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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Entrevista Exclusiva com Ms. Marcelo José M. Silva - Psicologia Organizacional [10ª JAC UFSCar]

Dando continuidade à série de entrevistas realizadas durante a JAC UFSCar, apresentamos agora a realizada com Marcelo José Machado Silva, engenheiro mecânico pela Unicamp, psicólogo pela PUC-SP e mestre em psicologia experimental pela USP, com mais de dez anos de experiência profissional como consultor, professor universitário e que trabalha há cinco anos como psicólogo na Petrobras. 





Neto - Olá Marcelo. Gostaria de começar pedindo para que você fale um pouco sobre o seu trabalho na Petrobrás, enquanto Psicólogo Organizacional na empresa. 

Marcelo - Eu trabalho como Analista de Recursos Humanos. A gente operacionaliza os processos geridos pelo RH Corporativo, que define normas a serem adaptadas às diferentes realidades locais da empresa espalhadas por todo o Brasil, terra e mar. Trabalho na Unidade de Tecnologia da Informação e Telecomunicações, na Regional São Paulo/ Sul. 

Sou um dos integrantes de uma equipe responsável pela execução dos processos de Recursos Humanos, como gestão de carreira, gestão de desempenho, acompanhamento de situações sociofuncionais, gestão de ambiência organizacional, etc. 

N - Pelo que você falou, as políticas já são definidas pela gestão da empresa. É isso?

M - Exatamente. A Petrobrás tem uma diretoria executiva e é essa diretoria executiva que dá unidade à corporação. Ela integra diferentes partes e obtém ganhos de produtividade com isso. 

O Diretor de RH estabelece essas políticas, e à medida que você vai passando aos órgãos e gerências hierarquicamente abaixo da diretoria, você tem que interpretar estas normas e adaptá-las aos contextos e realidades locais, sempre garantindo a continuidade e conformidade com os processos definidos pelo RH Corporativo da empresa. 

NTendo em mente (risos) que esta equipe é formada por profissionais de diversas áreas e até psicólogos que trabalham com outras abordagens, que dificuldades você encontra na aplicação dos princípios da Análise do Comportamento em seu trabalho? 

M - Sobre a aplicação da Análise do Comportamento, acho que a dificuldade básica vem do desconhecimento e da dificuldade para que se entenda o modelo de Ciência do Comportamento com que ela trabalha. Ele é bem diferente da explicação que se sedimentou sobre o comportamento humano em nossa cultura. Então, muitas vezes, eu me vejo na situação de ter que traduzir minhas análises, interpretações e propostas de intervenção para a linguagem do senso comum, para colegas de outras áreas profissionais, e isso é complicado. Um jargão técnico é o que é porque ele tem uma especificidade, que é muito importante no trabalho experimental e também no aplicado. Mas na hora de você conversar com pessoas que não dominam este jargão, você tem que ter capacidade de convencimento e argumentação, o que não é bem uma postura de quem sabe mais, por assim dizer. Você tem que partir do que a pessoa sabe para tentar se comunicar com ela. E acredito que ninguém é dono da verdade. Então, pode parecer óbvio lembrar isso, mas acho que cabe mesmo a gente tentar se entender com quem não é Analista do Comportamento. 

NDurante a sua conferência, você falou sobre a importância da aplicação do conceito de metacontingência no trabalho do Psicólogo Organizacional e achei realmente de extrema importância neste contexto. Poderia falar um pouquinho para nossos leitores? 

M - O conceito de metacontingências teve uma definição muito clara em um texto da Maria Amália Andery e Teresa Sério(1). Elas definem metacontingência como selecionado por um produto que não poderia ser obtido pela mera soma de comportamentos individuais, mas sim, pela combinação, pelo entrelaçamento destas contingências individuais. 

