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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Seguindo em direção à liberdade

Autor: Benjamin Schoendorff
Tradutora: Karollane Sapucaia (karolsapucaia@gmail.com)
Revisora: Juliane de Moraes Mayer (julianamayer@msn.com)

Eu quero começar esta coluna agradecendo ao Comporte-se por estender o convite para escrever em seu site. Espero que isto sirva como um estímulo discriminativo para que eu escreva regularmente. Eu comecei um blog em francês alguns anos atrás, mas como passei a escrever livros, deixei-o de lado.

Com esta coluna, meu objetivo é apresentar uma maneira de aplicar os princípios comportamentais da terceira onda à sua vida profissional e pessoal. Esta coluna será, assim, baseada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), uma das principais terapias comportamentais e cognitivas da terceira onda, mas também integrará princípios de outras abordagens cognitivas e comportamentais. Seu objetivo é ajudar a trazer mais liberdade a todas as áreas de sua vida através de um melhor reconhecimento dos comportamentos que o movem em direção à liberdade. Cada post terminará com um exercício que você poderá explorar e ver se faz alguma diferença para sua vida. Embora eu escreva para psicólogos, eu espero que seja útil para outros também, uma vez que ser útil é muito reforçador para mim.


B. F. Skinner, um dos psicólogos behavioristas mais influentes, pensou a liberdade como afastar-se do controle aversivo. Em "Para Além da Liberdade e Dignidade” (1972) ele escreveu: ”Quase todas as coisas vivas agem para libertar-se de contatos nocivos”. Mas isso apenas nos diz do que eles se afastam - aversivos. Tão importante quanto são as coisas para as quais quase todos os seres vivos seguem em direção - e estas podem ser chamadas de apetitivas.

O Behaviorismo tem como objetivo ser a ciência do comportamento humano. A ciência é um jogo que identifica os determinantes e as relações funcionais dos fenômenos estudados - em outras palavras o que controla os fenômenos. Assim, para o behaviorista, o comportamento livre de qualquer controle não pode ser parte da ciência. O Behaviorismo terá como objetivo olhar para o tipo de controle ao qual o comportamento se submete. A isso se segue que, em termos comportamentais, ser livre poderia ser pensado como ficar sob o controle das coisas às quais seguimos em direção ao invés de coisas de que nos afastamos. Em palavras mais técnicas, para o behaviorista, a liberdade é ficar sob o controle apetitivo.

Na vida, como na terapia, é importante saber do que estamos nos afastando, mas, se nosso objetivo é a liberdade, é ainda mais importante saber na direção do que estamos seguindo. Parece simples o bastante e todas as coisas vivas sabem instintivamente do que se afastar e do que se aproximar. Tire um tempo para observar um coelho em um campo e em breve você saberá o que é aversivo e o que é apetitivo para ele.

No entanto, quando se trata de nós, seres humanos, as coisas estão longe de ser tão simples quanto são para o nosso amigo peludo. Onde fica complicado é que nós não apenas nos movemos para perto e para longe das coisas, como cenouras gostosas ou lobos famintos, que podem ser percebidas com os nossos cinco sentidos no mundo lá fora. Nós também tentamos aproximar e afastar coisas que aparecem em nosso mundo interior, aspectos apetitivos ou aversivos de nossa experiência privada. Isto é o que Skinner chamou de a parte do universo que apenas uma pessoa pode observar. E quando nós, humanos verbalmente competentes, começamos a observar a parte do universo que só uma pessoa pode observar, coisas curiosas começam a acontecer.

Experiências interiores que foram relacionadas com experiências percebidas através dos nossos cinco sentidos começam a adquirir as mesmas funções que estas experiências no mundo lá fora. Assim, não só nos afastamos de predadores e outros perigos que percebemos através dos nossos cinco sentidos, nós também tentamos nos afastar da experiência interior evocada por esses perigos - sejam elas imagens, sentimentos ou pensamentos. De acordo com o modelo que fundamenta a terapia da aceitação e compromisso, esses esforços para se afastar da nossa experiência interior constituem uma das principais causas da psicopatologia, uma vez que essas ações podem facilmente desencorajar as ações que seguem em direção às coisas que são importantes para nós, resultando em uma vida que gradualmente se estreita e perde vitalidade e significado.

Mas as funções não apenas se transferem e transformam dos cinco sentidos para a experiência interior, elas também se transferem de experiência interior a experiência interior, nos incentivando a tentar nos afastar de pensamentos, como exemplo dos pensamentos de perigo, e de sentimentos como os 'maus' sentimentos, etc. Presos em um ciclo onde tentamos desesperadamente nos afastar de experiências interiores indesejadas, é assim que a vida pode estreitar-se rapidamente e se tornar limitada às ações dedicadas ao serviço de se afastar daquilo que não queremos sentir ou pensar. O truque aqui é que é ao mesmo tempo perfeitamente natural querer afastar-se da experiência indesejada, e potencialmente muito perigoso tentar afastar-se da experiência interior indesejada. Chamamos isso de armadilha da luta. Quando presos nessa armadilha, nos empenhamos em um grande número de ações cujo objetivo principal é afastar (ou modificar em algum sentido) a nossa experiência interior.

No entanto, quando olhamos para a parte do universo que somente uma pessoa pode ver, nós também vemos coisas que valem à pena se aproximar. Estas são as direções importantes nas quais gostaríamos de conduzir nossas vidas. Tecnicamente, elas são apetitivos construídos verbalmente. Na ACT, também os chamamos de valores. Os valores são aquelas coisas que são reforçadoras para nós quando nos movemos em direção a elas. Que ações representam aproximar-se do que é importante? Esse tipo de pergunta só pode ser respondida por cada um de nós pessoalmente, e no momento. Eu estou escrevendo esta postagem porque, para mim, é importante compartilhar esta abordagem que trouxe um significado muito rico à minha vida e a de meus clientes e estagiários. Eu também poderia estar fazendo isto sob controle de outras contingências (por exemplo, não me sentir culpado ou porque eu gosto de ver meu nome impresso), mas apenas uma pessoa pode dizer como eu me comprometi com aquela ação, e essa pessoa sou eu. Vou admitir que não me sentir culpado por parar de escrever no blog e gostar de ver meu nome impresso estão de certa forma presentes enquanto eu desempenho o comportamento de escrever neste blog. Ainda assim, eu escolho escrevê-lo a serviço do que é realmente importante para mim, que é fazer-me útil compartilhando esta abordagem. Da mesma forma, só você pode perceber quando você desempenha ações para buscar o que é importante para você, e quando as desempenha para afastar-se do que você não quer sentir ou pensar.

Para tornar-se mais livre, pode então tornar-se importante aprender a discriminar se agimos para nos afastar de experiências interiores indesejadas ou se agimos para nos aproximar do que é importante para nós.

Aqui está um exercício para os próximos sete dias: veja se você pode simplesmente observar as ações que faz para se afastar, e ações que faz para se aproximar. Se você gostar do exercício ou desejar explorá-lo mais profundamente, veja se você consegue manter anotações dessas ações, que pensamentos e emoções apareceram e como se sentiu ao fazê-las. Depois de ter feito isso, talvez você seja capaz de perceber que as ações que você executa para se aproximar do que é importante relacionam-se com um sentimento diferente em relação às ações que você executa para se afastar do que não quer sentir, mesmo quando essas ações fazem com que você se sinta melhor, como quando fazem uma sensação de desconforto temporariamente desaparecer. O que você terá aprendido a reconhecer é o gosto peculiar de liberdade, ou como se sente ao ficar sob controle apetitivo. Nem sempre se sente bem, mas sempre se sente livre.

A ACT é, portanto, uma abordagem que leva a liberdade muito a sério. Ela promove a nossa capacidade de identificar o que é importante e avançar em direção de nossos valores através de ações, enquanto percebemos que as ações envolvidas no serviço de afastar a experiência interior indesejada é o que nos impede de fazer o que nós escolheríamos livremente fazer caso não estivéssemos tentando fugir da nossa experiência interior.


Texto original em inglês.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Análise Comportamental da Hipnose de Palco

Adriano Facioli, autor do livro Hipnose: Fato ou Fraude (Editora Átomo, Campinas, 2006), gravou uma vídeo aula em que faz uma Análise Comportamental da Hipnose de Palco especialmente para os leitores do Comporte-se! Definindo e explicando o fenômeno em termos comportamentais, nosso convidado traz a tona a discussão do próprio Skinner sobre o assunto. 


Adriano Facioli possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1995), mestrado e doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília (1999 e 2003), e formação em Análise do Comportamento. Lecionou, em Brasília, na UNIP, UCB, Faculdade Alvorada e UniCEUB. Atualmente é psicólogo da Secretaria de Saúde do DF, atuando em psicologia hospitalar e CAPS; docente no curso de enfermagem da Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal; e docente no Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC). Tem experiência em psicologia clínica, atuando principalmente nos seguintes temas: psicopatologia, teoria e prática psicoterápica, processos psicólogicos básicos, história da psicologia, teorias e sistemas psicológicos, psicanálise, análise do comportamento, saúde mental, Psicologia e terapia intensiva, epistemologia, filosofia analítica, criatividade, hipnose e experiência estética.

Facioli é autor também dos livros “A ironia: considerações filosóficas e psicológicas” (Editora Juruá, Curitiba, 2010); "Psicanálise: da sexualidade à vida social" (Editora CRV, Curitiba, 2010) e "Inquilinos do além: crítica do senso comum, crônicas e textos marginais" (Editora LGE, Brasília, 2011). Conheça também seu blog Inquilinos do Além. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O Behaviorismo, a educação e a desinformação.

Autora: Ana Paula Cardoso Vichi 
Contato: paula.vichi@gmail.com

Durante minha trajetória no curso de Psicologia, tenho observado que é muito comum ouvir de profissionais e alunos de outras áreas, mas principalmente de Psicologia, críticas infundadas à Análise do Comportamento. Isso sempre me incomodou muito. O pior foi ouvir de um professor da área de ciências biológicas, que “a teoria de Skinner é ultrapassada”. Fiz questão de responder que a aplicação dessa “teoria ultrapassada” tem se mostrado útil para solucionar eficazmente os mais diversos problemas comportamentais, dentre eles o autismo. 

Tais equívocos possivelmente se relacionam a falta de informação ou acesso a informações errôneas sobre o Behaviorismo Radical, que são geralmente encontradas nos manuais de introdução à psicologia (cf. Cirino., Souza Jr., Lopes, Bessa-Oliveira & Horta, 2005; Jensen & Burguess, 1997), ou mesmo em outras fontes de diversas áreas dentro e fora da Psicologia. Tais erros têm persistido apesar das tentativas de analistas do comportamento diversos de corrigi-los. O próprio Skinner (1974) dedicou um livro todo (About Behaviorism) para responder 20 das principais críticas. Um dos lugares onde o behaviorismo tende a ser descrito de modo mais equivocado, é em meio à área de educação. 


