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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Religiosidade e psicologia: nota de esclarecimento do CFP

Autor: Daniel Gontijo
Disponível em: http://danielgontijo.blogspot.com.br/2012/03/religiosidade-e-psicologia-nota-de.html#more

Ao que parece, estamos em um clima propício para acalorados debates. Recentemente, e para citar um caso que tem gerado grandes repercussões, o CFP tomou nota de que a psicóloga Marisa Lobo está, em alguns sítios virtuais, vinculando seu título de psicóloga ao domínio da religiosidade e se posicionando de forma preconceituosa para com a homossexualidade (que, aliás, não é doença). A despeito do que tem sido alegado, a questão elementar não é a de se a psicologia é realmente uma ciência -- e poderia negar, por isso, a absorção de práticas que não sejam cientificamente validadas -- ou a de se os psicólogos podem ou não ser livres para crer. Antes disso, trata-se da importância de se observar as diretrizes que, ao descrever normas de conduta do psicólogo, culminam na delimitação de um campo específico e legítimo de ação: o das das práticas do profissional de psicologia. Quando a psicoterapia se mistura com ideias e preceitos religiosos, surge um problema similar ao que é levantado pelos defensores da laicidade do Estado. E, se já não há referenciais que tragam -- através de teorias, métodos e resultados -- reconhecimento e identidade satisfatórios ao exercício da profissão, as coisas estariam longe de melhorar caso permitíssemos a entrada de búzios e cartas, bolas de cristal, leitura de mapas astrais e, por que não, aconselhamentos budistas ou cristãos aos consultórios. 

Diante disso, o CFP publicou uma nota de esclarecimento acerca das relações entre a psicologia e a religiosidade. A nota teve como pano de fundo as discussões atuais e como fundamentação o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Como o próprio conselho adiantou, ainda há muita água para rolar. Abaixo, trouxemos o pronunciamento do CFP na íntegra. 



28/02/2012 - Nota Pública do CFP de esclarecimento à sociedade e às(aos) psicólogas(os) sobre Psicologia e religiosidade no exercício profissional 

Não existe oposição entre Psicologia e religiosidade, pelo contrário, a Psicologia é uma ciência que reconhece que a religiosidade e a fé estão presentes na cultura e participam na constituição da dimensão subjetiva de cada um de nós. A relação dos indivíduos com o “sagrado” pode ser analisada pela(o) psicóloga(o), nunca imposto por ela(e) às pessoas com as quais trabalha. 

Assim, afirmamos o respeito às diferenças e às liberdades de expressão de todas as formas de religiosidade conforme garantidas na Constituição de 1988 e, justamente no intuito de valorizar a democracia e promover os direitos dos cidadãos à livre expressão da sua religiosidade, é que o Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o) orienta que os serviços de Psicologia devem ser realizados com base em técnicas fundamentados na ciência psicológica, e não em preceitos religiosos ou quaisquer outros alheios a esta profissão: 

Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos: 

c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional; 

Se as(o) psicólogas(o) exercerem a profissão declarando suas crenças religiosas e as impondo ao seu público estarão desrespeitando e ferindo o direito constitucional de liberdade de consciência e de crença. 

O Código de Ética Profissional das(o) Psicólogas(o) cita nos dois primeiros princípios fundamentais a necessidade de respeito à liberdade e a eliminação de quaisquer formas de discriminação, e no artigo 2º veda à(o) psicóloga(o) a indução não só de convicções religiosas, mas também de convicções filosóficas, morais, ideológicas e de orientação sexual, compreendendo a delicadeza e complexidade que o tema merece: 

Princípios Fundamentais 

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 

Art. 2º – À(o) psicóloga(o) é vedado: 

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; 

Esse Código de Ética em vigor foi construído a partir de múltiplos espaços de discussão sobre a ética da profissão, suas responsabilidades e compromissos com a promoção da cidadania. O processo ocorreu ao longo de três anos, em todo o país, com a participação direta das(os) psicólogas(os) e aberto à sociedade. Seu objetivo primordial é garantir que haja um mecanismo de proteção à sociedade e à profissão, no intuito de garantir o respeito às diferenças, aos direitos humanos e a afirmação dos princípios democráticos e constitucionais de um Estado laico. 

A profissão de psicóloga(o) foi regulamentada no Brasil pela Lei nº 4.119/1962 e a Lei nº 5.766/1971 criou a autarquia dos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia, destinados a orientar, a disciplinar e a fiscalizar o exercício da profissão de psicólogo e zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe. Entre as atribuições estabelecidas por essa lei ao Conselho Federal de Psicologia estão a de elaborar e aprovar o Código de Ética Profissional do Psicólogo e funcionar como tribunal superior de ética profissional, portanto atuar como instância de recurso aos processos julgados nos Conselhos Regionais. 

Cumprindo seu papel previsto na Lei 5.766/1971 de zelar pela fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe, os Conselhos Regionais de Psicologia recebem e apuram as denúncias que chegam sobre o exercício profissional de psicólogas(os). Do julgamento do plenário do Conselho Regional, cabe recurso ao plenário do Conselho Federal de Psicologia. 

Qualquer cidadão pode oferecer denúncia contra o exercício profissional do(a) psicólogo(a), visto ser seu direito constitucional. Assim, as ações de orientação e fiscalização promovidas pelos conselhos profissionais no âmbito Regional são legítimas e não podem ser tomadas como perseguições ou cassações a qualquer direito. Todos os profissionais que exercem suas funções reconhecidas pelo Estado Democrático de Direito estão submetidos às legislações e Códigos de Ética dos seus respectivos Conselhos e, portanto, têm o dever de pautar sua atuação profissional nas legislações que disciplinam o exercício de sua profissão. 

A Psicologia como ciência e profissão pertence à sociedade, tendo teorias, técnicas e metodologias pesquisadas, reconhecidas e validadas por instâncias oficiais do campo da pesquisa e da regulação pública que validam o conjunto de formulações do interesse da sociedade. Os princípios e conceitos que sustentam as práticas religiosas são de ordem pessoal e da esfera privada, e não estão regulamentadas como atribuições da Psicologia como ciência e profissão. 

Finalizamos esse posicionamento declarando que o CFP iniciará uma série de atividades de debate sobre a relação entre Psicologia e religiosidade, com vistas a contribuir com o debate público da categoria e da sociedade frente a esse tema, objetivando explicitar que não somos contrários a que os profissionais tenham suas crenças religiosas, e sim que devemos zelar para que estes não utilizem suas crenças, de qualquer ordem, como ferramenta de atuação profissional.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tô curtindo Análise do Comportamento, e agora?

Dicas para quem está começando 

Salvo algumas exceções, a Análise do Comportamento não é muito prestigiada pelos cursos de Psicologia do nosso País. Sofremos com a ausência de professores, com a falta e sucateamento de laboratórios, com a falta de livros da área e por aí vai. Além de todas essas intempéries, ainda temos que aturar um turbilhão de críticas infundadas e preconceitos. 

Se ainda assim você escolheu se tornar um Analista do Comportamento (ou está pendendo para isso) merece os meus parabéns! Este post é dedicado a você, que – como verá – não está sozinho no mundo. 

No texto que em questão organizei algumas dicas feitas especialmente para acadêmicos (de Psicologia, ou não) que por alguns motivos estejam se sentindo atraídos pela episteme analítico-comportamental. Em função das novas regras editorias (textos de no máximo duas laudas), as dicas estarão divididas em duas postagens. Esse texto é um produto da minha – curtíssima – história dentro dessa abordagem, portanto peço uma forcinha aos mais vividos para incrementá-las utilizando nosso espaço para comentários. 



1) Seu professor não responde por todos os Analistas do Comportamento. 


 Não é estranho que o seu interesse pela abordagem seja, principalmente, em função do carisma de um determinado professor. Isso não é ruim, mas merece algumas considerações. Os padrões comportamentais dos membros da nossa comunidade científica são tão diversos como o armário de sapatos da socialite Narcisa Tamborindeguy¹. Temos sujeitos que variam desde uma reprodução fidedigna do arquétipo que nos deram (cientistas sisudos, com parcas habilidades sociais, trancados em laboratórios cheios de bichinhos) até os mais expansivos. Portando não utilize o seu professor como parâmetro para se envolver – ou não - com qualquer abordagem. 


2) Busque conhecimento! 


 Essa dica – emprestada do nosso E.T. midiático, Bilu² - permeará todas as outras. Temos na internet diversos bancos de dados que disponibilizam arquivos quentíssimos a todo o momento. Revire esses bancos de dados, garimpe os livros da sua biblioteca, vasculhe sebos³, pentelhe os seus professores (comedidamente), visite blogs regularmentre. Corra atrás... Comporte-se! 
É possível encontrar algumas sugestões de bancos de dados e periódicos analítico-comportamentais na ala “docs” do nosso grupo no facebook4



3) Participe de eventos. 

A Análise do Comportamento possui aplicações em diversos contextos. Podemos dizer que onde há interação ente um organismo e um ambiente, há uma possibilidade de estudo/intervenção. Participar de eventos te possibilitará: conhecer a dimensão dos campos de atuação, conhecer as linhas de pesquisa que estão sendo desenvolvidas, ficar por dentro das novas publicações, conhecer o trabalho dos institutos que oferecem cursos na área (extensão, formação e pós-graduação), ficar por dentro dos eventos que teremos e – não menos importante - você terá a oportunidade de confraternizar com estudantes e professores da área. Enfim, é muito bom. Ah! Além de tudo isso, ajudará a dar um up! no seu Lattes5 (o cartão de visita dos acadêmicos). 

