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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Respondendo comentários: Prof. José Antônio Damásio Abib


Há algumas semanas foi publicada aqui a entrevista exclusiva dada pelo Prof. José Antônio Damásio Abib ao Comporte-se durante o V Encontro Maringaense de Análise do Comportamento (leia aqui). Instigados pelas questões trazidas na entrevista, alguns leitores enviaram comentários e questionamentos, que foram prontamente respondidos pelo professor. Confira os principais abaixo:


Natalie Brito: 

"Excelente entrevista! O senhor poderia comentar sobre as possibilidades aproximação metodológica da análise do comportamento com outras formas de produção do conhecimento? 

Por exemplo, vejo que pesquisadores de linhas críticas de pensamento nas ciências sociais e humanas têm produzido pesquisas interessantíssimas sobre o "tempo". Como você vê a possibilidade de a análise do comportamento produzir pesquisas nessa área?"

Abib:


Agradeço-lhe por pergunta tão significativa! Alguns filósofos chegam a dizer que o tempo é a questão metafísica fundamental. Concordo com eles e acredito que a análise do comportamento pode contribuir para enriquecer a reflexão e a pesquisa sobre o tempo. 


Antes de tudo sua pergunta coloca-nos diante do desafio da interpretação. Com essa menção, gostaria de lembrar que, em About behaviorism, Skinner declarou que a análise do comportamento é interpretação. Isso significa dizer que a análise do comportamento é uma hermenêutica (desenvolvi essa concepção de Skinner no texto Behaviorismo radical e interpretação, publicado em Sobre Comportamento e Cognição, 2003, v. 11, pp. 57-65). Portanto, o que direi, aqui, sobre o tempo inspira-se nessa verve hermenêutica da análise do comportamento. 

A análise do comportamento pode dizer algo sobre o tempo porque a filosofia dessa análise, o comportamentalismo radical, é um contextualismo, e a metáfora raiz do contextualismo é o evento histórico. Podemos iniciar esse exame observando que Skinner distingue entre o organismo (que seria o resultado da seleção natural, e objeto de estudo da fisiologia); o self (que seria o resultado da evolução cultural, e objeto de estudo da antropologia); e a pessoa (que seria o resultado do condicionamento operante, e objeto de estudo da análise do comportamento). A seleção natural, a evolução cultural e o condicionamento operante têm temporalidades distintas. Que é mais longa na seleção natural do que na evolução cultural e mais longa nessa última do que no condicionamento operante. 

A temporalidade no condicionamento operante (o condicionamento que constitui a pessoa) difere a depender de se a ótica é moderna ou pós-moderna. De uma perspectiva moderna, a pessoa, ou as máscaras, as personas (ser mãe, ser médico, ser professor, etc.) têm uma temporalidade maior ou menor, mas em todos os casos é menor do que a temporalidade da pessoa que estaria sempre presente por trás das máscaras, e que apareceria quando todas elas fossem retiradas, um rosto que se desvelaria com a retirada das máscaras. De uma perspectiva pós-moderna, a pessoa por trás da máscara também seria uma máscara. É bem nesse sentido que Skinner escreve: “Pessoa é derivada da palavra para máscaras através das quais os atores falavam seus versos no teatro Grego e Romano. Uma máscara identificava o papel que o ator estava desempenhando; ela marcava-lhe como um caráter. Usando diferentes máscaras, ele podia desempenhar diferentes papéis. Contingências de reforço operante têm certamente efeitos similares” (Recente issues in the analysis of behavior, 1989, p. 28, meus grifos). 

Eu gostaria de ressaltar que não há nesse trecho de Skinner qualquer referência a uma pessoa sempre presente por trás das máscaras, a um rosto, que se desvelaria com a remoção das máscaras. Mas se pessoa e máscara são assim tão próximos, é melhor dizer que só existem pessoas ou rostos. Só existem pessoas diferentes ou rostos diferentes. Somos um caleidoscópio de rostos diferentes. Somos temporalidades diferentes. Alguns rostos duram mais do que outros, giramos o caleidoscópio com velocidades e ritmos diferentes. As histórias de reforço das pessoas que somos são diferentes. Podemos escolher as pessoas que queremos ser. E podemos esculpi-las prolongando por mais tempo uma história de reforço e por menos tempo outras histórias.





Pedro Sampaio: 


"Não acho que a crença no progresso da humanidade com base na ciência seja algo a ser abandonado. O idealismo excessivo, esse sim tipicamente moderno, fruto do deslumbrado das conquistas científicas, deve ser abandonado. A palavra "progresso" também é problemática e bastante relativa, mas se por ele entendemos que progresso seria encontrar maneiras menos dispendiosas de recursos naturais para conseguirmos nossas coisas, planejar e efetuar ações de modo a produzir menos mal-estar e mais bem-estar (como o trânsito, a poluição do ar, menor desigualdade social, mais oportunidades de acesso à cultura, etc.), maneiras mais eficazes de conseguir algo (como de fato conseguimos tratar bem fobias sociais, transtornos ansiosos, TOCs, ensinar uma independência antes inimaginável a portadores de atrasos de desenvolvimento diversos, entre infinitos outros) e também descrições de mundo que permitam compreendermos, prevermos e agir sobre nossos objetos de estudo (como a seleção natural permitiu uma compreensão diferente da diversidade da vida, como a mecânica quântica supriu algumas lacunas da mecânica clássica, etc.), AÍ SIM - ufa! - acho legítimo acreditarmos em progresso pela ciência.

A ciência pode não ser, sozinha, o tetrapharmakos da humanidade, mas até então não há razões para desacreditarmos que ela é o melhor que tem para conseguir o que almejamos, seja lá o que for. 

A desconfiança com relação à ciência é sempre legítima - e mais, é científica - , mas o excesso é fruto de compreensões ingênuas sobre o que vem a ser ciência, principalmente a partir de pensadores por vezes chamados de "pós-modernos", como alguns que o Abib inclusive recomenda. É curioso que a análise do comportamento permita que o Abib veja o problema deles em relação à psicologia, rejeitando, por exemplo, um dos maiores ídolos pós-modernos: Lacan. Mas exatamente o que Lacan é a para a psicologia, esses são para outras áreas e o cerne do erro é o mesmo. 