É possível então analisar a divisão do trabalho a partir deste modelo conceitual. Ao se distribuir tarefas e metas, ou regras para encadeamentos de comportamentos, aquilo que uma pessoa faz produz resultados que servem de insumos para o trabalho da outra, e você busca obter ganhos de produtividade no trabalho de equipe com esta distribuição. Isto é algo que eu entendo que pode ser propriamente analisado com o conceito de metacontingência. É possível apontar fatores que possam originar e manter através da seleção por consequências este padrão de comportamentos da equipe, que resulta em maior produtividade. 

NGostaria também que você deixasse alguma dica para quem estuda Análise do Comportamento, que possa contribuir para a aplicação deste conhecimento nas organizações. 

M - Bom... O primeiro, claro, é dominar sua própria ciência. Conhecer bem a Análise do Comportamento. Eu acho que vale muito a pena trabalhar com pesquisa básica, você desenvolver esta competência de pesquisador básico e aproveitá-la ao interpretar sua realidade de trabalho. 

Eu não tenho experiência com clínica, mas ouço relatos de profissionais que tem e gostam de aproveitar esta experiência no mundo do trabalho, por desenvolver uma sensibilidade, um repertório discriminativo de leitura do comportamento das pessoas – embora no mundo das organizações, você não esteja trabalhando diretamente com fenômenos individuais, mas sim com fenômenos sociais, com grupos de pessoas. 

Além de você dominar a Análise do Comportamento, você tem que conhecer a cultura da sociedade em que você vive. É bom estudar Administração, Economia, é bom conhecer artes, é bom conhecer coisas que permitam ter assunto pra conversar com outras pessoas (risos). Nesse ponto, eu me identifico muito com o ideal iluminista. A gente pode lembrar de Leonardo Da Vinci, que deu contribuições marcantes para a cultura de sua época, nas ciências e nas artes, e por aí vai. 

N – Obrigado pela entrevista, Marcelo. Quem tiver interesse no tema e quiser entrar em contato com você, poderá fazê-lo como? 

Sou eu quem agradeço a oportunidade e parabenizo vocês pelo trabalho do Comporte-se. Quem quiser entrar em contato, pode usar meu e-mail: marcem@usp.br

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(1) ANDERY, M. A. P. A., SÉRIO, T. M. P. (1997) O conceito de metacontingências: afinal, a velha contingência de reforçamento é insuficiente? Em R. Banaco (Org.) Sobre comportamento e cognição, vol. 1, p. 106-116. Santo André: ARBytes/ESETec. Ou em Todorov, J. C., Martone, R. C. e Moreira, M. B. (Org.), Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade, cap. 12, p. 149-159. Santo André, SP: ESETec, 2005.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Entrevista Exclusiva com Dr. Júlio César De Rose [10ª JAC UFSCar]

Entre os entrevistados durante a 10ª JAC São Carlos está o grande Psicólogo e Analista do Comportamento Dr. Júlio César De Rose, doutor em Psicologia Experimental pela USP - São Paulo (1981) e Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. 

De Rose realizou seu pós doutorado em Neurologia Comportamental pelo Eunice Kennedy Shriver Center for Mental Retardation (EUA, 1984-1986), desenvolvendo pesquisas sobre relações simbólicas. Diretor do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos (1996-2000).


É fundador e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Comportamento, Cognição e Ensino, apoiado pelo Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (Pronex), de 1998 a 2004. Coordenador do Programa de Ciência Translacional do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino e membro do conselho editorial do Journal of Applied Behavior Analysis e do The Psychological Record (fonte).



1 – Olá Júlio. Para começar, gostaria de falar um pouquinho sobre a educação. Embora a Análise do Comportamento apresente excelentes resultados no ensino de pessoas com desenvolvimento típico e atípico, ela não é muito usada e nem muito conhecida pelos profissionais da educação. Por que isto acontece? Como contornar este quadro? 

