse autor deixa claro que esse seria um controle poderoso, por ser realizado por um grupo de pessoas que estão no governo. Poder-se-ia falar ainda de contingências comportamentais entrelaçadas em alguns casos divulgados pela mídia em que há um grupo agindo conjuntamente para desvios de dinheiro. Ou seja, o comportamento de um poderia servir de ambiente pro comportamento do outro produzindo o ganho do grupo com o dinheiro ilícito.

Ora, se o controle aversivo das práticas de corrupção de um governo é mais forte porque é realizado a partir de um entrelaçamento de comportamentos, a população brasileira unindo-se como vem fazendo já há algum tempo, é capaz de produzir um contracontrole eficaz e diminuir a prática cultural da corrupção. Assim foi a lei da ficha limpa, lei que impediria a candidatura de políticos condenados por um tribunal. E assim estão sendo as marchas contra a corrupção. Fica aqui o ensejo de que nossas práticas de contracontrole à corrupção se desenvolvam ainda mais.