O erro é tomar espantalhos do que quer criticar como a coisa de fato, derrubar esse espantalho e acreditar estar atacando bem o que o espantalho representa (uma falacia conhecida e cerne do pensamento pós-moderno). Um exemplo é a própria visão de ciência e o uso de expressões que acabaram virando inócuos adjetivos morais, como taxar algo de "positivista", "reducionista", "cientificista" e outros, sem saber muito bem a que estão se referindo. Da mesma forma, apropriar-se de conceitos de outras áreas, que eles nem seus leitores compreendem bem, para extrapola-los indevidamente na tentativa de justificar suas teses, frequentemente absurdas. Algo que Lacan fazia com a topologia e linguística, e que hoje é feito com mais frequência com a mecânica quântica. 

Há muito pouco a se ganhar na leitura dos "pós-modernos". Pode-se ganhar com relação à demonstração da ciência como fenômeno social e agência de controle (como demonstra Latour e outros), a circularidade política e quem de fato tem poder nela (como aponta Bourdieu e outros), a arte e literatura como parte de um saber científico (como coloca Deleuze e outros), entre algumas outras (poucas) coisas. Com toda essa parte da fala do Abib eu concordo e acho importante a Análise do Comportamento debater mais isso. Mas tudo isso também já foi apontado, estudado e debatido por pensadores que não são "pós-modernos". Inclusive feito de maneira MUITO melhor. 

Não é em vão que só existem três locais em todo o mundo onde essa corrente de pensadores tem influência e é considerada relevante: na França, na Argentina e no Brasil. Nada coincidentemente, os mesmos países onde ainda sobrevive a psicanálise. Isso se deve à influência da INTELLIGENTSIA francesa na academia brasileira."

Abib:


Penso que há somente um aspecto desse texto que se relaciona com a entrevista que concedi a Esequias Neto. Antes de apreciá-lo gostaria de apontar alguns equívocos e vaguezas que atravessam esse texto. 


Em primeiro lugar, transcrevo esta afirmação: “A desconfiança com relação à ciência é sempre legítima – e mais, é científica -, mas o excesso é fruto de compreensões ingênuas sobre o que vem a ser ciência, principalmente a partir de pensadores por vezes chamados de “pós-modernos”, como alguns que o Abib inclusive recomenda” (meu grifo). Minhas referências à ciência foram a filósofos da ciência, como Popper, Kuhn, Feyerabend, Lakatos, Morin. Logo, deveria ser explicado em que sentido esses filósofos têm uma visão ingênua da ciência. Tampouco me referi à ciência com base em autores pós-modernos e, muito menos, principalmente a partir deles (não que a ciência não possa ser avaliada criticamente sob a ótica do pensamento pós-moderno, mas não é esse o meu foco na entrevista). Tampouco se diz quais são os autores pós-modernos que eu teria recomendado em minhas referências à ciência. Observe-se também que a palavra “excesso” é usada sem qualquer explicação. Devemos simplesmente acreditar que há “excesso” porque está dito que há “excesso”. 

Em segundo lugar, transcrevo esta afirmação: “É curioso que a análise do comportamento permita que o Abib veja o problema deles rejeitando, por exemplo, um dos maiores ídolos pós-modernos: Lacan”. Embora não se saiba precisamente o que significa a expressão, “o problema deles”, a referência ao nome de Lacan é de todo improcedente. Pois não há qualquer evidência na entrevista de que eu esteja rejeitando o pensamento de Lacan. Nem também de que o esteja aceitando. Trata-se de um comentário gratuito. 

Em terceiro lugar, o texto dedica-se a acusar Lacan e autores pós-modernos, atribuindo-lhes visões equivocadas sobre a ciência, deslocando, mais uma vez, a discussão sobre a ciência para a esfera dos pós-modernos, e ignorando, mais uma vez, o debate no contexto da filosofia da ciência. Por fim, refere-se a outros autores que teriam analisado “MUITO melhor” temas correlatos; mas mantém sua coerência: mais uma vez, não explica suas afirmações, não explica em que consiste esse “MUITO melhor”. Devemos simplesmente acreditar que é “MUITO melhor” porque está dito que é “MUITO melhor”. 

O aspecto desse texto que se relaciona com a entrevista refere-se ao progresso da ciência. Evidentemente, negar os benefícios da ciência no curso da história do Ocidente seria obscurantismo. Não se trata de fechar os olhos ao óbvio. Mas destacá-los seria ocioso. Trata-se, isto sim, de mostrar os resultados da metanarrativa iluminista, dessa história universal, que, como toda história universal, parece fadada ao fracasso. E o que foi que fracassou na filosofia da história iluminista? A crença na emancipação da humanidade com base no desenvolvimento da razão e da ciência. Essa crença, esteio do pensamento moderno, significa que o desenvolvimento da razão e da ciência libertaria o homem da pobreza, da miséria e da injustiça social. Entretanto, o filósofo francês Jean-François Lyotard (1986/1987) assinalou que foi o desenvolvimento da razão e da ciência, e não a sua ausência, que possibilitou guerras mundiais, totalitarismos, a riqueza do Norte e a pobreza do Sul, o neo-analfabetismo, a desculturação produzida pela crise da escola, o desemprego, o despotismo da opinião e dos preconceitos reproduzidos pela mídia e o subdesenvolvimento. Diz Lyotard que a esse desenvolvimento “já não ousamos chamar-lhe progresso” (p. 115). Mencionei em Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano (2001) que o filósofo alemão Theodor Adorno, não só inquiriu sobre o que poderia ser a educação após Auschwitz, mas que também defendeu a necessidade inadiável de modificar as condições que conduzem à barbárie. Nesse mesmo texto escrevi que Lyotard declarou que “depois de Theodor Adorno, usei o termo ‘Auschwitz’ para significar quanto a matéria da história ocidental recente parece inconsistente relativamente ao projeto ‘moderno’ de emancipação da humanidade” (p.112). Cabe ressaltar ainda que é nesse mesmo sentido que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma, no seu livro Modernidade e Holocausto, que o Holocausto não foi, como frequentemente se pensa, um ato irracional de extermínio, mas, ao contrário, um fruto da racionalidade e da ciência moderna. E, por fim, cabe salientar que, na atualidade, os vínculos da ciência estão tão arraigados com o neoliberalismo que ela se transformou em tecnociência: uma ciência que não é mais alimentada pelos mistérios do mundo, mas, isto sim, uma ciência cevada pela tecnologia, pela indústria capitalista, e pela sociedade de consumo.