França (1997) apontou diversos erros, frequentemente encontrados na área educacional, referentes ao behaviorismo radical. Dentre eles, que esta teoria: 1) seria uma abordagem estímulo-resposta; 2) estaria interessada em princípios gerais deixando de lado a subjetividade e a essência do homem; 3) seria capaz de só lidar com situações controladas em laboratório, não dando conta de fenômenos clínicos ou situações do “mundo real”; 4) possui uma visão reducionista e superficial de homem; 5) igualaria o homem aos outros animais; e 6) ignoraria os processos cognitivos e estados mentais, bem como processos inatos, desumanizando o homem, considerando-o um ser passivo, que simplesmente responde de forma automática a estímulos do ambiente. 

Não somente em livros, mas também em diversos artigos de psicologia, muitos dos quais publicados em periódicos de alta qualidade podem ser observadas várias críticas infundadas e preconceituosas, como por exemplo, a afirmação a seguir: 


“... na década de 70 tivemos uma forte influência do Behaviorismo, sobretudo em sua versão contemporânea, representada por Skinner e outros psicólogos americanos. Contextualizando essa afirmação, a década de 70 foi fortemente marcada pelo regime e ditadura militar. A escola, então, passa a ser compreendida como um pequeno ‘quartel’, onde os comportamentos deveriam ser modelados a partir de contingências de reforço. Controlando a relação entre Estímulo-Resposta-Reforço/Punição, poderíamos dar conta do processo de aprendizagem, no qual o conhecimento passaria a ser concebido como uma cópia do real. Essa perspectiva promoveu mudanças radicais na Educação, instituindo o tão conhecido – e – criticado ‘modelo tradicional de educação’ não mais nos moldes ‘tradicionais’ antigos, no qual o professor era percebido como um tutor e o processo centrava-se nele, mas a partir de uma perspectiva tecnicista” (Correia, Lima & Araújo, 2001, p. 558).


As afirmações acima demonstram o preconceito e a falta de conhecimento sobre as teorias comportamentais que permeiam a área de educação. A crítica é aparentemente uma “opinião” sem fundamento, pois embora as mesmas tenham mencionado no texto algumas passagens sobre o Behaviorismo Radical, não consta em suas referências nenhuma obra de Skinner, nem mesmo artigos sobre o Behaviorismo Radical ou Análise do Comportamento. 

Além disso, Correia, Lima e Araújo (2001), equiparam o Behaviorismo Radical a um contexto sociopolítico totalitário e, portanto, antidemocrático. Uma rápida consulta a principal obra de Skinner sobre educação revelaria o equivoco desta opinião: 

“Não só a educação, mas toda a cultura ocidental está se afastando de práticas aversivas. Não se pode preparar os jovens para um tipo de vida em instituições organizadas na base de princípios muito diferentes. A disciplina da vara de marmelo pode facilitar a aprendizagem, mas é preciso lembrar que também gera seguidores de ditadores e de revolucionários” (Skinner, 2003/1968. p. 57). 

Parece que muitas das críticas são embasadas pelas relações entre o behaviorismo de Skinner e a noção de controle do comportamento (sobretudo aversivo). Tal noção tem, do ponto de vista popular, uma conotação negativa, constituindo a antítese da liberdade (Skinner, 1971/2000). 


Skinner (1968/2003) defende a ideia de que a aprendizagem ocorre sob controle de algumas variáveis, que constituem as contingências de reforço. São elas: a ocasião em que o comportamento ocorre, a ação do sujeito e as suas consequências. Sendo assim, é possível que um indivíduo aprenda determinados comportamentos em dado ambiente de forma “natural”, mesmo que a ele nada tenha sido ensinado. Contudo, o ato de ensinar facilita a aprendizagem, de modo que o indivíduo que é ensinado aprende mais rapidamente do que aquele que não é. Isso demonstra a importância do ensino, uma vez que este acelera o processo de aprendizagem, possibilitando o surgimento de comportamentos que possivelmente não apareceriam ou levariam muito mais tempo para aparecer se não fosse por intermédio dele. Neste sentido, ensinar é arranjar contingências de reforço. 

Segundo a visão de Skinner (1968/2003) acerca do processo de aprendizagem, o aluno não é um ser passivo que absorve o conhecimento do ambiente que o cerca, mas desempenha um papel ativo. Pois a própria idéia de comportamento operante implica nesta noção, já que para que haja uma consequência reforçadora deve ter havido uma ação. 

Diante dessas considerações, podemos constatar que nem todo o tipo de controle é “maléfico” e “opressor”, e ignorar sua existência, não torna as pessoas “livres”. Ao contrário, abrir mão de planejar ou controlar condições de ensino/aprendizagem é deixar o controle nas mãos de outros ou do acaso. O controle pode e deve ser usado de modo mais eficaz e que promova sim a liberdade e a democracia. Segundo Skinner: 

“As técnicas aversivas podem não só ser substituídas, elas podem ser substituídas por técnicas muito melhores. As possibilidades devem ser cuidadosamente exploradas se quisermos construir um sistema educacional que vá ao encontro das necessidades atuais, sem sacrificar os princípios democráticos” (Skinner, 1968/2003, p. 58). 

Em relação ao termo “liberdade”, esse muitas vezes envolve questões de sentimentos, como se o sujeito se comportasse de determinada maneira porque quer, ou porque se sente bem. Ao olharmos dessa forma, deixamos de avaliar e questionar as contingências que mantém o sujeito se comportando de uma maneira e não de outra. Para Skinner (1971/2000, p. 36), “a liberdade é uma questão de contingências de reforço, e não dos sentimentos que as contingências geram”. 

Desse modo, podemos dizer então que o controle existe, mesmo em situações que não envolvem a presença de eventos aversivos. Muitas práticas sociais, fundamentais ao bem-estar da espécie, requerem algum tipo de controle do comportamento de um indivíduo sobre o comportamento de outro. A despeito disso a maioria dos indivíduos considera que o controle só existe em situações que produzem comportamentos de fuga e esquiva (Skinner, 1971/2000). 

Negar a existência do controle não o torna inexistente. Isso pode talvez trazer alguma sensação de bem estar, mas não modifica de fato a situação. Os indivíduos agem, não porque simplesmente querem ou gostam, mas porque determinadas contingências controlam as probabilidades da ocorrência de determinadas ações, seja através do controle aversivo ou não. 


Referências 

Cirino, S. D., Souza Jr., E. J., Lopes, M. G., Bessa-Oliveira, M., & Horta. R. G. (2005). A análise do comportamento em manuais de psicologia da personalidade. Em H. J. Guilardi & N. C. de Aguirre. Sobre comportamento e cognição Vol. 15: Expondo á variabilidade. (p. 443-452). Santo André: ESETec. 

Correia, M. F. B., Lima, A. P. B. & Araújo, C. R. (2001). As contribuições da psicologia cognitiva e a atuação do psicólogo no contexto escolar. Psicologia: reflexão e crítica, 14(3), 553-561. 

França, A. C. C. (1997). A análise comportamental aplicada à educação: um caso de deturpação acerca do pensamento de B. F. Skinner. Psicologia da educação, 5, 115-124. 

Jensen, R. & Burgess, H. (1997). Mythmaking: How introductory psychology texts present B. F. Skinner’s analysis of cognition. The Psychological Record, 47, 221-232. 

Skinner, B. F. (2003). The technology of teaching. Acton, Massachusetts, Copley Publishing Group. Originalmente publicado em 1968. 

Skinner, B. F. (1974). About Behaviorism. New York, Knopf. 

Skinner, B. F. (2000). Para além da liberdade e da dignidade. Trad. Joaquim Lourenço Duarte Peixoto. Lisboa, edições 70. Originalmente publicado em 1971.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Vida Eterna

Autor: Alexandre Dittrich*

Tenho mais perguntas do que respostas sobre a vida eterna. 

Se a biologia está certa e a distinção entre humanos e não-humanos é imprecisa, quem foi o primeiro humano candidato à vida eterna? E por que ele? 

E quanto ao último proto-humano? Ele apenas teve o azar de estar no lugar errado da fila? Talvez os não-humanos não precisem enfrentar o juízo final. Seria sorte, não azar. Um salvo-conduto. 

Se houver um julgamento final dos humanos, talvez o julgador precise do auxílio de uma junta de biólogos para decidir quem conta como “humano”. 


Os economistas dizem que a oferta e a escassez de um bem determinam seu valor. Se tivéssemos vida eterna, daríamos a ela o mesmo valor? 

“Produzimos a existência” (como diriam os marxistas) porque precisamos viver. Por que fazer isso na vida eterna? A existência estaria garantida. 

Precisaríamos trabalhar? Precisaríamos de bens? Acho que não. Viver não seria mais um problema, apenas um fato. Nada de fábricas, carros, casas, móveis, celulares, computadores... É difícil imaginar essas coisas na vida eterna. Só se a vida eterna for um recorte de um período específico da história humana. Mas se for assim, porque esse período? A eternidade não deveria ser atemporal? 

Ok, digamos que seja assim – entraremos para a eternidade nas mesmas condições em que estávamos aqui quando tudo terminar. Nosso momento presente, nosso estágio de desenvolvimento material e cultural, seja ele qual for, será transportado para a vida eterna, e será o ponto de partida do paraíso. Mas será também o ponto de chegada? Na vida eterna, talvez não haja mais história a ser feita, futuro a construir, perspectiva de um amanhã diferente. Nada de progresso, nada de transformação – o ontem será igual ao hoje. Não haveria pelo que lutar, não haveria motivos para trilhar novos caminhos, novas ideias seriam desnecessárias. Sem sonhos e sem perspectivas – seríamos felizes. 

Teríamos liberdade de escolha? Poderíamos fazer algo ruim, cometer um crime? Se sim, o paraíso está ameaçado. Se não, não seríamos livres. 

O que seria da arte? Nosso senso estético seria automaticamente convertido para uma versão paradisíaca, ensolarada, bem intencionada? Seria ainda permitido apreciar o dramático, o brutal, o erótico, o grotesco, o trágico, o leque completo e complexo da existência humana? 

Teríamos ciência? Duvido. Não haveria porque descobrir mais nada – a verdade estaria revelada. (E possivelmente não seria mais permitido “brincar de deus”, a não ser que o próprio não se ofendesse com isso.) A fé, enfim, venceria a razão. A capacidade de pensar, de questionar, de duvidar – tudo isso era, afinal, apenas um teste de fidelidade, um engano, uma vaidade. A maçã oferecida pela serpente. 

