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terça-feira, 5 de junho de 2012

Análise do Comportamento em The Big Bang Theory


The Big Bang Theory é uma série já clássica. Fazendo parte da catalisação da modinha nerd que rola atualmente ("smart is the new sexy", como diz o personagem Wolowitz num episódio), o seriado tem cenas hilárias recheadas de assunto desse estranho mundinho. Tem de tudo: de física avançada a cosplays tosquíssimos de personagens de quadrinhos, passando por madrugadas do RPG e as dificuldades com relações sociais, tão características do estereótipo nerd.

No episódio "The Gothowitz Deviation", da terceira temporada, uma das esquetes traz o Sheldon tentando modificar o comportamento da vizinha Penny por meio de reforçamento positivo. Veja:

"Did you? I didn't notice. Have a chocolate!"


Sheldon não usa apenas reforço positivo no vídeo, mas também punição positiva quando taca água no Leonard – quando fala dos choques "sem dano ao tecido da pele" também está falando de punição. Ele também pune a Penny ao dar aquelas olhadas gélidas que a fazem mudar de comportamento para um considerado adequado por ele, como no momento em que ela levanta para atender o telefone no corredor e ganha mais um chocolate (aí, tendo o comportamento de levantar e ir atender sendo, novamente, positivamente reforçado). 

A parte mais engraçada ocorre no momento em que o Sheldon usa um pouco de modelação (falando com a voz mais grave com a Penny) e aproximação sucessiva (reforçando a cada frase dela) para deixar a voz da Penny mais gutural. Tudo terminando em chocolates. (Ou em sexo, que como reforçador filogeneticamente selecionado, é de um poder danado).

Claro que como mostrado numa série de humor, o processo todo é bem exagerado pra ficar mais engraçado. O processo de condicionamento operante é geralmente mais lento, enquanto no seriado um ou dois chocolatezinhos já têm um efeito visível – na vida real observar a variação da frequência do comportamento demanda um pouco mais de paciência e trabalho. Mas as cenas foram bem didáticas ao retratar os processos descritos pela análise do comportamento. Será que alguém tentou mudar o comportamento de outra pessoa ao ver isso? Bom, se forem tentar me fazer aprender algo, por favor, usem algo que engorde menos que chocolate, porque eu vou dar trabalho... Haja chocolate.

(Mas só pra informar, eu prefiro chocolate meio amargo).

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tô curtindo Análise do Comportamento, e agora? Segunda parte

Pessoal, seguindo a mesma linha da postagem anterior (link), deixo mais sete dicas para quem está curtindo Análise do Comportamento. Espero que sejam uteis. Como no último texto, peço ajuda aos mais vividos para contribuírem com sua experiência no espaço do blog destinado aos comentários. Abração!


1) Participe/crie grupos de estudo. 

Se a sua Universidade não oferece grupos de estudo, comporte-se! Mobilize os seus colegas. Os grupos oferecem um espaço super bacana para discussão de textos e fomento de projetos de pesquisa, além de poder se tornar um meio de confraternização. Quando são feitos sob a supervisão de um professor, podem gerar certificados (lembre-se do Lattes). 


2) Participe/crie Ligas Acadêmicas de Análise do Comportamento. 

Uma liga acadêmica é uma entidade sem fins lucrativos, formada por um grupo de alunos com um interesse comum e que se reúnem para realizar atividades práticas e teóricas sobre um dado tema, supervisionados por profissionais da área. É uma rede de estudantes que desejam e criam oportunidades de trabalhos científicos, didáticos, culturais e sociais no espaço acadêmico ou extra-acadêmico, além de organizar tentar mediar a organização de atividades extracurriculares de ensino, pesquisa e extensão, neste caso, em Análise do Comportamento. Algumas Universidades, como a UFPA, UFC, UFSJ, UFPI e Univasf, possuem ligas acadêmicas,. Se sua Universidade ainda não possui uma, comporte-se! Mobilize os seus colegas, entre em contato com os representantes de outras Ligas... 