Rodrigo César:


"Excelente entrevista, embora curta. Senti falta de perguntas sobre a teoria da equivalência de estímulos, uma vez que o Abib não a considera uma teoria condizente com a epistemologia do Behaviorismo Radical. Teria sido interessante tb perguntá-lo sobre a questão determinismo vs indeterminismo dentro do BR, já que ele foi orientador tanto da Carolina Laurenti (defensora do indeterminismo), quanto do Alexandre Dittrich (defensor do determinismo). Pena o Neto não ter aberto um tópico para o povo formular perguntas para o Abib..."


Abib:



Agradeço-lhe por suas indagações sobre assuntos tão complexos. 


1. Para sondar a eventual relação da teoria de equivalência de estímulos com o comportamentalismo radical o modus operandi é similar ao que sugeri com vistas a indagar a possível relação, seja da psicoterapia analítico-funcional, ou da terapia de aceitação e compromisso, com o comportamentalismo radical. É necessário verificar, não só se a teoria de equivalência de estímulos é solidária com o conceito de radicalização do comportamento, mas também se é possível aproximá-la do comportamentalismo radical nas esferas da ontologia, epistemologia e antropologia. 

2. Com relação à questão do determinismo versus indeterminismo no comportamentalismo radical, eu diria que o texto de Skinner fornece evidências suficientes para ambas as leituras. Eu gostaria de lembrar que Skinner foi um psicólogo conectado com o seu tempo, tendo escrito ao longo de seis décadas, bastante atento à recepção de sua obra, como pode ser verificado nas respostas que endereçou aos seus críticos, não só em About behaviorism, mas também em The Behavioral and Brain Science (1984). Uma vida criativa, como foi a dele, em um contexto intelectual intenso, como o do século XX, com debates tão variados, travados com seus críticos, é natural e auspicioso que possa ser lido sob óticas filosóficas diversas.   Para complicar as coisas, tensões filosóficas não podem ser solucionadas no âmbito da pesquisa empírica. Filosofias envolvem concepções de mundo, visões de homem, teorias do conhecimento, filosofias morais, etc. Os critérios de decisão e escolha buscam sua luz na ontologia, antropologia, epistemologia e ética. Fazemos perguntas como, ‘qual é a concepção de mundo’, ‘de homem’, ‘de conhecimento’, ‘de ação moral’, desta filosofia ou daquela outra? A hora das decisões e escolhas chega após tais indagações. E, penso, há um elemento pessoal ineliminável envolvido em toda escolha filosófica. Que vem à tona quando nos perguntamos se estamos ou não de acordo com essa ou aquela concepção de mundo, homem, conhecimento, ética. 

Em tempo: orientei a dissertação de mestrado de Carolina Laurenti. Sua tese de doutorado foi orientada pelo filósofo, Prof. Dr. Mark Julian Richter Cass, do Departamento de Filosofia da UFSCar. Participei da banca examinadora da tese de doutorado de Carolina.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Teoria dos Quadros Relacionais

Alguns comentários são marcantes na nossa vida acadêmica. Lembro-me de várias vezes ter escutado de uma professora que nós não conseguíamos reconhecer algo como diferente. Sempre atribuímos algum valor, como melhor ou pior àquilo. Nunca, simplesmente, diferente. Por mais que essa proposição fizesse sentido, apenas recentemente pude pensá-la baseada em uma perspectiva estritamente comportamental: a Teoria dos Quadros Relacionais, sobre a qual vou falar um pouco a respeito.

A Teoria dos Quadros Relacionais, do original Relational Frame Theory (RFT) foi proposta por Steven Hayes em 1980 para o estudo da linguagem e cognição humanas (Bleckledge, 2003). Ela se baseia nos estudos de Sidman sobre Equivalência de Estímulos (Bleckledge, 2003; Luciano, Gutíerrez & Páez-Blarrina, 2006).

A RFT possui três propriedades que a definem: implicação mútua, implicação combinatória e transformação de função (Luciano, Gutíerrez & Páez-Blarrina, 2006). A primeira delas, a implicação mútua, refere-se a relações que possuem uma bidirecionalidade (se A – B[1], então B – A). A segunda, implicação combinatória, refere-se à derivação de uma relação oriunda de duas relações anteriores que compartilham um de seus termos (se A – B e B – C, logo A – C). A última propriedade, transformação de função, estabelece que um estímulo pode mudar de função de acordo com um outro estímulo ao qual está relacionado pelas implicações mútua ou combinatória. Por exemplo, quando uma fruta A é relacionada à outra fruta qualquer B como melhor ou pior:

Já provou mexerica? Não? É muito melhor que laranja!


No exemplo acima, se antes mexerica não possuía nenhuma função específica, após a sua participação na relação verbal citada, ela pode ter suas funções transformadas – ainda que nunca tenha sido provada. A partir dessa relação, o ouvinte pode emitir comportamentos de ir ao supermercado, comprar a fruta ou pedir que alguém a compre, dentre outros.

A partir dessas três propriedades, em especial a última, é possível ampliar o conhecimento sobre a emergência de novos comportamentos, em especial compreender por que é possível para os seres humanos responderem a um estímulo com base em outro, mesmo sem treino prévio, ou seja, sem história prévia de reforçamento.

Dentre as relações possíveis entre estímulos, a RFT prevê 9 - coordenação, oposição, distinção, comparação, hierarquia, espacial, temporal, condicionada/causalidade, deítica. São relações como “igual/diferente que”, “melhor/pior que”, “maior/menor que”, “acima/abaixo de”, “mais/menos que”, dentre outros (Moreira, Todorov & Nanini, 2006).

O estabelecimento dessas relações é fruto de uma extensa história de aprendizagem relacional que vem desde a primeira infância, na qual inúmeros estímulos são relacionados de inúmeras maneiras – começando por objetos, formas geométricas, até as sílabas sem sentido, as palavras escritas, dentre outros. De início, ocorre com relação a características formais, que podem ser ouvidas, cheiradas, provadas, vistas ou sentidas. A partir de inúmeros treinos, é possível responder a propriedades não formais, ou seja, arbitrárias. Por exemplo:

(01) Qual é maior?



(02) Qual é maior?



Perguntar qual é maior frente a figura 01 levará a uma resposta baseada em uma propriedade formal – tamanho –, enquanto que fazer a mesma pergunta frente a figura 02 conduzirá a uma resposta baseada em propriedades arbitrárias, treinadas por uma comunidade específica. Este é o chamado “enquadramento relacional”[2]. O responder não arbitrário não precisa de quadros relacionais porque reside nas propriedades formais – características físicas. A arbitrariedade precisa dos quadros para que a pessoa seja capaz de responder corretamente quando em um contexto particular.

