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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Religiosidade e psicologia: nota de esclarecimento do CFP

Autor: Daniel Gontijo
Disponível em: http://danielgontijo.blogspot.com.br/2012/03/religiosidade-e-psicologia-nota-de.html#more

Ao que parece, estamos em um clima propício para acalorados debates. Recentemente, e para citar um caso que tem gerado grandes repercussões, o CFP tomou nota de que a psicóloga Marisa Lobo está, em alguns sítios virtuais, vinculando seu título de psicóloga ao domínio da religiosidade e se posicionando de forma preconceituosa para com a homossexualidade (que, aliás, não é doença). A despeito do que tem sido alegado, a questão elementar não é a de se a psicologia é realmente uma ciência -- e poderia negar, por isso, a absorção de práticas que não sejam cientificamente validadas -- ou a de se os psicólogos podem ou não ser livres para crer. Antes disso, trata-se da importância de se observar as diretrizes que, ao descrever normas de conduta do psicólogo, culminam na delimitação de um campo específico e legítimo de ação: o das das práticas do profissional de psicologia. Quando a psicoterapia se mistura com ideias e preceitos religiosos, surge um problema similar ao que é levantado pelos defensores da laicidade do Estado. E, se já não há referenciais que tragam -- através de teorias, métodos e resultados -- reconhecimento e identidade satisfatórios ao exercício da profissão, as coisas estariam longe de melhorar caso permitíssemos a entrada de búzios e cartas, bolas de cristal, leitura de mapas astrais e, por que não, aconselhamentos budistas ou cristãos aos consultórios. 

Diante disso, o CFP publicou uma nota de esclarecimento acerca das relações entre a psicologia e a religiosidade. A nota teve como pano de fundo as discussões atuais e como fundamentação o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Como o próprio conselho adiantou, ainda há muita água para rolar. Abaixo, trouxemos o pronunciamento do CFP na íntegra. 



28/02/2012 - Nota Pública do CFP de esclarecimento à sociedade e às(aos) psicólogas(os) sobre Psicologia e religiosidade no exercício profissional 

Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o “sagrado” pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com as quais trabalha. 

Assim, afirmamos o respeito às diferenças e às liberdades de expressão de todas as formas de religiosidade conforme garantidas na Constituição de 1988 e, justamente no intuito de valorizar a democracia e promover os direitos dos cidadãos à livre expressão da sua religiosidade, é que o Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o) orienta que os serviços de Psicologia devem ser realizados com base em técnicas fundamentados na ciência psicológica, e não em preceitos religiosos ou quaisquer outros alheios a esta profissão: 

Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos: 

c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional; 

Se as(o) psicólogas(o) exercerem a profissão declarando suas crenças religiosas e as impondo ao seu público estarão desrespeitando e ferindo o direito constitucional de liberdade de consciência e de crença. 

O Código de Ética Profissional das(o) Psicólogas(o) cita nos dois primeiros princípios fundamentais a necessidade de respeito à liberdade e a eliminação de quaisquer formas de discriminação, e no artigo 2º veda à(o) psicóloga(o) a indução não só de convicções religiosas, mas também de convicções filosóficas, morais, ideológicas e de orientação sexual, compreendendo a delicadeza e complexidade que o tema merece: 

Princípios Fundamentais 

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 

Art. 2º – À(o) psicóloga(o) é vedado: 

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; 

Esse Código de Ética em vigor foi construído a partir de múltiplos espaços de discussão sobre a ética da profissão, suas responsabilidades e compromissos com a promoção da cidadania. O processo ocorreu ao longo de três anos, em todo o país, com a participação direta das(os) psicólogas(os) e aberto à sociedade. Seu objetivo primordial é garantir que haja um mecanismo de proteção à sociedade e à profissão, no intuito de garantir o respeito às diferenças, aos direitos humanos e a afirmação dos princípios democráticos e constitucionais de um Estado laico. 

A profissão de psicóloga(o) foi regulamentada no Brasil pela Lei nº 4.119/1962 e a Lei nº 5.766/1971 criou a autarquia dos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia, destinados a orientar, a disciplinar e a fiscalizar o exercício da profissão de psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe. Entre as atribuições estabelecidas por essa lei ao Conselho Federal de Psicologia estão a de elaborar e aprovar o Código de Ética Profissional do Psicólogo e funcionar como tribunal superior de ética profissional, portanto atuar como instância de recurso aos processos julgados nos Conselhos Regionais. 

Cumprindo seu papel previsto na Lei 5.766/1971 de zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe, os Conselhos Regionais de Psicologia recebem e apuram as denúncias que chegam sobre o exercício profissional de psicólogas(os). Do julgamento do plenário do Conselho Regional, cabe recurso ao plenário do Conselho Federal de Psicologia. 

Qualquer cidadão pode oferecer denúncia contra o exercício profissional do(a) psicólogo(a), visto ser seu direito constitucional. Assim, as ações de orientação e fiscalização promovidas pelos conselhos profissionais no âmbito Regional são legítimas e não podem ser tomadas como perseguições ou cassações a qualquer direito. Todos os profissionais que exercem suas funções reconhecidas pelo Estado Democrático de Direito estão submetidos às legislações e Códigos de Ética dos seus respectivos Conselhos e, portanto, têm o dever de pautar sua atuação profissional nas legislações que disciplinam o exercício de sua profissão. 

A Psicologia como ciência e profissão pertence à sociedade, tendo teorias, técnicas e metodologias pesquisadas, reconhecidas e validadas por instâncias oficiais do campo da pesquisa e da regulação pública que validam o conjunto de formulações do interesse da sociedade. Os princípios e conceitos que sustentam as práticas religiosas são de ordem pessoal e da esfera privada, e não estão regulamentadas como atribuições da Psicologia como ciência e profissão. 

Finalizamos esse posicionamento declarando que o CFP iniciará uma série de atividades de debate sobre a relação entre Psicologia e religiosidade, com vistas a contribuir com o debate público da categoria e da sociedade frente a esse tema, objetivando explicitar que não somos contrários a que os profissionais tenham suas crenças religiosas, e sim que devemos zelar para que estes não utilizem suas crenças, de qualquer ordem, como ferramenta de atuação profissional.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ciúme: palavras sobre o inato e o aprendido

Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões, e fazem com que as suspeitas pareçam verdades" (Miguel Cervantes, 1547-1616).


Na manhã de hoje (10 de outubro de 2011), tirei um tempinho para ler algo a respeito do ciúme. Por sorte, ao lançar o termo no Google Acadêmico, topei com o artigo "Contribuições da Psicologia Evolutiva e da Análise do Comportamento acerca do Ciúme" da analista do comportamento Nazaré Costa. Sorte porque, em primeiro lugar, eu gostaria de conhecer um pouco da leitura analítico-comportamental sobre o tema e, em segundo lugar, porque tenho tido interesse em trabalhos que contemplam atributos filogenéticos do comportamento.(1) Pretendo, com este texto, trazer os principais pontos dessas duas abordagens e esboçar um possível e desejável link entre seus respectivos níveis de análise.


O ciúme


No início do seu trabalho, Costa (2005) comenta sobre o aspecto universal do ciúme: toda sociedade, atual ou remota, é ou foi expressivamente marcada por esse padrão comportamental. Estamos tratando, portanto, de um traço cultural. Desse fato incorre, entre outras coisas, o grande número de pessoas que procuram ajuda psicoterápica para controlar o ciúme, que pode ser excessivo e danoso, e uma parcela considerável de homicídios (em torno de 20%) que envolvem essa classe comportamental. Mas a diferença e a convergência de explicações para o ciúme entre disciplinas, sobretudo entre a análise do comportamento e a psicologia evolucionista, consistem no problema elementar a ser abordado pela autora.

Analisando uma vasta e diversificada literatura, Costa conclui que o ciúme é geralmente entendido como
uma emoção (desprazer [...] apreensão) que é desencadeada por uma situação de ameaça, seja ela real ou não, de perder uma relação ou posição em um relacionamento afetivo, sendo importante ainda destacar que tal emoção tende a "motivar" comportamentos que possam lidar com essa ameaça [...]

Numa tentativa de diferenciar os aspectos "normal" e "patológico" do ciúme, a autora recorre a Pines (1992): "enquanto o ciúme normal ocorre em função de uma ameaça real, o ciúme patológico persiste a despeito da ausência de qualquer ameaça real ou provável". O ciúme patológico seria marcado por um sofrimento exacerbado acompanhado de comportamentos como verificação (de telefonemas, mensagens e e-mails do parceiro, por exemplo), perseguição e inquérito frequentes (indagação sobre onde, por que e com quem o parceiro está/esteve). Em um texto escrito recentemente, meu colega Marcelo Souza falou sobre a Síndrome de Otelo, que é caracterizada por esses e outros comportamentos funcionalmente similares.