3) Participe de projetos de pesquisa, extensão e estágios extra-curriculares 

Invista em sua carreira e devolva para sua comunidade um pouco do que tem aprendido. Participar de projetos de pesquisa, extensão e estágios, além de dar uma incrementada no seu Lattes, é uma excelente oportunidade para aprofundar seus conhecimentos no assunto, e pode ser um pontapé importantíssimo para a sua atuação no mercado de trabalho. 

4) Estude Inglês. 

Grande parte dos artigos publicados na área está em inglês. Um curso de inglês instrumental pode ser suficiente para facilitar a leitura de textos e garantir seu ingresso em um bom programa de Mestrado. Mas se você quer ir longe (publicar em periódicos internacionais, trocar correspondências com grandes autores estrangeiros...), é importante dominar esse idioma. Então, comporte-se! Matricule-se já no cursinho de inglês mais próximo, é bem provável que sua Universidade disponibilize um, quanto mais cedo melhor. 

5) Ciência é cooperação, não é competição. 

Aprendi essa lição com meus orientadores André Bravin (UFG/UnB), Marcelo Henriques (UFG) e Fábio Baia (FESURV/FAMA/UNB). É auto-explicativa. Nós estamos inseridos em uma comunidade e se quisermos garantir sua existência é importante que aprendamos a cooperar. Segue uma citação de um artigo do Abib (2001) que discorre, entre outras coisas, sobre cooperação: 

“Práticas de sobrevivência cultural referem-se então a práticas que contribuem para construir uma cultura mais pacífica, e os que se engajam nessas práticas visam o pacifismo. E se uma violência intolerável aflige várias culturas, engajar-se na sobrevivência de todas elas por um pacifismo universal significa, por um lado, promover cooperação, solidariedade e apoio; e por outro, desestimular a competição. 

Enfim, defender o pacifismo é engajar-se em práticas que promovem a sobrevivência das culturas como cooperação, apoio, solidariedade, tolerância, compaixão”. (p. 111) 

6) Corrija eventuais erros de professores e colegas sendo sempre assertivo. 

Se eu tivesse a oportunidade de ter um encontro com Moisés, imploraria para que ele incluísse em sua tábua mais um mandamento: Seja Assertivo! Caballo (1996) afirma que o comportamento assertivo, ou socialmente habilidoso, é um conjunto de comportamentos emitidos pelo indivíduo em um contexto interpessoal, que expressa os sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos desse indivíduo de um modo adequado à situação, o que geralmente resolve os problemas imediatos da situação e minimiza a probabilidade de futuros problemas. 

Creio ser muito saudável participar de debates epistemológicos e rebater críticas infundadas acerca do Behaviorismo Radical. Uma ferramenta bacana para te auxiliar em discussões desse tipo é o livro “Sobre o Behaviorismo”, do próprio B. F. Skinner, facílimo de ser encontrado, porém com alguns erros de tradução. 

7) Bullying Acadêmico 

Durante sua jornada acadêmica – e profissional – você, costumeiramente, irá encontrar pessoas proferindo absurdos e os creditando à Análise do Comportamento. Apelidos como: ratistas, rato, rato branco, rato de laboratório não serão incomuns. Vez por outra você será atacado – sim, atacado! – com impropérios travestidos de academicidade simplesmente por se intitular Analista do Comportamento. A meu ver, são estratégias falaciosas para tentar afetar negativamente um corpo teórico bem constituído que tem produzido excelentes resultados em diversas áreas. 

Comporte-se! Mas sempre assertivamente. Explique o quanto atitudes desse tipo podem ser prejudiciais para um debate científico e para a consolidação da Psicologia como ciência. Se persistirem, use os recursos administrativos que sua Universidade dispõe. 

Para fechar com chave de ouro, aí vai uma lição direto da fonte: “Faça acontecer! Este tem sido o meu tema favorito, fazer o melhor a partir daquilo que você tem.” (B. F. Skinner) 



Referências Bibliográficas 

Abib, J. A. D. (2001). Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14, 107-117. 

