Mostrando postagens com marcador Guilherme Leugi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guilherme Leugi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 30 de março de 2012

Na prática a teoria é outra? ‒ Pensamento breve sobre a generalização de dados e a relação da teoria com a prática em Análise do Comportamento


Arranjos experimentais não são completamente generalizáveis às situações naturais, mas isso todo mundo sabe. O problema que isso causa, contudo, acerca de limites, usos e compreensão de uma teoria é algo um pouco mais problemático. Trata-se aqui da questão do fazer científico in loco: do trabalho do analista do comportamento e como este se relaciona a sua teoria ou princípios.

Há certamente um vácuo entre os dados produzidos em laboratório e os dados tratados em situações menos controladas, como no caso da clínica. Contudo, também é certo que a prática do analista do comportamento, seja ele clínico ou trabalhando em qualquer ambiente para intervenção, é orientada por sua teoria. E aqui está um bom problema para tentar lidar de modo epistemologicamente orientado: o balanceamento entre uma teoria de viés experimental e sua utilização em ambientes cujo controle é inviável ou tem sua viabilidade prejudicada em alguma medida.

Algumas incursões científicas programáticas [1] tem procurado lidar com este vácuo existente entre os dados produzidos na pesquisa básica e aquilo que é produzido na pesquisa aplicada ou mesmo na atuação profissional. É o caso, por exemplo, da concepção da Ciência Translacional que é, grosso modo, uma noção oriunda das ciências da saúde em geral que promove a produção intermediária entre o que é considerado básico e o considerado aplicado.

Ao passo que este tipo de empreendimento poderá caminhar na direção de diminuir a distância entre o que é produzido no âmbito profissional e aquilo que é produzido em laboratório por meio de pesquisa básica, questões concernentes à distância, e mesmo sua redução, ainda restam na construção da compreensão compartilhada entre acadêmicos e profissionais.

Uma das possíveis explicações para a diferença entre o que é feito pelos profissionais e o que é produzido em ciência básica é que ao longo do desenvolvimento da Psicologia (ou Análise do Comportamento) como atuação profissional e sua relação com o desenvolvimento da atividade de pesquisa no mesmo campo, é possível considerar que a atuação profissional começou “antes” que o conhecimento produzido nos laboratórios fosse generalizável em medida satisfatória: isto é, houve discrepância imediata entre o básico e o aplicado, sendo que o segundo iniciou um desenvolvimento autônomo, e profícuo, mas criando descompasso entre ambas as áreas. Skinner (1990), em sua última conferência, na ocasião do recebimento de sua Menção Honrosa da APA pela Notável Contribuição à Psicologia [2], afirma que o desenvolvimento da psicologia como profissão, como prática foi muito mais rápido que o desenvolvimento da psicologia como ciência. E isto então teria levado a construção de novas ciências, derivadas da prática (psicologia clínica, do desenvolvimento, p.ex.).

À parte a razão para a diferenciação das atividades de pesquisa básica e atividade profissional, a questão da diferenciação em si ainda aparece sobre a possibilidade de transposição de dados de um ambiente mais controlado a um ambiente mais natural ou, de mesmo modo, acerca da compreensão de fenômenos cotidianos pelos princípios da pesquisa experimentalmente orientada [3].

E, ainda, ao considerarmos que os corpos de conhecimento produzidos em ambas as atividades de produção de dados são diferentes abordagens sobre o mesmo tema, restam as dúvidas: onde reside a diferença entre os constructos? E, sendo constructos distintos, mesmo que convergentes, qual o caminho para unificá-los?

São características da Análise do Comportamento, dentre outras, sua construção histórica sobre as bases do empirismo e busca por princípios fundamentais simples e gerais acerca do comportamento humano. Neste sentido, portanto, é possível compreender que, havendo diferenças entre os constructos teórico e prático, esta divergência seria de aspecto nomológico (referente às leis, à explicação) e não ontológico (de natureza) [4].