Com esse pano de fundo, Costa comenta que o ciúme é um "evento privado [um sentimento] capaz de controlar eventos públicos". Entre as reações fisiológicas que caracterizam esse evento, ou as respostas reflexas, estão o aperto no peito, a sensação de nó na garganta e/ou a sensação de perda de controle. Sentimentos típicos, imediatos ou tardios, são a tristeza, a raiva, a angústia, a ansiedade, a mágoa e a rejeição. Supõe-se, ademais, que o "ciumento aprendeu a sentir [tais sensações] e a emitir determinados comportamentos públicos". "Aprender a sentir" significa, em poucas palavras, que a ocorrência de um evento privado, como a angústia ou a raiva, pode ser condicionado ou emparelhado a um evento ambiental específico. Se, por exemplo, Júlia descobriu que Anselmo a traiu quando, para visitar seu avô, viajou para Belém, sensações privadas desagradáveis poderão surgir sempre que Paulo, seu atual namorado, precisar viajar a negócios (fenômeno denominado generalização respondente). A situação seria assaz mais complicada caso Paulo voasse acompanhado de Cecília, sua esbelta colega de trabalho. Mas a origem dessas sensações, ou ao menos seus aspectos rudimentares, provavelmente remonta a experiências tenras do ciumento, como quando teve de aprender a dividir a atenção da mãe com o pai ou dos pais com um irmão recém-nascido. O fato é: não entramos na adolescência ou na fase adulta sem que tenhamos passado por situações de apego anteriormente, e o que sentimos e, a propósito, o que fazemos para lidar com esses sentimentos são respostas gradativamente modificadas -- da infância à velhice.

Comportamentos públicos, entre os quais a verificação, a perseguição e o inquérito, são aprendidos e mantidos em função de suas consequências. A expressão de insegurança, por exemplo, pode ser mantida por declarações atenuantes como "Eu só tenho olhos para você" e "Eu não trocaria você por ninguém" e por gestos como beijos, abraços, presentes e sexo. Condutas imponentes, coercitivas, como quando o ciumento exclama "Não quero que você saia com suas amigas!", podem ser reforçadas (ter sua frequência aumentada) à medida que são aceitas sem resistência. Em quaisquer dessas ocasiões, o ciumento aprenderia que suas dúvidas e incômodos podem ser resolvidos à medida que os expressa, assertiva ou agressivamente. Segundo Menezes e Castro (2001), por ser reforçado (negativa e positivamente) por esquema intermitente, a extinção do ciúme leva tempo para ocorrer.

As formas de sentir e de lidar com o ciúme são aprendidas, e portanto podem ser modificadas.


De volta à savana

Tendo traçado um panorama dos prováveis processos de aprendizagem relacionados ao ciúme, Nazaré comenta que "evolucionistas e analistas do comportamento compartilham a concepção segundo a qual o ciúme consiste numa emoção filogeneticamente determinada". Como uma resposta adaptativa da espécie, o ciúme teria surgido "para solucionar um problema recorrente de sobrevivência e reprodução: a ameaça real da traição" (Buss, 2000). Nesse sentido, o ciúme seria um produto de contingências de sobrevivência que conferiu vantagens reprodutivas àqueles que o manifestaram. Para os homens, o ciúme os protegeria, por exemplo, contra os riscos de investir tempo e energia no cuidado de filhos que não são seus. Para as mulheres, o ciúme afastaria a possibilidade de uma rival retirar a segurança emocional (e material, devo acrescentar) para com ela e filhos. Fisher (1995), em síntese, assume que "o ciúme ajuda a restringir a prevaricação [perversão, traição] das mulheres e o abandono por parte dos homens". Com efeito, indivíduos com esses traços comportamentais teriam tido vantagens reprodutivas (gerariam mais descendentes) e, gradativamente, o grupo dos assaz relaxados teria minguado.

Em seu livro Compreender o Behaviorismo (2006),(2) William Baum sublinha que "a maior parte dos genes que um indivíduo herda foi selecionada ao longo de muitas gerações porque promovem comportamentos que contribuem para o sucesso na interação com o ambiente e na reprodução" (p. 73). Ao largo da doutrina da tábula rasa, às vezes erroneamente associada ao behaviorismo radical, Baum comenta que não poderíamos "aprender todos padrões [comportamentais] complexos que aprendemos sem uma elaborada base de tendências previamente incorporadas" (p. 78). Há centenas de milhares de anos atrás, nossos ancestrais do sexo masculino não contavam com exames de ADN que os assegurassem que estavam captando recursos para e defendendo, com unhas e dentes, seus próprios filhos. Contra a tragédia de multiplicar genes de seus rivais, a seleção natural os contemplou com certa dose de ciúme. Essa sensação, ou esse misto de sensações, passaria a controlar certas classes de respostas verbais (como gritos e expressões de fúria) e físicas, quer fosse contra a fêmea (de forma a reprimir seus comportamentos promíscuos), quer fosse contra os machos, que a cortejavam ou aparentemente pretendiam fazê-lo.

Essas disposições inatas são algo como um repertório comportamental básico modelado pelas contingências de sobrevivência. O elenco desse repertório, denominado padrões fixos de resposta, fazem com que os indivíduos comportem-se de forma adaptativa sem que tenham anteriormente passado por processos complexos de aprendizagem. Conforme ilustra e explica Baum (Ibidem):

Quando passa a sombra de um falcão em vôo, o filhote de codorna se encolhe como se estivesse paralisado. Se essa reação dependesse de experiência, poucos filhotes de codorna sobreviveriam para se reproduzir [...] genótipos que exigissem que tais padrões fossem aprendidos a partir do zero seriam menos aptos do que genótipos que já trouxessem a forma básica incorporada (pp. 77-78).

Baum pontua que os padrões fixos de resposta não são rígidos, inflexíveis, podendo ser modulados pelas consequências. Daí que, a partir das interações que fazemos com nossos pares ao longo da vida, quer seja com pais e irmãos, como enfatizam os psicanalistas, quer seja com namorados e cônjuges, dá-se a possibilidade de ser regulados, a partir das consequências, os traços que herdamos dos nossos ancestrais. E é nesse escopo, o ontogenético, que os analistas do comportamento são peritos e podem atuar de forma a ajudar o ciumento -- e o seu parceiro, é claro.


Mais algumas palavras

Mais do que discorrer exaustivamente sobre o ciúme, tive como objetivo central neste texto divulgar a ideia de que é possível, simples e desejável fazer com que a análise do comportamento dialogue com disciplinas evolucionistas. O arsenal de comportamentos possíveis de um organismo é não só limitado pelas condições ambientais que o entornam (e o entornaram), mas também pelas disposições que lhe são geneticamente concedidas por seus progenitores. Se homens e mulheres, por exemplo, manifestam padrões comportamentais distintos, como patentemente ocorre no campo das relações interpessoais, parte disso certamente decorre de diferenças genéticas. Embora a cultura, através da mídia ou da vizinhança, possa estabelecer regras e incentivar ou reprimir certas condutas, não podemos fechar os olhos para as prováveis influências genéticas sobre o estabelecimento desses padrões. O ciúme, o tabu do incesto e o casamento são exemplos de universais humanos, sendo improvável que tenham, em cada esquina do planeta, brotado do acaso ou sido inspirados por Deus. Se quisermos compreender as raízes do comportamento humano, devemos cavar para além da primeira infância. E, se quisermos acompanhar o avanço da ciência contemporânea e ser reconhecidos e apoiados por membros de outras disciplinas, devemos direcionar nossos ouvidos a Darwin, tomado por alguns como o avô do behaviorismo radical.

Sobre o ciúme, espero que tenha ficado claro que, embora seja natural (no sentido de ser comum e até mesmo esperado em uma relação romântica), pode passar da conta e fazer com que os laços se afrouxem ou rompam. Diante disso, tanto o ciumento como o seu parceiro podem procurar, individualmente ou em casal, ajuda profissional.



Notas e referências:


(1) Os behavioristas são eventualmente criticados, sobretudo pelos cognitivistas, sobre uma suposta ignorância ou descaso acerca dos aspectos filogenéticos do comportamento.

(2) Estou, neste momento, extrapolando a leitura que fiz do artigo em questão.

Baum, W. M. (2006). Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Porto Alegre: Artmed.

Buss, M.D. (2000). A paixão perigosa. RiodeJaneiro: Objetiva.

Costa, N. (2005). Contribuições da psicologia evolutiva e da análise do comportamento acerca do ciúme. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. VII, número 1, 5-513.

Fisher, H. E. (1995). Eros: a emergência das emoções sexuais. Em Fischer, H. E. A anatomia do amor: a história natural da monogamia, do adultério e do divórcio. Rio Grande do Sul: Eureka.

Menezes, A., & Castro, F. (2001). O ciúme romântico: uma abordagem analítico-comportamental. Trabalho apresentado no X Encontro Brasileiro de Medicina e Terapia Comportamental (Campinas,SãoPaulo).

Pines, A. M. (1992). Romantic jealousy theshadowof love. Psychology Today, 25(2), 48-55.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Falsas memórias: entrevista com a neuropsicóloga Luciana Ávila

Quer seja no cotidiano, quer seja na clínica psicoterápica ou em condições de pesquisa, somos eventualmente requeridos a recordar de situações que presenciamos, vivenciamos ou lemos e ouvimos através de algum veículo de comunicação. Acontece que, no entanto, o registro e a recordação dessas experiências nunca é fiel -- estamos inexoravelmente sujeitos ao erro. Para abordar esse interessante e inquietante assunto, o graduando em Psicologia Cláudio Drews e o psicoterapeuta Daniel Gontijo entrevistaram Luciana M. Ávila, mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC-RS), psicoterapeuta e neuropsicóloga. Em seu mestrado, Luciana investigou a influência dos traços de personalidade sobre as falsificações de memória.