Caballo, V.E. (1996), Manual de técnicas de terapia e modificação do comportamento. São Paulo: Santos.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O brasileiro é feliz

Uma pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas, em parceria com a consultoria Gallup, revelou que o Brasil é tetracampeão em felicidade no ranking entre 158 países pesquisados. De acordo com o recente livro de Neri (2012), intitulado “A nova classe média”, numa escala de zero a dez, o brasileiro dá uma nota média de 8,6 à sua expectativa de satisfação com a vida em 2015, superando a média mundial de 6,7.

A pesquisa foi feita em 2011, com cerca de 200 mil pessoas entrevistadas a respeito da expectativa de felicidade das pessoas nos próximos cinco anos e também no presente.É interessante observar nos resultados apresentados que, depois do Brasil, no quesito “países mais felizes”, aparecem Panamá, Costa Rica, Colômbia, Qatar, Suíça e Dinamarca. Ou seja, o resultado sobre a ordem dos países com pessoas de melhor expectativa sobre suas vidas não é coerente com o padrão de riqueza e desenvolvimento sócio-econômico de cada país.


Sem querer entrar no mérito de questões metodológicas da pesquisa ou do caráter nomotético das conclusões observadas, a mesma pode servir de pano de fundo para a discussão da seguinte questão: as expectativasque criamos sobre nós mesmos dependem exclusivamente das condições ambientais objetivas em que nos encontramos?Não é o que parece apontara conclusão do estudo de Neri (2012),nem o que percebemos muitas vezes (e costumamos não entender) quando uma pessoa apresenta um comportamento oposto ao que seria esperado para a condição de vida em que se encontra. É o caso de uma pessoa gravemente doente que consegue alegrar aqueles à sua volta.

Embora tal constatação possa aparentemente se constituir em uma incoerência com a premissa de que todo comportamento é produto da interação do sujeito com seu ambiente; na verdade, o exemplo só revela a riqueza e complexidade dessa interação.

Pensamentos e sentimentos integram uma categoria de eventos chamados de privados para ressaltar sua característica de difícil acesso à observação pública. Nossa forma de pensar e de sentir caracteriza-nos como sujeito único, compõe nossa subjetividade.

Ao propor o conceito de self para se referir à ideia de subjetividade, Skinner (1974/1976; 1989/1991) traz uma contribuição relevante para discutirmos os resultados encontrados por Neri (2012). O self pode ser entendido como estados privados relativos à própria percepção de si mesmo. Nas palavras de Skinner, “o eu (self) é o que a pessoa sente a respeito de si própria”(p.45).

Para se compreender o que controlou a resposta a uma indagação sobre a expectativa de satisfação com a vida, é preciso considerar na análise da resposta os diversos e complexos processos comportamentais envolvidos. Eles incluem desde eventos privados relativos ao self eliciados pela pergunta e por todo o contexto no qual esta ocorre, assim como fatores eminentemente sociais e culturais que também exercem uma função selecionadora da resposta dada.

Resumindo, a complexidade na nossa forma de interagir com o ambiente revela a necessidade dos analistas do comportamento percorrerem um longo percurso até alcançar uma compreensão mais ampla do que nos ocorre privadamente e de como isto se relaciona com outros comportamentos públicos. Felizmente esta é uma área em plena expansão na Análise do comportamento (cf. Albuquerque, Matos, Souza & Paracampo, 2004). Não estamos parados à beira do caminho do conhecimento.




Referências bibliográficas:

ALBUQUERQUE, L. C, MATOS, M. A., de SOUZA, D. G, & PARACAMPO, C. C. P. (2004). Investigação do controle por regras e do controle por histórias de reforço sobre o comportamento humano. Psicologia: Reflexão e Crítica17, 395-412.

NERI, M. (2012). A nova classe média: O lado brilhante da pirâmide. São Paulo: Saraiva.

SKINNER, B. F. (1976). About Behaviorism. New York: Vintage Books (Publicado originalmente em 1974).

SKINNER, B. F. (1991). Questões recentes na análise comportamental. Campinas, SP: Papirus (Publicado originalmente em 1989).

segunda-feira, 26 de março de 2012

Tô curtindo Análise do Comportamento, e agora?