Atualmente temos um grande evento anual da área no Brasil, o Congresso da ABPMC. Além desse, várias Jornadas de Análise do Comportamento e eventos vinculados aos institutos que oferecem pós-graduação na abordagem são realizados nos quatro cantos do nosso País6


4) Participe das redes sociais 


É possível interagir com estudantes e profissionais da área em diferentes ferramentas da internet. Seguem os principais meios de comunicação dos behecas brasileiros: 

Lista de emails no Yahoo!: http://br.groups.yahoo.com/group/COMPORT/

A partir desses grupos, é possível tirar dúvidas, travar debates, sugerir leituras, receber dicas de leituras, conseguir referências raríssimas e, quem saber, achar o amor da sua vida. 


5) Flexibilize sua linguagem sem perder a coerência epistemológica. 


Nossa comunidade científica possui uma linguagem hermética que se distancia do resto da Psicologia. Estudar Análise do Comportamento exige um processo de re-alfabetização. Quando nos dedicamos a ensinar ou discutir algum assunto com pessoas que não são da área, é importante aliviarmos um pouco nossa rigidez terminológica. 

Ao contrário do que alguns imaginam, podemos falar de mente, sentimentos, intenção, liberdade, psicoses, neuroses, associação livre e o diabo à quatro sem medo de nos distanciarmos da expertise analítico-comportamental. Mas é preciso levar em consideração nossas peculiaridades epistemológicas, que contrastam com grande parte das abordagens psicológicas vigentes e do senso comum. 


6) Leia sobre outros assuntos. 


Existe muita coisa boa sendo produzida em outras áreas, não se prive de estudá-las. Além disso, transitar em diferentes assuntos provavelmente aumentará suas chances de ser socialmente reforçado. 



Notas 

2- Mais sobre o E.T. Bilu: http://pt.wikipedia.org/wiki/ET_Bilu
3- Um site maravilhoso e cheio de pechinchas é o: www.estantevirtual.com.br 
5- Mais sobre a plataforma Lattes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Plataforma_lattes
6- Para ficar por dentro do calendário de eventos, você pode participar do grupo "Jornadas e Encontros de Análise do Comportamento" no facebook: https://www.facebook.com/groups/183498388401750/

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A "visão de mundo pessoal" é ferramenta técnica de trabalho do Psicólogo e do Analista do Comportamento?




Dois acontecimentos cotidianos recentes me fizeram refletir sobre um assunto aparentemente “resolvido”. Numa conversa com um jovem publicitário, em que o mesmo contava sobre suas impressões a respeito de sua psicoterapia pessoal, interveio uma professora universitária de outra área, parecendo um tanto contrariada com o fato de alguém fazer psicoterapia e um tanto surpreendida com o fato de alguém confiar na competência técnica de alguém habilitado para atuar como psicoterapeuta. Aparentemente sem conexão com algum aspecto específico da conversa ela efetuou o seguinte comentário: “Colocar-se nas mãos de um psicólogo é tornar-se refém da visão de mundo de uma pessoa em particular”.
Mais recentemente ainda, alguém desconhecido pra mim, que solicitou entrada num grupo de interesse que criei e gerencio numa rede social, questionou algo com base no desgastadíssimo argumento da neutralidade ou imparcialidade da ciência. Enfim, dois comentários que, sob o pretexto de alertar para algo importante, quase alertam sobre a “reinvenção da roda”. Um tanto cansativo, mas vale a pena comentar. 
Inúmeras vertentes de argumentação poderiam ser utilizadas para discorrer sobre os comentários acima. O fato de o psicoterapeuta ser uma pessoa e possuir uma visão de mundo invalida ou mesmo compromete a sua atuação profissional e técnica? O fato de qualquer profissional, provindo de qualquer área de formação ser uma pessoa e possuir uma visão de mundo invalida ou mesmo compromete a sua atuação profissional e técnica? Indo além; e sobre a atuação profissional da “reclamante”? O que os seus alunos teriam a dizer sobre a interferência de sua visão de mundo em seu trabalho? Outra pergunta que não quis calar também se fez presente, qual seja: Qual seria o instrumento de trabalho do psicólogo clínico (ou outro qualquer) afinal? A sua personalidade, as suas características pessoais (incluindo a sua visão de mundo) ou o conjunto da sua formação profissional incluindo seu repertório teórico-técnico, preferencialmente pautado em um conjunto de práticas baseadas em evidências (preferencialmente científicas) [1]


A depender do tipo de resposta que se possa ter para cada uma dessas perguntas, o aparente espanto da nossa colega pode se respaldar em menor ou maior sustentação empírica. Caso a atuação do psicólogo seja entendida como pautada exclusiva e preferencialmente num conjunto de disposições pessoais, talvez fazer psicoterapia seja realmente se colocar à mercê da visão de mundo de alguém. Caso seja entendida com mais rigor e ética, incluindo pelos próprios profissionais que devem respeitar um código de ética bastante claro a esse respeito, talvez seja uma preocupação um tanto ingênua. Isso depende da visão de mundo de cada um...

As alíneas “c”e“b” dos Artigos 1º e 2º, respectivamente, do Código de Ética profissional do psicólogo exemplificam as asserções anteriores conforme exposto abaixo:

“Art. 1º - São deveres fundamentais dos psicólogos:... b) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;” (2005, p. 8)

“Art. 2º - Ao psicólogo é vedado: ...b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;” (2005, p. 9)

Em todo caso existem profissionais com as mais variadas opções pessoais como credos, religiões, filosofias, preferências partidárias etc. que, mesmo não fazendo ou não devendo fazer parte do processo psicoterapêutico, podem ser vasculhadas, a depender da preferência do interessado, caso consiga ter meios para dispor de tantas informações. É claro que uma ou outra informação, caso seja considerada muito importante pelo paciente (como a religião, por exemplo) pode ser fornecida pelo profissional a ser contratado; porém, nunca numa quantidade tão extensa; o que equivaleria a subverter o objetivo do processo psicoterapêutico.
Quanto aos profissionais, cabe esperar que continuem investindo em formação técnica mais do que em divulgação de valores e preferências pessoais. Não é mais que morno afirmar que as pessoas não são neutras e nem a ciência o é; mas afirmar isso apenas para aceitar a asserção e sem ao menos ter como objetivo minimizar os óbvios vieses e tendenciosidades de um cotidiano pessoal e profissional mais do que pautado e discutido em diversas instâncias formativas das mais variadas profissões (ou pelo menos pra mim e na minha formação...) é temerário para qualquer um; independente da profissão, da raça, credo, cor, religião, partido político, preferência filosófica, estado civil entre outros.
No caso da psicologia e para analistas do comportamento, com certeza vieses e tendenciosidades podem vir a existir, o que resto, é verdadeiro para a prática profissional de qualquer um. No entanto, para um analista do comportamento sua detecção é vista como possível e o seu controle como desejável, com vistas à autocrítica permanente e não mera aceitação passiva. Colegas de outras áreas da psicologia e de outras profissões também podem e talvez devam compartilhar de posicionamento semelhante.




[1]O termo “científico”, nesse caso está sendo usado em oposição a achismos, casuísmos, curandeirismos, práticas meramente opiniáticas ou até mesmo adivinhatórias ou esotéricas quaisquer, bem como a técnicas não validadas por métodos científicos, eles próprios (os métodos) validados por uma comunidade científica que compartilhe um conjunto de práticas consideradas pela mesma como científicas



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O que é a Análise Aplicada do Comportamento ?

A Análise Aplicada do Comportamento ou simplesmente AAC como defendido por Tourinho (1999) é uma subárea da Análise do Comportamento que é interligada a outras duas que seriam a Análise Experimental do Comportamento ou simplesmente AEC (uma ciência básica) e o Behaviorismo Radical (a filosofia da ciência que a embasa).

Ainda na definição de Tourinho (1999), a Análise Aplicada do Comportamento é a ciência aplicada e tecnológica que por sua vez seria o braço responsável por administrar conhecimentos produzidos pela Análise Experimental do Comportamento e produzir intervenções de relevância social. Para Tourinho (1999) tanto a Análise Experimental, Behaviorismo Radical e a Análise Aplicada não podem existir autônomas, por mais que seus representantes em determinadas vezes não consigam ver seus pontos de intersecção.

A Análise Aplicada do Comportamento, então seria o campo de ação com métodos planejados de intervenção dos analistas do comportamento. Com essa definição podemos localizar a AAC como a responsável pela aplicação dos conhecimentos nas áreas da psicologia tradicionais como a clinica psicológica, escolas, presídios, saúde publica ou organizações.

Segundo Carvalho Neto (2002) a Análise Aplicada do comportamento teria pelo menos duas funções vitais: (1) manter o contato com o mundo real e alimentar os pesquisadores na área com problemas comportamentais do mundo natural e (2) mostrar a relevância social de tais pesquisas e justificar sua manutenção e ampliação da área como um todo.

A batalha de Skinner contra o Mentalismo, em grande parte das vezes, tomou esse formato e um dos critérios que o autor defendia para avaliar a veracidade maior das asserções feitas pelos analistas do comportamento sobre os fenômenos comportamentais, estaria em sua capacidade de gerar uma efetiva tecnologia comportamental e com isso criar condições para se compreender e predizer o comportamento. (Carvalho Neto, 2001)

De modo geral a palavra “aplicada” vem gerando debates sobre qual é o significado dela quando utilizada por analistas do comportamento e na verdade quais são as praticas em que os analistas aplicados devem ou não se envolver (OLIVEIRA, 2003, pp. 349).