1) Primeiramente, Luciana, o que é memória e o que são falsas memórias? Como elas estão inseridas em nosso dia-a-dia?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar o fascínio que a memória exerce em função de sua complexidade. Podemos afirmar com tranquilidade que “somos aquilo que recordamos”. É através da memória que temos uma sensação de continuidade e é através dela que damos significado à nossa personalidade. Podemos conceituar memória como aquisição (também entendida como aprendizagem), conservação e evocação de informações (nossas lembranças). Entretanto, a memória também tem seu lado obscuro e frágil. Pode-se esquecer de forma rápida ou gradual de eventos importantes ou até mesmo distorcer o passado de forma surpreendente. Uma das falhas de memória são as falsas memórias (FM). As falsas memórias caracterizam-se pela lembrança de eventos que na realidade nunca ocorreram. As informações são armazenadas na memória e, mais tarde, são recordadas como se tivessem sido verdadeiramente vividas. As FM incluem distorções na maneira de recuperação da memória armazenada, incluindo interpretações e inferências do indivíduo. Essas falhas podem trazer prejuízos importantes em nosso dia-a-dia, já que acreditamos sinceramente que nossa recordação é verdadeira, fazendo com que possamos trazer uma riqueza de detalhes impressionantes sobre falsos episódios.


2) Qual a principal teoria explicativa sobre falsas memórias?

Um dos modelos teóricos explicativos para a compreensão das falsas memórias mais aceito atualmente é a Teoria do Traço Difuso – TTD (no original em inglês, Fuzzy Trace Theory de Reyna e Brainerd, 1995, 2005). Segundo essa teoria, a memória não é um sistema unitário, mas constituído de múltiplos sistemas independentes, contendo representações literais e de essência. Enquanto que a memória de essência armazena somente o significado do fato ocorrido, a memória literal contém em si as lembranças dos detalhes específicos sobre o evento. Assim, segundo a Teoria do Traço Difuso, as falsas memórias ocorrem em função da lembrança de informações acerca do sentido das experiências (memórias de essência). Na recordação dos eventos, aspectos específicos e detalhados (memórias literais) acabam dando lugar aos aspectos e representações de essência das lembranças – mais gerais e amplas.


3) Como fica o papel da emoção nas falsas memórias?

Atualmente, as emoções são definidas como coleções de respostas cognitivas e fisiológicas acionadas pelo sistema nervoso que preparam o organismo para se comportar frente a determinas situações. Várias pesquisas vêm sendo desenvolvidas para identificar os padrões de interações entre emoção, cognição e comportamento. Diante disso, também surge o interesse em pesquisar como a emoção interage com a memória e, particularmente, com as falsificações de memória. De uma maneira geral, os resultados dessas pesquisas indicam que lembramos mais de eventos emocionais do que não emocionais. Entretanto, estudos mais recentes também vêm indicando que, especialmente em se tratando de eventos emocionais, o aumento no índice de memórias verdadeiras pode vir acompanhado por um aumento no índice de falsas memórias. Ou seja, o fato de lembrarmos mais de eventos emocionais não significa que essas lembranças sejam imunes às distorções.


4) Em seu mestrado, você pesquisou o papel das diferenças individuais na suscetibilidade às falsificações de memória. Quais traços de personalidade estão mais relacionados à qualidade da memória?

Entre os diversos aspectos que englobam o tema falsas memórias, o que mais me encantou foi a seguinte questão: por que algumas pessoas apresentam uma maior suscetibilidade às falsas memórias do que outras? Estudos que relacionam diferenças individuais e falsas memórias procuram responder o que torna algumas pessoas mais vulneráveis do que outras na produção e aceitação de falsas informações. Pesquisas têm sugerido que as diferenças individuais, especialmente certos tipos de traços de personalidade, podem exercer influência significativa na precisão de nossa memória. Em meu mestrado, utilizei o modelo dos Cinco Grandes Fatores de McCrae e Costa (1997). Verifiquei que pessoas com altos níveis de neuroticismo, que apresentam características como instabilidade emocional, baixa autoestima, depressão e vulnerabilidade, além de afetos negativos e respostas de coping mal adaptadas – características associadas a uma maior suscetibilidade às falsas memórias –, apresentam maior número de distorções mnêmicas. Essas distorções ocorrem já que pessoas com essas particularidades possuem dificuldades em estabelecer avaliações críticas e apresentam uma necessidade de reduzir sensações de incerteza, demonstrando menor confiança em suas próprias recordações.


5) As falsas memórias possuem dois campos de aplicação: a área clínica e a jurídica. Quais suas implicações em ambas as áreas?

No campo da área clínica, os estudos de falsas memórias podem ajudar já que as sessões terapêuticas normalmente giram em torno de experiências emocionalmente significativas para o paciente e que geralmente partilham de uma mesma essência (p. ex., problemas de relacionamento com a mãe). Diversos casos relatados na literatura de recuperação de lembranças falsas, fruto de procedimentos utilizados por terapeutas, que muitas vezes desconhecem como a memória humana funciona, têm preocupado pesquisadores. Os terapeutas podem ter lembranças falsas sobre o relato de seus pacientes ou, até mesmo, baseados em suas interpretações do que está ocorrendo com o paciente, podem prover sugestão de falsa informação ao longo das sessões psicoterápicas. O estudo dos mecanismos envolvidos nesse processo pode auxiliar no desenvolvimento e aprimoramento de técnicas de entrevista e de intervenção terapêutica que minimizem a ocorrência ou impacto dos erros de memória. Já no meio jurídico, os estudos de FM obtiveram destaque, principalmente relacionados à fidedignidade no relato de testemunhas de contravenções em geral. É preciso que se utilizem técnicas confiáveis em coleta de testemunho, uma vez que com base em falsas memórias indivíduos inocentes podem ser acusados de crimes que não cometeram.


6) Como identificar uma falsa memória?

Ao considerar o fenômeno das falsas memórias, nos deparamos exatamente com esse desafio: como determinar se uma pessoa está realmente baseando seu relato em memórias verdadeiras ou em falsas memórias? Será possível saber a probabilidade de uma memória ser real ou distorcida? Infelizmente essas questões ainda não foram inteiramente respondidas pela ciência, já que as falsas memórias são um fenômeno de base mnemônica e não estritamente de base social, como mentiras ou simulações ocorridas por pressões sociais. Sendo assim, a pessoa deposita um alto grau de confiança em sua recordação, tornando-se difícil a comprovação da veracidade das informações. Porém, considerar suas aplicações clínicas e jurídicas – com os cuidados que devemos ter nessas duas áreas – e compreender que certas pessoas com determinadas características e traços de personalidade apresentam maior suscetibilidade para a produção de FM nos aproxima de variáveis que contribuem para a resposta de algumas dessas questões.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Contingências, coincidências e superstições

Às vezes, andando pelo centro de Bom Despacho, minha cidade natal, avistava de longe um amigo ou conhecido. Quando, à medida que caminhávamos, nos aproximávamos, notava que a pessoa que avistara não era quem eu havia imaginado. Isso acontecia com certa regularidade... e o que estava por vir deixava-me com uma pulga atrás da orelha. Cerca de quatro ou seis minutos após o engano, não raro acabávamos de fato nos encontrando: o conhecido e eu. Impressionado, deixava-me seduzir pela ideia de que aquele equívoco se tratava de premonição (sinal de que algo vai acontecer) ou telepatia (sentir à distância). Era excitante imaginar que temos, ou que eu tinha, superpoderes ou estranhas habilidades superdesenvolvidas. Era. Hoje, mais cético e instruído sobre o comportamento humano, tenho nas mangas explicações razoáveis para os eventos que nos convidam à superstição e à pseudociência.


Contingências e coincidências

Apoiada na literatura behaviorista radical, Souza (2001) assevera que, "em sentido geral, contingência pode significar qualquer relação de dependência entre eventos ambientais ou entre eventos comportamentais e ambientais" (destaque meu). Vejamos alguns exemplos de eventos contingentes ou dependentemente relacionados:

  • Se trabalhamos, então ganhamos dinheiro;
  • Se chegamos no banco antes que feche, então somos atendidos;
  • Se somos alertados sobre o perigo da estrada, então dirigimos com mais cautela;
  • Se comemos, ou mesmo se avistamos certos tipos de comida, então salivamos.

Souza, citando Todorov (1989, p. 354), ressalta que "a cláusula 'se' pode especificar algum aspecto do comportamento ou do ambiente, e a cláusula 'então' especifica o evento [...] consequente. Assim, os enunciados [como os descritos acima] apresentam-se como 'regras' que especificam essas relações entre eventos". Trocando em miúdos, certos eventos (como salivar e ganhar dinheiro) tendem a ocorrer na ocasião ou no contexto em que outros eventos (como ser exposto à comida e trabalhar) se fazem presentes. Há uma relação de dependência entre esses eventos, e esse tipo de relação é comumente denominada relação causal. O behaviorismo radical, contudo, chama-a relação funcional(1) ou, mais simplesmente, contingência.

Note-se que estamos lidando com eventos comportamentais. Comportamentos são interações organismo-ambiente. Pensamentos, emoções e condutas públicas são ocorrências naturais e contingentes aos fenômenos mundanos. Não há dualismo; não há mundos paralelos. Toda atividade humana é determinada e, por se tratar de um conjunto de interações, igualmente determinante -- ambiente e organismo modificam-se mutuamente. Essas interações podem ser observadas (ou inferidas), medidas, controladas/manipuladas e mesmo previstas. Temos a chance de fazer, e fazemos, uma ciência do comportamento.

Mas vejamos as seguintes situações:

  • Relampejou quando abri a janela;
  • O ônibus parou no ponto assim que cheguei;
  • Sempre que aperto o botão com a mão direita, o elevador chega logo;
  • Paulo usa sempre a mesma lapiseira para fazer provas; diz que isso faz com que ele escreva respostas corretas (Souza, 2001).