Bom! Para começar, temos que saber que a Análise do Comportamento não é muito utilizada no Brasil, na área da educação. No exterior – Estados Unidos, Europa e no Oriente também -, a Análise do Comportamento tem sido muito utilizada no ensino de crianças com desenvolvimento atípico, especialmente com autismo. Então há um uso intenso da abordagem para isto. Isto porque já é bastante reconhecido que a abordagem produz grandes resultados para a intervenção com estas pessoas. E há, inclusive, bastante recursos para intervenção com crianças com autismo. Então isto tem produzido uma grande expansão da Análise do Comportamento no campo da educação. O desafio da Análise do Comportamento, então, é ser aplicada também para o ensino de crianças com desenvolvimento típico. Aí sim, há uma resistência maior. Existem experiências em escolas que a aplicam nos Estados Unidos. Até no Brasil já existe uma. 

A gente tem dificuldade de se comunicar em uma linguagem mais inteligível para pessoas que não são Analistas do Comportamento. Acho que isto dificulta muito o diálogo com educadores. Além disso, os educadores tem uma visão em parte equivocada sobre a Análise do Comportamento. Acreditam que ela é uma abordagem mecanicista, reducionista, etc. Isto também é uma barreira para a comunicação com educadores. 

A gente ainda não desenvolveu estratégias eficazes para superar estas dificuldades. A forma de apresentar o que a gente faz, ao invés de dissipar estas impressões dos educadores, às vezes a reforça. Então eles até podem achar: “Ah, isto funciona com criança retardada, você condiciona ela e ela melhor. Mas não vem querer condicionar nossos alunos com desenvolvimento típico”. Esta é uma dificuldade que a gente tem. 

2 – Existe este mesmo problema em relação ao diálogo da Análise do Comportamento com áreas como a Medicina, Filosofia, entre outras? 

Eu acho que existe um pouco também, devido à linguagem mais hermética do Analistas do Comportamento que dificulta o diálogo com outros profissionais. Em algumas áreas, eu acho que isso tem melhorado. Há uma inserção, também no exterior – mais do que no Brasil – , da Análise do Comportamento na medicina. Também, razoavelmente na Neurociência, tem havido progressos nesta direção. Mas com outras áreas, como Medicina, Antropologia, Ciências Sociais, etc., eu acho que poderia haver muito mais diálogo. Acho que o Analista do Comportamento tem que se preparar para este diálogo, aprendendo a ouvir as outras áreas. 

As vezes parece haver um lado entre os Analistas do Comportamento – isto é uma impressão pessoal, não tenho como provar e nem sei se é uma impressão verdadeira – que evita o diálogo e procura mais a interação com os próprios Analistas do Comportamento, que se reforçam mutuamente e o evitam [o diálogo], porque isso leva a ouvir críticas, a ter que ouvir a posição dos outros também. Isto é mais desafiador, mas é um desafio importante: aprender a ouvir as outras posições, dialogar com elas. Também é preciso admitir as limitações da nossa área, do nosso conhecimento. Se a gente parte do pressuposto de que nós sabemos tudo, então pra que dialogar com alguém? 

3 – O senhor poderia falar um pouquinho destas limitações na área da educação, em que pode ser útil utilizar conhecimento vindo de outras áreas do conhecimento? 

Sempre é útil. O Skinner, por exemplo, era um pensador e cientista que buscava muito o conhecimento de outras áreas do saber. O que ele rejeitava eram as teorias, as interpretações, as explicações que estas outras áreas davam. Mas ele nunca rejeitava o conhecimento, em termos de dados, fatos que podiam ser aportados por outras áreas que estudaram muitos fenômenos importantes do comportamento. 

Eu vejo isto muito claro no campo da antropologia. Tem muita produção interessante de Analistas do Comportamento sobre a questão da cultura, mais recentemente. E acho que isso poderia se enriquecer com o conhecimento produzido pelos antropólogos sobre cultura. Mesmo que a gente rejeite as explicações que são dadas, os dados que eles tem são muito interessantes e desafiam as interpretações comportamentais sobre este fenômeno. 