Sendo encontradas diferenças explicativas e de variáveis entre os constructos, e garantindo então que não estamos tratando de diferenças ontológicas, o próximo passo seria a construção de uma relação lógica entre os enunciados constituintes das duas abordagens (básica a aplicada): uma vez que o fenômeno não divergiria, mas sim o acesso a ele em diferentes níveis explicativos [5]. E, levando em consideração a estrutura científica proposta por Ernest Nagel [6], por exemplo, poderia tratar-se de um processo de redução.

O processo de redução em ciência costuma ser alvo de críticas, chegando a ser considerado um problema em si mesmo, no sentido de que a redução seria degenerativa às teorias científicas. Com relação a este aspecto degenerativo, bastaria um exemplo para demonstrar que a redução é um processo válido, contínuo e que promoveu avanços ao longo da história. Ilustrativamente, portanto, é possível citar a redução da física Galilaica à Newtoniana. A segunda, sendo mais abrangente e generalizável, acabou por incorporar as leis da primeira. Note que este é um processo redutivo e sem perdas ou sem “supersimplificação” (crítica costumeira, e ingênua, aos processos de redução científica). E sim, redução pode significar expansão teórica. Afinal, a redução é uma questão relativa à lógica dos enunciados e não ao escopo compreensivo da ciência, como pode ser pensado no senso comum.

Assim, mantendo a perspectiva de Nagel para a análise desta questão, é razoável considerar que o processo de diálogo e transposição de teoria e prática (entendidas aqui como duas teorias autônomas) ocorreria por meio de uma redução homogênea. Redução homogênea, como no caso do exemplo da Física mencionado anteriormente, é, grosso modo, a situação em que uma teoria mais abrangente aparece e inclui a anterior. E esta inclusão ocorreria sem “conflito” teórico, uma vez que a teoria mais abrangente manteria os conceitos da teoria anterior e sem alteração de sentido. E, dessa maneira, o diálogo estaria preservado, a distância entre as interpretações laboratoriais e cotidianas diminuída, e ainda mantendo a elegância e plausibilidade teórica sem serem consideradas diferenças ontológicas entre os fenômenos [7].

Em suma, as variáveis consideradas no campo da produção de pesquisa básica são diferentes das variáveis consideradas na atuação profissional e prática, o que pode demandar procedimentos mais elaborados para a transposição teórica e/ou metodológica do que a simples comparação. Programas de pesquisa, como é caso daqueles que envolvem a concepção de Ciência Translacional podem ser um caminho profícuo para a superação desta distância conceitual e procedimental entre ambas. Mas, mais do que isso, considerando a atuação do psicólogo, é bastante relevante manter vivo o questionamento constante de qual a relação entre o que se faz e o que se produz na teoria. Afinal, se a prática está dissonante da teoria, mais do que constatar esta condição, faria parte do desenvolvimento da área a compreensão da diferença: seja para delimitar campos, seja para unifica-los.


_________
  1. Como um exemplo deste tipo de incursão, de relevância crescente, é possível destacar recente criação do National Center for Advancing Translational Sciences (NCATS), em 23 de dezembro do ano passado nos EUA.
  2. Recentemente mencionado em coluna do Comporte-se.
  3. Para um exemplo do tratamento deste tipo de questão em Análise do Comportamento, é possível destacar o trabalho recente: Baum, W. M. (2012) Rethinking reinforcement: allocation, induction, and contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 97, 101-124. (Disponível aqui)
  4. Uma boa parte do raciocínio presente deste momento em diante foi fruto da leitura, há pouco menos de um ano, de artigo mencionado adiante. Trata-se de uma análise do problema do Materialismo Eliminativo acerca das Neurociências em relação à Psicologia. Neste sentido, por considerar sua argumentação válida também para o caso aqui exposto, esta espécie de analogia tinha sido proposta e, na execução atual do texto, motivada também pelo aparecimento recente da proposição teórica de Baum, pareceu mais adequado ainda considerar estes aspectos de “fusão” teórica. O artigo: Araujo, S. F. (2011) O Materialismo Eliminativo e o problema ontológico da Psicologia. Revista Ética e Filosofia Política, 14, 1, 36-45.
  5. Novamente aqui, refiro-me ao texto de Baum (mencionado em 3, acima), que dá um exemplo de uma tentativa de unificação lógica entre os enunciados básico e aplicado. Não está em análise aqui a validade desta proposta de unificação específica, mas sim o processo em si.
  6. Ernest Nagel (1901 – 1985). Filósofo da ciência, comumente visto como integrante do movimento do Positivismo Lógico, escreveu, dentre outras obras, “The Structure of Science: Problems in the Logic of Scientific Explanation” (1961), onde relata as relações lógicas de reducionismo aqui mencionadas.
  7. Aqui estou fazendo referência mais uma vez ao texto de Baum (mencionado em 3, acima), que propõe a unificação das explicações moleculares (aproximadamente, as laboratoriais) e molares (aproximadamente, as cotidianas e de situações naturais), compreendendo que haja diferenças ontológicas entre elas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Abuse da a ignorância socrática, para si e para o outro.