Ainda segundo OLIVEIRA (2003) existe diferenciações para o uso do “aplicada” e os debates se focam em torno de três tópicos, que foram organizados em a) aplicação enquanto prestação de serviço que leva a discussão para a prestação de serviço X pesquisa, assemelhando-se à forma como o termo “aplicado” é utilizado na linguagem cotidiana, b) aplicação enquanto uma forma de pesquisa que revela uma revisão do conceito de aplicação na linguagem cotidiana e sua extensão para atividades científicas, direcionando a discussão para o continuum pesquisa básica x pesquisa aplicada e c) aplicação enquanto atividade simultânea de pesquisa e prestação de serviço que sinaliza o caráter complementar destas atividades

O uso das tecnologias comportamentais apoiadas epistemologicamente no Behaviorismo Radical e produzidas pela Análise Experimental quando combinadas a produção de equipamentos de informática, levam a um material especifico que vai ser utilizado pelos analistas aplicados do comportamento em forma de serviços para a sociedade.

As leis e conceitos que regem os comportamentos humanos delimitados pelos analistas básicos geram subsídios para a aplicação de tais leis em âmbito social criando, portanto uma demanda publica para tais praticas. Obviamente existe uma correlação intensa e necessária entre a ciência básica (AEC) e a ciência aplicada (AAC).

A complementaridade entre a Análise Experimental do Comportamento e a Análise Comportamental aplicada é também defendida por Ferster (1979).

Segundo este autor, ambas podem estar preocupadas com os mesmos itens de conduta com objetivos diferentes. O profissional é obrigado a se engajar em qualquer problema que o cliente trouxer. Sua tarefa principal é melhorar a angústia.

Os profissionais se envolvem totalmente e geralmente não podem ser responsáveis por provar o que foi realizado. Por outro lado, psicólogos experimentais escolhem seu próprio chão, sendo solicitados apenas a olhar objetivamente e com clareza conceitual e a comunicar nos termos da ciência natural. (p. 23)

Referências :

Carvalho Neto, M. B. - Análise do comportamento: behaviorismo radical, análise experimental do comportamento e análise aplicada do comportamento (2002)

Carvalho Neto, M. B. (2001). B. F. Skinner e as explicações mentalistas para o comportamento: uma análise histórica conceitual (1931-1959). Tese de Doutorado, não Publicada, Instituto de Psicologia. Programa de Pós-Graduação em Psicologia Experimental. Universidade de São Paulo. São Paulo: SP.

domingo, 3 de julho de 2011

Psicologia Baseada em Evidências

Você provavelmente já ouviu falar na Medicina Baseada em Evidências. É uma prática bastante disseminada na área médica a de escolher tratamentos para determinadas doenças, com base em estudos que demonstrem evidências de resultados satisfatórios. O que poucos sabem, no entanto, é que existe também um movimento a favor da Psicologia Baseada em Evidências em saúde pública.

A Psicologia Baseada em Evidências - PBE (no original, Evidence-Based Practice in Psychology, ou EBPP) tem sido objeto de atenção há alguns anos da American Psychological Association (APA) – que costuma organizar forças-tarefa, com o intuito de reunir e divulgar práticas em Psicologia apoiadas em evidências científicas demonstradas na literatura, bem como de fomentar estudos que tragam subsídios para a atuação dos psicólogos e psicólogas. No Brasil, o primeiro livro sobre o assunto será lançado em agosto deste ano.




As práticas em psicologia são avaliadas principalmente de acordo com dois critérios em PBE: eficácia e utilidade clínica. A eficácia diz respeito à força das evidências de relações causais entre uma intervenção estudada e os resultados desta sobre um transtorno específico. A utilidade clínica, por sua vez, inclui aspectos como a possibilidade de generalização do tratamento estudado para contextos mais próximos ao setting natural, a viabilidade e a relação custo-benefício de uma intervenção.

Vários pontos devem ser levados em conta na escolha de uma prática baseada em evidências, citados pela APA:
  • A perícia do psicólogo que irá conduzir o tratamento – que envolve uma análise bem fundamentada do caso e um planejamento claro do tratamento, habilidades interpessoais, auto-reflexão constante, busca de supervisão quando necessário, bom timing para decidir quando é o momento de usar determinada prática ou de modificá-la, atenção para os rumos do tratamento, dentre outros;
  • As características do(s) paciente(s) – se referem a diferenças individuais, como: momento desenvolvimental pelo qual o sujeito está passando, grupo cultural a que pertence, contexto atual de vida (se está passando por estressores significativos, se há comorbidades, e até aspectos financeiros que possam ser impeditivos para determinados tratamentos mais caros, por exemplo).
A busca por evidências em práticas psicológicas pode ser feita lançando mão de diversos métodos de pesquisa. Observações clínicas (como estudos de caso sistemáticos), pesquisas qualitativas, delineamentos experimentais de caso único, pesquisas etnográficas, estudos longitudinais, estudos em contexto naturalístico, estudos com grupos, ensaios clínicos randomizados (randomized controlled trials na literatura, ou ECTs), meta-análises da literatura, dentre outros métodos são complementares para compreender da forma mais abrangente e acurada possível as práticas em psicologia.

Nas publicações científicas, podemos ter contato com vários estudos que possam subsidiar a escolha por um tratamento psicológico. A escolha pelo tratamento que tem mais evidências em favor de bons resultados, no entanto, muitas vezes gera controvérsias. Não se pode esquecer, por exemplo, que um tratamento psicológico não pode ser considerado “pior”, ou “inútil” a priori. Basta que haja interesse em estudar e refletir criticamente sobre quaisquer práticas, para então reunir evidências a favor ou contra um determinado tratamento ou intervenção, e, sejam estas evidências a favor ou contra, buscar sempre pontos que possam ser melhorados para que novos estudos sejam feitos. Embora algumas abordagens já tenham demonstrado resultados de forma significativa (a cognitivo-comportamental é um bom exemplo disso, por se dedicar frequentemente à busca de evidências científicas), nada impede que outras abordagens sistematizem e demonstrem que suas práticas também funcionam.

A importância disso, mais do que contribuir para o desenvolvimento da ciência em Psicologia, é de contribuir para a sociedade como um todo. Em saúde pública, um planejamento deve levar em conta quais tratamentos irão ser mais eficientes, pois é interessante para todos que recursos financeiros e de tempo sejam aplicados da forma mais racional possível. Portanto, usar as evidências a favor não é apenas uma questão de posicionamento científico, mas de posicionamento ético.

Referências*
APA Presidential Task Force on Evidence Based Practice (2006). Evidence-Based Practice in Psychology. American Psychologist, vol. 61, nº 4, pp. 271-285.
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*Texto indicado pelo meu amigo Marcus, do CogPsi. Valeu, Marcus!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Certificação de Analistas do Comportamento - subsídios para uma discussão inicial

Roosevelt R. Starling


O Boletim Contexto, n. 33, da ABPMC, nos traz a notícia de que a atual diretoria está considerando o problema da certificação do analista do comportamento e que realizará um encontro no próximo mês de fevereiro, na USP, em São Paulo, para discutir o assunto. Não especifica, porém, data mais precisa ou a duração que se prevê para o evento, nem especifica a natureza do encontro (se fechada ou aberta). Um encontro realizado em São Paulo, no mês de fevereiro, estabelece uma contingência na qual a maioria dos debatedores será de colegas que residem/trabalham/estudam naquela cidade. Sendo São Paulo um pólo indiscutível da Analise do Comportamento no nosso país, isso me parece muito bem. Contudo, penso que a matéria é de interesse geral, ou deveria ser, quer por suas implicações técnicas imediatas e mediatas, quer por suas implicações políticas de curto, médio e longo prazo.

Não sei que outros mecanismos estão sendo pensados para facilitar a participação do restante da comunidade AC/BR brasileira, mas, de qualquer forma, nos ensina o conceito do entrelace das contingências de reforçamento que encaminhamentos e concepções iniciais sobre matérias complexas tomadas em grupo – sobretudo por um grupo tão expressivo e competente como por certo será o que lá se reunirá – dificilmente são reversíveis, exceto quando reconsideradas e modificadas pelo mesmo grupo que estabeleceu o marco inicial. Assim sendo, embora o citado Boletim já trate, em grandes linhas, de alguns dos problemas envolvidos num projeto de certificação, o objetivo deste pequeno trabalho é oferecer à comunidade a colaboração adicional de um dos seus membros que vem se interessando pelo tema já por mais de uma década. 

Essa colaboração não se define pelo oferecimento de quaisquer respostas - mesmo porque respostas a projetos dessa monta não é tarefa da qual possa desincumbir-se uma pessoa ou mesmo um grupo de pessoas - mas sim, essencialmente, pela exposição das indagações que, exatamente pelo interesse no tema, venho acumulando ao longo desse tempo. 

De fato, tenho me interessado pelo tema há algum tempo e, em 1999, em palestra proferida ao VIII Encontro da ABPMC, depois formalizada em publicação [1], já perguntava: 

(...) quem é um analista do comportamento ou, ao que valha, o que ele faz que o distinga dos seus competidores? Hoje, um analista do comportamento é quem assim se autoproclamar. (...). Embora nos agrade a idéia de que ninguém possa falar em nome d’O Behaviorismo, o fato é que, numa dada comunidade, ele será selecionado ou não dependendo das contingências estabelecidas pelos behavioristas que lá atuarem. (p.5, chaves acrescentadas ao texto original). 

Noutras palavras, cada um de nós, na nossa área restrita de atuação, é quem acabará por definir para o seu meio social próximo o que é e o que faz um “behaviorista” ou um “psicólogo comportamental”, como usualmente o público leigo nos denomina, ou seja, cada um de nós, através do nosso desempenho mais bem sucedido ou menos, constrói, em alguma medida, a nossa imagem pública e, com ela, as nossas maiores ou menores possibilidades de participar com sucesso da cesta de práticas psicológicas oferecidas para a seleção. 