Dicas para quem está começando 

Salvo algumas exceções, a Análise do Comportamento não é muito prestigiada pelos cursos de Psicologia do nosso País. Sofremos com a ausência de professores, com a falta e sucateamento de laboratórios, com a falta de livros da área e por aí vai. Além de todas essas intempéries, ainda temos que aturar um turbilhão de críticas infundadas e preconceitos. 

Se ainda assim você escolheu se tornar um Analista do Comportamento (ou está pendendo para isso) merece os meus parabéns! Este post é dedicado a você, que – como verá – não está sozinho no mundo. 

No texto que em questão organizei algumas dicas feitas especialmente para acadêmicos (de Psicologia, ou não) que por alguns motivos estejam se sentindo atraídos pela episteme analítico-comportamental. Em função das novas regras editorias (textos de no máximo duas laudas), as dicas estarão divididas em duas postagens. Esse texto é um produto da minha – curtíssima – história dentro dessa abordagem, portanto peço uma forcinha aos mais vividos para incrementá-las utilizando nosso espaço para comentários. 



1) Seu professor não responde por todos os Analistas do Comportamento. 


 Não é estranho que o seu interesse pela abordagem seja, principalmente, em função do carisma de um determinado professor. Isso não é ruim, mas merece algumas considerações. Os padrões comportamentais dos membros da nossa comunidade científica são tão diversos como o armário de sapatos da socialite Narcisa Tamborindeguy¹. Temos sujeitos que variam desde uma reprodução fidedigna do arquétipo que nos deram (cientistas sisudos, com parcas habilidades sociais, trancados em laboratórios cheios de bichinhos) até os mais expansivos. Portando não utilize o seu professor como parâmetro para se envolver – ou não - com qualquer abordagem. 


2) Busque conhecimento! 


 Essa dica – emprestada do nosso E.T. midiático, Bilu² - permeará todas as outras. Temos na internet diversos bancos de dados que disponibilizam arquivos quentíssimos a todo o momento. Revire esses bancos de dados, garimpe os livros da sua biblioteca, vasculhe sebos³, pentelhe os seus professores (comedidamente), visite blogs regularmentre. Corra atrás... Comporte-se! 
É possível encontrar algumas sugestões de bancos de dados e periódicos analítico-comportamentais na ala “docs” do nosso grupo no facebook4



3) Participe de eventos. 

A Análise do Comportamento possui aplicações em diversos contextos. Podemos dizer que onde há interação ente um organismo e um ambiente, há uma possibilidade de estudo/intervenção. Participar de eventos te possibilitará: conhecer a dimensão dos campos de atuação, conhecer as linhas de pesquisa que estão sendo desenvolvidas, ficar por dentro das novas publicações, conhecer o trabalho dos institutos que oferecem cursos na área (extensão, formação e pós-graduação), ficar por dentro dos eventos que teremos e – não menos importante - você terá a oportunidade de confraternizar com estudantes e professores da área. Enfim, é muito bom. Ah! Além de tudo isso, ajudará a dar um up! no seu Lattes5 (o cartão de visita dos acadêmicos). 

Atualmente temos um grande evento anual da área no Brasil, o Congresso da ABPMC. Além desse, várias Jornadas de Análise do Comportamento e eventos vinculados aos institutos que oferecem pós-graduação na abordagem são realizados nos quatro cantos do nosso País6


4) Participe das redes sociais 


É possível interagir com estudantes e profissionais da área em diferentes ferramentas da internet. Seguem os principais meios de comunicação dos behecas brasileiros: 

Lista de emails no Yahoo!: http://br.groups.yahoo.com/group/COMPORT/

A partir desses grupos, é possível tirar dúvidas, travar debates, sugerir leituras, receber dicas de leituras, conseguir referências raríssimas e, quem saber, achar o amor da sua vida. 


5) Flexibilize sua linguagem sem perder a coerência epistemológica. 