Segundo a RFT, os humanos respondem arbitrariamente baseados em pistas contextuais para fazê-lo. Estas pistas especificam as relações relevantes e as funções a serem relacionadas num quadro relacional (Gross & Fox, 2009). Não é toda relação arbitrária que é reforçada: dizer, por exemplo, que um tablet é maior que uma TV 32’, baseada em valor, aparentemente não faz sentido. A comunidade sócio-verbal só reforça certas propriedades arbitrárias de estímulo e em um contexto apropriado. 

Com o tempo, uma ampla variedade de estímulos podem ser relacionados arbitrariamente, construindo um mundo complexo, de inúmeras relações arbitrárias e não-arbitrárias. Uma vez que se aprende a relacionar arbitrariamente, o processo passa a acontecer constante e despercebidamente (Bleckledge, 2003; Luciano, Gutíerrez & Páez-Blarrina, 2006).

Apesar de seus benefícios, é possível que esse processo saia do controle se as relações estabelecidas forem inadequadas, provocando um responder disfuncional. Retomando o exemplo do início deste ensaio: o discurso geral, e reforçado pela comunidade, é da comparação melhor/pior – em geral arbitrárias – ao invés de diferente. E esta ocorre de tantas formas e com tanta frequência que se torna imperceptível. Fica impossível pensar em quantos estímulos já foram alterados, sem que nunca tenhamos tido contato, baseados unicamente em relações verbais. Como Luciano (2010) coloca, “as vezes, nossa possibilidade de comparar é muito útil, e outras provoca pensamentos que não queremos” e, posso acrescentar, atitudes que não queremos – o que servirão de discussão para as próximas postagens.


[1] Lê-se A “está relacionado a” B, já que a RFT prevê vários tipos de relações, além da relação de igualdade (mais frequente). Isso se aplica às outras expressões.
[2] A metáfora de um “quadro” é usada para enfatizar a ideia de que esse tipo de responder pode envolver qualquer forma de estímulo, assim como uma moldura pode conter qualquer quadro (Hayes & Fox, 2001 apud Gross & Fox, 2009).


REFERENCIAS

BLACKLEDGE, J. T. An Introduction to Relational Frame Theory: Basics and Applications. The Behaavior Analyst Today, vol. 3, 2003.

GROSS, A. C., FOX, E. J. Relational Frame Theory: An Overview of the Controversy. The Analysis of Verbal Behavior, nº 25, 2009.

LUCIANO, C. Condición humana y felicidad: hechos y palabras. Lección inaugural curso Universidad Almería, 2010.

LUCIANO, C., GUTIÉRREZ, O. PÁEZ-BLARRINA, M., Avances desde la Terapia de Aceptación y Compromiso (ACT). EduPsykhé, vol. 5, nº. 2, 2006.

MOREIRA, M. B., TODOROV, J. C., NANINI, L. E. G. Algumas considerações sobre o responder relacional. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol. 8, nº 2, 2006.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

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"A vida é cheia de imperfeições. Mas, em vez de sair por aí tentando consertar cada uma delas, a verdadeira sabedoria consiste em encontrar um balanço saudável entre a resignação e a mudança, entre a aceitação e o comprometimento. A aceitação nos poupa das batalhas perdidas. O comprometimento nos convida a buscar, desde já, a construção de uma vida em conformidade com nossos objetivos mais elevados." 

¹ESTÊVÃO BITTAR é psicólogo pela UFU e mestre em comportamento pela UFJF. Atua como terapeuta e palestrante, além de apresentador do programa de TV Pensando Bem.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O caso Megaupload: um exemplo de contracontroles múltiplos.



Texto elaborado em conjunto com Renata Pinheiro!

Nas últimas semanas um acontecimento mudou algumas ferramentas da internet: as autoridades dos Estados Unidos retiraram do ar o site de compartilhamento de arquivos Megaupload e 18 sites afiliados.

O Comporte-se resolveu articular a notícia aos conceitos de coerção e contracontrole, propostos por Skinner (1953, 1974) e Sidman (1995), como forma de facilitar sua compreensão.
Sidman (1995) se refere à coerção como o uso ou ameaça da punição, ou, ainda, a “prática de recompensar pessoas deixando-as escapar de nossas punições e ameaças”, o reforçamento negativo. Skinner (1953) conceitua essas práticas de controle aversivo, pois gera repulsa e afastamento. De acordo com Sidman (1995) a coerção envolve três subcategorias de controle aversivo: a punição positiva, a punição negativa e o reforço negativo.

Segundo Skinner (1953), o ato de punir um comportamento envolve atos que tenham como objetivo diminuir a frequência dele e pode ser feita pela inserção de um estímulo aversivo no ambiente – no caso da punição positiva – ou pela retirada de um estímulo reforçador não-contingente do ambiente – no caso da punição negativa. O reforço negativo pode ocasionar surpresa ao ser relacionado à coerção, mas o conceito de reforço negativo está intimamente ligado ao conceito de punição, pois refere-se ao aumento da frequência de um comportamento por meio da retirada de um estímulo aversivo do ambiente. Assim, quando há a presença de um estímulo aversivo ou de uma prática coercitiva em um ambiente, geralmente se encontram também comportamentos de fuga ou esquiva.

Sidman (1995), em seu livro Coerção e suas implicações, afirma que a prática coercitiva é a prática dominante não só na sociedade, como chamou a atenção Skinner (1953), mas na própria natureza. O nosso corpo produz toxinas ao comermos algo estragado, e essas toxinas, por sua vez, geram dores estomacais que deverão servir de ocasião para o comportamento de evitar alguns tipos de alimentos. Dessa forma, é possível observar que muitos dos nossos comportamentos estão relacionados ao controle coercitivo, o que pode servir como base para entendermos porque o mesmo padrão é mantido em nossa sociedade.

Skinner (1953) discute e apresenta uma série de problemas envolvidos na prática da coerção. A punição é apresentada como uma técnica questionável, embora seja frequentemente utilizada. O autor ressalta que a punição tem o efeito imediato de supressão de um com portamento indesejável, o que acaba por reforçar o comportamento do agente punidor, o que implica no aumento das práticas punitivas. Além disso, o rápido efeito sobre o comportamento não é observado nas práticas reforçadoras, o que pode gerar uma falsa ilusão de vantagens na punição.

