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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Redução de Danos e a Prática de Uso e Abuso de Substâncias Psicoativas

Atualmente, debates sobre uso e abuso de substâncias psicoativas (SPA), ilícitas ou não, têm ocupado a mídia, os governos e cidadãos em diversas partes do mundo. SPA ou Drogas Psicotrópicas podem ser definidas como aquelas “que atuam no sistema nervoso central e que de alguma forma modificam o funcionamento cerebral” (Almeida & Barbosa Filho, 2006), que englobam desde o cafezinho, remédios antidepressivos até cocaína e maconha. Embora substâncias legalizadas como remédios antidepressivos possam ter efeitos danosos, as visões condenatórias são mais voltadas para a as chamadas drogas de abuso, ainda que o uso dessas substâncias, a exemplo do cânhamo, remonte a 4000 a.C. (na China) e 3000 a. C. (no Turquistão, atuais Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Cazaquistão) (Escohotado, 2004).


Alguns poucos estudos realizados durante o século XVIII mostram a visão que se tinha de SPA na época. Por exemplo, apontavam o uso de álcool como escolha do sujeito, estando sob seu total controle (Leite, 2006). Já no século XIX, ganha força a idéia de que o uso contínuo de álcool e ópio seriam “doenças da mente” ou “transtornos da vontade”, além de existir uma predisposição hereditária para o uso (Leite, 2006). Ainda neste período, por influência psicanalítica, considerou-se que a necessidade do uso de SPA se daria por haver uma grande quantidade de energia psicológica com dificuldades de alojar-se no consciente (Leite, 2006). Em ambas as visões do século XIX, permanece a noção de necessidade de um tratamento – farmacológico ou psicológico – de um transtorno.



Por outro lado, uma política organizada pela Organização Mundial de Saúde denominada Redução de Danos (RD) traz uma perspectiva diferente sobre SPA, originada do Relatório Rolleston no ano de 1926 (Leite, 2006; O’Hare, 1994). Como funciona, então, a estratégia de RD? Segundo O’Hare (1994), é possível que se pense que a total abstinência de SPA seria o mais adequado, porém deve-se reconhecer que o consumo é algo estreitamente ligado à história de vida dos usuários, o que não impede que sejam ajudados para evitar as conseqüências mais danosas do uso. Logo, a RD “reconhece que as pessoas continuarão a se utilizar de SPA, como sempre o fizeram ao longo da história” (O’Hare, 1994, p. 67). Sendo assim, não se busca eliminar o uso (embora seja um ideal considerado entre redutores), mas uma forma de torná-lo menos danoso à saúde e à vida social. É também estratégia de prevenção de doenças, buscando a redução da probabilidade de infecção do pelo HIV e contração de hepatites, sendo realizada a distribuição de materiais para o uso das drogas (seringas e agulhas esterilizadas, água destilada para diluir a droga, pano umedecido com álcool etc) que garantam um uso limpo, além de preservativos e lubrificantes. Há também a propagação de informações sobre drogas (com cartilhas informativas, por exemplo), medidas de higiene e instruções sobre alimentação e hidratação antes, durante e após o uso de SPA (Leite, 2006).

As ações de RD, não são uma novidade e já vem sendo utilizadas em diversos países, como na estratégia regional de Mersey, Inglaterra (O’Hare, 1996), na Holanda, Canadá e Austrália (Marlatt, 1999). Então, se entendermos o uso e abuso de drogas como práticas culturais, ou seja, “um conjunto de comportamentos emitidos por uma comunidade de indivíduos” (Leite, 2006, p. 17) e transmitidos por sucessivas gerações, o seu estudo a partir das noções de metacontingências, macrocontingências e contingências comportamentais entrelaçadas¹ parece pertinente. Leite (2006) elaborou um plano de intervenção a ser aplicado em comunidades com ações de RD a partir da base teórica analítico-comportamental, assumindo que: 

"A articulação entre a Análise do Comportamento e o conceito de redução de danos pode vir a produzir estratégias de intervenção eficazes para a implementação deste último como uma política de saúde pública eficaz para lidar com a questão do uso, abuso e dependência de drogas" (Leite, 2006, p. 8).