Entretanto, de maneira mais geral o público usuário dos serviços psicológicos tipicamente nos considera numa categoria mais ampla, a dos “psicólogos”. É de conhecimento e reconhecimento geral a pobreza discriminativa desta categoria, em função da enorme diversidade de teorias e práticas que nela estão contidas. 

No que diz respeito mais de perto à Análise do Comportamento, o tratamento ABA para o autismo vem se disseminando entre a comunidade interessada como sendo o tratamento de eleição. Sobre essa aplicação, que também sofre dos problemas comuns à psicologia em geral, qual seja a da incerteza quanto ao treinamento e formação adequados dos seus praticantes, há alguns meses escrevi que (...) dissemina-se no Brasil que o “método” ABA é o tratamento de eleição para os transtornos invasivos do desenvolvimento e já se vê “especialistas” oferecendo tratamento e cursos, boa parte somente com o treinamento da graduação ou declarando especializações estranhas à área e atuando sem supervisão analítico-comportamental competente e experiente [2] nessa aplicação tão delicada. Parece que esses, mais agressivos ou menos bem formados, ou as duas coisas, também aprenderam algumas “técnicas” e entreviram uma “oportunidade de mercado”, lançando-se prematuramente ao seu encalço. O problema é que essa não é uma “oportunidade de mercado”, mais sim algo muito mais precioso e conseqüente: é uma oportunidade para ampliar o bem-estar de seres humanos reais ou falhar em fazê-lo e, caso isso ocorra, comprometendo e desgastando, no processo, a mais efetiva das oportunidades de tratamento que eles têm (Entrevista publicada neste link). 

Foi gratificante ver essa mesma apreciação refletida no já citado boletim da ABPMC e as considerações lá apresentadas sobre o tema me levam a crer que as mesmas contingências que vem controlando minhas preocupações com o assunto sensibilizam também parcela importante dos colegas brasileiros. 

Nesse panorama, ao se considerar uma certificação para o analista do comportamento, pensa-se então em estabelecer uma identidade profissional social diferenciada, tomando-se como supostos que (1) tal identificação ainda não existe ou ainda não está socialmente estabelecida, (2) que é possível e (3) que é desejável (para toda a comunidade, para parte da comunidade ou para alguém da comunidade). 

Quanto a esses supostos, o primeiro se resolve de pronto: caso houvesse uma identidade profissional social estabelecida para o analista do comportamento, não se estaria considerando uma certificação redundante. 

Quanto a ser possível, a resposta é positiva, pois isto já vem sendo feito há mais de uma década nos EUA, através do Behavior Analysis Certification Board, BACB®, um empreendimento privado sem fins lucrativos, conforme afirmam em seu site (http://www.bacb.com); lá, assim se apresenta o BACB: 

O Behavior Analyst Certification Board®, Inc. (BACB®) é uma empresa sem fins lucrativos estabelecida em 1998 para atender às necessidades de credenciamento identificadas pelos analistas do comportamento, entidades governamentais e consumidores dos serviços analítico-comportamentais. O BACB® se conforma às normas nacionais para comitês que certificam credenciais profissionais. Os procedimentos de certificação e seus conteúdos submetem-se a revisões e validações psicométricas periódicas, de acordo com pesquisas de análise da tarefa (job analysis) da profissão e com os padrões estabelecidos por especialistas em conteúdo da área. (http://www.bacb.com/index.php?page=1, tradução do presente autor).

A história desse programa de certificação é em larga medida apócrifa, de vez que não pude encontrar documentação formal dela. Tanto quanto pude apurar através de troca de e-mails em listas de discussão americanas, referências esparsas e ocasionais na literatura da área e através de conversas com colegas americanos, o BACB® herdou, por assim dizer, a proposição de um programa originalmente desenvolvido na Florida (Behavior Analysis Florida Certification Program) e, ao longo dos anos, aglutinou e unificou programas semelhantes que, a partir da experiência na Flórida, haviam se desenvolvido em vários outros estados americanos. Diz a tradição oral sobre a origem desses programas que a principal motivação foi a necessidade de pais de autistas de garantir legalmente o auxílio financeiro necessário para o tratamento AC (ABA) dos seus filhos. Precisavam exibir algum documento de credibilidade legal que provasse que a pessoa ou pessoas contratadas com dinheiro proveniente de fundos públicos teria de fato as habilidades necessárias para conduzir este tratamento. 

Entretanto, estabelecer a possibilidade de uma certificação através da existência dela em outro país, não assenta a discussão da validade e da qualidade desta certificação e nem enfrenta os problemas referentes às diferenças legais e culturais entre dois países. Igualmente, a identidade profissional social que uma certificação pode conferir não se traduz diretamente por uma identidade profissional alicerçada numa práxis compartilhada e a possível eficácia social desta identificação não se estabelece pela simples certificação, problemas que considerarei mais abaixo. 

Quanto à desejabilidade da certificação social de uma identidade profissional, esta tem sido uma resposta selecionada na nossa cultura, através das inúmeras associações e sociedades profissionais já estabelecidas e que certificam os seus membros, principalmente na área médica (Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Oftalmologia, etc.). Dado ao estado caótico da psicologia nesta sua fase inicial é razoável supor que esta desejabilidade, para o analista do comportamento, possa ser tacitamente assumida. Para aqueles que se submetem ao crivo da comunidade verbal analítico-comportamental, publicando seus trabalhos ou apresentando-os em congressos, existe algum controle exercido pela comunidade AC sobre essa declaração de afiliação, ainda que incidental. Para aqueles que não o fazem, o controle é de muito pouco a nenhum. 

Na minha área de atuação mais imediata já tomei conhecimento da existência de vários “analistas do comportamento” ou “terapeutas comportamentais” que nunca vi nos nossos encontros, dos quais não pude encontrar trabalho algum publicado e, assuntando daqui e dali, cujos professores desconheço, o que é quase uma impossibilidade, dado ao nosso número ainda pequeno. Fiquei sob a impressão de que essas pessoas leram em algum livro ou artigo algumas “técnicas comportamentais” e passaram a aplicá-las, tirando daí, presumo, a identidade profissional que declaram. 

Contudo, e mais uma vez, estabelecer a desejabilidade de um projeto não corresponde a estabelecer a sua factibilidade e, sobretudo, o seu modus operandi, assunto sobre o qual me deterei mais abaixo. 

Seja como for e tanto quanto estou informado, há também que se perguntar por que somente nós, os analistas do comportamento, estamos considerando uma certificação. Historicamente, a psicanálise já manteve, no Brasil, uma forma de certificação, talvez mais bem entendida como uma forma de formação, que se chamava “análise didática”, uma herança direta das práticas iniciais da psicanálise na Europa. O candidato à psicanalista, para ser plenamente considerado como tal, precisaria submeter-se ele mesmo a uma análise com um analista sênior e se considerava que este processo o habilitaria a replicar esta prática com seus futuros clientes. Tanto quanto sei, desde o início este processo esteve restrito a uns poucos grupos, ou seja, não era um processo de formação/certificação de adoção ampla e, legalmente, nunca teve qualquer respaldo. Parece que este processo, enquanto existiu, mantinha-se por reforçamento social: o status de ser reconhecido pelo grupo tal ou qual como um profissional que havia cumprido na plenitude o processo formativo que aqueles grupos preconizavam. Não tenho notícias da continuidade desse processo. 

De imediato, uma pergunta pode ser feita as respeito dessa iniciativa da ABPMC: porque agora? A temática não é nova na área. Como já dito acima, nos EUA a certificação do analista do comportamento já é praticada por mais de uma década [3] e mesmo aqui, no Brasil, o tema já tem sido objeto de consideração também por mais de uma década. Perguntar “porque agora?” é perguntar que nova contingência ou contingências entraram em ação agora, ou se fizeram presentes agora. 

Outra questão que a própria idéia de certificação levanta é a questão da padronização. Só se pode “certificar”, nesse contexto, um padrão e estabelecer um padrão implica reduzir variação. A questão de quem (e como) estabelecerá o padrão a ser certificado nos remete inevitavelmente à dimensão política implicada nesta proposição. 

Penso que não se pretenderá valor legal para essa certificação. No Brasil, somente uma entidade parece ter obtido a inserção da sua certificação na ordem jurídica vigente: a OAB. O certificado da OAB, que não é exatamente um certificado, mas sim o direito de inscrição do bacharel em direito como afiliado da OAB, o que lhe confere o direito de se intitular advogado e é um requisito legal necessário para o exercício da advocacia junto aos tribunais e para os demais atos jurídicos de efeito pleno, sendo adquirido através da aprovação numa prova específica. 

O CFM (Conselho Federal de Medicina), cuja natureza jurídica é a de uma autarquia, sanciona ou reconhece os títulos de especialistas adquiridos através de critérios estabelecidos à discrição das sociedades profissionais específicas (p. ex.: Sociedade Brasileira de Cardiologia), que não são divisões formais do próprio CFM/CRM, mas sim associações profissionais independentes, como a ABPMC ou a SBTC. Entretanto, um simples graduado em medicina pode legalmente exercer qualquer ato médico, incluindo cirurgias as mais complexas, sem a necessidade dessa titulação ou mesmo de residência médica na especialidade, bastando para tal o diploma de graduação e o registro no CRM do seu estado. Quanto à residência médica, esta costuma ser uma exigência das sociedades médicas para a concessão do título de especialista e o MEC reconhece para algumas delas o estatuto de um curso de pós-graduação, no nível de especialista, mas não para todas elas, conforme se adéqüem ou não às exigências daquele ministério [4]

Dentre nós, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) instituiu uma certificação ou titulação de especialista, mas que somente tem valor como referência, de vez que um psicólogo que não tenha o título de especialista concedido pelo CFP (ou CRP) não está, legalmente, impedido de exercer aquela especialidade ou qualquer outra especialidade (clínica, escolar, etc.). Assim, tanto para o médico, quanto para o psicólogo, o que o título de especialista dá é somente o direito de identificar-se publicamente como tal, por ter sido admitido/aprovado segundo os critérios daquela associação profissional, no caso do médico, ou do CRP/CFP, no caso do psicólogo. Em ambos os casos, esse título não equivale, para efeitos legais, ao título de especialista concedido pelo MEC após certificação emitida por centro de ensino por ele credenciado. 