Falsa ilusão, porque, como advertiu Skinner (1953) e Sidman (1995), a punição ocasiona uma série de efeitos colaterais, como a eliciação de respostas emocionais, diminuição de outros comportamentos e o contracontrole – que será exposto a seguir -, além de que o comportamento punido, frequentemente, só diminui ou deixa de ocorrer na presença do punidor.

O contracontrole é o comportamento de escapar ao controle aversivo. Assim, há a presença desse fenômeno quando são observados comportamentos de pôr fim a um controle exercido por meio da coerção Nas palavras de Skinner:

“Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador – pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo; apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando – ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole” (Skinner, 1974, pág 164).



O caso do megaupload é um bom exemplo social e recente para falarmos de controle aversivo e contracontrole. O site permitia fazer download gratuitamente de diversos arquivos como músicas, filmes, vídeos, etc. Existia também a possibilidade de pagar uma quantia mensal e obter uma forma mais rápida de download de arquivos ilimitados. O fechamento dele foi só a última parte. A história é bem mais longa e traz um processo constante de controle aversivo e contracontrole, e iniciou muito antes da própria criação do Megaupload.

Fica impossível localizar o fio da meada, mas será inicialmente exposta a expansão da mídia de CD’s e do seu alto preço no mercado. Um cd continha em média 10 a 15 músicas e o seu preço era em média, 15 a 20 reais e, dependendo do CD, poderia ser até mais caro! Essa situação funcionou como um controle aversivo para a população, em especial a de baixa renda, que não dispunha de dinheiro suficiente para investir nessa tecnologia, e por isso ficava privada desse tipo de lazer.

E agora? Fica visível o exemplo de coerção nessa história?

Paralelamente a isso, havia o desenvolvimento da internet e dos sites com possibilidade de cópia e download de arquivos gratuitamente. Assim, houve o desenvolvimento da pirataria dos CD’s. No início de uma forma mais tímida, com a venda de CD’s gravados em casas e vendidos a um preço mais acessível à população. Entretanto, essa gravação foi se multiplicando, de forma que hoje não seria exagero afirmar que quase toda residência faça downloads de arquivos diariamente.

A pirataria de CD’s pode ser interpretada, dessa forma, como contracontrole: o modo como as pessoas encontraram de escapar do controle aversivo pelo alto preço dos CDs. Devido ao avanço da pirataria, gravadoras e lojas de CD’s e DVD’s passaram a perder muito dinheiro. De acordo com o que foi publicado nos jornais, as autoridades americanas afirmaram que só o site de compartilhamento Megaupload causou US$ 500 milhões em perdas dos direitos de propriedade intelectual das companhias. Ora, o nosso comportamento de fazer downloads, mantido pelo reforçamento negativo de não perder dinheiro funciona como punição negativa para as gravadoras de CD’s, ou seja, eles também estavam sob contingências aversivas.


Nesse contexto, o primeiro tipo de reação observada foi a queda dos preços dos CD’s, ocasionando, inclusive, o fechamento de algumas lojas. No entanto, o reforçamento de ouvir músicas gratuitamente em casa era eficaz e o comportamento do consumidor não sofreu grandes variações após a queda dos preços. Logo, outras medidas foram tomadas, como a criação de leis anti-pirataria e a repressão em defesa dos direitos autorais. Mais uma vez, a população manteve seu comportamento de contracontrole. A coerção ficou, então, mais forte. Houve o fechamento do Megaupload, citado no início, e a prisão de três envolvidos, entre eles o fundador do site, Kim Schmitz. Tudo isso ocorreu em meio a uma polêmica nos Estados Unidos sobre dois projetos de lei antipirataria, o Sopa (Stop Online Piracy Act), que corria na Câmara dos Representantes, e o Pipa (Protect Intelectual Property Act), que era debatido no Senado. Ora, essas reações repressivas podem ser interpretadas como resistência à extinção, uma vez que as coerções exercidas não estavam mais surtindo efeito, o comportamento coercitivo dos donos de gravadoras não obtinha reforço.

Frente a esses projetos, muitos sites se manifestaram, entre eles, o site Wikipédia, interrompendo seu acesso no dia 18 de janeiro, e o Google, mascarando sua logomarca. O protesto foi chamado pelos manifestantes de apagão ou blecaute – e por nós, de contracontrole. Outro comportamento com a mesma função foi emitido por um grupo de hackers dos Anonymous: eles bloquearam temporariamente o site do Departamento de Justiça americano, do FBI, da produtora Universal Music, entre outros, na noite de 19 de janeiro. De acordo com os hackers, foi o maior ataque já promovido pelo grupo, com mais de cinco mil pessoas ajudando. Além disso, houve um aumento considerável do uso da rede de compartilhamento de arquivos P2P (peer-to-peer), que permite troca de arquivos entre PCs conectados.

Ademais, usuários do Megaupload que ficaram sem acesso aos seus arquivos após o fechamento do site planejam processar o FBI. De acordo com eles, as pessoas que tinham arquivos pessoais hospedados no site não estavam infringindo as leis do direito autoral. Outros serviços semelhantes ao Megaupload também tomaram algumas medidas para tentar escapar do mesmo destino do concorrente: declarações mostrando diferenças entre os serviços em uma tentativa de se distanciar das acusações de atividades ilegais, até o bloqueio de compartilhamento de arquivos (confira lista aqui).

Diante disso, pode-se observar uma infinidade de contingências coercitivas aplicadas socialmente. Como destacou Skinner (1953, 1974, 1987), a nossa sociedade é permeada de controle aversivo, o que gera comportamentos de fuga e contracontrole, muitas vezes, também de forma coercitiva, como é possível observar na descrição desse vai-e-vem de contingências aversivas descritas acima.


Referências

Terra Notícias. Disponível em < http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5579378-EI12884,00-Fechamento+do+Megaupload+leva+a+aumento+da+rede+PP.html>. Acesso em 29/01/2012.

Sidman, M. (1995). Coerção e suas implicações. São Paulo: Livro Pleno, 2004.

Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. 15ª Ed. São Paulo: Editora Cultrix.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. 11ª Ed. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).

Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? in: Skinner, B. F. Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A utilização de metáforas como recurso terapêutico

A metáfora é uma figura de linguagem muito usada no nosso dia-a-dia. Com ela podemos nos comunicar ou expressar algo, comparando uma coisa à outra. Se é tão frequente no dia-a-dia, não podia fazer-se ausente no contexto clínico. Clientes e terapeutas levam a linguagem metafórica para dentro do consultório, utilizando-a para diversos fins, que vão além da simples comunicação. Neste capítulo, será abordada a utilização da metáfora na clínica, especificamente, como uma ferramenta que auxilia para os alcance dos objetivos terapêuticos.