Uma vez que a RD é uma abordagem não coercitiva em relação ao uso de SPA, visa não segregar o usuário de seu ambiente social, mas sim a possibilidade de buscar atendimentos de saúde e informações acerca do consumo. É imprescindível que o treino de repertórios comportamentais que levem à redução ou consumo seguro de SPA não fique à parte do ambiente natural do sujeito. Ainda de acordo com Leite (2006), as estratégias de RD devem ser incorporadas a diferentes estruturas assistenciais, comunitárias e administrativas, a exemplo do Programa de Saúde da Família (PSF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).

Assim, se a RD se propõe a um trabalho direto na comunidade, faz-se necessária a elaboração de uma estratégia de planejamento cultural. Tendo isto em vista, a proposta inicial de Leite (2006) é a de realizar uma pesquisa sondando os problemas da comunidade para então buscar analisar metacontingências e contingências comportamentais entrelaçadas (CCEs) ligadas ao foco do trabalho, o que permitirá uma melhor delimitação, além de possibilitar um planejamento adequado. O próximo passo é o de “criar condições para que contingências de reforçamento individuais sejam mantidas naquela comunidade” (Leite, 2006, p. 33), ou seja, aqui entrariam os interventores do grupo como contingências de suporte – funcionando como antecedentes ou conseqüências –, utilizando-se de intervenções diretas de estratégias de RD, oficinas sobre prevenção e RD ou mesmo campanhas publicitárias na comunidade. Outra forma de intervenção possível é a proposta por Caballo (citado por Leite, 2006), utilizando-se do Treinamento em Habilidades Sociais (THS) e de Treinamento em Solução de Problemas (TSP) para ensinar ao grupo repertórios sociais mais adequados, principalmente em relação ao uso de SPA.



Em outro momento, para não deixar as novas práticas mantidas apenas pelos interventores, seria necessário buscar organizações e/ou indivíduos da própria comunidade que possam servir como as contingências de suporte. Considerando aqui que o uso e abuso de SPA não é um acontecimento isolado de outras questões sociais, deve-se também buscar contingências de reforçamento não relacionadas ao uso, mas também para relacionamentos interpessoais, busca de trabalho, estudo, etc. Procura-se então, aparatos da comunidade, tais como cooperativas de produção, grupos artísticos e/ou esportivos, além de formar grupos de redutores de danos, utilizando os jovens como educadores para atingir outros jovens.

Com a instalação e manutenção das novas práticas, espera-se que naturalmente produtos agregados irão surgir – alguns possíveis podem ser a melhoria nos índices escolares, na qualidade de vida e saúde, redução no uso SPA, da criminalidade –, que possivelmente poderão manter as novas contingências entrelaçadas. Neste momento, realiza-se uma nova pesquisa, avaliando os resultados da intervenção em comparação à pesquisa inicial. Se forem positivos, os resultados podem ser divulgados à população, o que também pode vir a funcionar como produto agregado e conseqüência mantenedora da nova metacontingência. Chegando a este ponto da intervenção, as conexões iniciais com as estruturas assistenciais, comunitárias e administrativas ao amparar a comunidade e os novos produtos por ela gerados, possibilitam que o trabalho dos interventores seja encerrado e que a comunidade tenha capacidade de auto-gestão. 

A proposta do autor ainda é geral e não foi, de fato, aplicada. Isso, no entanto, não tira a relevância do trabalho, que é se mostra como uma das inúmeras possibilidades de intervenções de analistas do comportamento em práticas culturais. Entramos aqui (mais uma vez) na importância de se desenvolver ainda mais o campo de estudos experimentais na análise comportamental da cultura de modo a produzir mais conhecimento capaz de embasar propostas de intervenção, levando ao desenvolvimento de tecnologias comportamentais adequadas para a intervenção em diversos problemas sociais, incluindo o uso e abuso de substâncias psicoativas. 