Nossa comunidade científica possui uma linguagem hermética que se distancia do resto da Psicologia. Estudar Análise do Comportamento exige um processo de re-alfabetização. Quando nos dedicamos a ensinar ou discutir algum assunto com pessoas que não são da área, é importante aliviarmos um pouco nossa rigidez terminológica. 

Ao contrário do que alguns imaginam, podemos falar de mente, sentimentos, intenção, liberdade, psicoses, neuroses, associação livre e o diabo à quatro sem medo de nos distanciarmos da expertise analítico-comportamental. Mas é preciso levar em consideração nossas peculiaridades epistemológicas, que contrastam com grande parte das abordagens psicológicas vigentes e do senso comum. 


6) Leia sobre outros assuntos. 


Existe muita coisa boa sendo produzida em outras áreas, não se prive de estudá-las. Além disso, transitar em diferentes assuntos provavelmente aumentará suas chances de ser socialmente reforçado. 



Notas 

2- Mais sobre o E.T. Bilu: http://pt.wikipedia.org/wiki/ET_Bilu
3- Um site maravilhoso e cheio de pechinchas é o: www.estantevirtual.com.br 
5- Mais sobre a plataforma Lattes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Plataforma_lattes
6- Para ficar por dentro do calendário de eventos, você pode participar do grupo "Jornadas e Encontros de Análise do Comportamento" no facebook: https://www.facebook.com/groups/183498388401750/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Contribuições para um professor-cientista

Quando alguns fatores, como a baixa remuneração, a falta de estrutura física adequada para o ensino, uma formação acadêmica deficitária ou cheia de vieses políticos e outros entraves entram em cena é possível prever o que está por vir. Se levarmos em consideração o papel que o professor exerce em nossa comunidade, deveríamos dispor de todos os recursos possíveis a fim de garantir uma formação acadêmica adequada e a boa realização do seu ofício, mas estamos longe disso.

Apesar do desabafo inicial, o texto a seguir não se propõe a fazer uma discussão essencialmente política ou ideológica sobe as funções do professor, e sim apresentar de forma bastante sucinta as contribuições de B. F. Skinner para o papel do professor dentro de uma perspectiva cientifica de educação.


Em uma proposta científica para a educação, definir as funções do professor é um passo importante para um resultado final satisfatório. Em muitas de suas obras (1988/1991, 1984, 1981a, 1981b, 1973, 1968/1972, 1968, 1965, 1953/2007), Skinner traz contribuições interessantes sobre como o professor poderia atuar a fim de alcançar os objetivos educacionais visados pela comunidade onde a relação de aprendizagem está inserida.

Para Skinner (1972), o professor é o principal responsável por planejar as principais contingências de reforço a fim de “facilitar a aprendizagem”. Compete a ele formular os objetivos educacionais finais e intermediários e dispor as condições necessárias para que o aluno se comporte de acordo com os mesmos, de modo a produzir conseqüências que contribuam para a manutenção e instalação do comportamento emitido. Nesse sentido, o professor deve ter um bom planejamento de seus objetivos: “Apenas definindo o comportamento que queremos ensinar podemos começar a pesquisar as condições das quais ele é função e a planejar um ensino efetivo” (p. 173).

Segundo Zanotto (2000), o docente deve considerar aspectos relativos à história de vida do aluno a fim de conhecer o repertório que ele já possui e as variações da suscetibilidade aos reforçadores disponíveis na situação de ensino. Além de poder, caso seja necessário, planejar condições especiais de ensino. É importante que o professor entenda as condições sob as quais a aprendizagem ocorre a fim de tornar mais eficiente, não só no ensino da matéria e de habilidades almejadas, mas também no gerenciamento da sala de aula.

Uma tarefa também importante no trabalho do professor é arranjar contingências que favoreçam a generalização dos conteúdos e habilidades aprendidos na escola para um ambiente natural. A partir das contingências organizadas em sala de aula, é preciso preparar o aluno para que ele possa enfrentar as contingências naturais da vida. O professor deve agir no sentido de tornar o seu aluno cada vez mais independente. Conforme descrito por Skinner (1972): “quanto melhor o professor, mais importante é que ele liberte o aluno da necessidade de auxílio instrucional” (p. 136).