Souza chama atenção para o fato de que abrir uma janela e, no mesmo momento, um relâmpago cortar o céu não se refere a uma relação de dependência. "Os dois eventos podem ocorrer temporalmente próximos, mas de modo totalmente independente: o relâmpago teria ocorrido quer eu abrisse ou não a janela." Por essa razão, relações como essa não são contingentes/dependentes, mas de contiguidade, acidentais ou coincidentes. Não há uma relação de dependência entre chegarmos no ponto e o ônibus imediatamente despontar na esquina. Similarmente ao caso do relâmpago, o ônibus teria dobrado a esquina naquele momento independentemente de o querermos pegar. Há não mais que uma justaposição, uma relação temporal entre aqueles eventos, e agir como se fossem contingentes (ou causalmente relacionados) caracteriza a superstição.


Superstição

Somos curiosos e inteligentes. Quando certas coisas ocorrem, tendemos a indagar "Por quê?". Formular regras que descrevem o funcionamento do mundo é, em última análise, uma questão de sobrevivência. Podemos confeccionar regras ao fazer parte de ou observar certos acontecimentos, como quando um blogueiro verifica que seus textos de divulgação científica são mais acessados e comentados do que os de filosofia. Essa observação, que poderia gerar uma regra como "As pessoas interessam-se mais por divulgação científica", tende a aumentar a probabilidade de aquele blogueiro postar textos sobre o tema que levou suas estatísticas às alturas. Por aumentar a frequência desse comportamento (postar textos sobre divulgação científica), dizemos(2) que aquelas consequências (mais acessos e comentários) o reforçam.

Pode acontecer, entretanto, de um blogueiro desatento realizar observações equivocadas. Em vez de abstrair a regra "Se posto textos de divulgação científica, então tenho mais acessos e comentários", poderia inferir "Se coloco mais imagens ao longo dos textos, tenho mais acessos e comentários". Como não há uma relação de dependência entre publicar imagens e receber mais comentários, dizemos que o comportamento de postá-las é supersticioso. Em termos técnicos, o comportamento supersticioso "trata-se de um tipo de comportamento no qual existe apenas uma relação acidental entre uma resposta [publicar imagens] e a apresentação de um evento subseqüente [receber comentários]" (Santos & Micheletto, 2010, destaque meu). Em vez de publicar mais textos de divulgação científica, nosso blogueiro começaria a publicar textos variados adornados com inúmeras figuras.

Voltemos ao caso do ônibus. Maria, atrasada para uma entrevista de emprego, está diante de uma excelente chance de transformar sua vida. Mesmo que apressada, faz uma prece e, logo ao sair de casa, é abordada por um mendigo. Impaciente, dá-lhe algumas moedas e o deixa falando sozinho. Faltando exatos quinze minutos para a entrevista, Maria chega ao ponto no mesmo instante em que o ônibus desponta na esquina. Pega-o, é entrevistada e consegue o emprego. A partir de então, antes de sair para o trabalho, Maria invariavelmente faz uma pequena prece e dá alguns trocados ao primeiro mendigo que encontrar. Maria: "Essa é a forma [rezar e ajudar os miseráveis] de fazer com que Deus intervenha sobre o mundo de forma a ajudar seus fiéis [conceder-lhes empregos e promoções, por exemplo]".


Quebrando o encanto 

[É] muito melhor, para as afirmações que ainda não foram refutadas ou apropriadamente explicadas, conter a nossa impaciência, nutrir certa tolerância em relação à ambiguidade e esperar -- ou, ainda melhor, procurar -- a evidência de que as confirme ou conteste (Sagan, 1996/2006, p. 258).

Costumamos interpretar o mundo conforme a regra "Post hoc, ergo proper hoc" -- expressão latina que significa "aconteceu após o fato, logo foi por ele causado". Mesmo que não possamos descrever por que fazemos o que fazemos, a justaposição de eventos explica por que regamos nossas plantas, por que estudamos para uma prova e por que cuidamos, abraçamos e dizemos "Eu amo você...": aprendemos que o crescimento das plantas, o resultado de uma avaliação e o fortalecimento dos laços interpessoais dependem dos ou são causados pelos eventos que os antecedem. No primeiro caso, aprendemos mediante a instrução de uma terceira pessoa. Nos outros, comumente aprendemos na medida em que interagimos com o mundo -- na medida em que somos afetados pelas consequências daquilo que fazemos. Acontece, contudo, que a justaposição de eventos pode gerar ambiguidades e, como vimos, comportamentos supersticiosos. Eventos que se sucedem temporalmente não estão necessariamente em relação contingente ou de dependência uns com os outros -- podem ser coincidentes ou acidentais.

Quando contei a um dos meus irmãos sobre minhas fantásticas mas hipotéticas premonições, fui simultaneamente surpreendido e convidado ao pensamento cético. "Interessante, Daniel", comentou Thiago, "mas aposto que, em diversas situações, suas supostas previsões telepáticas falham. Você deve memorizar as que se concretizaram, mas inúmeras que falharam certamente foram esquecidas." A princípio, frustrei-me com aquela inteligente observação. Era inebriante crer naquelas habilidades atípicas e misteriosas -- ainda mais à medida que aconteciam comigo. Mas ele tinha razão, e só mais tarde comecei a entender e a valorizar o ceticismo.

Thiago, naquela época, alertara-me sobre a falácia de selecionar observações (destacamos aquelas que confirmam nossas crenças/desejos e omitimos ou esquecemos aquelas que as refutam). Sagan (1996/2006), sobre a relação desse comportamento com a religiosidade, ressalta que as orações que não foram atendidas tendem a ser esquecidas ou abandonadas. Se alguma das rotineiras orações é seguida de um evento desejado, então as orações são vistas como variáveis independentes ou causais daquilo que acontece ("Post hoc, ergo proper hoc"). A falta de merecimento ou a pouca fé podem ocasionalmente justificar por que certas orações não são atendidas. Mas nós tendemos a esquecer a maioria delas. E deve ser, como alerta Sagan, que "no âmago de algumas pseudociências reside a ideia de que é o ato de desejar que dá forma aos acontecimentos" (p. 39).

A parapsicóloga Susan Blackmore, citada por Sagan, assevera que é fácil ser enganado pelo próprio desejo de acreditar. Apenas um exame minucioso e cético pode nos livrar dos enganos, tanto dos bons (ter habilidades atípicas superdesenvolvidas) como dos ruins (ser vítima de mau-olhado). O blogueiro pode, ao longo de suas publicações, refinar suas observações e concluir que a inserção de imagens não é a principal variável que faz aumentar seus acessos e comentários. Aos poucos, textos sobre temas variados e recheados de imagens tendem a diminuir (essa classe de comportamentos começa a se extinguir) e aqueles que se dedicam à divulgação científica aumentam de frequência (por serem consequenciados ou seguidos por eventos [acessos e comentários] que reforçam esse tipo de comportamento [publicar textos científicos]).

E o que dizer de Maria? Há condições em que podemos observar e manipular variáveis com certa facilidade (como aconteceu com o caso hipotético do blogueiro desatento). Maria, caso deixasse de rezar e ajudar mendigos, poderia notar que as razões pelas quais certos eventos desejados acontecem, como ser promovida, são outras (digamos, trabalhar com empenho, ser simpática com seus colegas de trabalho e cooperar). Ocorre, entretanto, que seus comportamentos supersticiosos são mantidos por regras abrangentes e por relações que estabelece com outras pessoas. Exemplos dessas regras são "Se há um mundo e pessoas, então deve haver Deus, Quem criou tudo" e "Se há Deus, então podemos ser punidos ou gratificados". Se acreditamos nesses condicionais, tendemos a crer que certos eventos do mundo levam um "dedo de Deus". Se começamos a questionar como, quanto, quando e se Deus interfere nos acontecimentos, podemos ser reprimidos por aqueles com quem partilhamos nossas crenças. Ainda, se cremos que Deus -- à semelhança de nós -- pune quem quer que Lhe desagrade, o questionar silenciosamente pode igualmente ser evitado. Quando menos, como é o caso dos "religiosos liberais", o questionamento pode estar presente mas não fazer desvanecer certas regras rudimentares. Exemplos dessas regras são "Deus existe e pode intervir sobre o mundo" e "Há vida após a morte do corpo", as quais são difícil ou impossivelmente refutadas e, portanto, são mais resistentes à extinção -- o que não quer dizer que não possam ser indiretamente confrontadas.


Contra o "sussurro de Deus"

Há alguns dias atrás, deparei-me com um artigo cujo autor sugere que jamais estaremos livres do "sussurro de Deus". O comportamento supersticioso, e sobretudo o do tipo religioso, seria um subproduto da evolução. Nossos genes codificariam os mecanismos básicos que, juntos, possibilitariam o desenvolvimento provável da crença religiosa. Sou simpático às teorias evolucionistas. Contudo, desconfio que aquele sussurro seja satisfatoriamente explicado por um processo geral e deveras simples: o condicionamento operante. A disposição, que é herdada, de aprender com as consequências explica a flexibilidade e a riqueza do comportamento humano. Ser sensível aos eventos (isto é, ser modificados por esses eventos) que sucedem nossas ações é uma condição sine qua non para a aprendizagem. Se, contudo, certos eventos coincidem com nossos comportamentos, uma associação não-contingente pode ser estabelecida.  O "sussurro de Deus", ou o ícone do comportamento supersticioso, seria o resultado de aprendizagens cujo evento reforçador não é contingente ou dependente ao comportamento previamente emitido. Esse é o erro do tipo "Post hoc, ergo proper hoc", e nós e boa parte dos demais animais estamos a ele sujeitos. O que nos permite o comportamento inteligente acaba, como um efeito colateral, nos fazendo crer no poder mágico de cristais, água benta e crucifixo, amuletos, preces, pensamentos positivos e, no meu caso, equívocos premonitórios.