¹O conceito de metacontingências, macrocontingências e contingências comportamentais entrelaçadas e suas aplicações, não sendo aprofundados neste artigo, podem ser melhor compreendidos a partir de uma vasta bibliografia desenvolvida a partir do texto Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5, 2-8.; mas a nível didático e para uma compreensão de maneira sucinta, recomendo a leitura dos demais textos acerca do tema presentes no Comporte-se, de autoria de Elayne Nogueira e Júlia Ferraz. 


Bibliografia:


Almeida, R. N., & Barbosa Filho, J. M. (2006). In: Almeida, R. N. (Org.). Drogas Psicotrópicas. Psicofarmacologia: fundamentos práticos. (pp. 3-24). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Escohotado, A. (2004). História Elementar das Drogas. Lisboa, Portugal: Antígona Editores Refractários.

Leite, F. L. (2006). Redução de Danos e Análise do Comportamento: um Modelo Teórico e uma Proposta de Intervenção Comunitária. Monografia não publicada. Fortaleza: Universidade de Fortaleza.


O’Hare, P. (1994). Redução de Danos: alguns princípios e a ação prática. In: Mesquita, F.; Bastos, F.I. (Org.). Drogas e AIDS: Estratégias de Redução de Danos. (pp. 65-78). São Paulo: HUCITEC.

Marlatt, G. A. (1999). Redução de danos no mundo: uma breve história. In: Marlatt, G.A. (Org.). Redução de danos: estratégias práticas para lidar com comportamentos de alto risco. (pp. 29-43). Porto Alegre: Artes Médicas Sul.

domingo, 13 de maio de 2012

[Entrevista Exclusiva] Carmem Bandini - O trabalho com crianças surdas

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica por Carmen Bandini, durante o III Encontro de Análise do Comportamento do Vale do São Francisco, promovido pela UNIVASF - Universidade do Vale do São Francisco, Campus Petrolina. 


Carmem é Doutora em Filosofia pela UFSCar. Professora e pesquisadora da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas e coordenadora do Núcleo Informatizado de Estudos da Linguagem, vinculado a Faculdade de Fonoaudiologia de Alagoas. Membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento Cognição e Ensino. Professora no Centro Universitário Cesmac de Maceió. Editora do periódico Acta Comportamentalia. Desenvolve pesquisas na área de programação de ensino e de aquisição de repertórios de leitura e escrita. 

Entrevista baseada na palestra: Intervenção profissional e pesquisa na interface com a Fonoaudiologia, realizada durante o III EAC do Vale. 

1. O seu trabalho é realizado em conjunto com profissionais da fonoaudiologia, entre outros. Diante disso, você poderia expor dificuldades ou facilidades que tenham surgido nesta relação com a fonoaudiologia e em que uma área tem a contribuir com outra? 

Algumas fonoaudiólogas tem me dito que a principal melhoria que elas tem tido com a apresentação da Análise do Comportamento no trabalho é a sistematização dos procedimentos. Parece que a fonoaudiologia tem um corpo muito grande de conhecimento na área, mas eles não são tão sistemáticos como a análise do comportamento pode ser. Então, eles tem ganhado muito com isso. O procedimento de ensino tinha uma lógica, mas não está fundamentada dessa forma. Agora, de nosso ponto de vista é total o ganho, por que a gente aprende a conhecer o universo do deficiente auditivo e outros universos e pode atuar de outra maneira com o nosso próprio trabalho. 

2. Se o erro não é parte necessária do processo de aprendizagem por inúmeras questões (respostas emocionais eliciadas, impedimento da ocorrência de novas respostas, etc), como ele pode ser evitado a partir de um planejamento de ensino individualizado? 

Na verdade, você tem vários procedimentos já disponíveis da Análise do Comportamento que podem favorecer a não ocorrência do erro. Por exemplo, os procedimentos de fade in e fade out de alguns estímulos, os procedimentos de exclusão, além de outras técnicas. Agora existe o corpo teórico que é necessário para realizar tais procedimentos e que vocês podem ter acesso. 

3. Em seu trabalho com crianças surdas (as que falam libras e as que usam aparelho auditivo), você disse ter adaptado os procedimentos para possibilitar o ensino adequado diante das necessidades advindas da perda auditiva. Como tem sido esse trabalho e a quais resultados tem chegado? 