Na questão da educação, não podemos descartar, talvez, elementos interessantes da produção, por exemplo dos Piagetianos ou Vygostkyanos. Talvez de outras abordagens também, mas são estas as que me ocorrem agora. 

4 – Algumas abordagens da Psicologia produzem bastante sobre arte e em parceria com a arte, como por exemplo, a Psicanálise e a Sócio-Histórica. Pensado agora na Análise do Comportamento, como está este diálogo e produção com a arte?

Eu conheço pouco. Tenho visto muitas interpretações de arte, principalmente com base na Psicanálise e muito pouco com base na Análise do Comportamento. Até acho que, talvez, pelo fato de a Psicanálise ser mais metafórica, mais literária, ela seja mais atraente para os estudiosos da arte. Mas eu acho que a Análise do Comportamento tem muito a oferecer. A gente acabou de realizar, agora, uma conferência tentando analisar a criatividade musical à partir de um referencial teórico Comportamental¹. São coisas iniciais, ainda. Muito exploratórias. A gente tem um grande caminho a percorrer por aí. 

5 – Para finalizar, gostaria que o senhor deixasse algumas dicas para quem se interessa pelo estudo da Análise do Comportamento. 

Este é uma pergunta difícil. 

A Psicologia, como um todo, é uma disciplina relativamente nova e que lida com questões tremendamente desafiadoras. A mente ou o comportamento humano (para nós, Analistas do Comportamento, o estudo do Comportamento; para os psicólogos, o estudo dos processos mentais), seja para qual formulação teórica for, são assuntos tremendamente desafiadores sobre os quais ainda se sabe muito pouco. Então, minha primeira dica, é estar disposto a lidar com o desconhecido. 

A Análise do Comportamento tem métodos que permitem fazer perguntas e caminhar na produção de respostas. Ela não tem respostas prontas sobre todos os processos e fenômenos comportamentais, mas tem métodos e maneiras de formular perguntas que podem levar a respostas produtivas. 

Acho que é importante, também, a gente ter claro que a Análise do Comportamento é um caminho para as descobertas que nós ainda não não chegamos. Ela não é uma doutrina que dá todas as respostas para as nossas questões sobre comportamento, mas nos diz as maneiras mais produtivas de formular as perguntas e métodos com os quais se pode chegar às respostas. 


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¹ - Júlio César De Rose apresentou, junto a Antônio Carlos Leme Júnior (UFSCar) e Paulo Roberto dos Santos Ferreira (UFGD) uma conferência cujo título era “A Quinta Sinfonia de Beethoven e a Interpretação Comportamental da Criatividade”, na qual fizeram uma análise do processo criativo do músico ao compor a peça em questão.

domingo, 5 de junho de 2011

Entrevista Exclusiva com Hélio Guilhardi [10ª JAC UFSCar]

Este ano o Comporte-se realizou, junto ao RedePsi, a cobertura completa da 10 ª Jornada de Análise do Comportamento da UFSCar. Além das fotos que tiramos [aqui], realizamos também entrevistas com alguns dos conferencistas do evento. Entre eles, Hélio Guilhardi, que brilhantemente ministrou um curso sobre Terapia Comportamental.


Na foto: Eloisa Piazon, Noreen de Aguirre, Esequias Neto e Hélio Guilhardi
na 10ª JAC UFSCar.
Diante do convite para a entrevista, ele prontamente nos atendeu e nos deu esta oportunidade de conhecermos um pouco melhor seu ponto de vista a respeito de alguns temas de interesse na Análise do Comportamento. 

NetoBoa noite, Hélio. Primeiro eu gostaria de agradecer a oportunidade de conhecer um pouco mais o seu trabalho e dizer que é uma honra, para mim, te entrevistar. 

Hélio Guilhardi - É um prazer ter essa oportunidade de trocar algumas idéias e algumas experiências com pessoas interessadas na Terapia Comportamental. 

