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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Aspectos respondentes e operantes na abordagem analítico-comportamental da ansiedade

Parece ser senso comum relacionar problemas de saúde a supostos processos psicológicos que envolvem as emoções. Afinal de contas, quem ainda não ouviu falar que fulano contraiu câncer porque era muito estressado ou que a ansiedade de sicrano seria a causa de sua gastrite? Vamos então fazer uma breve introdução ao fenômeno “ansiedade”, a partir de uma leitura analítico-comportamental.

Apesar das emoções terem ocupado papel central em outras abordagens psicológicas, seu estudo foi, de início, rejeitado na Análise do comportamento por não terem sido vistas como eventos comportamentais (Forsyth e Eifert, 1996). O pouco interesse dos primeiros analistas do comportamento em investigar as emoções, segundo os autores, estaria relacionado à prevalência do behaviorismo metodológico e do positivismo lógico.

Uma das conseqüências dessa postura inicial foi a falta de uma definição conceitual precisa de ansiedade na área da Análise do comportamento, o que, na perspectiva de Friman, Hayes e Wilson (1998), dificultou sua investigação, pois não parecia adequado abordá-la a partir de uma conceituação pouco consistente com os princípios do comportamento (Skinner, 1953/1989).


Para evitar a utilização de um termo que possa suscitar interpretações internalistas, os analistas do comportamento costumam evitar a referência à “ansiedade”, preferindo fazer menção ao “comportamento ansioso”, para reforçar a idéia de que se trata de um fenômeno comportamental. Também é consenso, entre os teóricos behavioristas, o tratamento das emoções enquanto classes de relações funcionais. Sua análise depende, portanto, da investigação das condições ambientais envolvidas na descrição das condições sentidas.

As primeiras elaborações teóricas da Análise do comportamento sobre a ansiedade foram feitas a partir do modelo de condicionamento respondente, onde a ansiedade é vista como uma resposta condicionada sob controle de estímulos antecedentes que passam a controlar tal resposta em função de seu pareamento com estímulos aversivos incondicionados (Forsyth e Eifert, 1996). Como exemplo, poderíamos pensar em uma pessoa que reage à imagem de um pavio aceso contraindo-se e tapando os ouvidos (respostas originalmente incondicionadas que passam a ser condicionadas em função do pareamento entre o estímulo inicialmente neutro – pavio – e a explosão propriamente dita).

O modelo respondente explicaria algumas respostas de ansiedade frequentemente relatadas, tais como mãos suadas, boca seca e taquicardia, dentre outras. Também esclareceria como tais respostas podem ocorrer mesmo na ausência do estímulo aversivo, já que cada vez mais estímulos condicionados podem adquirir a função de eliciá-las, constituindo uma longa cadeia de eventos pré-aversivos aos quais o indivíduo torna-se mais sensível, ou seja, mais responsivo de forma ansiosa. Na clínica, isso pode ser facilmente observado nos relatos do cliente ansioso, que identifica mínimos detalhes relacionados aos estímulos temidos, apesar de se encontrar em uma situação segura.

Skinner (1953/1989) chamou a atenção para o fato de que as alterações emocionais relacionadas à ansiedade só irão ocorrer se houver, entre o estímulo pré-aversivo e o próprio estímulo aversivo, um intervalo de tempo suficientemente grande. Caso contrário, a resposta de esquiva pode ser rapidamente emitida, produzindo, ao contrário, respondentes menos aversivos.

Ampliando a explicação respondente para o fenômeno da ansiedade, Skinner (1953/1989) procurou analisá-la também enquanto um efeito de uma relação de contingência operante. Neste caso, a presença de alguma condição antecedente presente, quando da ocorrência de uma resposta consequenciada por um estímulo aversivo, produziria dois efeitos de longo alcance no repertório: a eliciação de fortes respostas emocionais e a interferência na frequência de outros operantes, tais como a redução de outros operantes presentes quando da apresentação do estímulo pré-aversivo e o fortalecimento de respostas que resultaram na retirada ou redução do estímulo aversivo.

Além das respostas de fuga e esquiva diretamente fortalecias pelas contingências que produzem, Skinner (1953/1989) argumentou ser possível a produção de outras respostas ansiosas no repertório de um indivíduo, uma vez que as circunstâncias envolvidas no surgimento de uma resposta fóbica, por exemplo, teriam efeito também sobre várias outras respostas de esquiva que não apenas aquela que produzira o atraso ou a evitação da contingência aversiva. Isso significa dizer que uma única experiência aversiva pode provocar mudanças no repertório como um todo, mesmo após a remoção do estímulo aversivo.

A relevância da observação clínica dos efeitos operantes da ansiedade pode indicar um prejuízo funcional muito maior, quando se cogita a possibilidade de que a mesma suspenda temporariamente outras atividades que produziriam outros reforçadores. Um exemplo de tal fenômeno é a sensação de paralisação ou freeze, que algumas pessoas relatam quando percebem algum sinal de que um estímulo aversivo poderá ocorrer.

Um segundo efeito disruptivo do comportamento ansioso no repertório do indivíduo dá-se com o aumento de respostas de fuga e esquiva, levando-o a gastar mais tempo e dedicação na emissão de tais respostas, que poderá culminar com um padrão comportamental evitativo frente às mais diferentes condições ambientais.

Podemos concluir que o potencial de prejuízo funcional gerado por uma exposição intensa a condições ansiogênicas é imenso, especialmente se considerarmos que efeitos respondentes e operantes produzidos por tal experiência podem se somar.