Com esse procedimento, na adaptação tem sido utilizados os recursos de que a fonoaudiologia dispõe, o uso dos aparelhos auditivos para a amplificação do som e o uso do recurso do FM, que é um recurso bem conhecido dos surdos para melhorar isso. Já para usuários de libras é outra história, por que eles não estão dependentes do som, mas sim dos sinais. Então nós ainda não temos um corpo muito bem criado lá no laboratório para eles. Nós ainda estamos desenvolvendo um programa baseado nesse que eu mostrei. Os resultados tem sido bons, embora não sejam como desejávamos, pois talvez o ensino tenha sido mais difícil para essas crianças, mas alguns ajustes devem favorecer a aprendizagem delas. 

4. Você, ao fim da apresentação, falou da importância de o Behaviorista saber divulgar e fazer circular seu trabalho, melhorando a linguagem utilizada. Poderia, então, falar um pouco mais sobre o assunto para os leitores do Comporte-se? 

Eu acho que podemos fazer isso sem deixar de ser preciso e filosoficamente corresponder ao que o Skinner queria dizer – ou qualquer outro analista do comportamento que tenha vindo depois. Acho muito bom pararmos de falar uma linguagem que só a nós mesmos entendemos, com termos técnicos. É como se um engenheiro chegasse para a gente falando de uma estrutura de um prédio, por exemplo, que a gente não faz idéia do que seja. Ou ele fala numa linguagem em que possamos entender ou não se fala. Então algumas áreas do Behaviorismo são um pouco piores e acho que isso dificulta muito que as pessoas se aproximem dele. Há uma necessidade que a gente tenha uma veiculação um pouco mais simples e isso não simplifica o que se faz, apenas simplifica como se fala sobre o que se faz. É diferente. Acho que é isso. 

[Entrevista Exclusiva]: Sandro Iego - O Transtorno Obsessivo Compulsivo

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica por Sandro Iego durante o III Encontro de Análise do Comportamento do Vale do São Francisco, promovido pela UNIVASF - Universidade do Vale do São Francisco, Campus Petrolina. 


Sandro Iego é especialista em Neuropsicologia e mestre em Medicina e Saúde pela UFBA. Doutorando em Processos Interativos dos Órgãos e Sistemas pela UFBA. Atua como psicólogo, neuropsicólogo e analista do comportamento com ênfase em Transtorno Obsessivo-Compulsivo, Neuropsiquiatria e Psicoterapia Analítico-Comportamental no Instituto Baiano de Análise do Comportamento - IBAAC 

Entrevista baseada na palestra: Análise Funcional do Transtorno Obsessivo-Compulsivo: implicações clínicas e relações com a neuropsicologia 

1. Você, durante a discussão, citou características que são preditivas de um bom prognóstico para o TOC, principalmente relacionadas à família. Poderia citar mais características, as mais importantes e como elas podem influenciar de maneira positiva no tratamento? 

São características da família do paciente, como a acomodação familiar. Uma família que se acostuma com os comportamentos obsessivo-compulsivos do paciente e os reforça, provavelmente vai influenciar a termos um mau prognóstico no tratamento. A família pode ajudar o cliente no sentido de reforçar os comportamentos alternativos, ou seja, os de não-obsessão ou compulsão. Essa seria a estratégia mais interessante. 

2. Você falou da técnica de Exposição com Prevenção de Resposta (EPR) como a mais recomendada e que é considerada padrão-ouro para o tratamento do TOC. Quais as situações em que a EPR pode não ser tão efetiva e quais as alternativas para o tratamento? 

Quando você tem casos em que as compulsões são rituais encobertos, a EPR tem pouca efetividade. Quando temos casos de obsessões puras, não é tão recomendada. Também não é muito recomendada quando o cliente tem pouca motivação para o tratamento. O que a gente tem, na verdade, como alternativa seria uma adaptação do EPR para essas atividades. Por exemplo, na hora da prevenção da resposta, a gente poderia pedir para que o cliente fizesse outra coisa alternativa, como contar 200 menos sete. Aí contaria, 193, depois 186 e 179. Assim ele vai diminuindo. Fazendo isso, ele vai ter uma possibilidade menor de fazer um ritual encoberto, pois ele estará ocupado fazendo outra coisa. 