Na literatura analítico-comportamental, é escassa a referência à utilização de metáforas como ferramenta terapêutica. Sua aplicação é mais relatada na clínica infantil (Gadelha & Menezes, 2004; Haber & Carmo, 2007), e na modalidade de intervenção conhecida como Terapia de Aceitação e Compromisso (Mairal, 2007; Saban, 2011).


Skinner discutiu sobre metáfora em seu livro Comportamento Verbal, referindo-se às extensões do tato[1]. Ele explica que uma pessoa pode responder a um estímulo com base em certas propriedades comuns a outros estímulos (Skinner, 1978). Como exemplo, ele dá a nomeação de “asas” de avião, controlada por uma sutil propriedade geométrica e funcional comum às asas de pássaros. Dessa forma, a utilização de metáforas seria a descrição ou inserção das palavras em um novo contexto, semelhante por algum aspecto ao contexto de uso habitual de tais palavras (Pergher & Dias, 2009).

A metáfora também é referenciada por Skinner como uma das formas pela qual as pessoas aprendem a descrever eventos privados. Segundo Skinner (1945, apud Pergher & Dias, 2009), estímulos públicos e estímulos privados podem compartilhar propriedades semelhantes. Assim, respostas verbais emitidas diante de estímulos públicos podem ser emitidas na presença de estímulos privados que guardem propriedades semelhantes (Pergher & Dias, 2009).

Um dos motivos que Skinner relaciona à utilização de metáforas é quando uma outra resposta não está disponível:

Numa situação nova, na qual nenhum termo genérico pode ser ampliado, o único comportamento eficaz pode ser metafórico. Temos, assim, que não precisamos querer para criar metáforas. Basta ocorrer a ausência de uma resposta verbal para descrever uma situação inédita e que as respostas verbais que aprendemos em outros contextos sejam usadas em contextos inéditos, que guardam propriedades semelhantes à situação original (Skinner, 1978).
Mesmo quando um tato não-ampliado se mostra disponível, a metáfora pode ter uma vantagem específica. Ela pode ser mais familiar e pode afetar o ouvinte de outras maneiras, particularmente despertando respostas emocionais (Skinner, 1978). Por esse motivo, Hüber (1999, apud Pergher & Colombini, 2010) consideram a metáfora como comportamento verbal mais efetivo, por afetar o ouvinte de forma especial, e levar ao surgimento de respostas emocionais.

Agora que ficou definido o conceito e algumas características das metáforas, passaremos para a sua utilização em contexto clínico. Na clínica infantil, Gadelha e Menezes (2004) escrevem sobre a utilização de estratégias lúdicas para o processo terapêutico, como metáforas, histórias, desenhos, bonecos, jogos de fantasias, interpretação e imaginação e outras atividades que, em geral, guardam um caráter metafórico.

Além de serem consideradas reforçadoras, o que contribui significativamente para o sucesso da relação terapêutica e a adesão ao tratamento, teriam uma série de outros benefícios, citados a seguir (Gadelha & Menezes, 2004):

- Contribuir para que a criança fale de si e de suas relações com pessoas dos ambientes em que está inserida;

- Contribuir para evocar comportamentos e sentimentos relevantes;

- Coletar informações que ajudem a identificar as variáveis de que seu comportamento é função;

- Identificar os conceitos e regras que governam seu comportamento;

- Aprender a analisar os seus comportamentos por meio da análise funcional;

- Modelar descrições apropriadas de sentimentos e respostas adequadas a situações extraterapêuticas similares;

- Treinar a solução de problemas cotidianos, desenvolver habilidades, trabalhar a autoconfiança, etc.
Dessa forma, essas atividades servem como recurso para avaliação e intervenção na clínica infantil, conforme Haber e Carmo (2007), pois o psicólogo pode planejar a intervenção com base nas informações colhidas, e intervir durante as atividades, levando a criança a discriminar os determinantes de seus comportamentos problemas e as possíveis alternativas, e também a pensar objetivos terapêuticos e estratégias de reforçamento compatíveis com cada idade.

Além da clínica com crianças, a utilização da linguagem metafórica vem sendo cada vez mais difundida na intervenção com adultos, em especial com ao avanço e difusão dos conhecimentos sobre a Terapia de Aceitação e Compromisso. Sua inserção pode ocorrer tanto por iniciativa tanto do cliente quanto do terapeuta.


A utilização de extensões metafóricas de tato pelo cliente pode ocorrer por vários motivos. Como já citado, uma das variáveis controladoras desse comportamento pode ser a ausência de resposta disponível para se referir a determinado estímulo. A utilização da linguagem metafórica também permite expressar, de maneira mais sintética, o controle que determinado evento exerce sobre o comportamento do cliente, sem que seja necessário longas descrições (Medeiros, 2002).

Além disso, recorrer à metáfora facilitaria, para o terapeuta, a inferência sobre pensamentos e sentimentos do cliente em relação a determinadas contingências (Haber & Carmo, 2007). Por ser mediada por emoções, as metáforas fornecem respostas mais diretas sobre os sentimentos do que os dados de uma entrevista (Hübner, 1999 apud Haber & Carmo, 2007). A partir de relatos como “Me sinto um barco à deriva”, é possível identificar sentimentos de indecisão, confusão, e a partir disso coletar informações iniciais.

Outra variável que Medeiros (2002) coloca é a possibilidade de que comportamentos que não possam ser descritos por tatos puros, por conta dos efeitos da punição, sejam relatados por metáfora. O cliente poderia se esquivar de descrever comportamentos que tem uma história de punição, seja para evitar um possível julgamento ou punição do terapeuta, seja para evitar os respondentes emocionais que o comportamento de lembrar e de relatar podem eliciar.

Da mesma maneira, o terapeuta pode intervir na própria metáfora emitida pelo cliente, exercendo um caráter muito menos aversivo que se atuasse nos tatos puros (Medeiros, 2002). Para isso, é fundamental que o terapeuta investigue as variáveis controladoras das extensões metafóricas de tatos, e que modele a expressão direta de sentimentos e pensamentos, diminuindo a frequência desses comportamentos, que podem ser, na maioria das vezes, um comportamento padrão de esquiva.

E quando o terapeuta for introduzir a metáfora no processo terapêutico? Quando fazer, como e para quê?