NPra começar, eu gostaria que você falasse um pouquinho de como surgiu a idéia de criar o Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento. 

HG – Olha, na verdade, desde que me formei – em 1969 –, eu tive interesse em associar o trabalho clínico ao ensino. Tive atuação dupla praticamente a vida toda – na clínica e na universidade. Aos poucos fui descobrindo que a Universidade não facilitava um enfoque específico na formação do Terapeuta Comportamental; isto porque, você dá aula para um grupo muito amplo de alunos – uma parte está interessada, outra parte faz por obrigação e ainda tem aqueles que se opõe à abordagem. 

No início da década de 70, ainda na primeira clinica em que atuei, já fazíamos cursos voltados para alunos interessados na Terapia Comportamental. Na década de 70 nem a chamávamos de Terapia Comportamental, mas de Modificação do Comportamento. 

Em 1979 montei outra clínica, o Instituto de Análise do Comportamento, no qual a gente ampliou este trabalho com os alunos. 

Passados alguns anos, resolvi formar uma clínica; mas agora, com um peso maior, com uma ênfase maior no ensino. Foi aí que diminuí as atividades de ensino no Instituto de Análise do Comportamento, e com algumas colegas, basicamente a Noreen [de Aguirre] e a Elô [Maria Eloísa Piazzon], montei o Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento. Por quê? Porque nesse período eu fui formulando e decantando algumas idéias e tive mais clareza para propor um modelo de Terapia Comportamental, que acabei denominando Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR). 

Quando isto já estava mais amadurecido, nós resolvemos montar um instituto específico para atendimento e ensino desse modelo de Terapia Comportamental. 

NMuito bom, Hélio. Poderia falar um pouquinho sobre as diferenças entre o modelo da TCR e os outros modelos de Terapia Comportamental? O que ele trouxe de novo? 

H.G. – Bom! Em primeiro lugar, eu diria que a TCR não faz concessão a modelos dualistas, modelos cognitivos, porque se mantém fiel à Análise Experimental do Comportamento e ao Behaviorismo Radical. Então, todos os nossos trabalhos, todas as nossas intervenções, buscam analisar o fenômeno comportamental à luz da Análise do Comportamento e Behaviorismo Radical. 

Outras propostas, dentro de algo mais amplo, chamado de Terapia Comportamental, não têm este rigor conceitual, nem esse compromisso com a concepção da natureza humana como nós. Isso não é nenhuma criação nossa, é simplesmente um respeito ao trabalho do Analista do Comportamento e às contribuições de Skinner. 

O que nós fazemos é, na verdade, uma sistematização, uma defesa, vamos chamar assim, radical, no sentido de “às últimas consequências” do modelo. Por exemplo, para nós, cognitivo comportamental é um modelo dualista, ele não é um modelo monista. Mais aí você abandona o aspecto cognitivo? Não. A gente trabalha com cognição como comportamento. Se a cognição é um comportamento, ela não pode ser considerada causa do comportamento, mas ela faz parte das contingências. 

Pois bem, este é um primeiro aspecto. Esse compromisso, vamos chamar assim, inegociável com a AC e o BR. 

A segunda coisa é: tudo que é feito sob o nome de Terapia Comportamental, as diferentes propostas, elas negligenciam e deixam pouco explícito o manejo das contingências. Então, não estamos falando de uma coisa completamente inovadora, não estamos criando nada novo, mas acho que falta consciência aos profissionais de outras variantes da abordagem que, de fato, quando estão fazendo um trabalho produtivo – funcionalmente relevante –, estão, em última análise, trabalhando com contingências de reforçamento. Dão outros nomes, falam de outras coisas, procuram até sugerir processos comportamentais, mas, na essência, todos podem ser explicados e só podem ser explicados à luz das contingências de reforçamento. 

NVocê mencionou outras abordagens. O que você acha de uma prática relativamente comum em terapeutas novatos de adaptarem técnicas de outras abordagens e usarem estas fundamentadas no Behaviorismo Radical? 