Encontrar o limite para seu próprio conhecimento e concepções parece ser uma habilidade de grande importância para qualquer trabalho intelectual. O “só sei que nada sei” de Sócrates é muito mais famoso e veiculado do que sua real aplicação na estruturação de um pensamento quando estudamos sobre determinado assunto, seja na Psicologia ou em qualquer outra ciência. Arrisquei começar por aqui com um velho clichê filosófico, mas é por uma boa causa. Trata-se de tentar escrever um pouco acerca de uma proposta de posicionamento sobre o texto skinneriano mas é certo que serviria bem a outros.


Encontra-se aqui uma sugestão de modo de leitura. E este modo tem como aspecto principal certa despersonalização do texto: olhar para a obra independente do autor. Isso, não com o sentido de tentar buscar uma neutralidade utópica ao texto[1], mas sim de enfraquecer um pouco o argumento de autoridade costumeiramente presente quando é lido o texto de um fundador de linha de pensamento. É claro que textos clássicos, ou mesmo de grandes pesquisadores sempre merecem uma boa dose de confiança, mas exagerar nisso é contraproducente. Por que? Pela falta da análise integral do(s) argumento(s) implicado(s) nas afirmações destes textos.

Ao estudar um autor, neste caso Skinner, é comum referirmos ao texto como uma fonte de respostas a determinadas perguntas. Mas aí reside uma boa confusão, ou pelo menos algum desvio interpretativo. Skinner já havia nos dito[2], ao criticar o mentalismo, que o problema dessa abordagem é que acalma a curiosidade e paralisa a pesquisa. Mas o posicionamento skinneriano acerca do mentalismo[3] não é importante por agora. O problema aqui é quando promovemos esse tipo de paralisação com repetidas buscas por respostas na obra do autor.

Aqueles que se filiam a uma ou outra abordagem acabam resumindo o problema “a qual teoria da primeira metade do século XX vão aderir”[4], e, devidamente sindicalizados a um tipo de pensamento, recorrem aos textos fundamentais para encontrar as respostas para as dúvidas que aparecerem. E isto, mesmo considerando que o tipo de produção intelectual e científica de Skinner ofereça muito mais perguntas que respostas[4], este autor defendendo também a primazia das questões, desde que orientadas pelo pensamento científico, como profícua. Assim, considerando a Análise do Comportamento, é particularmente contraditório buscar respostas na obra skinneriana ao invés de orientações para que perguntas formular.