Para a autora deste ensaio, a metáfora pode [e deve] ser utilizada na terapia toda vez que o terapeuta desejar provocar uma mudança de perspectiva no cliente, fazendo-o ficar sob controle de estímulos os quais anteriormente não havia estabelecido nenhuma relação. O estabelecimento de novas relações e a discriminação de novos estímulos pode acarretar em uma mudança de comportamento no contexto trabalhado, e até permitir a generalização a outros contextos, objetivo final do processo.

Dessa forma, existe uma série de benefícios na utilização de metáforas como recurso terapêutico, muitos como os citados na clínica infantil. Um benefício fundamental é o de evocar comportamentos e sentimentos relevantes ao tratamento, os chamados CRB’s[2]. Outros incluem a contribuição para a descrição de eventos para análise funcional, o treinamento de discriminações, o estabelecimento de novas relações condicionadas, e a identificação de formas alternativas de modificar as contingências.

Para que esse recurso tenha a eficácia desejada, as metáforas utilizadas devem ter o máximo de relação com a história do cliente. É este quem deve fornecer os significados, identificando semelhanças e estabelecendo relações entre a metáfora e sua vida. O terapeuta pode questionar, tanto para instigar o estabelecimento dessa relação, quanto para esclarecer pontos obscuros ou omissões, além de incoerências no relato. 
As metáforas também podem ser bem utilizadas nas chamadas mensagens de motivação[3]. Segundo Costa (2011), sua utilização é fundamental especialmente nas etapas de devolução e intervenção, para “preparar” o cliente para as dificuldades que decorrem do processo terapêutico. Ela exemplifica com a metáfora do “quebra-cabeça gigante”:

Passar por esse processo [terapia] é como montar um quebra-cabeça gigante. Existirão momentos em que você vai encaixar as peças no lugar errado, vai precisar retirá-las e colocar outras no lugar. E isso faz parte do processo.

Observa-se que essa metáfora funciona como Operação Motivadora[4], diminuindo o valor aversivo de “erro”. É possível que esse seja mais um dos benefícios da utilização de metáforas. Para Hübner (1999, apud Haber & Carmo, 2007), a extensão metafórica é um operante verbal “carregado de emoção”. Em virtude desta característica, a metáfora é o comportamento verbal capaz de “tocar” o ouvinte de forma especial, levando ao surgimento de respostas emocionais.

Para que esses benefícios sejam bem estabelecidos, as metáforas devem ser utilizadas com o máximo de consciência possível. Ela deve ser bem elaborada ou escolhida com objetivos claros. Também é importante que o terapeuta planeje a intervenção de forma que ocorra a generalização dos comportamentos desejáveis para o maior número de ambientes, e que estas modificações se mantenham a longo prazo e sem efeitos colaterais (Haber & Carmo, 2007).

Uma modalidade de terapia em que a utilização de metáforas ocorre de forma organizada, planejada e sistemática é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)[5]. Nela, a metáfora é muito valorizada, tornando-se primordial para o alcance dos objetivos terapêuticos. De acordo com Saban (2011), a ACT se propõe a reduzir as formas danosas de controle verbal. Para isso, a prática clínica é permeada por uma linguagem pouco literal, para quebrar o domínio do comportamento verbal, afastando-o das racionalizações, e fazer da experiência o foco.

Hayes (1987, apud Mairal, 2007), fundador da ACT, levanta a hipótese de que regras, dependendo do contexto, poderiam gerar padrões de respostas que impediriam a pessoa de entrar em contato com as contingências em vigor respondendo de forma pouca efetiva. A partir desse pressuposto, a metáfora seria introduzida por não apresentar uma regra específica e nem possuir uma lógica racional:

A linguagem metafórica é útil à ACT por várias razões: primeiro, porque não é específico e nem prescreve nada concreto, portanto não deixa clara “uma regra a cumprir”, segundo, as metáforas são mais como pinturas e não tanto como discursos verbais lógicos e lineares, e terceiro, são facilmente lembradas e podem ser aplicadas em muitos contextos (Mairal, 2007).
As metáforas na ACT fazem parte de todo o processo terapêutico, e são selecionadas de acordo com os objetivos de cada etapa. Hayes, em seu manual de tratamento[6], estabelece as principais etapas da terapia e as metáforas mais eficazes de se utilizar[7]. Abaixo segue uma metáfora proposta para a primeira etapa, a desesperança criativa, cujo objetivo é fazer o cliente perceber que o que vêm tentando fazer (controlar/se esquivar dos eventos privados) não funciona em longo prazo.

Ruído do Microfone


Você sabe aquele som horrível que os microfones às vezes fazem? Isso acontece quando o microfone está posicionado muito perto do falante. Então, quando a pessoa no palco faz apenas um sonzinho, ele vai para o microfone; o som vem do amplificador do falante e volta para o microfone, um pouco mais alto do que da primeira vez, e com a velocidade do som e da eletricidade ele se torna cada vez mais alto até que em um segundo ele fica insuportavelmente alto. A sua luta com os seus pensamentos e sentimentos é parecida com este ruído. Então o que você faz? Você faz o que qualquer um de nós faria. Você tenta viver a sua vida (fale sussurrando) bem quieto, sempre sussurrando, andando nas pontas dos pés pelo palco, esperando que se você for muito, mas muito quieto mesmo não haverá o ruído. (Falando normalmente) Você mantém o volume baixo de inúmeras formas: drogas, álcool, evitando, se afastando, e assim por diante [Use itens que se encaixam na situação do cliente]. O problema é que está é uma horrível forma de se viver, sempre nas pontas dos pés. Você não pode de fato viver sem fazer barulho. Mas note que nesta metáfora, o problema não é a quantidade de barulho que você faz. O problema é o amplificador. Nosso trabalho aqui não é ajuda-lo a viver a sua vida quieto, livre de todo o desconforto emocional e dos pensamentos perturbadores. Nosso trabalho é achar o amplificador e tirá-lo de circuito (Hayes, Strosahl e Wilson, 1999 apud Saban, 2011).

Observa-se que, no decorrer da metáfora, o autor fornece instruções para a utilização – como se expressar, que elementos usar, etc. Também já estabelece a relação entre a metáfora e a vida do cliente: A sua luta com os seus pensamentos e sentimentos é parecida com este ruído. Outra característica importante da terapia, e que se evidencia na metáfora, é a promoção da aceitação de pensamentos e sentimentos aversivos. Apresentar para o cliente a ideia de que ele vem agindo de maneira ineficaz facilmente produziria sentimento de culpa, o que iria de encontro ao objetivo terapêutico, mas esta possibilidade é amenizada pelo trecho: “Você faz o que qualquer um de nós faria”.