Existem também pelos menos duas outras dimensões relevantes envolvidas nessa proposição: as dimensões técnica e a logística, que também receberão atenção neste trabalho. Por outro lado, essas diversas dimensões (políticas, técnicas e logísticas) estão entranhadas de tal forma que separá-las, para fins de análise, demandaria um tempo maior do que o disponível para que este trabalho tenha alguma chance de atingir o seu objetivo, qual seja o de subsidiar as discussões que se darão já neste mês. Por essa razão, não se fará aqui esse esforço, reservando-o para a atenção da nossa comunidade que é quem, ao fim e ao cabo, deverá se pronunciar sobre a questão. 

Através de quais procedimentos se poderia assegurar à sociedade que um dado profissional possui as habilidades necessárias para ser considerado um analista do comportamento? 

Ainda sem enfrentar a questão de quais seriam essas habilidades, penso haver poucas dúvidas que se considera insuficiente a mera graduação em psicologia, com a necessária passagem por disciplinas mais ou menos relacionadas à área, principalmente a disciplina chamada no Brasil de AEC ou Análise Experimental do Comportamento, comum nos currículos acadêmicos da graduação em psicologia e por vezes a única exposição de um acadêmico de psicologia à cultura analítico-comportamental. Primeiro, porque não existe um esforço – na verdade, tanto quanto sei, não existe nem mesmo um estudo sistematizado extensivo - da comunidade analítico-comportamental brasileira para estabelecer alguns parâmetros para o conteúdo dessas disciplinas ainda que como simples referência, que mais não pudesse ser. Em algumas das faculdades de psicologia que conheci, a AEC era ministrada por professores que declaravam orientar-se por referências teóricas diferentes da AC/BR [5]

Assim, impossibilitada de ser resolvida através da simples graduação em psicologia, o problema da identidade profissional do analista do comportamento seria resolvida pela certificação ou titulação correspondente a um estudo pós-graduado na área? 

A simples idéia que ora se considera, a de uma certificação extra-academia ou centros de formação, ainda que credenciados pelo MEC ou pelo CFP, indica que não. 

Quanto às especializações, até uns cinco anos ou pouco mais anos atrás existiam bem poucas, todas elas sob a responsabilidade de membros seniores da nossa comunidade e, até então, devido à exposição a membros fluentes da nossa cultura e com repertórios verbais finamente modelados por anos de exposição a uma audiência com reconhecido nível de exigência, poder-se-ia dizer que um egresso de uma dessas especializações poderia ser identificado na comunidade analítico-comportamental intramuros como um analista do comportamento, no sentido de que apresentaria, quando estimulado, o repertório intraverbal desejado e provavelmente produziria os tatos adequados utilizando a linguagem AC/BR (as categorias de análise, os conceitos), pelo menos na situação de treinamento [6]

Todavia, devido ao que parece ser um interesse crescente na área, os últimos cinco e tantos anos viram florescer uma plêiade de cursos de especialização, alguns deles agora já nem sempre sob a responsabilidade ou contando com a participação continuada ou, ainda, com a supervisão de membros experientes da comunidade. No que diz respeito à aplicação clínica, a favorecida nessas especializações, esse problema pode ser mais agudo, de vez que o conhecimento técnico e a competência teórica não podem suprir as habilidades práticas cruciais nessa prestação de serviços, aquilo que Catania (1969) denomina desempenhos especializados [7], um repertório que somente o tempo de exposição intensa e continuada ao sistema reforçador pode instalar. Além disso, inexistindo uma base curricular consensual, inexistindo métodos de ensino e de avaliação da aprendizagem igualmente consensuais e quaisquer mecanismos externos de supervisão e avaliação da aprendizagem que se supõe deveria ocorrer nessas especializações, o que de certo se pode afirmar sob os egressos delas? 

Já considerando os cursos formais de educação pós-graduada, tais como os mestrados e doutorados, é de se perguntar, por exemplo, se um doutor na área, cujo estudo foi desenvolvido com pombos e focou uma temática tal como momento comportamental ou comportamento de escolha, estaria automaticamente qualificado/a ou certificado/a, pelo título acadêmico obtido, como um analista do comportamento habilitado a conduzir programas terapêuticos ou intervenções em organizações. Certamente ele/a poderia possuir e demonstrar tais habilidades, mas dificilmente se poderia atribuí-las aos seus estudos pós-graduados e à sua titulação [8]

Tudo indica então que os processos formais de educação, tanto da educação graduada quanto da pós-graduada, quando consideradas no seu conjunto, não podem assegurar, por sua certificação própria, que o praticante nelas formado apresente de fato o repertório necessário para que a sua ação profissional estabeleça, socialmente, uma identidade profissional inequívoca, ou perto disso. Há, portanto, razões para se pensar numa certificação pela comunidade verbal analítico-comportamental - que encontra sua melhor representação na ABPMC - que disponha meios mais precisos para aferir e sancionar socialmente essa identidade. 

Voltamos assim à discussão da oportunidade de uma certificação da comunidade verbal estrita, extra-academia e cursos profissionalizantes. Para fazê-lo, é de bom-senso retomar o exame das experiências já realizadas e procurar aprender com elas. Aqui, estarei limitado ao exame do que sei da experiência norte-americana, que é a que tenho mais extensivamente acompanhado e estudado. 

Nos EUA, o BACB® avalia a proficiência do candidato ao certificado de Analista do Comportamento através do desempenho do candidato numa prova tipo lápis e papel, no qual o candidato deverá demonstrar fluência verbal nos temas constantes das Task Lists elaboradas por aquela empresa, cujos conteúdos podem ser vistos no já citado site daquela organização [9]. Noutras palavras, essa prova, tal como é atualmente conduzida, só pode avaliar o repertório intraverbal do candidato quanto aos conceitos e procedimentos definidos por aquela empresa como caracterizando o repertório intraverbal adequado para um analista do comportamento. Não pode avaliar o seu desempenho na produção de tatos de acordo com esse mesmo quadro conceitual e, menos ainda, é claro, seu desempenho num contexto profissional real. 

Na primeira quinzena do mês de janeiro do corrente ano, portanto poucas semanas atrás, a comunidade AC/BR norte-americana foi apresentada a uma nova empresa que passou a oferecer também uma certificação ao analista do comportamento, a World Center for Behavior Analysis (http://baojournal.com/WCBA/WCBA.html), uma nova divisão da organização ou empresa Behavior Analyst Online, BAO (www.baojournal.com). Essa certificação é em Terapia Comportamental (Behavior Therapy), curiosamente sem o qualificador “analítico”. Diferentemente do BACB® com sua lista de desempenhos, a WCBA pretende aferir o desempenho do candidato ao seu certificado através de uma prova, também tipo lápis e papel, mas montada como um teste com propriedades estatísticas (tipo testes psicométricos). No site do WCBA pode-se ver elencados os temas nos quais o candidato precisará demonstrar domínio. 

O anúncio desse novo certificado deflagrou uma intensa discussão na comunidade. Muitos questionaram a oportunidade e a necessidade de um novo certificado na área, argumentando que haveria o risco de diminuir, ao invés de aumentar, o asseguramento social oferecido por uma certificação na análise do comportamento. Como um legislador, ou juiz, ou empregador, ou, ainda, usuário de serviços, poderia distinguir entre o profissional certificado por uma ou por outra empresa? Qual deles deveria contratar/ouvir? Qual deles seria “mais” analista do comportamento? O questionamento é pertinente, pois embora o WCBA esclareça que sua ênfase é na aplicação clínica, as Task Lists do BACB® também cobrem esse conteúdo específico e o elenco das habilidades que serão avaliadas pelo teste do WCBA também compreendem os temas e conceitos centrais avaliados pelo BACB®. 

Numa discussão paralela, questionava-se a validade de uma prova construída com propriedades estatísticas na avaliação do conteúdo teórico (intraverbal) a ser apresentado por um candidato à certificação de analista do comportamento de vez que provas assim construídas tem seu foco na validade discriminativa do teste, o que leva a itens de teste de domínio geral do grupo-teste (tal como, por exemplo, o conceito de reforçamento positivo) e os de relativo desconhecimento (como, por exemplo, o conceito de momento comportamental) a serem, ambos, eliminados dos itens de teste. Dessa forma, um candidato poderia se qualificar como analista do comportamento sem dominar o conceito de reforçamento positivo, por exemplo. 

No decorrer dessa discussão, soube-se então que o Cambridge Center for Behavioral Studies, CCBS (http://www.behavior.org/) prepara-se também para lançar no mercado, digamos, ainda uma terceira e uma quarta certificação para o analista do comportamento, uma em tratamento comportamental (Behavioral Treatment, também sem o “analítico”) e a outra em educação, o qual já estaria sendo desenvolvido há alguns anos. Como diferencial, anuncia-se que o exame para os candidatos a essas certificações incluirá também avaliação do repertório verbal especializado do candidato através da exposição do mesmo a vídeos de situações estimuladoras para as quais o candidato deverá demonstrar fluência na produção dos tatos adequados. O anúncio do CCBS não detalha a logística de uma prova dessa natureza e também (ainda) não apresenta um elenco dos temas cujo domínio será objeto de avaliação. 