Contra o sussurro ou o grito da pseudociência, Sagan (1996/2006) aconselha-nos a ser curiosos, duvidar e investigar. Em casos sobre os quais não temos uma explicação baseada em evidências, levantemos hipóteses e escolhamos, mesmo que provisoriamente, a mais razoável e simples. No meu caso, é mais provável que eu tenha habilidades premonitórias cujos mecanismos são impassíveis de ser investigados ou que, em uma cidade interiorana, eu tenha aprendido, mesmo que inconscientemente, que a certas horas e lugares é possível que eu trombe com fulano ou sicrano, que trabalha ou estuda naquelas proximidades? Embora a primeira opção seja mais excitante, a segunda provavelmente descreve melhor e aproximadamente o que acontecia. Passo a palavra a Sagan:

O pensamento cético se resume no meio de construir e compreender um argumento racional -- de reconhecer um argumento falacioso ou fraudulento. A questão não é se gostamos da conclusão que emerge de uma cadeia de raciocínio, mas se a conclusão deriva da premissa ou do ponto de partida e se essa premissa é verdadeira (p. 241).



Notas e referências:

(1) Cruz e Cillo (2008), baseados em David Hume e Ernst Mach, comentam que "o conceito de função irá expressar uma concepção relacional que não tem um fim em si mesma". Em vez de dizermos de relações causais, que trazem a ideia de relações necessárias e suficientes (o que conhecemos como mecanicismo), podemos simplesmente dizer que um evento é função de outro evento, sendo que o primeiro influencia a provável ocorrência do segundo.

(2) Quando falo "dizemos", refiro-me aos behavioristas radicais/analistas do comportamento.

Cruz, R. N., & Cillo, E. N. P. (2008). Do Mecanicismo ao Selecionismo: Uma Breve Contextualização da Transição do Behaviorismo Radical. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 24, n. 3, pp. 375-385.

Sagan, C. (1996/2006). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

Santos, G. M., & Micheletto, N. (2010). Relação entre comportamento supersticioso e estímulo reforçador condicionado: uma replicação sistemática de Lee (1996). Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, Vol. XII, nº 1/2, 146-175.

Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.

Todorov, J. C. (1989). A Psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5, 347-356. Em: Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.

sábado, 16 de julho de 2011

Ciência em Psicologia

Podemos rezar pela vítima do cólera, ou podemos lhe dar quinhentos miligramas de tetraciclina a cada doze horas. [...] Podemos tentar a quase inútil terapia psicanalítica pela fala com o paciente esquizofrênico, ou podemos lhe dar trezentos a quinhentos miligramas de clazepina. Os tratamentos científicos são centenas ou milhares de vezes mais eficazes do que os alternativos. Renunciar à ciência significa abandonar muito mais do que o ar-condicionado, o toca-disco CD, os secadores de cabelo e os carros velozes (Sagan, 1996/2006, p. 25-26).

Podemos, enquanto psicólogos, lutar pela promoção do método científico em Psicologia, ou podemos, junto à Psicanálise, ser colocados no barco dos campos não-científicos e, portanto, pouco eficazes. Acredito em uma Psicologia vista não como um "recurso alternativo", mas como um fazer científico complementar e independente cujo objeto de estudo é o comportamento.

Mas como é possível uma ciência do comportamento? Baum (2006):

Na ideia de que é possível uma ciência do comportamento está implícito que o comportamento, como qualquer objeto de estudo científico, é ordenado, pode ser explicado, pode ser previsto desde que se tenham os dados necessários e pode ser controlado desde que se tenham os meios necessários. Chama-se a isso determinismo, a noção de que o comportamento é determinado unicamente pela hereditariedade e o ambiente (p. 25, destaque meu).

Se assumimos que o comportamento é ordenado e que se apresenta com regularidade, não o temos como aleatório. Por exemplo, a regularidade da forma como nos interagimos com as pessoas permite falarmos de "traços de personalidade". Se agíssemos tão distintamente a cada vez que encontrássemos alguém, seríamos tão imprevisíveis, e mesmo irreconhecíveis, que não nos caberia adjetivos como "afável", "ríspido", "introvertido" ou "responsável" -- embora nos pudesse caber "imprevisível". Com efeito, o padrão e a regularidade com que nos comportamos permite que as pessoas, mesmo leigas em Psicologia, categorize-nos em adjetivos ("extrovertido", "sociável" mas "ansioso", p. ex.), prevejam nossas ações em algum nível e possam deliberadamente nos influenciar (p. ex., convencendo-nos a ir ao cinema ou acalmando-nos em circunstâncias adversas). Pode-se dizer que a folk psychology (ou a Psicologia Popular) se fundamenta em uma ciência rudimentar.

Mas a ciência comportamental vai além. Se não aceitamos a aleatoriedade, logo podemos descobrir em que circunstâncias um tipo de comportamento ocorre -- se é ao ter suas ideias objetadas, se é ao esperar pela ligação do(a) namorado(a), se é ao se submeter a uma entrevista de emprego ou se é ao ser abordado por um estranho. Podemos desvendar suas origens, bem como compreender as circunstâncias que o fazem persistir ao longo dos anos. Podemos, ainda, estimar a frequência, a intensidade e a duração desse comportamento, e a partir dessas medidas podemos arquitetar e aplicar intervenções e posteriormente avaliá-las. A propósito, boas intervenções requerem boas análises do comportamento-alvo.


Termos e conceitos

Há tanto várias formas de se analisar um comportamento como várias formas de se intervir sobre ele. Skinner sustentou que o caminho para uma ciência do comportamento está no desenvolvimento de termos e conceitos que permitem explicações verdadeiramente científicas (Baum, 2006). Baseado em Mach (1960), Baum (2006) assevera que

a ciência cria conceitos que permitem a uma pessoa dizer à outra o que se relaciona com o que no mundo, e o que esperar se determinado evento acontecer -- conceitos que permitem a previsão com base na experiência passada com esses eventos. Quando os cientistas criam termos como oxigênio, satélite e gene, cada palavra contém uma história completa de expectativas e previsões. Esses conceitos nos permitem falar economicamente dessas expectativas e previsões, sem necessidade de repetidamente darmos longas explicações (p. 39).

O termo "gene" -- e derivados -- costuma ser prático no contexto de uma explicação sobre semelhanças comportamentais -- ou de personalidade -- de gêmeos idênticos. Se dissermos "É genético!", queremos dizer que suas disposições comportamentais são em grande medida herdadas e que, é claro, esses irmãos carregam os mesmos genes. Ademais, esse termo permite aos geneticistas dizer de e manipular, com base em expectativas preconcebidas, certos segmentos do ADN. Temos, a partir disso, que o termo "gene" é econômico e, por facilitar a prática científica, operacionalizável.

Nesse sentido, psicanalistas inventaram termos como libido, inconsciente e repressão; cognitivistas lançam mão de termos como desejo, crenças e esquemas; analistas do comportamento, reforço, extinção e operações estabelecedoras; humanistas, congruência, aceitação incondicional e empatia. Acontece que, quando se trata do fazer científico, certos termos e conceitos são mais ou menos aplicáveis, operacionalizáveis. Em geral, termos "bons" referem-se àqueles que são facilmente observados e/ou mensurados, bem como que diminuem a confusão ou a ambiguidade de uma hipótese ou modelo qualquer. Termos psicanalistas não satisfazem nenhum desses critérios. Termos behavioristas podem ser, em princípio, de difícil compreensão. Contudo, estes superam, por exemplo, os termos humanistas -- que são elegantemente compreensíveis -- no quesito "operacionalidade científica". Talvez possamos dizer o mesmo dos termos cognitivistas.

Para o idoso, o declínio da memória declarativa pode anunciar o início de um acometimento demencial. Para qualquer pessoa, a frequência de certas classes de resposta em contextos específicos pode dizer das variáveis que o controlam, das funções que assumem esses comportamentos e da privação de uma pessoa em relação ao produto dessas funções. Memória declarativa, da Psicologia Cognitiva, e classe comportamental, contexto, função e privação, da Análise do Comportamento, são termos que resumem uma cadeia de expectativas -- são atalhos conceituais cujas observações ou medidas permitem que prevejamos e controlemos certos fenômenos. Caso a hipótese seja confirmada, o idoso com doença de Alzheimer poderá se submeter aos tratamentos farmacológicos e de reabilitação disponíveis. Para a reabilitação, esquemas de reforçamento poderão ser utilizados para que esse idoso aprenda a utilizar dispositivos mnemônicos compensatórios e/ou a fortalecer respostas que tendem a se extinguir em razão da progressão dessa doença. Como resultado, termos econômicos e cientificamente operacionalizáveis facilitam o trabalho do profissional e permitem que este ofereça o melhor serviço para seu cliente -- e esse é um ponto em que ciência rima com ética.