Algumas pessoas, pelos mais diversos motivos, não têm condições de escolher. Não pensam sobre o bem e o mal, o certo e o errado, a virtude e o pecado. Essas pessoas provavelmente já têm lugar garantido na vida eterna. 

Na vida eterna, não teremos a tristeza de ver morrer uma pessoa que amamos. Mas nascerão novas crianças? Se sim, elas provavelmente não serão julgadas por seus atos, pois já nascerão no paraíso. Sorte delas. 

Mas pode ser que não haja novos bebês. Criar e educar um filho não poderá mais fazer parte dos planos de ninguém. Deve haver outras coisas interessantes para fazer na vida eterna. 

Digamos que nasçam novos bebês. Eles crescerão? Se sim, até quando? Eles possivelmente não ficariam velhos ou doentes, e certamente não morreriam. Então, seriam eternamente bebês? Eternamente crianças? Eternamente adultos? Talvez seja difícil decidir a idade ideal para interromper seu crescimento. 

Crianças que morreram na Terra vão voltar a crescer quando estiverem no paraíso? Ou ficarão sempre iguais, com a mesma idade, o mesmo rosto, o mesmo corpo, o mesmo cérebro? 

Haverá sexo na vida eterna? Se sim, só após o casamento? Se houver casamentos, pelos menos alguns de nós terão que trabalhar – precisaríamos de padres, coroinhas, talvez uma banda de baile. 

Sexo seria só para reprodução? Só se novos bebês forem permitidos. Mas talvez na vida eterna as mulheres tenham filhos sem precisar de sexo. Diz-se por aí que há precedentes na história. Talvez isso vire um padrão. Todas as mulheres seriam esposas de um deus polígamo. 

Haverá homossexuais na vida eterna? LGBTs? Variedade sexual? Se sim, a vida eterna será tolerante, e os prazeres da carne existirão para sempre. Mas é bem possível que sexo deixe de ser algo relevante na vida eterna. Outros tempos, outra moral. 

Sexo só por prazer é uma idéia estranha na vida eterna. O sexo é um prazer finito, não dura para sempre. Na vida eterna, o prazer também seria eterno - nunca viraria dor, ausência, melancolia. Viveríamos todos em algum tipo de êxtase contínuo, invariável, interminável, inescapável. 

Na vida eterna não haverá privações – nem saciações. 

Muita gente já morreu, e uma boa parte dessas pessoas deverá ingressar na vida eterna. Algumas estimativas afirmam que mais de 100 bilhões de pessoas já viveram e morreram na Terra. É pouca gente, se lembrarmos que hoje somos 7 bilhões. De qualquer modo, excesso de gente possivelmente não será um problema na vida eterna. Deve haver bastante espaço por lá – ou nenhum. Comer e beber, ninguém precisaria. Por sorte, superamos isso. 

A perspectiva de não ter perspectivas é estranha. Aqui, na vida dos mortais, grande parte da graça está no perseguir – o desfrutar é bom, mas é só um descanso, uma parada para tomar fôlego e depois buscar alguma outra coisa. O prazer da conquista passa logo. Ninguém quer ficar na cama (ou na mesa, ou no banho) para sempre. Nada é bom por toda a eternidade. Vida que segue. 

Talvez o prazer e a felicidade, a dor e a tristeza, conforme sentimos na vida mortal, não existam na vida eterna. É muito difícil lidar com esses sentimentos – eles vão e vêm, são instáveis e inconstantes, dançam e variam, se transformam. Chega, isso não combina com o paraíso. Na vida eterna, seríamos apenas espíritos, almas, espectros, silêncios, não-matérias ou qualquer coisa assim. Entidades desprovidas de carne, desejos, sentimentos e emoções, contemplando serenamente a não-passagem de uma não-vida. 

Seríamos ainda nós? 

Até onde posso saber, eu existo aqui e agora – e pelo simples fato de existir, faço alguma diferença. Tudo o que faço transforma algo ou alguém, pode acreditar. 

Posso me eternizar fazendo o bem – ou fazendo o mal. Nem sempre sei a diferença. 

Não sou eterno, mas faço parte da eternidade. Sou eterno agora; sou eterno enquanto é tempo. 

Quanto ao momento de minha morte, sei que vai chegar. Acho que será um resultado natural de minha vida. É difícil prever. Isso me preocupa um pouco, mas não muito. Na maior parte do tempo, apenas vivo a vida. Tento ser feliz (não consigo evitar), e fico feliz quando vejo que contribuo para a felicidade de alguns outros. 

Se houver algo depois, estou curioso para ver. Se não houver, estou satisfeito em ser, agora e sempre, uma pequena parte da eternidade. 

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* O autor enviou o texto especialmente para publicação no Comporte-se: Psicologia Científica. 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Genes e Comportamento

Autor: Felipe L. Leite

As horas dentro do laboratório tendem a voar quando passeamos por blogs passar devagar quando nos enfurnamos em artigos e coletas de dados. Isso nos dá bastante tempo para reflexões, digamos, não ortodoxas sobre nosso campo de estudo. Na física dizem que uma forma de se avaliar uma teoria é levando ela ao extremo, às últimas consequências, ou meu termo favorito, ao ridículo. O vídeo abaixo, do John Clesse (ex-Monty Python) é um bom exemplo de como ridicularizar o pensamento científico de forma a tornar seu laboratório um lugar mais divertido de se viver (sim, pós-graduandos muitas vezes vivem em seus laboratórios), ao invés daquelas cavernas escuras repletas apenas de gráficos, artigos e pânico do prazo. O vídeo trata da influência dos genes sobre o comportamento. Agora você entenderá por que diabos foi assistir aquele filme horrível do Nicholas Cage mês passado, mesmo sabendo que este seria o caminho mais rápido para uma tentativa de, após a sessão de cinema, você experimentar se conseguiria voar pulando do terraço do shopping. Se divirtam!



quarta-feira, 18 de abril de 2012

Religiosidade e psicologia: nota de esclarecimento do CFP

Autor: Daniel Gontijo
Disponível em: http://danielgontijo.blogspot.com.br/2012/03/religiosidade-e-psicologia-nota-de.html#more

Ao que parece, estamos em um clima propício para acalorados debates. Recentemente, e para citar um caso que tem gerado grandes repercussões, o CFP tomou nota de que a psicóloga Marisa Lobo está, em alguns sítios virtuais, vinculando seu título de psicóloga ao domínio da religiosidade e se posicionando de forma preconceituosa para com a homossexualidade (que, aliás, não é doença). A despeito do que tem sido alegado, a questão elementar não é a de se a psicologia é realmente uma ciência -- e poderia negar, por isso, a absorção de práticas que não sejam cientificamente validadas -- ou a de se os psicólogos podem ou não ser livres para crer. Antes disso, trata-se da importância de se observar as diretrizes que, ao descrever normas de conduta do psicólogo, culminam na delimitação de um campo específico e legítimo de ação: o das das práticas do profissional de psicologia. Quando a psicoterapia se mistura com ideias e preceitos religiosos, surge um problema similar ao que é levantado pelos defensores da laicidade do Estado. E, se já não há referenciais que tragam -- através de teorias, métodos e resultados -- reconhecimento e identidade satisfatórios ao exercício da profissão, as coisas estariam longe de melhorar caso permitíssemos a entrada de búzios e cartas, bolas de cristal, leitura de mapas astrais e, por que não, aconselhamentos budistas ou cristãos aos consultórios. 

Diante disso, o CFP publicou uma nota de esclarecimento acerca das relações entre a psicologia e a religiosidade. A nota teve como pano de fundo as discussões atuais e como fundamentação o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Como o próprio conselho adiantou, ainda há muita água para rolar. Abaixo, trouxemos o pronunciamento do CFP na íntegra. 



28/02/2012 - Nota Pública do CFP de esclarecimento à sociedade e às(aos) psicólogas(os) sobre Psicologia e religiosidade no exercício profissional 

Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o “sagrado” pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com as quais trabalha. 

Assim, afirmamos o respeito às diferenças e às liberdades de expressão de todas as formas de religiosidade conforme garantidas na Constituição de 1988 e, justamente no intuito de valorizar a democracia e promover os direitos dos cidadãos à livre expressão da sua religiosidade, é que o Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o) orienta que os serviços de Psicologia devem ser realizados com base em técnicas fundamentados na ciência psicológica, e não em preceitos religiosos ou quaisquer outros alheios a esta profissão: 

Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos: 

c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional; 

Se as(o) psicólogas(o) exercerem a profissão declarando suas crenças religiosas e as impondo ao seu público estarão desrespeitando e ferindo o direito constitucional de liberdade de consciência e de crença. 

O Código de Ética Profissional das(o) Psicólogas(o) cita nos dois primeiros princípios fundamentais a necessidade de respeito à liberdade e a eliminação de quaisquer formas de discriminação, e no artigo 2º veda à(o) psicóloga(o) a indução não só de convicções religiosas, mas também de convicções filosóficas, morais, ideológicas e de orientação sexual, compreendendo a delicadeza e complexidade que o tema merece: 

Princípios Fundamentais 

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 

Art. 2º – À(o) psicóloga(o) é vedado: 

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; 

Esse Código de Ética em vigor foi construído a partir de múltiplos espaços de discussão sobre a ética da profissão, suas responsabilidades e compromissos com a promoção da cidadania. O processo ocorreu ao longo de três anos, em todo o país, com a participação direta das(os) psicólogas(os) e aberto à sociedade. Seu objetivo primordial é garantir que haja um mecanismo de proteção à sociedade e à profissão, no intuito de garantir o respeito às diferenças, aos direitos humanos e a afirmação dos princípios democráticos e constitucionais de um Estado laico. 

A profissão de psicóloga(o) foi regulamentada no Brasil pela Lei nº 4.119/1962 e a Lei nº 5.766/1971 criou a autarquia dos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia, destinados a orientar, a disciplinar e a fiscalizar o exercício da profissão de psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe. Entre as atribuições estabelecidas por essa lei ao Conselho Federal de Psicologia estão a de elaborar e aprovar o Código de Ética Profissional do Psicólogo e funcionar como tribunal superior de ética profissional, portanto atuar como instância de recurso aos processos julgados nos Conselhos Regionais. 

Cumprindo seu papel previsto na Lei 5.766/1971 de zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe, os Conselhos Regionais de Psicologia recebem e apuram as denúncias que chegam sobre o exercício profissional de psicólogas(os). Do julgamento do plenário do Conselho Regional, cabe recurso ao plenário do Conselho Federal de Psicologia. 

Qualquer cidadão pode oferecer denúncia contra o exercício profissional do(a) psicólogo(a), visto ser seu direito constitucional. Assim, as ações de orientação e fiscalização promovidas pelos conselhos profissionais no âmbito Regional são legítimas e não podem ser tomadas como perseguições ou cassações a qualquer direito. Todos os profissionais que exercem suas funções reconhecidas pelo Estado Democrático de Direito estão submetidos às legislações e Códigos de Ética dos seus respectivos Conselhos e, portanto, têm o dever de pautar sua atuação profissional nas legislações que disciplinam o exercício de sua profissão. 