No bojo dessa discussão, na última semana de janeiro do corrente ano mais um anúncio de certificação ocorreu, essa pelo Institute for Behavioral Studies at Endicott College, voltada para paraprofissionais e intitulada Certified Applied Behavior Analysis - Technician (CABA-Tech®), a qual, aparentemente, será conferida ao paraprofissional que cursar (e, de alguma forma for aprovado, presumo) um programa de educação especial. A base temática para esse certificado é a Quality Behavioral Competencies®, desenvolvida pela Quality Behavioral Solutions (Quality Behavioral Solutions (QBS, Inc.) que, segundo o anúncio, é baseada no sistema instrucional desenvolvido por Fred S. Keller (1899-1996), o PSI. 

O contexto acima descrito nos EUA pode ser ilustrativo dos problemas inerentes a um processo de certificação e também de problemas potenciais que podem ser deflagrados por esse processo. 

A se aceitar a discussão acima sobre a insuficiência dos mecanismos formais de certificação para o analista do comportamento (graduação e estudos pós-graduados), a questão de qual instituição ou organização poderia então chamar a si tal encargo parece ficar limitada à questão de se a ABPMC o faria ou se empresas com ou sem fins lucrativos seriam montadas para essa finalidade [10]

Junto a isso, interpõe-se a questão da abrangência e do reconhecimento social da instituição/organização que expedirá a certificação. Uma empresa/organização que viesse a se constituir para esse fim precisaria, em primeiro lugar, estabelecer sua representatividade e sua confiabilidade junto ao publico externo à nossa comunidade, pois para conferir uma identidade profissional social ao analista do comportamento por ela certificado é preciso, em primeiro lugar, que a agência certificadora tenha já, ela mesma, adquirido tal identidade. Essa tarefa é custosa, tanto em tempo quanto em recursos financeiros. Mesmo a ABPMC, nossa menina dos olhos, precisaria conduzir um programa caro e demorado de divulgação social (de marketing institucional, para usar o termo comumente utilizado) a fim de adquirir essa identidade, de vez que ela é virtualmente desconhecida do público em geral, ou seja, da sociedade extramuros, digamos, e essa é a sociedade junto à qual a certificação teria sentido pleno; não faria muito sentido, penso eu, nos certificarmos para nós mesmos. Um trabalho como esse, para ter os resultados pretendidos, não pode ser amador e empresas ou profissionais dessa área precisariam ser contratados por um prazo relativamente longo. A ABPMC teria os recursos logísticos e financeiros para isso? Poderia obtê-los? 

Resolvida a questão posta acima, haveria de se conduzir o problema político da seleção dos temas para uma prova de certificação, que implica, de fato, numa padronização do que se entenderá como o comportamento verbal e as habilidades que identificam um analista do comportamento. Noutras palavras, estará se condicionando os rumos de longo prazo que tomará a cultura analítico-comportamental no nosso país. 

Interesses os mais diversos, tanto pessoais quanto de grupos, serão afetados por esse processo, com repercussões na ordenação política da nossa comunidade e nos interesses financeiros atrelados a essa padronização. Uma discussão ampla e aberta de quem (e como) conduzirá essa padronização deveria, a meu ver, ocupar um tempo considerável nesse projeto. 

Para nós, da comunidade AC/BR brasileira, essa discussão provavelmente será ainda mais delicada do que seria noutra comunidade verbal como a dos psicanalistas, por exemplo, porque temos uma particularidade histórica: existe um hiato etário na nossa comunidade. Praticamente, não temos membros de idade intermediária entre o grupo fundador e/ou o grupo histórico, se assim podemos chamá-lo, e a massa de jovens que se afiliou à nossa cultura nos últimos 15 e tantos anos e que hoje já completou sua formação acadêmica pós-graduada ou está em vias de fazê-lo, mas mal passaram dos trinta anos de idade. Sinais da inquietação que essa contingência governa já podem ser percebidos, por exemplo, no questionamento cada vez mais público da ordenação política da ABPMC e um empreendimento como esse que se contempla e que tem desdobramentos de longo prazo, precisará ter em conta esse fato. 

Há ainda as questões técnicas envolvidas nesse projeto. À luz da experiência norte-americana, que tipo de verificação – prova ou teste – deveria ser montada de forma a assegurar ao certificador – e lhe permitir assim assegurar à sociedade extramuros – que um dado candidato qualificou-se para essa identificação profissional? O custo e os problemas logísticos de uma prova tipo papel e lápis (ainda que o papel e o lápis possam ser eletrônicos) são consideráveis. Pessoas precisariam ser remuneradas para trabalhar nas várias etapas desse processo. O valor que se cobraria por esse certificado precisaria ser criteriosamente calculado para que fosse simultaneamente acessível aos interessados e para que o processo pudesse ser mantido continuadamente. 

Por outro lado, provas tipo papel e lápis somente poderão avaliar o repertório intraverbal de um dado candidato. Pode-se certificar a qualidade dos futuros serviços a serem prestados com base na avaliação desse repertório somente? A logística envolvida numa proposta como a do CCBS, como acima descrita na sua intenção, é ainda mais complexa e mais cara. Teríamos os recursos para custear o pessoal e os equipamentos necessários para isso? Teríamos um fluxo continuado de interessados em adquirir a certificação que pudesse manter esses custos? 

São essas as principais indagações que tem me ocupado ao longo desses anos. Acredito que obter respostas claras, minimamente consensuais e satisfatórias para as indagações acima propostas e para outras tantas, aqui não consideradas ou não percebidas, deveria constituir o objetivo da fase inicial da discussão dessa proposição. Assim, me parece que a primeira e principal tarefa desse projeto seria discutir e estabelecer os mecanismos através dos quais se pudessem mobilizar e assegurar a participação plena de todos os membros da nossa comunidade que desejarem se manifestar sobre o tema. 



[1] Starling, R.R. (2000). Behaviorismo Radical: uma [mal amada] matriz conceitual. Em: Sobre Comportamento e Cognição (3-12). V. 6. Santo André: SET. 

[2] O que os colegas americanos têm definido como uma supervisão analítico-comportamental competente e experiente no tratamento desse grupo é que o supervisor possua no mínimo um mestrado, idealmente um doutorado, na área da AC, e pelo menos cinco anos de experiência direta e continuada no tratamento desta população, essa experiência, por sua vez, também adquirida sob supervisão. 

[3] As primeiras tentativas mais formalizadas e sistematizadas datam do fim dos anos 80 e início dos anos 90. 

[4] Informações obtidas por telefone à 24.01.11 junto ao CFM – Setor Jurídico. 

[5] Evidentemente, mesmo para aquelas faculdades nas quais o professor da AEC é um praticante da nossa cultura, haveria que se considerar também o desempenho do aluno nessas disciplinas, o que implica considerar e avaliar os meios através dos quais esse desempenho foi aferido. 

[6] Em situação de treinamento, pois ainda não há maneira de saber o que de fato fazem terapeutas que se denominam analítico-comportamentais na sua prática clínica cotidiana, ou nas suas intervenções na escola ou nas organizações, e nem se sabe a medida na qual um repertório verbal bem instalado controlará o seu comportamento na contingência. 

[7] “Essa distinção [entre comportamentos governados verbalmente e modelados por contingências] é compatível com a forma com que tratamos anteriormente o comportamento governado verbalmente, se estendermos nossa taxonomia para incluir três classes de comportamento habilidoso: o comportamento modelado por contingências, que nunca dependeu de antecedentes verbais e que corresponde aos vários tipos de comportamento modelado por contingências, tratados rotineiramente pela análise do comportamento (como no comportamento não-humano); o comportamento governado verbalmente, em que os antecedentes verbais superam os efeitos das contingências não verbais, e, finalmente, os desempenhos especializados, em que o contato contínuo com o ambiente atenua o controle por antecedentes verbais e permite ao comportamento tornar-se sensível a mudanças sutis nas contingências (o que poderia ser considerado como um segundo e diferente tipo de comportamento modelado por contingências e que ainda não tem sido explorado em detalhes.”. (Catania, A. C. (1999). Aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas. p. 365, chaves e itálicos do presente autor) 

[8] Donde já se vê que certificar alguém simplesmente com o título geral de “analista do comportamento” provavelmente será insuficiente para lhe conferir uma identidade profissional social inequívoca, no sentido de assegurar à sociedade as suas reais habilitações. 

[9] Em português, uma idéia dessas Task Lists pode ser obtida no capítulo de minha autoria, publicado na coletânea Sobre Comportamento e Cognição: Starling, R. R. (2006). Lista de Desempenhos: um possível primeiro passo para uma sistematização do ensino da Análise do Comportamento na graduação In: Sobre Comportamento e Cognição (382-400), v.18. Santo André: Esetec. 

[10] O Boletim Contexto n. 33 contempla a hipótese de que instituições formais de organização da psicologia, como o CFP/CRP, por exemplo, possam ser instadas a fornecer essa certificação. É sempre bom esgotar todas as possibilidades que impliquem no menor esforço político-institucional por socorrer-se de organizações já estabelecidas. No entanto, a possibilidade do interesse real da montagem de um sistema de certificação para o analista do comportamento por parte essas instituições é, historicamente, praticamente nula. Somos minoria da minoria no universo psi brasileiro. Além do mais, limitar-se-á a certificação aos psicólogos? O CFP não teria base legal para certificar um psiquiatra nessa habilitação, acredito.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Como conseguir clientes na Clínica de Psicologia?