3. Durante sua apresentação, você “traduziu” termos utilizados na psiquiatria (obsessões e compulsões) para a linguagem analítico-comportamental, definindo-os como respostas. Sabe-se da dificuldade de contato da AC com outras áreas e disciplinas devido a questões terminológicas. Diante disto, você poderia falar mais a respeito da importância de definir comportamentalmente conceitos “mentais” e vice-versa? 

Talvez fosse mais interessante a gente conseguir traduzir, definir a nossa linguagem comportamental para uma linguagem que as pessoas possam compreender. Por que eu acredito que a forma que a gente fala em alguns momentos faz que nós sejamos mal compreendidos em nossas propostas. Então, saber traduzir o que as demais pessoas falam para a gente é mais fácil. Mas talvez o analista do comportamento precise ser melhor compreendido, o que eu acho que seria um grande desafio para a gente. 

4. Durante a apresentação, foram muito bem explicitadas causas biológicas e ontogenéticas para a aquisição de respostas obsessivo-compulsivas. No entanto, gostaria de saber mais acerca da relação entre práticas culturais que favoreçam o seu desenvolvimento. Existem dados a respeito desta relação? 

Existe o campo da etnopsiquiatria que estuda a manifestação clinica do Transtorno Obsessivo Compulsivo em diferentes culturas e, de um modo geral, parece que a sua manifestação clinica independe da cultura. Porém, a cultura em que as pessoas vivem influencia na forma em que o TOC vai se manifestar. Por exemplo, em uma cultura muito religiosa, o conteúdo religioso do TOC vai ter uma alteração. Mas parece que, de um modo geral, a manifestação clínica em relação aos sintomas que seriam a agressividade, colecionismo, rituais de limpeza, enfim, esses comportamentos não seriam muito modificados pela cultura. A questão é a expressão da manifestação.

domingo, 25 de março de 2012

Metacontingência: necessária ou não?

“Aplicar nossa análise aos fenômenos do grupo é um modo excelente de testar sua adequação, e se formos capazes de explicar o comportamento de pessoas em grupos sem usar nenhum termo novo ou sem pressupor nenhum novo processo ou princípio, teremos demonstrado uma promissora simplicidade nos dados”. 
B. F. Skinner (1953/2003, p.326) 

Diante desta citação do livro Ciência e Comportamento Humano, falar em metacontingências – conceito cunhado por Sigrid Glenn (1986) para tratar do estudo da cultura – pode parecer um retrocesso. Sua necessidade ou relevância ainda são explícitas para alguns analistas do comportamento, embora estudos venham sendo exaustivamente realizados, mostrando a metacontingência como “um conceito que auxilia na visibilidade acerca da seleção de práticas culturais” (Gusso & Kubo, 2007, p. 141). 

Em primeiro lugar, metacontingências não tornam um novo campo de análise possível (Carrara apud Gusso & Kubo, 2007), pois a análise da cultura já era contemplada através das contingências de reforçamento, não sendo novidade na Análise do Comportamento (Gusso & Kubo, 2007). Além disso, “o estudo e debate sobre esse conceito não diminuíram a relevância das noções de ‘comportamento’ e de ‘contingência de reforçamento’, e qualquer análise cultural dependerá dessas noções básicas da Análise do Comportamento para se concretizar” (Gusso & Kubo, 2007, p. 143). De acordo com Carrara (apud Gusso & Kubo, 2007), talvez o conceito de metacontingências possa aperfeiçoar as análises e sínteses culturais. Nesse sentido, deve-se questionar: “a noção de metacontingência torna mais eficiente a análise de fenômenos culturais?” (Gusso & Kubo, 2007, p. 142-143); ou seja, ela realmente torna os analistas do comportamento capazes de intervir em uma prática cultural, planejá-la e modificá-la? 