A Psicologia como ciência e profissão pertence à sociedade, tendo teorias, técnicas e metodologias pesquisadas, reconhecidas e validadas por instâncias oficiais do campo da pesquisa e da regulação pública que validam o conjunto de formulações do interesse da sociedade. Os princípios e conceitos que sustentam as práticas religiosas são de ordem pessoal e da esfera privada, e não estão regulamentadas como atribuições da Psicologia como ciência e profissão. 

Finalizamos esse posicionamento declarando que o CFP iniciará uma série de atividades de debate sobre a relação entre Psicologia e religiosidade, com vistas a contribuir com o debate público da categoria e da sociedade frente a esse tema, objetivando explicitar que não somos contrários a que os profissionais tenham suas crenças religiosas, e sim que devemos zelar para que estes não utilizem suas crenças, de qualquer ordem, como ferramenta de atuação profissional.

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Ritalina não deu certo

O artigo que se segue é uma tradução do artigo Ritalin Gone Wrong [1], publicado no jornal The New York Times em 28 de janeiro de 2012. Ela foi realizada e gentilmente concedida ao Comporte-se pelo Prof. Dr. Roosevelt Starling [2]. Escrito por Alan Sroufe, professor emérito de Psicologia no Instituto de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Minnessota - USA, o texto trata do uso de fármacos como Ritalina e Aderall para o tratamento de problemas de atenção  e concentração em crianças. Apresenta e discute resultados de estudos em larga escala em que se verificou a efetividade destes medicamentos e traz a opinião do pesquisador sobre o assunto. 


Três milhões de crianças neste país tomam drogas para problemas de concentração. No fim do no passado, muitos pais ficaram alarmados porque houve uma escassez de drogas como a Ritalina e o Aderall, as quais eles consideram absolutamente essenciais para o funcionamento dos seus filhos. Mas essas drogas estão mesmo ajudando as crianças? Devemos mesmo expandir o número de receitas para elas? 

Em trinta anos o consumo de drogas para o Transtorno de Déficit de Atenção (TDA) aumentou 20 vezes. Na qualidade de um psicólogo que vem estudando o desenvolvimento de crianças com problemas por mais de 40 anos, penso que deveríamos estar nos perguntando porque confiamos tanto nessas drogas. 

Drogas para déficits de atenção aumentam a concentração no curto prazo e é por isso que elas funcionam tão bem para estudantes apertados com provas escolares. Mas quando administradas às crianças por longos períodos de tempo, elas não melhoram o desempenho escolar nem reduzem problemas de comportamento. Elas também têm efeitos colaterais sérios, incluindo a perturbação do crescimento. 

Infelizmente, poucos médicos e pais parecem estar cientes do que temos aprendido sobre a ineficácia dessas drogas. O que se publica são resultados de curto-prazo e estudos sobre diferenças no cérebro entre crianças. Na verdade, existe um número de fatos incontroversos que parecem, numa primeira impressão, dar suporte à medicação e é por causa dessa fundamentação parcial na realidade que o problema com a atual abordagem ao tratamento de crianças tem sido tão difícil de ser percebido. 

Nos anos 60 (1960) eu, como a maioria dos psicólogos, acreditávamos que crianças com dificuldades de concentração estavam sofrendo de um problema cerebral ou genético, ou por alguma outra forma, um problema que já trouxeram ao nascer. Assim como o diabético Tipo I precisa de insulina para corrigir problemas com a sua bioquímica de nascença, acreditava-se que essas crianças precisavam das drogas para o déficit de atenção para corrigir a bioquímica deles. Contudo, o que se viu é que existe pouca ou nenhuma evidência que ampare esta teoria. 


Em 1973, fiz uma revisão da literatura sobre o tratamento farmacológico de crianças para o The New England Journal of Medicine. Dúzias de estudos bem controlados mostraram que estas drogas melhoravam imediatamente o desempenho das crianças em tarefas repetitivas que demandavam concentração e atenção. Eu mesmo conduzi alguns desses estudos. Professores e pais também relatavam uma melhora no comportamento em praticamente  todos os estudos de curto prazo. Isso estimulou um aumento no tratamento através de drogas e levou muitos a concluir que a hipótese do “déficit-cerebral” havia sido confirmada. 

Mas perguntas continuaram a serem feitas, especialmente no que diz respeito ao mecanismo de ação da droga e a durabilidade dos efeitos. Ritalina e Aderall, uma combinação de dextroanfetamina e anfetamina são estimulantes. Então, por que elas aparentemente acalmavam as crianças? 

Alguns especialistas argumentavam que, em virtude dos cérebros das crianças com problemas de atenção serem diferentes, as drogas tinham um misterioso efeito paradoxal nelas. Contudo, não havia na verdade paradoxo algum. Versões dessas drogas haviam sido ministradas aos operadores de radar na Segunda Guerra Mundial, para ajuda-los a permanecer acordados e concentrados em tarefas enfadonhas e repetitivas. 

Quando, em 1990, revisamos novamente a literatura sobre drogas para “déficit de atenção”, verificamos que todas as crianças, tivessem ou não problemas de atenção, respondiam da mesma maneira às drogas estimulantes. Ainda mais: enquanto as drogas ajudavam as crianças a se acalmar durante as aulas elas, na verdade, aumentavam a atividade no recreio. De maneira geral, estimulantes tem os mesmos efeitos para todas as crianças e adultos: eles fortalecem a habilidade de concentração, especialmente em tarefas que não são intrinsicamente interessantes ou quando a pessoa está cansada ou enfastiada, mas eles não melhoram a as habilidades de aprendizagem mais amplas. 

E assim como pessoas em dieta usaram e abandonaram drogas semelhantes para perder peso [anfetaminas], os efeitos dos estimulantes em crianças com problemas de atenção desaparecem após o uso prolongado. Alguns especialistas argumentaram que crianças com TDA não desenvolveriam essa tolerância porque os seus cérebros eram, de alguma maneira, diferentes. Mas a perda do apetite e a insônia em crianças às quais foram prescritas pela primeira vez drogas de “déficit de atenção” na realidade desaparecem, como também desaparecem os seus efeitos no comportamento, como agora sabemos. Aparentemente, elas desenvolvem uma tolerância à droga e, assim, desaparece a sua eficácia. 

Muitos pais que retiram a droga dos seus filhos descobrem que o seu comportamento piora, o que parece confirmar a sua crença de que as drogas funcionam. Mas o comportamento piora porque a biologia das crianças adaptou-se à droga. Adultos podem ter reações semelhantes se eles pararem de tomar café ou pararem de fumar abruptamente. Até a presente data, no longo prazo nenhum estudo encontrou qualquer benefício da medicação para o déficit de atenção no desempenho escolar, no relacionamento com os colegas ou nos problemas de comportamento, exatamente os problemas que mais desejaríamos melhorar. 

Até recentemente, a maioria dos estudos com essas drogas não foram randomizados apropriadamente e alguns deles tem outra falhas metodológicas. Mas em 2009 foram publicados resultados de um estudo bem controlado que esteve em andamento por mais de uma década e os seus resultados são muito claros. O estudo designou aleatoriamente quase 600 crianças com problemas de atenção para quatro condições de tratamento. Parte recebeu somente medicação, parte somente terapia comportamental- cognitiva, outra parte medicação juntamente com terapia e outra esteve num grupo de controle num serviço de saúde comunitário e não recebeu qualquer tratamento sistemático. Inicialmente, este estudo indicou que medicação ou medicação juntamente com terapia produziram os melhores resultados. Entretanto, depois de três anos, estes efeitos desapareceram e, após oito anos, não existia evidência de que a medicação produziu qualquer benefício acadêmico ou no comportamento. Na verdade, todos os sucessos dos tratamentos desapareceram ao longo do tempo, embora o estudo continue em andamento. Claramente, essas crianças necessitam de uma base de apoio mais ampla do que a que foi oferecida neste estudo farmacológico, apoio que comece mais cedo e tenha maior duração. 

Contudo, descobertas da neurociência estão sendo utilizadas para alavancar o argumento a favor de drogas para tratar hipotéticos “defeitos de nascença”. Esses estudos demonstram que crianças que recebem um diagnóstico de TDA mostram, nos seus cérebros, um padrão diferente nos neurotransmissores e outras anomalias. Embora a sofisticação tecnológica desses estudos possam impressionar pais e leigos, seus resultados podem ser enganosos. É evidente que os cérebros das crianças com problemas de comportamento apresentam anomalias nos seus exames cerebrais e nem poderia ser diferente: comportamento e cérebro são entrelaçados. Independentemente de medicação, em muitas pessoas a depressão também aumenta e diminui e, na medida em que isso ocorre, mudanças paralelas no funcionamento cerebral ocorrem. 


Muitos dos estudos de crianças com TDA implicam examinar os participantes enquanto eles estão engajados numa tarefa que demanda atenção. Se essas crianças não estão atentas por falta de motivação ou por uma capacidade prejudicada de autorregular o seu comportamento, os seus exames cerebrais com toda certeza apresentarão anomalias. Seja como for que se meça o funcionamento cerebral, esses estudos nada nos dizem sobre se as anomalias observadas resultam de trauma, estresse crônico ou outras experiências da primeira infância. 

Uma das mais importantes descobertas da neurociência comportamental nos últimos anos foi a clara evidência de que o cérebro em desenvolvimento é modelado pela experiência. Por certo, é verdade que um grande número de crianças tem problemas com a atenção, com a autoregulação e com o comportamento. Mas esses problemas decorrem de algum aspecto presente no seu nascimento? Ou são causados por experiências na sua primeira infância? Essas questões somente podem ser respondidas como estamos fazendo por décadas os meus colegas e eu na Universidade de Minnesota: estudando-se as crianças e o seu entorno antes do nascimento e através da sua infância e da sua adolescência. 

Desde 1975 estamos acompanhando 200 crianças que nasceram na pobreza e que assim estão mais vulneráveis aos problemas de comportamento. As mães dessas crianças foram incluídas na pesquisa durante a gravidez e, ao longo do curso da vida dessas crianças, estudamos as suas relações com seus cuidadores, seus professores e seus pares. Acompanhamos seu progresso durante a escolarização e as suas experiências no início da vida adulta. Em intervalos regulares, obtivemos medidas da sua saúde física, comportamento, desempenho em testes de inteligência e outras características. Ao fim da adolescência, 50% da nossa amostra se qualificava para algum diagnóstico psiquiátrico. Quase a metade apresentou problemas na escola em pelo menos uma ocasião e 24% delas abandonaram a escola até o fim do ensino fundamental; 14% atenderam os critérios para TDA entre a primeira e a sexta série. 