Com este exemplo, fica evidente o leque de possibilidades que a utilização de metáforas, como recurso terapêutico, pode promover. No entanto, como toda técnica, esta também possui limitações. Para que seu uso não gere prejuízos, ao invés de benefícios, a recomendação principal é coletar o máximo de informações a respeito do cliente antes de sua utilização. Quem estou atendendo? Qual idade? Qual o grau de escolaridade? O contexto familiar promoveu a habilidade de tatear? Possui problemas de desenvolvimento ou aprendizagem?, dentre outros.

Um exemplo é a impossibilidade de se aplicar uma metáfora da complexidade da descrita acima a uma criança. Quanto menor a idade, mais simples as metáforas, e em geral acompanhadas de recursos lúdicos, como bonecos e brinquedos. Outra variável importante a ser considerada consiste na dificuldade que crianças com Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) e Transtorno do Espectro Autista têm com a utilização de metáforas (Leon, Siqueira, Parente & Bosa, 2007).

Deve-se ter cuidado também na utilização da linguagem metafórica com pessoas com algum tipo de diagnóstico psiquiátrico. Zamignani, Kovac e Vermes (2007), por exemplo, ao discutir sobre Acompanhamento Terapêutico, colocam a complexidade em trabalhar com essas pessoas restritas ao consultório pela dificuldade que possuem de generalização dos conteúdos aprendidos verbalmente nas sessões de terapia. Disto pode decorrer também dificuldade na compreensão e aplicação de metáforas e na sua possível generalização. Entretanto, essa relação ainda não é estabelecida na literatura, e essa dificuldade pode estar mais relacionada à história de vida do cliente do que propriamente ao “transtorno psiquiátrico”.

Considera-se também que o uso de uma linguagem metafórica deve ser mais cuidadoso em pessoas com baixo nível de escolaridade. Pergher e Dias (2009) sugerem que a dificuldade em elaborar tatos metafóricos decorra da história de vida em ambientes sem estimulação de descrições de estímulos ambientais (externos e internos), muito menos estabelecimento de relações entre propriedades desses estímulos, o que ocasionaria um baixo repertório descritivo e de auto-observação.

Cabe ressaltar que essas são recomendações de contextos em que a utilização da linguagem metafórica deve ser mais cuidadosa. Não há regras prontas, e nem tem como haver, dada a variedade de pessoas e padrões comportamentais existentes. Essas são questões que devem ser pensadas primordialmente pelo terapeuta envolvido, partindo de sua habilidade de discriminar os contextos em que o uso deste recurso poderá ser mais eficiente, e de sua relação terapêutica com o cliente.

Nota: A autora agradece a disponibilidade da professora Nazaré Costa em rever o trabalho, bem como a gentileza dos psicólogos Nicolau Pergher e Andréa Viana de indicar referências importantes para a construção do mesmo.

REFERÊNCIAS
Braga, G. L. B.; Vandenberghe, L. (2006). Abrangência e função da relação terapêutica na Terapia Comportamental. Estudos de Psicologia. Vol. 23, nº 3.

Costa, N. (2011). Comunicação pessoal. 24 nov. 2011.

Gadelha, Y. A. Menezes, I. N. (2004) Estratégias lúdicas na relação terapêutica com crianças na terapia comportamental. Univ. Ci. Saúde, Brasília. Vol. 2, nº. 1.

Haber, G. M., Carmo, J. S. (2007). O fantasiar como recurso na clínica comportamental infantil. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. IX, nº 1.Hayes 87

Hübner, M. (1999). As metáforas do comportamento verbal como recurso de análise. Rio de Janeiro, RJ: Programação dos Anais do IV Latini Dies, p. 12.

Leon, V. C.; Siqueira, M.; Parente, M. A.; Bosa, C. (2007). A especificidade da compreensão metafórica em crianças com autismo. Psico. Vol. 38, nº. 3.

Mairal, J. B. (2007). La terapia de aceptación y compromiso (ACT): Fundamentos, aplicación em el contexto clínico y áreas de desarrollo. Miscelánea Comillas: Revista de Ciencias Humanas y Sociales. Vol. 65, nº 127.

Medeiros, C.A. (2002). Comportamento verbal na Terapia Analítico-Comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. 4, nº. 2.

Meyer, S. B. Oshiro, C.; Donadone, J. C. Mayer, R. C. F. Starling, R. (2008). Subsídios da obra “Comportamento Verbal” de B. F. Skinner para a terapia analítico-comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. X, nº 1.

Miguel, C. F. (2000). O conceito de operação estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: teoria e pesquisa. Vol. 16, nº. 3.

Pergher, N. K.; Colombini, F. A. (2010). Revelações do Cliente em Sessões de Terapia: Discussões a partir de um Caso Clínico. Acta Comportamentalia. Vol. 18, nº 3.

Pergher, N.K.; Dias, M.A. (2009). O carteiro, o poeta e Skinner: um estudo sobre a metáfora. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 6(1), 1-14.

Saban, M. T. (2011). Introdução à terapia de aceitação e compromisso. Santo André: ESETec.

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo: Cultrix.

Zamignani, D. R.; Kovac, R.; Vermes, J. S. (2007). A clínica de portas abertas. Santo André: ESETec.

[1] Tatos são respostas verbais sob controle de estímulos do tipo não-verbal – objetos, eventos, etc. (Skinner, 1978).

[2] Comportamentos clinicamente relevantes (Clinically Relevant Behavior), os comportamentos-alvo da psicoterapia (Braga & Vandenberghe, 2006).

[3] Informações fornecidas por Nazaré Costa, em comunicação pessoal, 24 nov 2011.

[4] Estímulos ambientais que alteram a efetividade reforçadora ou punidora de um estímulo (Miguel, 2000).

[5] Sigla do inglês Accept (aceitar), Choose (eleger) e Take action (atuar), utilizada por Hayes para resumir os objetivos da terapia: promover a flexibilidade do cliente para aceitar os eventos privados incômodos, eleger valores a seguir e atuar mesmo com dúvidas e dificuldades (Mairal, 2007).

[6] Hayes, S. C.; Strosahl, K. D; Wilson, K. D. Acceptance and Commitment Therapy. Na Experimental Approach to Behavior Change. New York: Guilford. 1999.

[7] Ver síntese em Mairal (2007).