O conceito descreve relações funcionais que envolvem certas contingências entre duas pessoas ou mais (contingências comportamentais entrelaçadas ou CCEs) e seus produtos. As CCEs não são continências comportamentais alargadas ou a mera soma de comportamentos individuais, pois podem permitir resultados que não seriam obtidos por cada indivíduo isoladamente. Além do mais, vale ressaltar o duplo papel dos que participam de uma CCE, o de emissão de uma resposta e o de ambiente para a ação de outro Aqui entramos na definição de prática cultural (PC), que envolve relações comportamentais que fazem parte do repertório de uma pessoa e são replicadas no repertório de outrem da mesma geração e entre sucessivas gerações de indivíduos (Glenn; Glenn & Malagodi apud Andery et al, 2005). Tais relações comportamentais replicadas podem ser entrelaçadas ou não, em outras palavras, pode se tratar de várias pessoas se comportando de maneira similar, não havendo necessariamente um entrelaçamento entre suas respostas. 


Um exemplo de PC dado por Glenn (2004) é o de um restaurante e seus componentes (proprietários, garçons e outros funcionários). Cada um exerce suas próprias funções, desde cozinhar, servir clientes e gerenciar o fluxo de caixa (vários indivíduos se comportando, cada qual com suas conseqüências imediatas), constituindo uma CCE. Porém, cada operante que compõe a prática não conseguiria o resultado do entrelaçamento dos comportamentos, que é a comida servida rapidamente para os clientes, como também a própria ida dos clientes ao local. 

A partir destas considerações, pode-se olhar para o comportamento de cada indivíduo de duas maneiras: provendo conseqüências para o comportamento do outro (mantendo o comportamento individual – relação de contingência) e, por outro lado, produzindo um produto conjunto (PA) resultado do entrelaçamento dos comportamentos (entrando no campo das contingências culturais/metacontingências). Logo, o estudo da unidade cultural não entraria em choque com a já conhecida contingência de reforçamento, mas surgiria a partir dela. (Assim, para se entender esta unidade pode-se recorrer ao sufixo “meta”, que demonstra uma relação hierárquica, pois metacontingências emergem na evolução cultural constituindo-se a partir de continências comportamentais (Glenn apud Andery& Sério, 2005) – não é possível deixar de lado a noção de comportamento já amplamente aceita. Porém, esta noção não têm se mostrado suficiente nas questões relativas à cultura (Andery & Sério, 2005) e a metacontinência vem se mostrando como candidata em potencial para completar esta lacuna. 

Por fim, vale ressaltar a fundamental importância dos estudos experimentais de metacontingências, pois o conceito só poderá ser acuradamente utilizado em possíveis intervenções culturais como ferramenta do analista do comportamento se for adequadamente estudado. 

Referências: 

Andery, M. A. P. A & Sério, T. M. A. P. (2005). O conceito de metacontingências: afinal, a velha contingência de reforçamento é insuficiente? Em Todorov, J. C.; Martone, R. C.; Moreira, M. B. (pp. 149-159). Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: Esetec. 

Andery, M. A. P. A., Micheletto, N. & Sério, T. M. A. P. (2005). A análise de fenômenos sociais: esboçando uma proposta para a identificação de contingências entrelaçadas e metacontingências. Em Todorov, J. C.; Martone, R. C.; Moreira, M. B. (pp. 129-147). Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade. Santo André: Esetec. 

Glenn, S. S. (2004). Individual behavior, culture and social change. The Behavior Analyst, 27(2), 133-151. 

Glenn, S. S. (1986). Metacontingencies in Walden Two. Behavioral Analysis and social action, 5, 2-8. 

Gusso, H. L. & Kubo, O. M. (2007). O conceito de cultura: Afinal, a “jovem” metacontingência é necessária? Em: Revista Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental, 9, 139-144. 

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Práticas culturais: é possível estudá-las em laboratório?