Outros estudos epidemiológicos de larga escala confirmam essa tendência na população geral de crianças em situação de desvantagem socioeconômica. Entre todas as crianças, incluindo todos os grupos socioeconômicos, a incidência de TDA é estimada em 8%. O que nós descobrimos foi que o ambiente da criança prediz o desenvolvimento de problemas de TDA. Num forte contraste, medidas de anomalias neurológicas ao nascimento, testes de inteligência e o temperamento da criança – incluindo o seu nível de atividade – não predizem o TDA. 

Várias crianças pertencentes a grupos socioeconômicos vantajosos também recebem diagnóstico de TDA. Problemas de comportamento em crianças têm muitas fontes possíveis. Entre elas estão o estresse familiar, tais como violência doméstica, ausência de suporte social de amigos e parentes, situações de vida caóticas, incluindo mudanças frequentes e, especialmente, padrões de intrusividade dos pais para os quais o bebê não está preparado. Por exemplo, uma criança de seis meses de idade está brincando e o seu pai a pega rapidamente por detrás e a coloca na banheira. Ou uma criança de três anos que está começando a ficar frustrada na solução de um problema e um dos pais a provoca ou a ridiculariza. Tais práticas estimulam excessivamente e também comprometem a capacidade da criança de autoregulação. Dar drogas para essas crianças não muda em nada as condições iniciais que perturbaram o seu desenvolvimento. 

Os responsáveis pelas políticas públicas estão tão convencidos de que as crianças com déficit de atenção têm uma doença orgânica que eles praticamente cancelaram a busca por uma compreensão mais abrangente desta condição. O National Institute of Mental Health financia pesquisas que tem por alvo os componentes fisiológicos e cerebrais do TDA. Embora existam algumas pesquisas em outras abordagens para o tratamento, muito pouco é estudado no que diz respeito ao papel da experiência. Cientes dessa orientação, os cientistas tendem a apresentar somente pedidos de financiamento de pesquisas que objetivam elucidar a bioquímica. 

Dessa maneira, somente uma questão é proposta: existem aspectos do funcionamento cerebral associados com problemas de atenção na infância? A resposta é sempre positiva. E sempre é desconsiderada a possibilidade real de que ambos, as anomalias cerebrais e o TDA, resultem da experiência. 

Nosso presente curso de ação traz numerosos riscos. Primeiramente, jamais existirá uma solução única para todas as crianças com problemas de aprendizagem e de comportamento. Ainda que um pequeno número possa se beneficiar do tratamento através de drogas no curto prazo, este tipo de tratamento em larga escala e no longo prazo para milhões de crianças não é a resposta. 

Em segundo lugar, a medicação em larga escala de crianças alimenta a visão da sociedade de que todos os problemas da vida podem ser resolvidos com uma pílula e dá a milhões de crianças a impressão de que existe um defeito intrínseco nelas. Finalmente, a ilusão de que os problemas das crianças podem ser curados através de drogas impede-nos, como sociedade, de procurar as soluções mais complexas que serão necessárias. As drogas tiram todo mundo do anzol: políticos, cientistas, professores e pais. Isto é, todo mundo, menos as crianças. 

Se as drogas, que os estudos demonstram que funcionam somente por seis ou oito semanas, não são a resposta, então qual seria ela? Muitas crianças apresentam ansiedade ou depressão; outras estão demonstrando estresse familiar. Precisamos trata-las como indivíduos. Quanto à escassez de drogas, elas continuarão a aumentar e diminuir. Pelo fato dessas drogas formarem hábitos, o Congresso decide quanto mais delas pode ser produzido. O número aprovado não mantém passo com o tsunami de receitas. Enquanto continuarmos dependendo de drogas que não fazem aquilo que tantos pais, terapeutas e professores bem-intencionados acreditam que elas estejam fazendo, com toda a possibilidade haverá outra escassez no fim deste ano.

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[1] O texto original, em inglês, pode ser acessado no site do Jornal The New York Times, neste link.

[2] Agradecemos a atenção do Prof. Dr. Roosevelt R. Starling em nos ceder o material e autorizar a publicação.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

[Entrevista com Roberto Banaco]: O Percurso do Pesquisador Brasileiro


A entrevista[1] abaixo, realizada com o Prof. Dr. Roberto Alves Banaco[2], aconteceu em 2009, no Núcleo Paradigma, em São Paulo, e foi conduzida por Tataína Iara Moreno Pickart[3] e Amilcar Rodrigues Fonseca Júnior[4]. Teve como foco a atuação do profissional pesquisador e o caminho a ser percorrido por aqueles que desejam enveredar por essa área, trazendo tanto um panorama técnico, quanto um panorama biográfico da temática abordada. 




1) Descreva-me as suas atividades quando você está realizando uma pesquisa. E quando não há uma pesquisa em andamento, quais são as suas atividades? 

Eu tenho muitas atividades ao mesmo tempo. Eu sou professor, terapeuta, coordenador de curso e pesquisador. Quando eu não estou fazendo pesquisa, que é uma coisa rara de acontecer, eu estou fazendo qualquer uma dessas outras coisas. Ou faço junto com a pesquisa todas essas outras coisas. Quando eu estou fazendo uma pesquisa, as atividades começam com o levantamento de problema. Quando eu estou trabalhando com algum tema, ou orientando um aluno, como professor, em geral a gente se preocupa com alguma questão da Psicologia, no geral, ou da Análise do Comportamento, mais em particular e aí começa toda a batalha de procura de textos e de releitura de coisas que a gente já leu para poder formular um método para responder uma pergunta de pesquisa. Em seguida, vem a coleta de dados e a partir do momento que você começa a coletar os dados, ou você refaz a pesquisa como um todo, se você percebe que aquele jeito que você começou a coletar não está dando muito certo ou que não vai responder a sua pergunta, ou você vai até o fim e analisa os dados. Em seguida, discute com a literatura e publica. As atividades são basicamente essas. Como eu estou envolvido com pós-graduação, eu participo de muitas pesquisas que estão em momentos diferentes. Às vezes um aluno já está coletando dado, o outro está definindo o problema. 


Há outro grupo de pesquisa que eu participo, em Londrina, com o Caê (Carlos Eduardo Costa). Lá ele tem um conjunto grande de pesquisas e ocasionalmente me manda os relatórios para eu ir vendo o que está acontecendo e a gente vai discutindo e-mail por e-mail. De vez em quando eu vou para lá, de vez em quando ele vem para cá. As atividades de pesquisa são basicamente essas. Desde o levantamento de problema, ou formulação de um problema, até a discussão dos resultados que você obtém. 

2) Como você chegou a forma de atuação que exerce atualmente? 

Eu comecei na graduação. Minha faculdade era em período integral e eu comecei datilografando apostila. Na época, não tinha muita coisa traduzida, então, quase não se usava xerox. E os professores datilografavam apostilas, passavam em mimeógrafo... Eu comecei datilografando isso, porque eu trabalhava no escritório. Parte dessas atividades foi feita no laboratório de Psicologia Experimental e logo depois de eu terminar a minha disciplina de laboratório, eu fui convidado pelo chefe do laboratório na época, o Sérgio Luna, a participar de um grupo de pesquisa. Eu fui meio que tentando “cutucar” os professores behavioristas da época e fui para o grupo de pesquisa querendo mexer com eles. O Sérgio perguntou para o grupo: “Qual é o tema que cada um de vocês quer estudar?”. Eu falei: “Eu quero estudar emoção”. Ele falou: “Tá bom, então vamos lá”. Deu-me lá uns pares de textos e eu saí com aquele “negócio” na mão, falando: “uai, fui ‘cutucar’ e sai com coisa”. E aí eu resolvi que ia falar para ele que eu queria estudar emoção com animal. Tinha acabado de sair do laboratório, de terminar as aulas de laboratório. Ele falou: “Tá bom, então eu vou te encaminhar para a professora Maria Lúcia Ferrara”, ou Tutu Ferrara, que foi minha orientadora a vida inteira, até que ela morresse. 


Quando eu conheci a Tutu, a paixão foi a primeira vista, a gente se encantou um com o outro. Ela tinha um experimento sobre conflito no laboratório. Ela estudava controle aversivo. Tinha outro experimento de supressão condicionada, que na época quase não era estudada. A Tutu estava terminando o doutorado dela, então ela estudava pouco essas coisas. Eu me encantei com pesquisa, me encantei de uma maneira, assim, fantástica. Mas eu comecei a não gostar do trabalho com aversivo. Eu me incomodava um pouco, eu saia mal do trabalho e tal. Acho relevante, acho importante, não sou contra o trabalho com aversivo, acho que tem que fazer. Mas eu não gostava de fazer. 


A partir daí a gente começou a trabalhar com outro tema, que não era meu, era da Tutu também. Eu não gostava desse tema também, que era “escolha”. Ela vinha da área do conflito, então, um jeito de estudar conflito que não fosse com aversivo, era com escolha. Era um conflito de aproximação. Então, eu desenvolvi alguns estudos, ainda na graduação, com isso. Quando eu me formei, eu parei de trabalhar no escritório. Estava desempregado e fui para a pós-graduação imediatamente. A Tutu estava indo para a USP. Lá tinha Psicologia Experimental, na PUC-SP não tinha. Eu prestei o exame para entrar lá. Entrei e comecei a trabalhar em esquemas concorrentes. Fazia curso na USP e coletava os dados na PUC-SP. Tinha todo o laboratório da Tutu aqui ainda. Alguns anos depois, acho que em 1984, eu defendi o meu mestrado. Em 1984 a Tutu foi ficar período integral na USP e eu entrei na vaga dela aqui na PUC-SP, com o compromisso de continuar coletando os dados aqui.


Eu já estava no doutorado na USP. Eu defendi o mestrado e já estava matriculado no doutorado. Continuei com o esquema concorrente. Nesse ínterim de eu fazer doutorado, ela faleceu. Eu continuei o trabalho com a Lígia Machado, que agora também já faleceu. A Lígia foi minha orientadora até o final do doutorado. Em 1988, eu terminei o doutorado. Já estava dando aulas na PUC-SP há muito tempo, fazendo pesquisa... O meu percurso foi basicamente esse: da graduação direto para a pós-graduação e da pós-graduação direto para a universidade. 