Uma análise da ansiedade com base nos modelos respondente e operante auxilia na compreensão do tipo de queixa mais frequente nos consultórios psicológicos, mas não é suficiente para explicar todos os processos comportamentais a ela relacionados. É preciso reconhecer que quando falamos em “comportamento ansioso”, estamos reunindo em uma grande categoria de eventos respostas produzidas por diferentes tipos de relações comportamentais (Tourinho, 2006). Portanto, além dos processos aqui analisados, a análise do comportamento ansioso deve ser estendida para o campo das relações comportamentais com participação de componentes verbais, que poderão ser discutidas em outra ocasião. Para o leitor que tenha maior interesse no tema, sugiro a leitura de Coêlho & Tourinho (2008) e Ferreira, Tadaiesky, Coêlho, Neno & Tourinho (2010), que aprofundam tal discussão.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Coêlho, N. L.; Tourinho, E. Z. (2008). O conceito de ansiedade na Análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 171-178.

Ferreira, D. C.; Tadaiesky, L. T.; Coêlho, N. L.; Neno, S.; Tourinho, E. Z. (2010). Perspectivas em Análise do comportamento, 1 (2), 70-85.

Forsyth, J. P. e Eifert, G. H. (1996). The language of feeling and the feeling of anxiety: contributions of the behaviorisms toward understanding the function-altering effects of language. The Psychological Record, 46, 607-649.

Friman, P. C.; Hayes, S. C.; Wilson, K. G. (1998). Why behavior analysts should study emotion: the example of anxiety. Journal of Applied Behavior Analysis, 31, 137-156.

Skinner, B. F. (1989). Ciência e comportamento humano. São Paulo, SP: Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1953).

Tourinho, E. Z. (2006). Private stimuli, covert responses and private events: Conceptual remarks. The Behavior Analyst, 29(1), 13-31.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O brasileiro é feliz

Uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, em parceria com a consultoria Gallup, revelou que o Brasil é tetracampeão em felicidade no ranking entre 158 países pesquisados. De acordo com o recente livro de Neri (2012), intitulado “A nova classe média”, numa escala de zero a dez, o brasileiro dá uma nota média de 8,6 à sua expectativa de satisfação com a vida em 2015, superando a média mundial de 6,7.

A pesquisa foi feita em 2011, com cerca de 200 mil pessoas entrevistadas a respeito da expectativa de felicidade das pessoas nos próximos cinco anos e também no presente.É interessante observar nos resultados apresentados que, depois do Brasil, no quesito “países mais felizes”, aparecem Panamá, Costa Rica, Colômbia, Qatar, Suíça e Dinamarca. Ou seja, o resultado sobre a ordem dos países com pessoas de melhor expectativa sobre suas vidas não é coerente com o padrão de riqueza e desenvolvimento sócio-econômico de cada país.


Sem querer entrar no mérito de questões metodológicas da pesquisa ou do caráter nomotético das conclusões observadas, a mesma pode servir de pano de fundo para a discussão da seguinte questão: as expectativasque criamos sobre nós mesmos dependem exclusivamente das condições ambientais objetivas em que nos encontramos?Não é o que parece apontara conclusão do estudo de Neri (2012),nem o que percebemos muitas vezes (e costumamos não entender) quando uma pessoa apresenta um comportamento oposto ao que seria esperado para a condição de vida em que se encontra. É o caso de uma pessoa gravemente doente que consegue alegrar aqueles à sua volta.

Embora tal constatação possa aparentemente se constituir em uma incoerência com a premissa de que todo comportamento é produto da interação do sujeito com seu ambiente; na verdade, o exemplo só revela a riqueza e complexidade dessa interação.

Pensamentos e sentimentos integram uma categoria de eventos chamados de privados para ressaltar sua característica de difícil acesso à observação pública. Nossa forma de pensar e de sentir caracteriza-nos como sujeito único, compõe nossa subjetividade.

Ao propor o conceito de self para se referir à ideia de subjetividade, Skinner (1974/1976; 1989/1991) traz uma contribuição relevante para discutirmos os resultados encontrados por Neri (2012). O self pode ser entendido como estados privados relativos à própria percepção de si mesmo. Nas palavras de Skinner, “o eu (self) é o que a pessoa sente a respeito de si própria”(p.45).

Para se compreender o que controlou a resposta a uma indagação sobre a expectativa de satisfação com a vida, é preciso considerar na análise da resposta os diversos e complexos processos comportamentais envolvidos. Eles incluem desde eventos privados relativos ao self eliciados pela pergunta e por todo o contexto no qual esta ocorre, assim como fatores eminentemente sociais e culturais que também exercem uma função selecionadora da resposta dada.

Resumindo, a complexidade na nossa forma de interagir com o ambiente revela a necessidade dos analistas do comportamento percorrerem um longo percurso até alcançar uma compreensão mais ampla do que nos ocorre privadamente e de como isto se relaciona com outros comportamentos públicos. Felizmente esta é uma área em plena expansão na Análise do comportamento (cf. Albuquerque, Matos, Souza & Paracampo, 2004). Não estamos parados à beira do caminho do conhecimento.




Referências bibliográficas:

ALBUQUERQUE, L. C, MATOS, M. A., de SOUZA, D. G, & PARACAMPO, C. C. P. (2004). Investigação do controle por regras e do controle por histórias de reforço sobre o comportamento humano. Psicologia: Reflexão e Crítica17, 395-412.

NERI, M. (2012). A nova classe média: O lado brilhante da pirâmide. São Paulo: Saraiva.

SKINNER, B. F. (1976). About Behaviorism. New York: Vintage Books (Publicado originalmente em 1974).

SKINNER, B. F. (1991). Questões recentes na análise comportamental. Campinas, SP: Papirus (Publicado originalmente em 1989).