HG – Esse ecletismo, eu acho perigoso. Eu acho que quando se fala de uma técnica de outra abordagem, ela tem uma razão de ser e é coerente com conceitos dentro daquela abordagem que a criou. Como tal, trazer uma proposta de outra abordagem, acho que é um ecletismo perigoso que não defendo. Acho que um bom Psicanalista é um bom Psicanalista se ele trabalha dentro dos conceitos, dentro das técnicas e procedimentos da Psicanálise. Um bom comportamentalista é bom se trabalhar dentro dos conceitos, procedimentos e técnicas desenvolvidas à luz do Comportamentalismo. 

Então, eu não sou favorável a nenhuma forma de ecletismo. Estou plenamente tranqüilo com esta posição, porque acho que o comportamentalismo dá conta de qualquer fenômeno humano, e como tal, não há necessidade de recorrer a outras abordagens. 

Mas então, porque existem outras abordagens? Porque elas também funcionam! Porque elas também tem méritos. O que nós temos que fazer, é: 

Primeiro: não criticar outras abordagens; 

Segundo: não imitar outras abordagens. 

Fazer o que, então? Desenvolver profundamente a nossa. Eu acho que a abordagem comportamental cresce a partir da crítica (a crítica construtiva, a crítica séria) e de contribuição de outros terapeutas comportamentais. Nós temos que fazer uma crítica interna, ter uma motivação interna para o nosso desenvolvimento; o seja, não temos que criticar ninguém e não temos que ficar fazendo o que os outros fazem. “Ah, então você está jogando fora coisas que as outras desenvolveram?” – Não, eu estou enfatizando um aprofundamento no nosso desenvolvimento. 

N Hélio, você hoje é um dos principais formadores de Analistas do Comportamento do Brasil, e, quem sabe, do mundo. Gostaria de saber quais dificuldades você tem observado em quem está aprendendo a abordagem. Quais as principais dificuldades que eles enfrentam quando vão fazer clínica? 

HG – Primeiro quero falar de algo positivo. Tenho visto um número crescente de alunos e profissionais genuinamente interessados na Abordagem Comportamental. Então, o material humano para o crescimento e desenvolvimento da abordagem é riquíssimo e isto é muito animador. Eu vejo alunos com os olhos brilhando quando têm acesso à informação e ao conhecimento. São pessoas extremamente motivadas e criativas. Na minha equipe, tenho hoje pessoas que ampliam e apresentam variabilidade, trazem contribuições extremamente inovadoras. Então, isto é muito animador. 

O que eu acho que é um problema? São basicamente dois problemas. O primeiro é que se está ensinando mal e pouco a Análise do Comportamento. Então os alunos chegam muito motivados, porém com repertório muito fraco e empobrecido de conhecimento da abordagem. 

Lê-se muito pouco Skinner. Lê-se muito pouco os estudos da Análise Experimental do Comportamento, e como tal, estes alunos tem um repertório muito empobrecido de conhecimento da área. Eu acho que isso decorre da falta de especialistas dentro dos cursos de Psicologia – tem professores, até de outras abordagens, dando cursos introdutórios de Análise do Comportamento. Eu acho que estas disciplinas deveriam ser dadas por especialistas, pessoas que a conhecem. 

O segundo ponto, ainda é quanto à formação. Muitos cursos que são dados por especialistas, também são dados por pessoas que tem pouco comprometimento com a aplicação. Eles não conseguem fazer, de uma maneira harmônica e agradável, a transposição dos conhecimentos básicos para a aplicação. Às vezes bons professores não motivam os bons alunos a aderirem à abordagem porque eles não enxergam o potencial dela [da abordagem]. Eu acho que as pessoas que fazem a AC, que fazem a aplicação, deveriam se envolver mais com o ensino. Isso facilitaria. 