O meu propósito sempre foi trabalhar com clínica desde que eu comecei a fazer Psicologia. Eu já trabalhava em clínica, mas quando acabei o doutorado, eu ainda não tinha uma formação em clínica. Não havia publicação suficiente em clínica, para que eu pudesse justificar um projeto de pesquisa nessa área. Então, comecei a publicar algumas coisas em clínica. Quem me ajudou muito nisso foi o Hélio Guilhardi que me convidava para participar dos congressos, para apresentar caso, refletir sobre algumas coisas... Eu acabei fazendo isso e depois comecei a enveredar pela pesquisa em clínica. Já fazendo pesquisa com temas clínicos, eu orientei a Roberta Kovac no trabalho de conclusão de curso dela. Na mesma época, no mesmo projeto, o Denis Zamignani já era meu aluno de iniciação científica. Quando o Denis saiu, entrou a Joana Vermes, no lugar dele, como bolsista também. A gente continuou o projeto todo, O Denis continuou sendo meu orientando até o trabalho de conclusão de curso. Tudo com pesquisa em clínica. Em 1999, então, a gente formou o programa de pós-graduação em Psicologia Experimental e a primeira pesquisa que eu fiz nesse programa foi uma pesquisa em clínica. Eu tinha como alunos o Denis, a Roberta... A Joana ainda não, porque ela não tinha se formado. Denis, Roberta, Paola, eram pessoas que tinham um interesse em clínica e eles ajudaram a coletar os dados dessa pesquisa. Depois disso, dentro do programa de pós-graduação, voltei a trabalhar com esquemas, voltei a trabalhar com supressão condicionada, voltei a trabalhar com desamparo aprendido, enfim... 


A gama de temas se abriu enormemente e acho que um pouco também porque eu era uma pessoa rara na época. Era a única pessoa que entendia de clínica e entendia de laboratório com animal. Eu era chamado para as duas coisas, então eu ia tanto para banca de clínica, quanto para banca de laboratório. E isso foi me dando uma visibilidade sobre a área. Eu não sou especialista em nada. Nada. Se você disser: “Qual a sua área de pesquisa?”. Eu não sei dizer. Eu sei o que eu faço em alguns períodos da vida e, ao mesmo tempo, eu sei de tudo um pouco. E tudo me interessa. Em tudo eu tenho interesse, mas eu não sou especialista em nada, nessas áreas de pesquisa. O que pode ser uma coisa boa, mas por outro lado, obviamente, eu não sou bom de metodologia, eu não sou bom de um monte de coisas. Muitas vezes eu tenho que submeter os meus trabalhos a outras pessoas porque de vez em quando tem uns furos metodológicos porque eu não acompanho a área. Mas enfim, foi esse mais ou menos o percurso que eu fiz até hoje. 


Hoje a gente tem aqui no Paradigma uma linha de pesquisa que está começando a se consolidar, que é uma pesquisa que vem desde a época lá do Denis. O Denis fez o mestrado dele com a Maria Amália, fazendo pesquisa com clínica. Fez o doutorado dele com a Sônia Meyer, fazendo pesquisa em clínica: fez uma categorização de comportamentos, que a gente chama, genericamente, de uma terapia de processo, ou uma pesquisa de processo terapêutico. Agora nós estamos nos debruçando um pouco para uma pesquisa de resultados. Uma pesquisa na qual a gente está tentando levantar medidas que a gente possa usar em terapia, para poder mostrar se a terapia teve resultado ou não. Está incipiente ainda, a gente passou esse semestre inteiro discutindo isso às sextas-feiras, com o pessoal daqui do grupo de alunos da especialização. A gente fez uma bolsa pesquisa, então os alunos pagam metade da mensalidade para poder trabalhar com esse tema. Na PUC-SP, eu estou desenvolvendo um trabalho com supressão condicionada, usando como aversivo a suspensão de reforço. Suspensão não, retirada de reforço. Estou nisso com o Denigés. O Caê está ajudando aqui também. 


Na equipe do Caê – o Caê que é o líder –, a gente está trabalhando com história experimental e esquema de reforço com humanos. Com alguns alunos dá pós-graduação, estou trabalhando com temas clínicos. Tem outra coisa em que a gente está trabalhando. Trabalhei com uma aluna, há pouco tempo, em orientação de pais, e com outra aluna para mostrar para o terapeuta, ou para a mãe, situações nas quais eles se comportaram bem e a partir dessa intervenção os comportamentos bons “estouram” de frequência na sessão terapêutica ou na condição da educação das crianças. A gente sabe muito bem o que tem aí, mas também estamos pesquisando isso agora. Deu certo na sessão terapêutica, com um terapeuta. Agora, acabaram a dissertação. Deu certo com a orientação de pais também, mas método é o mesmo. A gente pede uma classe de resposta, separa a classe de resposta boa, mostra para a pessoa o que ela fez e a partir daí ela desanda fazer um monte de coisa. Um monte de coisa daquela classe de resposta. Então estou meio por aí. Não sei se eu respondi, acho que eu derivei muito a resposta, mas enfim... 

3) Onde e como é o seu local de trabalho? 

Qualquer! [risos] Qualquer! Eu prefiro trabalho de laboratório. Eu gosto do pingar do dado. Eu gosto de ir colecionando o dado pouquinho a pouquinho, mas eu tenho um problema hoje: eu tenho uma alergia a rato. Então eu não posso mais trabalhar com rato. No momento eu não estou trabalhando com nada de animal. Nenhum aluno meu está trabalhando com animal, mas é um trabalho que me agrada muito. Outro trabalho que me agrada muito é esse de análise da sessão terapêutica: como é que as coisas acontecem, esquadrinhar um pouco, elaborar as categorias e dizer como é que a gente pode trabalhar, e aí por diante... Trabalho na rua eu não gosto. Eu não tenho muita paciência para ficar fora do meu canto. Eu gosto de ficar fechado. Então, o local de trabalho é qualquer um, mas eu prefiro o laboratório. 

4) Na sua opinião, você tem as condições necessárias para a realização do seu trabalho? 

Olha, eu já ganhei muito financiamento para fazer pesquisa. A PUC-SP já deu algum financiamento, já deu incentivo. Parte do nosso contrato é destinado a isso. Nós temos um contrato de tempo parcial, então acho que isso é um incentivo para fazer pesquisa que a PUC-SP dá. Muitas vezes eu consegui equipamento com financiamento. Muitas vezes eu consegui participação em congressos, inclusive internacionais, com financiamento das agências financiadoras. Isso tudo já aconteceu. Eu também invento uma pesquisa e pago para o programador fazer o programa. Como eu estou trabalhando com humanos, então muita coisa é feita no computador. Eu prefiro pagar do meu dinheiro. Isso aí é um pouco da Tutu. Quando eu comecei a trabalhar com a Tutu lá em 1979, ela ganhava muito dinheiro. Ela era de uma família que era bem e tal. Não precisavam daquele dinheiro que ela ganhava na universidade. Então, a gente construía muito equipamento, que para importar era muito pesado e para pedir dinheiro para importar dava muito trabalho. A gente saía, fazia expedição para a Rua Santa Efigênia para comprar relê, para comprar fio, para comprar um monte de coisa. A gente comprava e se divertia construindo equipamento. 


O laboratório de Psicologia Experimental, ele tem uma história de facilitar muito as coisas para quem quer fazer pesquisa aqui na PUC-SP. Eu estou falando da PUC-SP porque minha história é exclusivamente aqui, tirando, como eu falei para vocês, as disciplinas que eu fazia na USP. Toda a minha formação e meu trabalho são da PUC-SP. A PUC-SP sempre acolheu muito e sempre deu condições para que eu pudesse fazer as pesquisas que eu queria: material, equipamentos... Tem um amigo meu, de Goiânia, que trabalha também em uma universidade católica, e que não tinha tantas condições assim. Mas ele promoveu uma outra coisa: ele fazia pesquisa com caixa de sapato, ele fazia pesquisa com cartão, ele fazia pesquisa com um monte de coisas. Eu diria para você que, obviamente, é muito bom se você tiver um computador, mas se você tiver um cronômetro, tiver criatividade, tiver jeitos de fazer coisas e tal, você não precisa de grandes equipamentos. Você pode fazer pesquisa tendo um pouco de inventividade, de criatividade, de controle de variáveis. Incentivo a gente tem, condição a gente tem... Dentro das condições basta querer. 

5) Você trabalha com outros profissionais? Como é esse trabalho? 

Na pesquisa é um pouco mais raro. O que acontece de vez em quando é ter que trabalhar com programador de computador. Aliás, é maluco isso, porque eles não entendem o que a gente precisa. Eles acham que o computador não é capaz de fazer o que a gente quer: a gente só não sabe “fazer ele fazer”. Até você fazer um programador entender aquilo que você quer... Leva anos luz para você conseguir. Então, eu trabalho com eles, de vez em quando trabalho com estatísticos. Eu muito pouco, mas alguns alunos já foram trabalhar com estatísticos. Eu não entendo nada de estatística, sempre foi uma coisa a parte na minha vida. Algumas poucas vezes trabalhamos com biólogos para saber alguma coisa de comportamento típico da espécie e veterinário quando o animal ficava doente.


Teve uma época em que a gente trabalhava com animal e que o dente dele cresceu demais, o dente incisivo dele cresceu demais e cortou o soalho da mandíbula dele. Aí precisou serrar o dente, curar o dente. Era uma pesquisa que tinha uma coleta extensa, de meses, e, então, valia a pena recuperar o animal, por conta disso. Assim, trabalhamos com veterinário nessa época, mas nunca dentro do projeto de pesquisa, vocês percebem?! Quero dizer, o projeto era sempre de psicólogos. Nunca me sentei com alguém de outra profissão para discutir o projeto de pesquisa, mas sim para que prestasse um serviço para que a gente pudesse fazer a nossa pesquisa. Algumas vezes fomos procurar fonoaudiólogos porque precisávamos de medidas de som, ruído e volume de voz, então precisávamos fazer uma audiometria. Eles vinham para calibrar isso, mas eles nunca participaram diretamente dos projetos de pesquisa. Na minha vida pelo menos não. Falando ainda disso, o que eu posso lembrar é o seguinte: no programa de pós-graduação de Psicologia Experimental a gente recebe pessoas de muitas outras áreas. Já recebemos gente da enfermagem, do jornalismo, da educação física, do marketing, da economia... Nessas oportunidades a gente vai trabalhar com esses profissionais porque eles são os alunos que vão desenvolver os projetos. 

6) Como se processa a comunicação dos resultados das pesquisas entre os psicólogos? 

Há várias instâncias em que isso acontece. Por exemplo, os laboratórios, em geral, tem muitas equipes, ou sub-equipes, às vezes sendo chefiadas por uma única pessoa, ou por várias pessoas dentro do laboratório. Então, uma prática comum é haver algumas reuniões enquanto a pesquisa está sendo desenvolvida. As pessoas sentam, discutem um pouco a pesquisa de um, a pesquisa do outro, e aí vão envolvendo alguns estudos a respeito do tema. Eu já considero uma comunicação de pesquisa ainda que ela esteja em andamento. 