Texto de Eduardo Tadeu Alencar 
Contato: Linkedin


"O objetivo da primeira sessão terapêutica nada mais é do que fazer o cliente voltar na segunda"  Mally Delitti 


Para profissionais que não são da área da psicologia, esta frase da Mally pode causar uma má impressão, afinal, o objetivo da terapia é criar um cliente independente e autônomo capaz de enfrentar os seus problemas e dificuldades. Todavia, para nós psicólogos e / ou estudantes, ela faz todo sentido do mundo uma vez que em uma única sessão nada ou muito pouco sabemos do cliente a ponto de que alguma de nossas intervenções (verbais ou contingentes) tenham algum benefício significativo ao mesmo, logo, um objetivo interessante para primeira sessão, é fazer com que ele volte na 2º para que o tempo permita a construção adequada da relação terapêutica e do processo terapêutico como um todo. Sim, é incondicionalmente sábia a frase de Mally. 



Pessoas que ingressam na faculdade de psicologia com objetivo de tornarem-se psicólogos podem atuar nos mais diversos campos onde existe o comportamento Humano, entre eles, estão: a área de Recursos Humanos, o Trânsito, as Ongs, os Hospitais, a Saúde Pública, o Judiciário, o marketing, a clinica psicológica, entre outros. 

Este artigo em especial, vai tratar de um tema típico e recorrente para o psicólogo que atua em clinica psicológica: Atrair clientes prestando um serviço de qualidade. No geral, esta frase corresponde a um conjunto de comportamentos do terapeuta. Para analise do comportamento em especial, cujas raízes filosóficas pautam-se no behaviorismo radical de B.F. Skinner, comportamento é tido como a relação entre a ação de uma pessoa para com o ambiente a sua volta na qual conseqüências frutos destas relações, retroagem no sujeito emissor da ação alterando a probabilidade de ocorrência futura da mesma, ou seja, o sujeito e o ambiente são ambos, parte da unidade de analise denominada "comportamento". 

Neste caminho, as relações são modeladas pelas chamadas contingências de reforçamento, sendo positivo quando a conseqüência do ato é a adição de um evento e negativo quando a conseqüência que decorre ao ato é a retirada de um evento. Portanto, pensar em atração de clientes para esta vertente teórica é pensar em um conjunto de comportamentos de uma maneira diferente da tradicional. É pensar em comportamento como uma relação do terapeuta com o meio e não em ações dele isoladas e determinadas por alguma instância mental. 

Estas relações não ocorrem soltas no mundo, elas estão à mercês de 3 grande determinantes comportamentais: a determinante filogenética e toda carga de evolução biológica, fisiológica, neurológica da espécie, a determinante cultural na qual esta espécie foi gerada e / ou se desenvolve / se relaciona e a determinante ontogenética que corresponde a história peculiar de cada sujeito nas relações comportamentais (sujeito x ambiente e suas contingências de reforçamento). Ambas entrelaçadas, de modo o qual não ocorram de forma linear ou estruturalista. Uma influenciando nna outra o tempo todo.

Logo, algo que inicialmente parecia simples (atrair clientes em clinica psicológica) está no MÍNIMO sob influencia das seguintes variáveis: 

•1.1 - Filogenética

O terapeuta se formou em psicologia, mas isso não o isenta de sua história. Se ele é alto, baixo, obeso, magro, branco, pardo, se possui o cabelo liso, se é novo, velho, enfim, toda esta gama de estímulos que vem junto com o terapeuta pode e provavelmente terá diferentes impactos em cada cliente. Muitas vezes o cliente até vem ao consultório para a primeira sessão, mas não volta para as demais. Olha a foto, o anúncio do terapeuta ou solicita referências de algum amigo que fez processo terapêutico e não adere por falta de afinidade com estas questões. 

Mesmo que o cliente tenha acesso a características filogenéticas do terapeuta no processo de atração de clientes, isso ocorre em menor freqüência. Penso que o conhecimento filogenético da nossa pessoa esteja mais direcionado à retenção destes, ou seja, FAP, estudo dos comportamentos clinicamente relevantes em sessão, que comportamentos do cliente e do terapeuta surgem em sessão, etc. De qualquer forma, se o artigo vai abordar a atração de clientes, é importante alertar sobre a possibilidade. 

1.2 - Ontogenético

Há muitos anos, renomados autores e pesquisadores de analise do comportamento como Maly Delitti, Maria Martha Hubner, Roberto Banaco, Denis Zamignani, Hélio Guilhard, Roberta Kovac, Cássia Thomaz, Yara Nico, Joana Singer, Patrícia Piazon, entre outros, vêem escrevendo textos e produzindo conhecimento sobre a "relação terapêutica" munindo psicólogos e futuros psicólogos sobre variáveis e estratégias destas relações. Indico que o leitor interessado em ampliar os seus conhecimentos sobre tema possa procurar texto destas autorias. Muito das relações ontogenéticas impactam diretamente na retenção de clientes. 

Sobre atração, penso que as determinantes ontogenéticas que interfiram na captação de clientes deva nos alertar sobre: 

- Terapeutas que tem mais clientes em seus consultórios emitem um comportamento X enquanto aqueles que não tem nenhum emitem o comportamento Z; O que fazem estes terapeutas? Devemos aprender com eles através da modelação, ou seja, adquirir modelo através de terapeutas bem sucedidos; 

- Como posiciono o meu comportamento verbal e contingente no "marketing" dos meus serviços? É "boca a boca", eu tenho um site? Eu tenho um anúncio? Eu disponho de estrutura física, bem como telefone, móveis, sede, etc? 

- Temos uma postura ativa em termos comerciais ou sentamos e esperamos o cliente bater a nossa porta, análogo a "cair do céu"? 

Estas e outras reflexões de ações alheias x nossas próprias ações são essenciais para modificarmos a contingência de "pouco cliente" para contingência de "mais cliente". 

•1.3 - Cultural

Estamos localizados em um país desenvolvido ou subdesenvolvido? Estamos em grandes capitais ou no interior de algum estado? A minha clinica é de fácil acesso ou difícil acesso? Nosso sistema econômico territorial é o capitalismo, socialismo, monarquia? Minha clinica está em uma região de público de poder aquisitivo A, B, misto? Abriram clinicas próximas a minha? Estou perdendo cliente de algum tempo para cá? Minha forma de pagamento está atualizada com as mudanças tecnológicas (Cheque, cartão, dinheiro em espécie, outros), O que está ou pode estar acontecendo? 

Percebam que há algumas questões culturais que podem impactar as outras duas determinantes, de modo que mesmo que você faça uma boa divulgação e trabalho, as variáveis culturais não podem ser deixadas de fora de sua estratégia. 

Estratégias gerais para atração de clientes em clinica psicológica

A escolha de uma ou mais estratégia de divulgação dos serviços clínicos deve ser pautada no estudo das variáveis acima, caso contrário, você estará voltando a um modelo tecnicista dos chamados "aplicadores de técnicas e modificadores de comportamento". 

Eu particularmente, ainda tenho pouca experiência clinica, porém, tenho vasta experiência no tocante ao gerenciamento do comportamento das organizações. A clinica psicológica privada não é uma instituição de caridade, ela é uma instituição imersa em um cenário capitalista que presta serviço e deve gerar lucros ao seu acionista, no caso, o próprio terapeuta. Sendo assim, me sinto bem a vontade para refletir sobre este tema com vocês. No geral pensei e recolhi observado a conduta de alguns terapeutas / médicos / empreendedores de clínicas, as seguintes estratégias:

- Fazer parceria com redes de convênios para encaminhamento a clinica particular; 

- Fazer parceria com clinicas escolas, pois os casos graves reprovados em triagem que não podem ser atendido por estudantes cabe ao terapeuta já formado; 

- Marketing Boca - Boca, ou seja, se você não avisa, quem vai saber que você é psicólogo? 

- Registro no conselho regional de psicologia (Pasmem, ainda há muitos psicólogos atuando sem registro!), fora as complicações éticas / legais e perda do título, se um cliente entrar em contato com esta contingência, pode colocar em risco o atendimento de clientes em toda classe (Vide conceito de generalização de estímulos); 

- Criação de site, hoje em dia, o http://www.google.com.br/ é a bíblia da busca, se você não está lá, está excluído (Vide conceito de seleção natural); 

- Distribuição de cartão ao seu público alvo, contendo contato, endereço, etc. 

- Dar palestras gratuitas em sua clinica sobre temas relacionados a saúde, por exemplo, seu eu sou especialista em obesidade, dou uma palestra introdutória ao tema, a importância de olhar para este fenômeno com cunho de saúde, etc, e na palestra fica a divulgação do serviço terapêutico. Aqui, você cede gratuitamente a sua mão-de-obra, presta responsabilidade social na orientação básica da comunidade em torno da sua clinica, mostra ao público a seriedade do seu serviço e de quebra, pode angariar cliente direcionado a sua especialização; 

- Fazer convênio com empresas, por exemplo, forneço preço diferenciado para atendimento de funcionários para sua empresa, é preciso vender a idéia aos empresários de que o funcionário em equilíbrio biopsicoscial é mais produtivo e feliz; 

- Em alguns atendimentos, é necessário expandir o atendimento clinico aos parceiros de relacionamento do cliente, à família, aos avós, etc. Entretanto, questões éticas e metodológicas o impedem de atender todos eles. Não seja "mesquinho", convide um ou mais amigos de sua confiança (psicólogos é claro!) ofereça o caso e cobre parte do ordenado, afinal ele precisa de atendimento e você também, atue como supervisor destes casos "de família". 