Métodos e evidências

Voltemos ao caso dos gêmeos idênticos. Contrapondo a hipótese da genética, poderíamos dizer que aquelas semelhanças se dão pela ordem dos planetas na ocasião do nascimento desses irmãos, sendo a explicação astrológica, portanto, uma alternativa à primeira. Contudo, os signos ou quaisquer descrições astrais meticulosas não explicam por que gêmeos idênticos são, no âmbito comportamental, mais semelhantes do que gêmeos fraternos (que não compartilham 100, mas apenas 50% dos seus genes). Ao fornecer termos econômicos (Áries, Libra e Capricórnio, p. ex.) baseados na ordem dos planetas e relacionados a certas expectativas, a Astrologia, em se tratando de previsão, falha ao ser submetida a observações sistemáticas.

Sagan (1996/2006), a respeito da ciência e da pseudociência, ressalta:

A pseudociência difere da ciência errônea. A ciência prospera com seus erros, eliminando-os um a um. Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas constituem tentativas. As hipóteses são formuladas de modo a poderem ser refutadas. Uma sequência de hipóteses alternativas é confrontada com os experimentos e a observação. [...] Alguns sentimentos de propriedade individual são certamente ofendidos quando uma hipótese científica não é aprovada, mas essas refutações são reconhecidas como centrais para o empreendimento científico. [...] A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas. Os profissionais são defensivos e cautelosos. Faz-se oposição ao escrutínio cético (p. 39).

Felizmente, certas premissas da Astrologia, um exemplo de pseudociência, podem ser contrastadas com -- e são esmagadas por -- previsões da Psicologia Diferencial e da Genética Comportamental. O método científico é de longe a melhor forma de obtermos conhecimento a respeito de como o mundo funciona, e o comportamento humano, não sendo um fenômeno sobrenatural ou aleatório, é um objeto passível de ser cientificamente compreendido.

Não que as abordagens não-científicas da Psicologia sejam pseudociências. No entanto, não raro encontramos psicólogos dizendo de eventos anedóticos que confirmariam indubitavelmente algumas de suas premissas prediletas. Se estamos falando de ciência, observações isoladas e assistemáticas não têm muito valor -- a não ser para a formulação de hipóteses que serão posteriormente testadas. Pior ainda é sentir que uma proporção considerável desses profissionais, que não compreenderem o método científico, toma partido de uma posição anticientífica -- algo como admitir que os fenômenos comportamentais, públicos ou privados, não podem ser explicados, previstos ou controlados. Se isso for verdade, somos desonestos sempre que admitimos um novo cliente. Se não é possível uma ciência comportamental, não podemos oferecer um tratamento digno às pessoas -- não podemos ser éticos. Como não queremos que pessoas que sofrem de esquizofrenia, de TDAH, de TOC ou de transtornos do humor sejam tão-somente medicadas, precisamos nos instruir acerca do método científico(1) e nos esforçar para erigir uma Psicologia baseada em evidências.(2) O caminho será longo e custoso, mas as recompensas decerto valerão a jornada.



Notas e referências bibliográficas:

(1) Sugestões de blogs que discutem ciência e/ou filosofia:


(2) Sobre Psicologia baseada em evidências, ver: http://behavioristlady.blogspot.com/2011/07/psicologia-baseada-em-evidencias.html

Baum, W. (2006). Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Artmed: Porto Alegre.

Mach, E. (1960). The Science of mechanics: a critical historical account of its development. La Salle (Illinois). Em: Baum, W. (2006). Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Artmed: Porto Alegre.

Sagan, C. (1996/2006). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.

domingo, 12 de junho de 2011

A inteligência humana: entrevista com Marcela Mansur-Alves

Trarei ao palco um tema que mereceu calorosos debates no século passado e que, de certa forma, ainda é brasa que incendeia: a inteligência humana. Entrevistei, com esse intuito, a pesquisadora Marcela Mansur-Alves. A Marcela é graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possui mestrado em Psicologia do Desenvolvimento Humano (UFMG), é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG e é pesquisadora do Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais (LADI/UFMG). Ela tem especial interesse pelas áreas de Psicodiagnóstico/Avaliação Psicológica, Psicologia das Diferenças Individuais, Neurociências Cognitivas e Desenvolvimento Humano.



1 - Inicialmente, Marcela, conte-nos um pouco sobre seu percurso acadêmico (sobre como, por exemplo, você se interessou pela Psicologia Diferencial), bem como sobre quais são suas principais atividades atualmente.

Bom, eu creio que desde o início da graduação estive bastante envolvida com pesquisa. Comecei trabalhando com avaliação cognitiva de bebês e crianças fenilcetonúricas no Ambulatório São Vicente do HC-UFMG. A pesquisa era fruto de uma colaboração entre o Laboratório de Desenvolvimento Cognitivo e da Linguagem (UFMG) e do NUPAD (Faculdade de Medicina-UFMG) e foi uma experiência muito importante na minha iniciação na área científica. Trabalhei por dois anos nesse projeto, o que despertou meu interesse inicial pela avaliação. Logo depois, em 2002, envolvi-me em um mega estudo longitudinal desenvolvido pelo LADI, então coordenado pela profa. Carmen Flores-Mendoza. O estudo, cujo término será em 2012, objetiva avaliar e acompanhar o desenvolvimento cognitivo e de personalidade de crianças escolares. Entrei para o estudo como voluntária em decorrência do interesse em aprender um pouco mais na prática o que estava vendo nas disciplinas da área de Avaliação. Foi nesse momento que entrei em contato mais direto com a área da Psicologia Diferencial e, desde então, tenho trabalhado mais ativamente na área. Essa não é uma área muito difundida no Brasil, mas vem crescendo a cada dia. Enquanto a Psicometria/Avaliação Psicológica estão voltadas para a construção de instrumentos para a mensuração das características psicológicas e sua aplicação em contextos específicos, tais como a clínica e as organizações, a Psicologia das Diferenças Individuais investiga as origens, desenvolvimento e capacidade preditiva dessas características, tais como a inteligência e a personalidade humana. Em 2004, decidi entrar para o mestrado, o qual me possibilitou conhecer mais a área da Psicologia Diferencial. Realizei um estudo sobre a estrutura da personalidade infantil e sobre a capacidade preditiva desses traços em contextos como a escola e a saúde. E mesmo no intervalo entre o término do meu mestrado e o início do doutorado, quando estive mais envolvida com a docência e a prática profissional, estive em contato com a área por meio de grupos de discussão e colaboração em pesquisas. Atualmente, faço doutorado em Neurociências buscando uma interface entre esta e a Psicologia Diferencial. Venho desenvolvendo um programa de treinamento cognitivo para crianças com diferentes níveis intelectuais. A ideia não é apenas promover modificação na inteligência, mas também verificar se tal mudança é vista em nível de funcionamento cerebral. Os resultados encontrados no estudo piloto, feito no ano passado, foram bastante interessantes. 


2 - Que tal falarmos de um assunto ainda polêmico? O construto "inteligência" sofreu muitas críticas no final do século passado, entre as quais a de que não existiria a inteligência, mas as inteligências, e a de que, com efeito, não haveria um consenso sobre a definição do termo. Como você vê essas e outras críticas à noção de inteligência humana?

Na verdade, o estudo da inteligência humana sempre foi muito polêmico justamente pela importância que a inteligência assume em nossas vidas. Ninguém se ofende ao ser chamado de “tímido”, mas, em geral, ninguém gosta de ser chamado de “ignorante” ou “burro”. Da mesma maneira que quando digo que alguém é inteligente, isso funciona como um elogio. Talvez essa seja a razão de ser tão difícil aceitar que há o que a gente conhece como inteligência geral, ou seja, uma capacidade mental ampla de fazer escolhas, de resolver problemas, de se adaptar ao ambiente e compreender o mundo à nossa volta -- o que é independente do conteúdo da atividade ou problema. Uma pessoa com elevada inteligência geral é boa em quase tudo que faz, enquanto uma pessoa com deficiência mental possui extensas dificuldades para responder a demandas cognitivas de seu ambiente físico e social. É, então, mais fácil acreditar que existem várias inteligências e que cada pessoa é “boa” em uma delas. Embora haja uma grande quantidade de estudos em vários países que apresentam evidências favoráveis à existência de um fator geral de inteligência, o suporte científico para a existência de múltiplas inteligências é quase nulo.  Mas aí vocês me perguntam: se existe um fator geral de inteligência, por que então existem pessoas que se destacam em áreas tão diferentes? Por que algumas pessoas são boas em matemática e outras, em literatura e português? É porque existem as habilidades cognitivas específicas, tais como a compreensão e fluência verbal e o raciocínio abstrato. Elas não são inteligências diferentes, mas apenas formas diferentes de expressão da mesma inteligência. Einstein, por exemplo, tinha alta inteligência que se expressou especificamente através de conteúdos matemáticos e físicos, enquanto que Gandhi também com alta inteligência com maior facilidade para conteúdos verbais. Mas apesar das diferentes habilidades específicas, nenhum dos dois tinha dificuldade de fazer uma ligação telefônica, de pegar ônibus sozinhos, de se formar na faculdade, de conseguir um bom emprego, porque ambos eram pessoas inteligentes. Aí se encontra a diferença entre habilidades específicas e inteligências múltiplas. A teoria das inteligências múltiplas assume que as várias inteligências são independentes, enquanto que ao considerar a existência de uma inteligência geral eu assumo que as habilidades específicas estão relacionadas a ela. No exemplo que dei, a teoria das inteligências múltiplas nos diria que Einstein sendo um gênio matemático poderia ter uma inteligência verbal inferior, o que o levaria a ter um péssimo vocabulário, dificuldades enormes de interpretação de textos e de compreensão das situações e dilemas sociais. Contudo, quando penso em habilidades específicas e inteligência geral, posso afirmar que o fato de se destacar enormemente em matemática não faz com que Einstein não consiga ler e interpretar textos, se comunicar e se relacionar com as pessoas e muito menos que não tenha vocabulário suficiente  para escrever uma teoria, como o fez.