Então, o primeiro problema é o déficit do conhecimento dos conceitos básicos. Isto é uma coisa lamentável, mas ela é superável. Nos cursos de formação de terapeutas,, as pessoas podem e devem fazer isso: dar esse embasamento. O nosso curso, por exemplo, tem essa preocupação. 

O segundo problema, eu acho que Analistas Aplicados do Comportamento se omitem de ensinar o que fazem. Eles continuam tendo o velho e lamentável hábito de falar genericamente. O aluno recebe informações muito genéricas e não aprende o “como fazer”. Acho que aqueles que fazem, que atuam nas áreas aplicadas, seja na educação, seja na clínica – posso falar melhor da clínica, que é minha área –, se omitem de ensinar o “como fazer”. Ficar insistindo muito em conceitos e princípios sem fazer a transposição para a aplicação deixa o aluno sem referencial efetivo, realmente capacitador. Não se criam habilidades. 

NPensando no desenvolvimento e disseminação do conhecimento produzido pela Análise do Comportamento, como você avalia a importância de eventos regionais como este: Jornadas de Análise do Comportamento? 

HG – Fantástico! Fantástico. Eu acho que todo encontro tem um fator motivacional até mais significativo do que instrucional. 

Como é um encontro curto, um dia ou dois dias, e há muito conteúdo a ser apresentado, esse conteúdo passa de uma maneira relativamente superficial e truncada. Não é uma crítica, é uma constatação. Tem que ser assim, mas os alunos ficam muito motivados. E isso se cria uma condição – que é uma operação estabelecedora –, para que voltem às suas origens, aos seus pontos de estudos, às suas faculdades, seus cursos, e se interessem em aprender mais, pesquisar mais, voltar aos livros e questionar os professores. 

Acho que é uma coisa de inestimável valor. Trazer pessoas – no meu caso, me coloco nessa posição – que fazem, pra contar o que fazem, acho também uma oportunidade impar. Extremamente gratificante vir para um ambiente destes e ensinar. Eu gosto de fazer, mas gosto que as pessoas também aprendam a fazer. Acho que meu compromisso não é só em fazer, mas em ensinar e formar. Nesse sentido, acho que é uma missão importante e uma oportunidade rara que não pode ser desperdiçada. 

domingo, 29 de maio de 2011

Restante das fotos da X JAC São Carlos

O Portal RedePsi e o Blog Comporte-se disponibilizam o restante das fotos tiradas durante a X JAC UFSCar, ocorrida nos dias 20,21 e 22 de maio de 2011. 



Para ter acesso ao material, clique nos links a seguir. Cada um dos álbuns possui um conjunto de fotos diferentes.

Fotos disponíveis no álbum do Blog Comportese: clique aqui.

Fotos disponíveis no álbum do Portal RedePsi: clique aqui.

Em breve estarão disponíveis no RedePsi os resumos dos trabalhos apresentados na JAC, e no Comporte-se, as entrevistas realizadas durante o evento.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Fotos da JAC São Carlos 2011

O Comporte-se e o  Portal RedePsi realizaram a cobertura exclusiva da 10ª Jornada de Análise do Comportamento da UFSCar, que ocorreu entre os dias 20 e 22 de maio de 2011. Foram feitas entrevistas e fotos com os participantes, conferencistas e comissão organizadora do evento.


Já estão disponíveis algumas das fotos tiradas durante o evento. Acesse os links abaixo para ter acesso:

Para as fotos disponíveis no álbum do Comporte-se, clique aqui.

Para as fotos disponíveis no álbum da RedePsi, clique aqui.

Em breve estarão disponíveis as entrevistas realizadas com Júlio César De Rose, Hélio Guilhardi, Marcelo José, Ana Arantes, Guilherme Leugi, Priscila e Laura. Serão disponibilizados também todos os resumos dos trabalhos apresentados no evento, fotos dos painéis junto a seus autores, fotos de algumas das conferências e de outros participantes. Não percam.