- Alguns bairros editam a revista local com as propagandas, coloque a propaganda da sua clinica neste veículo de comunicação. 

- Fazer convênio com associações desportivas, de repente sua especialização clinica é voltada ao esporte, você pode fazer contato com as torcidas organizadas, divulgar o serviço aos torcedores, mural de avisos, etc. 

- Fazer convênio com escolas, de repente pais e educadores não sabem para onde encaminhar pessoas com problemas de aprendizagem, apoio ou atraso, etc. Entre em contato com as escolas em torno da sua clinica, fale sobre o seu objetivo e deixe um contato, visite a escola, trabalhe a sua credibilidade para com ela. 

- Em momento oportuno, seja na roda de amigos ou família, lembre seu ambiente social de que sua clinica está em andamento, a qualquer momento eles podem ter um amigo, do primo do amigo do tio que precisa de atendimento, mas não conhece nenhum psicólogo. É claro que não atendemos os conhecidos 9Vide código de ética), mas uma indicação é uma das fontes mais seguras e rentáveis da clinica; 

-Muitas indicações que recebemos esquecem-se de nos ligar, pois ainda não se sensibilizaram sobre a importância do seu problema, tratando-os como frescura, o famoso "deixa para lá". O Psicólogo tem que entrar em contato com estas pessoas, dar-lhes comodidade, diminuir o custo de resposta do cliente para aderência ao tratamento, isso envolve ter um telefone fixo x celular, se no seu cartão você divulga o celular, adquira um chip de várias operadoras. Vivemos no Brasil, se o seu público alvo for a classe C ou D, uma ligação para celular pode ter enorme custo de resposta e você perde o cliente. Pense se o acesso ao seu processo terapêutico tem baixo ou elevado custo de resposta ao cliente. Modifique estas contingências se necessário. 

- Um dos maiores medo dos clientes tem sido o preço. É claro que os conselhos regionais sugerem um preço tabelado, que há uma questão ética, que devemos tomar cuidado para não prostituirmos o preço do serviço na praça, enfim, mas personalizar o preço para cada cliente e sua (s) queixa (s) é um exercício que temos que fazer ao pensarmos em atração e retenção. 

- Use o network com professores, muitas vezes um cliente não pode pagar o preço da sessão de um psicólogo mais experiente, logo se você estiver em início de carreira, tente absorver estes casos e faça supervisão! Esta é a semente para que um dia você esteja do outro lado. 

- Algumas clinicas alocadas em prédios possuem plaqueiros nas paredes da recepção com informativos sobre que tipo de negócio há em cada andar, verifique com a administradora do seu prédio para colocar sua plaqueta lá. 

- Reveja se o preço baixo do aluguel da sua clinica vale apena para a localização em que ela está; 

- Traga atrativos para sua clinica (local para estacionar, próprio ou conveniado), sala de espera com revistas atuais e não aquelas de 1990, água fresca, um café, coisas simples, mas que acomodam um cliente como ele merece e tornam o seu ambiente reforçador e acolhedor. Lembram da frase da Mally? Pois é, se a clinica for um local desagradável vocês acham que o cliente volta para 2º sessão ou esquiva-se dela? 

- Treine e acompanhe os seus funcionários, muitas clinicas perdem cliente pois a recepcionista é grossa ou não tem repertório comercial para passar as devidas informações. 

- Tente otimizar os seus custos para que consiga melhorar o preço da sessão, por exemplo, como geralmente somos todos autônomos, temos custos com contabilidade, conselho, taxas, manutenção da infra - estrutura, enfim, tente ao máximo "fazer mais utilizando menos". Com um preço melhor sem abalar a qualidade do seu trabalho, conseguirá mais clientes; 

- Procure apoio de instituições que já tem prática no apoio à psicólogos, por exemplo o (http://www.clinicaceaap.com.br/) tem um curso exclusivo para psicólogos recém - formados voltado a administração, gestão e divulgação da clinica. A clinica é um empreendimento e a faculdade não oferece conhecimento de gestão, logo, você vai precisar ir atrás desta falha. Instituições como o SEBRAE oferece cursos gratuitos de contabilidade, administração financeira e até marketing. Não marque bobeira, use a internet ao seu favor; 

- Intere-se a era digital e a política de atendimento via WEB. O CRP já tem fornecido diversos credenciamentos. Se antes a clinica ao lado disputava clientes, agora com a Web, um psicólogo do Mato Grosso por exemplo pode atender clientes em SP e vice - versa. Alguns terapeutas tem feito pacotes de X sessões web e a cada X delas, ocorre uma presencial na qual o terapeuta vem até a casa do cliente como um Acompanhante Terapêutico. Adaptar a forma de sua sessão também será algo que o psicólogo vai precisar rever nos próximos anos. Se a qualidade da Web é mais ou menos do que a qualidade da sessão presencial, isso é uma outra questão. Em termos de contingência, você vai precisar optar sob quais conseqüências você quer para sua carreira. Escolher sessão on line, presencial ou mista tem em si, reforçadores positivos e negativos tanto para o cliente como para o terapeuta. 

- Busque ter ao menos 2 pontos de atendimento clinico. O http://www.nucleoparadigma.com.br/ além de alugar salas, oferece cursos de formação e atualização na prática clinica. Busque instituições de acordo com sua vertente teórica. Geralmente elas já possuem uma marca solidificada, atender neste local ajuda você terapeuta a construir o seu nome e marca. Em contra - partida, prepare-se, pois terá que dar o melhor de si. Quando nos vinculamos a uma instituição temos que estar prontos para assumir esta responsabilidade. O serviço clinico é um serviço sério e a conduta de marketing na captação de clientes jamais anula a responsabilidade ético - profissional que assumimos ao escolhermos sermos psicólogos. 

- Instituições como http://www.redepsi.com.br/ tem dado muito apoio na divulgação de serviços psicológicos sejam via site ou via mala direta. Investir neste tipo de serviços é também uma ação interessante na tentativa de ampliar nossa carteira de clientes. 

- Adequar o preço para estudantes, pensar em formas de pagamento (semestral, anual, quinzenal), cartão, cheque, entre outros de acordo com o público alvo pode ser mais um atrativo. Cada cliente é único e como tal, terá uma necessidade diferente, cabe a você ter um leque de opções para cada necessidade. 

- Entre em grupos e fóruns como por exemplo o Comport do Yahoo grupos e troque experiências com outros profissionais, lembre-se do início do artigo, adquira modelos! 

- Faça supervisão, embora os preços sejam agressivos para alguns terapeutas em inicio de carreira, encare isso como supervisão. O ganho de repertório junto ao manejo clinico permitirá que você compreenda e faça mais pelo seu cliente em menos tempo. Lembrando que o reforço mais poderoso é o imediato e intermitente, você com um manejo clinico mais arrojado vai poder fazer mais, com mais qualidade e isso aumentará em termos de probabilidade a porcentagem de manter, fidelizar e fazer com que aquele cliente faça o marketing boca - a - boca do seu serviço. 

- Troque com seus amigos psicólogos as suas especializações, deixe claro a sua turma a sua especialidade, por exemplo, eu não atendo crianças, mas tenho paixão pelo atendimento de adolescentes e adultos, tenho uma amiga que só atende crianças. Quando ela tem um adulto em sua clinica, me encaminha, quando eu tenho uma criança encaminho a ela. É claro que aqui você vai levar em consideração o tipo do cliente, conhecendo o seu amigo e as determinantes (ontogenéficas, filogenéticas e culturais também discutidas neste artigo), pode ser que não seja adequado o encaminhamento, nunca abandone as avaliações funcionais, esta é só mais uma dica de manejo de contingências na adesão de clientes. O foco sempre será o cliente. 

Conclusão

Percebam que todo este diálogo tenta ilustrar contingências de uma noção diferenciada de comportamento. Qual a conseqüência de adotarmos ou não cada estratégia? Eu não tenho esta resposta pois você também é único em sua totalidade. Meu objetivo não foi entregar-lhes um conjunto de técnicas mas chamar a atenção de vocês para possíveis ações e suas conseqüências. 

Percebam que aqueles terapeutas bem sucedidos em clinica, além da vasta experiência, atuam, emitem determinados comportamentos dos quais os terapeutas "carente" de clientes podem não estar emitindo. Nossa profissão tem um ponto positivo que é: "quanto mais velhos ficamos, mais experientes ficamos e, portanto, mais rápido nos posicionamos frente as adversidades da clinica". Todavia, um analista do comportamento conhece os benefícios do comportamento aprendido por modelação, no qual eu me desvinculo do tempo cronológico e passo a aprender por modelos. Assim, nada impede de um terapeuta mais novo ter X clientes e oferecer um serviço de qualidade tal como alguém mais velho. 

Para isso, você vai precisar se empenhar 50 vezes mais todos os dias. Fazer supervisão, fazer cursos, atender clientes, administrar sua clinica, participar de grupos de discussões, fazer terapia (isso mesmo! Psicólogo também deve ir a terapia! Não esqueça disso!), enfim, poderíamos escrever muito sobre coisas que podem ser feitas e / ou consideradas para atrair clientes, aqui fica apenas um inicio para sua reflexão. 

A graduação de psicólogo não oferece nenhum conhecimento sob gestão, você não pode sentar e esperar o cliente bater a sua porta, você vai precisar interar-se sobre finanças, gestão de pessoas, marketing e afins. Estamos em um momento histórico onde a terapia chegou as empresas e a administração chegou às clinicas. 

Seja você o gestor de seu negócio! 

Boa sorte! 

Artigo originalmente publicado em RedePsi [link] e postado aqui com autorização do autor.