Quero apenas destacar que em diferentes culturais e momentos, determinadas habilidades cognitivas específicas são mais valorizadas do que outras. Há, ainda, o que chamamos de “talentos”. Os talentos são pessoas que realizam com alto grau de qualidade uma determinada atividade ou profissão, alcançando reconhecido sucesso. Por exemplo, Beethoven pode ser considerado um talento musical. 


3 - Como, no âmbito das neurociências, a inteligência é estudada? A propósito, haveria uma espécie de definição ou descrição neurobiológica da inteligência?

É importante destacar antes de começar a responder a essa pergunta que, de forma geral, há dois enfoques principais para as investigações neurobiológicas da inteligência. O primeiro está relacionado aos estudos em genética comportamental e molecular e o segundo engloba os estudos sobre a estrutura e a fisiologia do cérebro humano. Para responder a essa pergunta, vou me concentrar no segundo aspecto, ok?

O avanço alcançado pelas neurociências nos últimos 20 anos possibilitou compreensões importantes para as investigações sobre o comportamento humano. Isso também se aplica às investigações sobre a inteligência humana. Os primeiros estudos sobre a relação cérebro-inteligência estavam interessados em verificar associações entre o volume (tamanho) cerebral e o nível intelectual do sujeito, sendo que foram baseados nas concepções antropológicas e arqueológicas de que cérebros maiores seriam capazes de armazenar e processar maior quantidade de informação. Um grande conjunto de estudos aponta para a existência de associação entre volume cerebral e medidas psicológicas da inteligência e, embora consistentes, tais associações são pequenas ou moderadas. Com isso quero dizer que mesmo que cérebros maiores também tendem a ser mais inteligentes, o tamanho do cérebro nos conta apenas uma pequena parte da história sobre o nível intelectual de uma pessoa. Justamente por isso, os estudos subseqüentes se interessaram por investigar outras questões, como as áreas cerebrais ativadas durante tarefas cognitivas. Estudos como esses só foram possíveis graças ao enorme desenvolvimento alcançado pelas técnicas de neuroimagem como a Ressonância Magnética Funcional e a tomografia por emissão de pósitrons, que nos possibilitam “ver” o cérebro no momento em que está funcionando. Os resultados desses estudos mostram que diferentes áreas cerebrais são ativadas durante tarefas cognitivas específicas. Por exemplo, os córtices visual (fica na parte de trás do cérebro, do lado oposto à testa) e parietal (que é vizinho do córtex visual) são ativados durante tarefas cognitivas visuo-espaciais e o córtex temporal (fica mais ou menos acima das orelhas) durante tarefas de linguagem. Contudo, há evidências de que todo o córtex cerebral está envolvido na resolução de problemas, sendo que diferentes etapas da resolução de problemas aconteceriam em diferentes regiões cerebrais. A tendência atual está em verificar se o cérebro de pessoas com alta e baixa inteligência funciona da mesma maneira. Tais estudos são feitos através do controle do consumo de glicose durante a realização de testes de inteligência. Quanto mais o cérebro trabalha, mais ele precisa de alimento (glicose). A hipótese por trás desses estudos é de que o cérebro de pessoas mais inteligentes precisa trabalhar menos do que o de pessoas menos inteligentes para resolver um dado problema, sendo, portanto, mais eficientes. Vários estudos com pessoas de diferentes sexos e idades apresentam evidências favoráveis a essa hipótese. Em suma, o foco das investigações neurocientíficas está em verificar se a estrutura e o funcionamento cerebral diferem entre indivíduos mais e menos inteligentes.

Com relação à definição neurobiológica para a inteligência humana, apesar de não haver consenso, posso dizer que há uma tendência atual em considerar que a inteligência seria função de quão eficientemente o cérebro (aqui, no caso, as redes neuronais) humano processa informações. Assim, inteligência seria sinônimo de Eficiência Neuronal.


4 - Afinal, Marcela, nossas habilidades intelectuais são herdadas, aprendidas ao longo do desenvolvimento ou um pouco de cada?

São um pouco de cada. Os estudos em genética comportamental têm nos indicado que tanto a genética quanto o ambiente contribuem para as diferenças individuais em inteligência. A genética comportamental é uma área relativamente recente que se concentra em explicar porque as pessoas são diferentes com relação às suas características psicológicas. Eles estudam grupos de pessoas (famílias e irmãos gêmeos e não gêmeos biológicos e adotivos) para nos dizer o quanto das diferenças entre as pessoas pode ser atribuído aos genes ou a aspectos do ambiente. As pesquisas feitas indicam que a maior parte (cerca de 60%) das diferenças intelectuais entre as pessoas pode ser atribuída à genética, bem como que o restante ficaria a cargo do ambiente. Algumas das descobertas da genética comportamental são bastante interessantes. Veja: eles nos dizem que há dois tipos de ambientes: o compartilhado e o não-compartilhado. O primeiro se refere àquele ambiente que separa as famílias, como o nível socioeconômico, a escolaridade dos provedores e a religião, ou seja, características que compartilhamos apenas com os membros de nossa família. O segundo é aquela parte do ambiente que não compartilhamos nem com a nossa família -- em especial, nem com nossos irmãos. É a forma como nossos pais nos tratam, como são nossos amigos, nossos professores e colegas de classe, as experiências que tivemos quando estávamos na barriga das nossas mães etc. A genética comportamental nos diz que o ambiente não-compartilhado (30%) possui uma contribuição maior do que o ambiente compartilhado (10%) para as diferenças intelectuais entre as pessoas. Outra descoberta interessante é que a influencia da genética e do ambiente mudam ao longo do ciclo vital. Quando pequenos o ambiente possui maior influência, enquanto que à medida que crescemos a genética dita mais nossas escolhas em termos intelectuais.  Além disso, quanto maior a desigualdade econômica e social, maior a influência do ambiente na determinação das diferenças intelectuais entre as pessoas.  Esse achado se faz importante demais, tendo em vista que vai na mesma direção das pesquisas que mostram que, apesar da ampla determinação genética, o cérebro humano responde e se modifica em função do ambiente em que está inserido. Isso é o que chamamos de Plasticidade Cognitiva. O cérebro se modifica tanto em função de ambientes empobrecidos quanto de enriquecidos. Essas descobertas despertaram o interesse em desenvolver programas de treinamento para melhorar a inteligência, ou seja, a eficiência cerebral. Esses programas atuariam através do aumento do volume de estruturas específicas, como o hipocampo (envolvido com a memória declarativa), ou por meio da modificação do padrão de funcionamento cerebral. Conforme eu disse anteriormente, estou desenvolvendo um programa com esse objetivo para crianças. 


5 - Gostaria, para finalizar, que você nos deixasse dicas sobre o que podemos fazer para preservar ou até mesmo melhorar nosso rendimento intelectual.

A primeira dica que posso dar é para ficarem atentos quanto a fórmulas simples de modificação da inteligência que estão disponíveis na internet. Embora ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e não assistir tanto à televisão possam melhorar sua qualidade de vida, isso não torna ninguém mais inteligente. Se a modificação cognitiva fosse tão simples assim, os pesquisadores não estariam empenhando tantos esforços financeiros e humanos para desenvolver programas de melhoramento intelectual. Contudo, há algumas coisas que podemos fazer para prevenir o envelhecimento cerebral, e isso, por si só, já retarda o aparecimento de doenças que afetam a cognição, como o Mal de Alzheimer, e previne o declínio cognitivo. Por exemplo, ler livros, fazer palavras cruzadas, desenvolver atividades que requerem concentração, evitar a rotina, desenvolver hobbies -- enfim, todo tipo de atividade que estimula o cérebro. Há, ainda, sites que disponibilizam pacotes para melhorar aspectos específicos da cognição, como a memória e a atenção. Veja mais informações sobre tais programas nos seguintes links:

  • http://www.happy-neuron.com/ e
  • http://www.lumosity.com

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Entrevista exclusiva com o psicólogo Júnio Rezende (XII JMCC)

Dando continuidade às matérias referentes à XII JMCC, segue abaixo uma instigante entrevista acerca da relação Psicologia-Neurociência. Júnio Rezende, psicoterapeuta e pós-graduando em Análise do Comportamento Aplicada, tratou do tema com propriedade, entusiasmo e otimismo.


1) Inicialmente, Júnio, conte-nos um pouco sobre suas trajetórias acadêmica e profissional.

Me formei em Psicologia no final de 2009, no Centro Universitário Newton Paiva, em Belo Horizonte. Atualmente sou psicólogo clínico e venho prestando serviços na área de avaliação educacional desde a graduação. Estou cursando a especialização em Análise do Comportamento Aplicada, também na Newton Paiva. Sou bolsista de Apoio Técnico pelo CNPq junto ao grupo de pesquisas da UFMG dedicado à aprendizagem relacional e aquisição de função simbólica, vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE). Além disso, venho estudando, sob o enfoque da Análise do Comportamento (AC), temas de meu interesse como Educação, questões sociais e a relação entre a Psicologia e a Neurociência, muito disso com um precioso grupo de amigos de BH, apelidado carinhosamente de Círculo da Savassi. (A título de esclarecimento, nenhuma das instituições a que estou vinculado têm qualquer responsabilidade -- para além da influência intelectual, claro -- sobre as opiniões expressas aqui.)