Quando uma pesquisa termina – em geral elas são pesquisas envolvidas com um programa de pós-graduação –, ela vai terminar em uma dissertação ou em uma tese. Então, também há um relato para uma comunidade um pouco mais ampla, já que esse trabalho vai para uma biblioteca e passa por uma banca de avaliação. As pesquisas são publicadas aí. Ela precisa ser muito ruim, ela precisa ter resultados muito ruins, embora ela possa ser boa, para que não valha a pena ir ser contada em um congresso, ou na forma de um painel, ou na forma de comunicação coordenada, ou, o que já aconteceu, por exemplo, na forma de um simpósio. A gente junta pesquisas de vários laboratórios também. São pesquisas que são consistentes. Pegamos um tema só e vamos fazer um simpósio, que serve para discutir dados de pesquisa. Diferente de mesa-redonda, em que eu estou lá para dar opiniões a respeito do que eu sei. No simpósio você vai discutir dados de pesquisa. A gente já participou disso. Eu estava trabalhando com modelo de estresse crônico, com uma aluna aqui na PUC-SP, tinha uma menina de Brasília, que tinha sido nossa aluna e que coletava o dado dela aqui na PUC-SP, tinha a Cássia que era aluna da USP, mas coletava o dado aqui na PUC-SP e tinha mais uma menina que trabalhava com estresse crônico na USP, do laboratório da Tatu. Então, juntamos os quatro trabalhos dessas universidades e fizemos um simpósio a respeito disso no congresso da Sociedade Brasileira de Psicologia do ano passado. É uma parte importante, essa de comunicação em congressos, em eventos científicos e coisas do gênero. E, por fim, o que é esperado é que o relato de pesquisa vire um artigo e que seja submetido à revista para ser publicado. Em revistas científicas, de divulgação. Eu já participei de todas essas coisas... Mais de trinta anos de carreira. Tudo isso já aconteceu. 

7) Você se considera satisfeito com o seu trabalho atualmente? 

Eu me considero satisfeito o suficiente para querer parar [risos]. Eu estou “doido” para me aposentar. É um pouco essa ideia que eu estava falando para vocês: eu não estou mais a fim de ficar coletando dados. Eu não estou mais a fim de ficar fazendo um monte de coisa. Mas eu gosto de organizar, eu gosto de dar ordem, eu gosto de falar: “faz isso, faz aquilo”. É um trabalho interessante você ver o dado sendo trazido e sendo construído. E mais do que isso, hoje o que me encanta é ver o aluno mudar. Começar a ver que o aluno está se formando um pesquisador e que ele começa ter umas sacadas legais e que ele está virando um colega de discussão. Que você não está mais tendo um menino do seu lado. Está vendo um cara que é ombro a ombro. O Caê, por exemplo... Fui orientador dele no doutorado e no decorrer dos anos em que ele fez o doutorado, ele foi se tornando um colega. Quando chegou na hora da defesa, estávamos lá os dois defendendo, mas eu não precisava defendê-lo. Ele se virava sozinho ali na defesa, super apropriado do trabalho dele. Tanto que agora eu falo para vocês: ele é meu chefe lá naquele outro grupo e na boa, né?! Ele fala: “faz isso, faz aquilo”. Eu faço também. Eu fico muito satisfeito com isso. A atividade de pesquisa te obriga a estudar, o que é uma coisa importante, uma coisa que mantém você de alguma maneira em contato com os avanços da ciência. Eu me sinto super realizado com isso. Gosto bastante, gosto muito de orientar, por todas essas razões: (1) porque eu fico longe, eu fico distante da coleta; (2) porque eu posso sentar com o aluno, começo a analisar os dados que a coleta trouxe; (3) porque eu vou vendo o aluno se desenvolvendo; e (4) porque eu ganho um monte de parceiro e posso fazer pesquisa. Eu gosto bastante. 

8) Como se caracterizam os sujeitos da sua pesquisa? 

Eu trabalho com animais, sempre ratos. Eu tenho medo de pombo [risos]. Não chego perto de pombo. Bichos de asa e bico não combinam comigo [risos]. Tenho medo de pombo e alergia de ratos... [risos] Com humanos, eu já trabalhei, por exemplo, orientando a Joana. Eu já trabalhei com criança que tinha TOC. Já trabalhei com terapeutas das mais variadas idades. O foco sempre era o terapeuta, e não o cliente. O cliente era pano de fundo, era o coadjuvante nessa história. Eu nunca me fixei no comportamento do cliente, mas sempre no comportamento do terapeuta, com vistas a trabalhar na formação do terapeuta. Já trabalhei com adolescentes como sujeitos. Nós temos trabalhado com funcionárias da PUC-SP. A gente está usando como reforçadores produtos de beleza da Natura. Nós temos uma aluna que é do marketing da Natura e que ganhou algumas amostras grátis de vários produtos para fazer a pesquisa. Então, as meninas, ao trabalhar no computador e dependendo dos pontos que elas ganham, podem trocar por produtos da Natura. Mulheres com uma faixa etária entre 22 e 40 anos. Poderia ser qualquer pessoa, porque, em geral, a minha pesquisa é uma pesquisa básica. A gente supõe que qualquer sujeito, de qualquer idade, responderia à minha questão de pesquisa. Então, não tenho uma população específica. Eu trabalho com o que dá. Se nesta oportunidade são essas moças, está tudo certo... Na outra oportunidade, eu precisava trabalhar com TOC. A gente tinha uma hipótese a respeito do TOC e precisava mesclar, pelo delineamento que a gente tinha proposto, atividades que a pessoa preferisse, que ela preferisse medianamente, que ela preferisse pouco e as que eram aversivas. A gente achou que com criança era mais fácil fazer, mas não precisava ser criança. Calhou que a Joana gostava de criança, calhou que com criança era mais fácil programar essas atividades, calhou que nós tínhamos crianças à mão. Então, a gente fez com crianças, mas não precisava ser criança. Podia ser adulto, podia ter qualquer idade. 

9) Na sua opinião, qual a imagem que os estudantes de Psicologia e os outros psicólogos têm do pesquisador? 

Depende do pesquisador. É engraçado, isso está mudando muito no decorrer dos anos. Eu acho que hoje a gente adquiriu um status, pelo menos dentro da Análise do Comportamento. A gente adquiriu um status de respeito. Acho que as pessoas respeitam o pesquisador, vão assistir aos relatos de pesquisa... A gente enquanto pesquisador aprendeu muito a fazer os relatos de pesquisa. Antigamente, era uma coisa muito difícil de você entender, muito hermética. Eu lembro que a primeira vez em que eu fui a um congresso, era um congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, aqui na PUC-SP – era para ter sido na USP, mas a policia não deixou acontecer lá, e aí a PUC-SP resolveu “bancar” e trouxe para cá, o que rendeu a invasão da PUC-SP alguns meses depois. 


Em julho de 1977, então, eu fui assistir ao meu primeiro congresso. Fui ver uma pesquisa com pombo e eu lembro que eu saí de lá meio que “bestificado”, de falar: “Meu Deus do céu, um cara vai lá fazer uma apresentação para dizer que o pombo bica quando ele tem fome” [risos]. Era tudo o que eu tinha entendido daquilo. E, por outro lado, tinha outra pesquisa que eu fui ver só porque o nome era engraçado. O nome era: “O comportamento sexual do peixe-boi” [risos]. Alguém vai se interessar?! Que coisa mais voyeurística [risos] Eu fui assistir com esse espírito, dizendo: “Que gente tonta...”, mas aí eu descobri que o peixe-boi era extremamente importante. Ele era da Amazônia, e o peixe-boi era extremamente importante para a economia da Amazônia. Um etólogo... Ele estava estudando o comportamento sexual do peixe-boi porque estava acontecendo uma dizimação muito rápida do peixe-boi e ele estava querendo que aquilo fosse estudado para aumentar a reprodução. Eu falei: “Que negócio... Meu, o cara é bom demais, que ideia...”. Então, eu fiquei muito encantado com as duas coisas. Uma que me parecia uma coisa esdrúxula e a outra em que o cara tinha tido uma sacada muito importante. Era um pouco essa a ideia que a gente tinha do pesquisador: uma pessoa estranha, esquisita, que se enfiava dentro do laboratório, não saía, não falava e que tinha uns dados que não serviam nada para ele. 


Hoje em dia eu acho que a gente tem um status diferente como pesquisador. Eu acho que os professores passaram a respeitar mais também. O trabalho de vocês é uma prova disso. Os professores incluem hoje a atividade do pesquisador como uma atividade possível do psicólogo. A lei de diretrizes e bases da Psicologia, hoje, inclui dentro dela, entre as competências do psicólogo, fazer pesquisa. É previsto no próprio currículo mínimo que os psicólogos aprendam a fazer pesquisa. Acho que tudo isso foi mudando a cara do pesquisador. Acho que hoje a gente tem certo destaque e um respeito grande pelas coisas. As pessoas vêm perguntar para nós se tem alguma coisa importante para elas lerem. Bom, a coisa foi por aí... 

10) Como você vê a contribuição do trabalho do pesquisador para a Psicologia e para a Sociedade? 

Eu acho fundamental. Eu acho que os problemas humanos não estão resolvidos. Acho que tem muita coisa ainda para ser descoberta, muita coisa a gente faz meio que supersticiosamente: faz porque acha que está certo, mas daria certo de qualquer jeito. Então, eu acho que é fundamental se a gente quiser ter de fato uma tecnologia, quiser de fato ser uma ciência com ‘C’ maiúsculo: a Psicologia precisa continuar pesquisando nas mais diversas áreas, os mais diversos problemas humanos que a gente tem. E isso é importante para a sociedade... É profundamente importante para a sociedade que vive todos os problemas. Além disso, pela própria perspectiva evolucionista que a gente tem, a gente sabe que o que não era problema ontem, é problema hoje, e pode vir a ser um problema amanhã aquilo que não é um problema hoje. Acho que isso não vai ter fim. Nós vamos estar o tempo inteiro com as condições sendo mudadas e a gente precisa conhecer, reconhecer e perceber que as coisas mudam, e ter novas respostas, novas técnicas, novas tecnologias para que a gente possa enfrentar os problemas humanos. Então, eu acho que é fundamental. Fundamental no sentido de fundamento mesmo. É a base de toda a prática que a gente tem. Todas as técnicas, todas, sem exceção, que a gente tem, dentro da Análise do Comportamento, dentro da terapia analítico-comportamental, têm origem na pesquisa. 

11) No seu ponto de vista, quais são os requisitos necessários para a formação do pesquisador? A sua formação atendeu a esses requisitos? 