Outro complicador da busca por respostas nos textos de um autor é uma ascensão intelectual cronologicamente forçada. Uma interpretação de que o autor teria caminhado em uma trajetória uniforme na direção do que fosse correto. Neste sentido, algo que tenha sido dito em 1990 seria o ápice da lucidez e abrangência interpretativa versus uma provável imaturidade nos idos de 1935, por exemplo. Com isso é também necessário bastante cuidado. É evidente que um autor passa por um desenvolvimento, abandona e adota posicionamentos e tende a amadurecer e completar sua teoria ao longo de seu tempo de vida. Contudo, a simples cronologia dos conceitos não é suficiente para supor relações de contradição, contestação, ou evolução teórica. Ao estudar uma obra, cada parte relaciona-se ao todo e é sempre necessário ter uma razão científica ou filosófica para incluir uma determinada passagem ou raciocínio em alguma produção. O argumento deve então ser analisado, mais do que quem disse ou quando foi dito, salvo em casos de historiografia científica, é claro[5]. Um exemplo interessante é o das formulações iniciais acerca do “tipo II” de reflexo, posteriormente chamado de comportamento operante[6]. É patente que não se trata mais de considerar o comportamento operante como um tipo de reflexo, nos termos que estamos habituados. Essa caracterização inicial tem, decerto, data e ocasião e já foi abandonada. Mas o possível passo seguinte, de julgar essa primeira aparição conceitual como “superada”, sendo considerado apenas o aspecto cronológico, é dado então sobre um vão argumentativo. Qual a razão do abandono? Foi abandonado? O que foi mantido e o que está diferente? Por que há aspectos diferentes e por que há aspectos similares nas definições anteriores e subseqüentes? E uma das questões mais comumente esquecidas: será que não erramos mais adiante e deveríamos retomar algum aspecto anterior agora perdido?

Estas últimas questões são, evidentemente, provocações e não caberiam em um artigo científico particular que estude, por exemplo, adequação de variáveis em alfabetização . Mas nada nos impede de tentar tangenciá-las em nossos estudos a fim de formular um posicionamento mais crítico em relação a um autor ou obra de nosso interesse. E o posicionamento crítico é parte de um raciocínio produtivo. Afinal, quem senão o próprio estudioso da área para encontrar as falhas, os lapsos e as lacunas conceituais de sua ciência de um modo perspicaz e fecundo?

E a essa altura você pode estar se questionando o que o tal do “Só sei que nada sei” tem a ver com tudo isso. Ora, faz parte da criação do pensamento científico (tentar) desvencilhar-se de posicionamentos rígidos, de respostas pré-determinadas. É necessário saber dosar equilibradamente a certeza de princípios demonstrados e o confrontamento com estes mesmos princípios. Afinal, é possível conceber que a instabilidade e a dúvida, mais que a continuidade e a certeza, possam agir como motor da mudança de pensamento e do encontro de novas descobertas em relação ao mundo:

“A condição de coerência, por força da qual se exige que as hipóteses novas se ajustem a teorias aceitas, é desarrazoada, pois preserva a teoria mais antiga e não a melhor. Hipóteses que contradizem teorias bem assentadas proporcionam-nos evidência impossível de obter por outra forma. A proliferação de teorias é benéfica para a ciência, ao passo que a uniformidade lhe debilita o poder crítico”[7]

_____________
  1. O autor desta coluna tem consciência do tamanho do problema em que está entrando e por isso pede a indulgência do leitor. O posicionamento aqui não é ingênuo o suficiente para acreditar que a história pessoal do autor, sua época, o mundo em que ele vivia no momento da publicação não fazem diferença na construção de seu conhecimento. Contudo, este certamente é um tema longo e de tratamento mais difícil do que a oportunidade permite, sendo assunto para o futuro.
  2. Skinner, B. F. (1974). About Behaviorism. New York: Alfred A. Knopf.
  3. Que certamente é um grupo muito mais heterogêneo, fecundo e importante do que Skinner queria admitir. Mas, de novo, não é essa a questão nesse momento.
  4. De rose, J. C. (1999). O que é um Skinneriano? Uma reflexão sobre mestres, discípulos e influência intelectual. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 1 (1). 67-74.
  5. Existem várias maneiras de analisar uma obra, compreender certo posicionamento intelectual. Recomendo aqui a leitura de um artigo que define muito bem uma dessas maneiras: Abib, J. A. D. (1996) Epistemologia, transdisciplinaridade e método. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 12 (3), 219-229.
  6. Skinner, B. F. (1935). Two types of conditioned reflex and a pseudo type. Journal of General Psychology, 12, 66-77.
  7. Feyerabend, P. (1977) Contra o Método.(O. S. Mota & L. Hegenberg, Trads.) F. Alves, Rio de Janeiro. (trabalho original publicado em 1975).