2) Charles Darwin balançou o mundo quando propôs o selecionismo como modelo de explicação para a origem das espécies. B. F. Skinner, no século passado, trouxe essa forma de pensar para a Psicologia. Em que o selecionismo consiste e de que forma podemos aplicá-lo ao estudo do comportamento humano?

Basicamente, o selecionismo consiste no processo que faz com que um traço qualquer, biológico ou comportamental, persista em detrimento de outros. No estudo do comportamento humano, ele significa inverter a ordem de causalidade geralmente difundida pelas teorias psicológicas (acadêmicas ou a popular). A partir do selecionismo, compreende-se que eventos que se seguem ao comportamento, e não apenas um evento que o precede, são os responsáveis por determinar sua forma futura. Em outras palavras, uma forma linear e mecanicista de explicar o comportamento é questionada para dar lugar a uma forma historicista.

Por exemplo, alguém poderia dizer que eu lhe respondo essa pergunta porque tenho vontade de fazê-lo. Assim, algo imediatamente anterior (a minha "vontade") determina o comportamento que se segue (responder à pergunta), em cadeia, de forma linear. A Análise do Comportamento, em um viés selecionista, explicará de forma diferente. A partir dela, um comportamento (como "responder a uma pergunta") é visto como uma possibilidade entre muitas outras. Eu poderia recusar-me a responder, poderia criticar a pergunta e pedir que fosse reformulada, poderia elogiá-la antes de responder, poderia ignorá-la e fazer a você eu mesmo uma pergunta... Enfim, para cada comportamento humano que ocorre, uma série de outros deixa de ocorrer.

O selecionismo explica isso analisando não unicamente as condições precedentes, as quais justificariam o próximo elo da cadeia, mas analisando o valor adaptativo do comportamento. Assim, responder à sua pergunta foi o comportamento selecionado, nesta ocasião, por ser, necessariamente, o mais adaptativo. É melhor para mim que eu me comporte respondendo-a da forma como o faço e não me comportando de qualquer outra forma. Esse valor adaptativo, que a torna a melhor opção, foi, por sua vez, determinado como tal a partir de uma série de experiências pessoais passadas. Minha história tornou este comportamento melhor para este momento. É o valor futuro do comportamento, e não alguma tendência anterior (como a "vontade"), que explica o comportamento observado.

É importante frisar que o valor adaptativo de diferentes possibilidades de nos comportarmos no presente foi determinado no passado, à medida que nos comportamos e fomos expostos às consequências de nossas ações. Daí o selecionismo ser denominado uma explicação "historicista" para o comportamento, diferente de explicações mecanicistas, que são imediatistas.


3) Você, juntamente com Ramon Cardinali, trouxeram para a XII JMCC a proposta de que o selecionismo pode também ser aplicado à Neurociência. Como seria isso?

O que nós fizemos foi levar ao público da XII JMCC, de forma resumida, uma ideia que vem sendo trabalhada pela pequenina parcela de analistas do comportamento que estão em contato direto com a Neurociência. Contrariamente a muito do que se diz sobre a AC, o próprio B. F. Skinner, proponente do Behaviorismo Radical, deixou claro, num artigo de 1966, que o comportamento das pessoas "é simplesmente a fisiologia de uma anatomia". Com isso ele não quer retratar-se sobre tudo o que disse -- e viria a dizer -- acerca do papel do ambiente na determinação do comportamento, mas apenas frisar que, sem o substrato biológico pertinente, não existe comportamento. Esse é um fato muito bem estabelecido pela Neurociência, mas que a Psicologia pode ignorar caso se interesse apenas por lidar com a pessoa tal como ela chega quando busca os serviços do psicólogo e não se interesse por compreender de forma mais completa o que permite a tal pessoa se comportar como o faz.

Guiado pelo interesse em conhecer como a seleção do comportamento atua sobre o substrato biológico, Larry Stein investigou a atividade de células nervosas de forma análoga àquela pela qual os analistas do comportamento têm investigado, com sucesso, o comportamento de humanos e outros animais. O procedimento -- nomeado pelo autor como um análogo do condicionamento operante -- foi muito bem controlado, pois as células foram isoladas do organismo e colocadas em solução aquosa, tendo sua atividade (o potencial de ação), e não um comportamento qualquer do organismo que poderia se valer delas, como alvo da experimentação.

O resultado foi empolgante: utilizando-se um neurotransmissor estimulante como consequência reforçadora -- a dopamina --, foi possível controlar a frequência da atividade celular sob estudo. Testes foram realizados para aumentar e para diminuir a frequência da atividade (reforçamento e extinção, respectivamente), a consequência reforçadora foi empregada de forma contingente e não-contingente aos potenciais de ação, e outras substâncias, inócuas e depressoras, foram também empregadas. Tudo isso para controlar as variáveis importantes e estabelecer, enfim, que a atividade dos neurônios estudados é determinada -- selecionada pelas consequências -- tal qual o comportamento dos organismos intactos.

O que Ramon e eu tentamos fazer na Jornada foi aprensetar passo-a-passo os princípios comportamentais e epistemológicos necessários para se compreender a importância e alcance desses achados, e propor que isso nos ajuda a pensar sobre o futuro -- sabe-se lá o quão distante de nós -- das ciências do comportamento.


4) Há uma questão que vive a colocar meus melhores neurônios para trabalhar. Afinal, Júnio, Neurociência e Psicologia abordam problemas semelhantes de formas distintas ou, alternativamente, abordam problemas também distintos?

Os meus também têm trabalhado um bocado nisso! Boa pergunta. Acho que nem um, nem outro, exatamente. Tanto a Neurociência quanto a Psicologia estão interessadas em explicar aquilo que vemos as pessoas fazendo todos os dias, desde um simples choro de bebê até uma decisão moral complexa. No entanto, os melhores psicólogos e neurocientistas desenvolveram seus campos de atuação dando origem a ferramentas poderosas para a análise de fenômenos muito diferentes.

Por um lado, somos hoje capazes, entre uma série de outras coisas, de observar a atividade do nosso cérebro em tempo real no desempenho de atividades cognitivas sofisticadas, tecer correlações e descobrir se algo vai mal em termos biológicos. Por outro, fomos capazes de descrever leis do comportamento que nos permitem, em um bom grau, prever como alguém se comportará quando exposto a determinadas condições ambientais. Ambas são tecnologias poderosas, imprescindíveis, orientadas para um mesmo fim (em suma, o bem-estar das pessoas), mas ainda assim diferentes. Em termos metodológicos, as variáveis independentes são, em geral, distintas: os psicólogos manipulam o que está fora do organismo enquanto os neurocientistas manipulam o que está dentro, ambos esperando influenciar a atividade do organismo em si.

Portanto, acho que as duas ciências estudariam o mesmo problema, diferentes subproblemas, de formas distintas mas -- como acreditamos -- sob alguns princípios básicos comuns. Um pouco mais complicado do que a sua pergunta aponta, parece, a partir do que nós aprendemos até agora.


5) Na sua opinião, e para finalizar, qual seria a importância de entendermos, enquanto psicólogos, ao menos um pouco de Neurociência? Acredita que psicólogos e neurocientistas podem se beneficiar caso trabalhem em equipe?

Mesmo que a tecnologia do psicólogo não seja voltada para alterar diretamente o substrato biológico, não me parece a postura mais interessante ignorar toda uma área do conhecimento que está preocupada, no fim das contas, com o mesmo que o psicólogo está. Alheio às contribuições da Neurociência (e de outras ciências, também, como a Antropologia ou a Economia), o psicólogo se priva de tirar proveito das ideias de pessoas com interesses comuns, cujas investigações poderiam lançar luz sobre problemas comuns, principalmente naqueles pontos onde duas áreas distintas podem se tocar e as fronteiras se esvanecer -- e eles existem! Por outro lado, ao não levar -- de forma inteligível -- para outras áreas o que conhece, o psicólogo perde a oportunidade de contribuir com aquele quadro maior do conhecimento que pretende abarcar o entendimento do ser humano. Isso vale para os neurocientistas, também, ou seus representados lá na ponta, na aplicação, como os médicos, fisioterapeutas, entre outros. Na minha opinião, adotar ou não essas posturas determina se seremos cientistas sensíveis ou meros técnicos.

Quanto ao trabalho em equipe, hoje temos a Neuropsicologia, que deixa claro como a parceria é possível e necessária no âmbito prático. Tecnologias novas vêm surgindo e evidenciando cada vez mais o sucesso da parceria. As técnicas de neurofeedback são um exemplo interessante. Outro, que enche os meus olhos e me emociona de verdade, são os trabalhos do mundialmente aclamado neurocientista brasiliero Miguel Nicolelis, cujos projetos de interface homem-máquina seriam impossíveis sem uma tecnologia de controle operante do comportamento.

Creio que, no futuro, mais e mais interdisciplinaridade será necessária e que até mesmo as duas ciências, com o avanço das tecnologias necessárias, venham a se confundir -- no bom sentido -- num caminho sem volta. Mas antes -- e isso é muito importante -- entendo que seja preciso delimitar muito bem as fronteiras entre Psicologia e Neurociência para que se determine com clareza o papel que cabe a cada ator, de forma que a parceria ganhe em eficiência e efetividade.