Na Psicologia, muitos dizem ser impossível desvendar os mistérios da mente através do método científico - devido à própria natureza deste objeto. Se há quem aposte nisso, o que diriam então sobre o estudo científico de uma cultura, das diversas práticas que a compõem e seus produtos resultantes? Segundo o antropólogo Marvin Harris (1978, p. 13), “os especialistas se empenham em demonstrar que nem a ciência nem a razão podem explicar as variações de estilos de vida da humanidade”. Embora parte importante da obra de Skinner trate do tema, houve décadas sem produção significativa. No entanto, a partir dos conceitos de cultura e metacontingências propostos por Glenn (1986, 2004), finalmente os analistas do comportamento têm voltado sua atenção para o assunto. E o melhor de tudo: não só conceitualmente, mas também experimentalmente.

Pode-se definir de forma sucinta uma cultura como “padrões de comportamento aprendido transmitidos socialmente e também os produtos deste comportamento (objetos, tecnologias, organizações etc.)” (GLENN, 2004). Quanto a sua possível unidade de análise, a metacontingência, no lugar de serem selecionados propriamente comportamentos individuais, são selecionadas certas contingências entre duas pessoas ou mais (contingências comportamentais entrelaçadas ou CCEs) – interações que funcionam como uma unidade integrada, permitindo modificar o mundo de uma maneira que dificilmente ou até mesmo não seria possível para um único indivíduo, gerando e definindo, assim, um produto cultural (produto agregado ou PA). Assim, o comportamento de cada pessoa exerce um duplo papel: de ação e de ambiente comportamental para a ação de outrem (GLENN apud GADELHA, 2010). Além disso, tais interações e PA surgem, modificam-se ou permanecem inalterados (ou seja, são selecionados) por suas conseqüências relevantes para o grupo. Com a ocorrência de um PA e a recorrência sistemática da CCE devido a conseqüências culturais, fala-se então em seleção (GADELHA, 2010).

Faz-se necessário ainda diferenciar metacontingências de macrocontingências. Se em uma metacontingência a conseqüência social é crucial para a sua seleção, em uma macrocontingência há a relação entre uma prática cultural e a soma agregada das consequencias do comportamento recorrente de cada pessoa, que, por sua vez, são mantidos (ou modificados) por seus efeitos para cada indivíduo – e não para o grupo. Por exemplo, ao falarmos do macrocomportamento de “dirigir para o trabalho”, a função entre dirigir e as conseqüências operantes do comportamento de cada pessoa é o que a mantém comportando-se dessa maneira recorrentemente. Por outro lado, milhões de pessoas dirigem com inúmeras funções, o que gera um efeito cumulativo (e.g., trânsito congestionado, poluição etc.) que não é contingenge ao comportamento de nenhum motorista, mas sim ao macrocomportamento da prática cultural (GLENN, 2004).

Há quem possa levantar as seguintes questões: Ok, aqui temos um conceito para definir práticas culturais, mas em que isso nos ajuda? E mesmo assim, como estudar uma prática cultural experimentalmente? A produção em análise experimental da cultura surgiu e tem crescido nos últimos anos, a exemplo de estudos como o de Vichi (2004), Martone (2008), Baia (2008), Nogueira, C. (2009), Andreozzi (2009), Bullerjhan (2009), Caldas (2009), Leite (2009), Oda (2009), Costa (2009), Nogueira, E. (2010), Lopes (2010), Gadelha (2010) e Silva (2011), entre outros, que vêm demonstrando ser possível o desenvolvimento de análogos experimentais de metacontingências e práticas culturais. Os experimentos, de maneira geral, são feitos com pequenos grupos (geralmente de duas a quatro pessoas), sendo compostos por estudantes universitários voluntários. É proposto um jogo ou resolução de problemas individualmente (comportamento operante) e/ou em grupo (CCE). No caso das CCEs, a conseqüência cultural e o produto agregado dependem não do efeito cumulativo das respostas individuais, mas sim do comportamento inter-relacionado dos participantes (GLENN, 2004). Como conseqüência cultural se utilizava fichas (ou bônus) que seriam posteriormente trocadas por dinheiro e o produto agregado variava de experimento a experimento (dependia da tarefa realizada).