Olha, tem uma disciplina que infelizmente está saindo do currículo de psicólogos, que é a “Observação”. Eu acho que isso é fundamental para que você possa ser psicólogo. Se você for ser pesquisador, aí a observação é a sua ferramenta número um. Eu tive na minha formação toda, entre graduação e pós-graduação, cinco cursos de “Observação”, e eu vejo meus alunos hoje reduzidos a três aulas de “Observação” no currículo de Psicologia. Observação formal, elaboração de categoria, registro cursivo, registro por intervalo, registro por não sei o quê, registro não sei o que lá: isso é uma coisa fundamental e eu tive isso na minha graduação, mas uma graduação que começou em 1977 e acabou em 1981. Isso tem mudado bastante na Psicologia, de uma maneira geral.


Outra coisa é aprender um tanto de metodologia científica que, eu reconheço, mesmo quando eu fiz, eu achava um terror aquilo. Mas a gente precisa entender de metodologia científica, e acho que ela é um terror porque faltava, na minha formação inclusive, uma formação filosófica. Eu acho que hoje eu reconheço que saber dos princípios, saber um pouco de história, saber por que a gente enveredou pelo caminho experimental, enveredou pelo caminho da ciência, enveredou pelo caminho da pesquisa, é importante. Porque isso vai justificar que você amargue um pouco na hora de pegar todos os “pedregulhos” da metodologia científica. Algumas vezes eu sinto falta de entender mais de estatística. Já tentei estudar, não fui adiante, embora eu goste muito de matemática. Acho que isso pode ser uma coisa importante. E a terceira coisa: redação, português. Eu escrevi muito na vida, embora continue sendo sofrido para mim até hoje. Eu não gosto, mas eu acho que redigir é uma coisa importante. Quando eu fui editor de revista, você pega textos de doutores, você tem vontade de chorar, porque aquilo é falta de repertório de ler e falta de repertório de escrever. As frases não têm nexo, elas não têm conexão uma com a outra. Tem uns “portanto” que não decorrem do que vem antes, tem uns gerúndios que não precisam ser usados, tem umas coordenações ali que não têm nada a ver... Enfim, eu acho que aprender a escrever e um bom português também são fundamentais, porque você vai precisar redigir um artigo ao final da pesquisa. 


Eu diria para você que basicamente essas habilidades: observar, ter a filosofia da coisa, poder enxergar o mundo com aquele prisma – que enfoca a pesquisa e que barreia a pesquisa –, ter um tanto de matemática ou estatística para você poder fazer transformações, ou elaborações de dados mínimos – saber o que é uma média, uma mediana, uma moda, pelo menos para você poder transformar o seu dado, saber fazer uma porcentagem, saber uma leitura logarítmica de uma figura, noções de como construir uma tabela, o que é que você coloca em uma coluna, o que é que você coloca em uma linha, ou em um gráfico, o que é que você coloca em uma abscissa, o que você coloca em uma ordenada... Noções básicas de elaboração de dados, português, e observação. Observação é fundamental. 

12) Você acredita que há necessidade de formação posterior à graduação para o psicólogo trabalhar como pesquisador? Como foi que isso aconteceu com você? 

Eu acho que a Psicologia se tornou uma área muito grande. Eu vou falar uma coisa que é quase uma heresia para muita gente, mas... Eu acho que a Psicologia se tornou grande demais para caber tudo que precisa caber dentro dela. E acho que a disponibilidade das pessoas hoje é muito menor que a que a gente teve. Quando eu fiz minha graduação, a Psicologia era período integral. Isso já sinaliza de alguma maneira que tinha que caber muita coisa dentro daquele curso. Uma das coisas que tinha que caber dentro daquele curso era a pesquisa, e coube. Hoje as pessoas fazem Psicologia num período só, ou manhã, ou tarde ou noite, ou às vezes tem uma aula aos sábados, mas isso é diferente de você ter aula de manhã, de tarde e à noite, todos os dias da semana, e não ter aula aos sábados, que era o que acontecia comigo. 


Algumas universidades, a PUC-SP é uma delas, mantêm o período integral, mas continua concentrando manhã e tarde, ou tarde e noite, que é para que os alunos possam trabalhar para estudar. Com isso, o que acontece? A Psicologia foi produzindo conhecimento novo, então ela tem, além de dar conta da história, assumir as coisas novas que foram sendo produzidas. Estou contando da minha história, né?! Nesses últimos trinta anos, produziu muita coisa, então, isso tem que ser consumido para dentro do curso. O período letivo foi diminuindo, e a verdade é que isso não cabe mais dentro do curso de graduação. Então, necessariamente, o que foi acontecendo é que a formação foi sendo empurrada para fora da graduação, para as pós-graduações. Tanto a pós-graduação stricto-sensu, que é o mestrado acadêmico, quanto o mestrado profissionalizante, ou o mestrado lato-sensu, que são as especializações, é um reconhecimento, eu acho, de que não dá para você colocar dentro daquele horário tudo que um psicólogo precisa saber. 


Uma coisa que eu acho que... Não sei se eu acho ou se eu quero... Acho que eu quero... A graduação vai ter que “rachar”. Então, por exemplo, eu acho que já está na hora, ou está começando a chegar na hora de que haja uma formação em nível de graduação em Análise do Comportamento. Já tem curso de pós-graduação suficiente, tem tema suficiente, tem um monte de coisa suficiente para que você possa introduzir em um curso de graduação de Análise do Comportamento. Como um método, um objeto de estudo, como uma filosofia completamente distinta das outras. Como eu acredito que com a Psicanálise aconteça a mesma coisa. Tem muito conhecimento produzido por eles, tem muita coisa já desenvolvida que justificaria uma graduação em Psicanálise. Eu acho que, de alguma maneira, a Psicologia deveria ter isso, mas enquanto ela não tem, a formação vai ter que “espirrar” para fora, porque não dá tempo, não tem possibilidade, não tem capacidade de tudo ser incorporado dentro de um curso de graduação. 

13) Em termos de remuneração, como são as condições para o pesquisador? Você saberia citar valores médios de remuneração? 

Vai depender também do nível do pesquisador. Antes disso eu quero complementar a questão anterior. No governo Lula, teve um aumento muito grande de verba para a ciência e para a tecnologia. É engraçado que no governo Fernando Henrique teve uma abertura enorme de cursos de pós-graduação, por conta do tal do liberalismo econômico. É interessante, na minha análise – eu não sou petista e não sou peemedebista, não sou nada, então eu posso falar tranquilamente –, o que o Fernando Henrique fez foi só abrir cursos para que as pessoas que não iam ter emprego pudessem ser empregadas. Então, abriu muitos cursos de graduação aonde as pessoas que haviam feito pós-graduação pudessem trabalhar, porque não havia universidade suficiente. E não tinha mercado de trabalho para que todo aquele contingente de pessoas que tinham feito a graduação pudesse trabalhar. Então abriu curso de pós-graduação. 


Feitos os cursos de pós-graduação, você não tem onde enfiar as pessoas, então elas ficam de novo desempregadas, mas acho que ele deixou isso para estourar lá para frente. Aí vem o governo Lula, e aí sim pega esse contingente de pessoas e começa a incentivar a pesquisa, inclusive em instituições particulares. Então, tem aí alguns projetos de financiamento entre empresas e universidade, e coisas do gênero, onde os pesquisadores podem trabalhar. Se essa política se mantiver, é possível que a pesquisa em Psicologia, em busca de tecnologia, seja bem-vinda. Há, eu acho, um déficit enorme de pesquisadores nas instituições de ensino. Deveria haver e isso poderia ser incentivado.


Voltando à questão, em termos de remuneração, sempre vai depender muito de qual é o nível em que a pessoa está. Uma bolsa de iniciação científica hoje deve estar entre R$ 300,00 e R$ 500,00 por mês. O aluno deve fazer a pesquisa e estudar. Ele tem que ter um desempenho acadêmico muito bom, responder à pesquisa e também fazer o relatório de pesquisa. Se ele vai para um aperfeiçoamento, a bolsa vai para uns R$ 700,00, R$ 800,00, que é mais ou menos o que ganha um psicólogo recém-formado que presta um concurso para trabalhar em penitenciária. Depois que ele vai para o mestrado, a bolsa vai para uns R$ 1200,00. Para o doutorado ela pode chegar até uns R$ 2000,00, pós-doutorado, uns R$ 3000,00 por mês. Mas ele tem que estar sempre vinculado à pesquisa e à universidade. No meu caso, que sou professor titular, eu tenho um “x” do meu salário para fazer pesquisa. Eu diria para vocês que dentro da universidade, dependendo da universidade em que você estiver, é uma boa carreira. Eu não descartaria. O problema é que você não vai ser só pesquisador, você vai ter que ser professor também. E algumas pessoas não gostam de ser professor. 

14) Na sua opinião, pode-se falar em “mercado de trabalho” para psicólogos pesquisadores, e, além das universidades, há instituições que empregam pesquisadores? 

Tem. Obviamente, dentro das universidades está o maior contingente de pesquisadores que existe. Mas há institutos de pesquisas que acabam tendo pesquisadores psicólogos que conversam com outras áreas: cientista social, assistente social, outras pessoas que tenham esse tipo de prática. Mas eu acho que o grande contingente continua sendo as universidades. 

15) Que providências poderiam ser tomadas pelos alunos da graduação que estão interessados em trabalhar com pesquisa quando formados? Você tem alguma previsão de como será o mercado futuro para esses alunos? 

Eu acho que se a pessoa tem a vontade de ser um pesquisador, ela deveria, pelo menos, ensaiar uma iniciação científica. Eu sei que isso é meio complicado porque depende do professor, depende de ter um professor doutor, tem algumas universidades que não têm isso. Depende de financiamento, depende de laboratório, depende de uma série de coisas que não são fáceis. Mas, no mínimo, o aluno tem que ter certa direção para isso. Preocupação em frequentar congressos é uma coisa que pega muito bem quando você vai para a pós-graduação: ter uma história de congressos. Se ele quiser ser um pesquisador, ele terá que passar por uma pós-graduação, para ter uma formação mais segura dentro de metodologia científica, dentro de elaboração de um experimento, dentro de elaboração de um estudo, que tenha minimamente os cânones da ciência por trás. 


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[1] A entrevista, cuja divulgação foi autorizada pelo entrevistado, foi realizada como parte de uma disciplina da graduação em Psicologia no Centro Universitário Padre Anchieta (Jundiaí). Na ocasião, os entrevistadores estavam cursando o terceiro ano da graduação. 

[2] Doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e terapeuta analítico-comportamental no Núcleo Paradigma. 

[3] Psicóloga formada pelo Centro Universitário Padre Anchieta (Jundiaí) e especialista em terapia comportamental pela Universidade de São Paulo. 

[4] Psicólogo formado pelo Centro Universitário Padre Anchieta (Jundiaí).