No trabalho de Gadelha (2010), e. g., voltado para os estudo das conseqüências culturais, foi desenvolvida uma atividade, onde pontos eram a consequência individual para fazer somas com resultados ímpares; uma CCE possível consistia em os dois participantes realizarem somas, de modo que o resultado do Participante 2 fosse o quadrado do resultado do Participante 1, que constituía o produto agregado (ΣP1 = (ΣP2)²), e a consequência desta CCE era a produção de uma grande quantidade de bônus distribuída igualitariamente entre ambos. Os participantes eram substituídos por outros sem experiência anterior com a atividade, de tempos em tempos, para a verificação da transmissão da prática por sucessivas gerações. Os resultados indicam que foi possível estabelecer uma CCE em laboratório, sendo transmitida para novas gerações (o que define uma prática cultural).

No estudo de Nogueira, E. (2010), utilizou-se a Teoria dos Jogos e, especificamente a situação do Dilema dos Comuns – “há um recurso comum para o qual várias pessoas podem ter acesso” (NOGUEIRA, 2010, p. 15), onde o dilema ocorre entre o ganho individual em curto prazo e o ganho comum em longo prazo. A autora investigou os conceitos de macrocontingências e metacontingências, além dos efeitos de uma intervenção cultural em uma situação onde o ganho individual poderia diminuir drasticamente ou extinguir o recurso comum. O objetivo era intervir em escolhas individuais (macrocomportamento), além de aumentar a interação verbal entre os participantes (intervenção cultural), procurando resultar na produção de CCEs (modificação da prática). Era apresentado aos três participantes um cenário onde havia um tanque com 100 peixes disponíveis, os quais poderiam ser “pescados” através de mini-cartões (que possibilitavam a retirada de 2, 4 ou 6 peixes). Os animais que ficassem reproduziam-se e a nova quantidade era informada. Se, ao final de uma condição, sobrassem peixes, eles seriam divididos igualmente entre os participantes – e cada peixe era trocado por uma quantia de R$ 0,03. Quanto maior a retirada e ganho individual, maior a diminuição na quantidade. Na linha de base, não havia conversa e os participantes não sabiam das escolhas de outrem. Nas condições seguintes, tiveram acesso a esses valores e o diálogo passou a ser permitido a cada duas escolhas. Os resultados indicam que o reajuste na quantidade de peixes teve função de conseqüência cultural externa para CCEs e PA (total de peixes). Nos grupos sem conversa (linha de base), houve esgotamento de recursos. Onde foi permitida a interação verbal, em que outro entrelaçamento das escolhas, os recursos aumentaram, mesmo com a retirada da condição (interação verbal), demonstrando que foi possível alterar a prática cultural, ou seja, que a intervenção foi efetiva – evitando o esgotamento total do recurso.

Os estudos supracitados foram explanados de maneira sucinta, não abarcando todos os resultados e análises possíveis diante dos dados obtidos em ambos. Porém, servem-nos como uma visão geral de como uma prática cultural pode ser estudada em laboratório. Mesmo assim, há quem questione a utilidade de tais experimentos – questionamento comum aos que produzem pesquisa básica em geral. Segundo Selltiz, Wrightsman e Cook (1987) existem três razões básicas para aprender métodos de pesquisa e praticar ciência: adquirir a capacidade de predizer como pessoas e nações se comportarão; entender como funciona o mundo social (descobrindo relações causais); e aprender a controlar os eventos. Aqui chegamos ao ponto do planejamento cultural! Para sermos capazes de planejar práticas efetivas, devemos entender como funcionam e o laboratório nos dá uma importante base para isso. Os analistas do comportamento podem ainda não ser capazes de realizar um planejamento cultural conforme se depreende da obra skinneriana “Ciência e Comportamento Humano”: “propor uma mudança em prática cultural, fazer a mudança e aceitar o mudado” (p. 464, 2003), mas, sem dúvidas, estão sendo dados os primeiros passos rumo a esta direção.

Bibliografia:

Andreozzi, T. C. (2009). Regras de controle tecnológico e de controle cerimonial: efeitos sobre práticas culturais de microssociedades experimentais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

Baia, F. H. (2008). Microssociedades no Laboratório: o efeito de conseqüências ambientais externas sobre as contingências comportamentais entrelaçadas e seus produtos culturais. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília.

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