Agradecimentos à Maria Ester Rodrigues e Natalie Brito pelas correções e comentários.

Referências Bibliográficas:

Skinner, B. F. (2007). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes. Publicação original de 1953.
Skinner, B. F. (1991). Questões Recentes na Análise do Comportamento. Campinas: Papirus. Publicação original de 1988.
Skinner, B. F. (1984). The shame of American education. American Psychologist, 39, 947-954.
Skinner, B. F. (1981a). How to discover what you have to say -- A talk to students. The Behavior Analyst, 4 (1), 1-7.
Skinner, B. F. (1981b). Innovation in science teaching [Letter to the editor]. Science, 212 -283.
Skinner, B. F. (1973). The free and happy student. New York University Education Quarterly, 4(2), 2-6.
Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo: EPU. Publicação original de 1968.
Skinner, B. F. (1968). Teaching science in high school -- What is wrong? Science, 159, 704-710.
Skinner, B. F. (1965). Why teachers fail. Saturday Review, 48, 80-81, 98-102.
Zanotto, M. L. B. (2000). Formação de Professores: A contribuição da Análise do Comportamento. São Paulo. EDUC.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O caso Megaupload: um exemplo de contracontroles múltiplos.



Texto elaborado em conjunto com Renata Pinheiro!

Nas últimas semanas um acontecimento mudou algumas ferramentas da internet: as autoridades dos Estados Unidos retiraram do ar o site de compartilhamento de arquivos Megaupload e 18 sites afiliados.

O Comporte-se resolveu articular a notícia aos conceitos de coerção e contracontrole, propostos por Skinner (1953, 1974) e Sidman (1995), como forma de facilitar sua compreensão.
Sidman (1995) se refere à coerção como o uso ou ameaça da punição, ou, ainda, a “prática de recompensar pessoas deixando-as escapar de nossas punições e ameaças”, o reforçamento negativo. Skinner (1953) conceitua essas práticas de controle aversivo, pois gera repulsa e afastamento. De acordo com Sidman (1995) a coerção envolve três subcategorias de controle aversivo: a punição positiva, a punição negativa e o reforço negativo.

Segundo Skinner (1953), o ato de punir um comportamento envolve atos que tenham como objetivo diminuir a frequência dele e pode ser feita pela inserção de um estímulo aversivo no ambiente – no caso da punição positiva – ou pela retirada de um estímulo reforçador não-contingente do ambiente – no caso da punição negativa. O reforço negativo pode ocasionar surpresa ao ser relacionado à coerção, mas o conceito de reforço negativo está intimamente ligado ao conceito de punição, pois refere-se ao aumento da frequência de um comportamento por meio da retirada de um estímulo aversivo do ambiente. Assim, quando há a presença de um estímulo aversivo ou de uma prática coercitiva em um ambiente, geralmente se encontram também comportamentos de fuga ou esquiva.

Sidman (1995), em seu livro Coerção e suas implicações, afirma que a prática coercitiva é a prática dominante não só na sociedade, como chamou a atenção Skinner (1953), mas na própria natureza. O nosso corpo produz toxinas ao comermos algo estragado, e essas toxinas, por sua vez, geram dores estomacais que deverão servir de ocasião para o comportamento de evitar alguns tipos de alimentos. Dessa forma, é possível observar que muitos dos nossos comportamentos estão relacionados ao controle coercitivo, o que pode servir como base para entendermos porque o mesmo padrão é mantido em nossa sociedade.

Skinner (1953) discute e apresenta uma série de problemas envolvidos na prática da coerção. A punição é apresentada como uma técnica questionável, embora seja frequentemente utilizada. O autor ressalta que a punição tem o efeito imediato de supressão de um com portamento indesejável, o que acaba por reforçar o comportamento do agente punidor, o que implica no aumento das práticas punitivas. Além disso, o rápido efeito sobre o comportamento não é observado nas práticas reforçadoras, o que pode gerar uma falsa ilusão de vantagens na punição.

Falsa ilusão, porque, como advertiu Skinner (1953) e Sidman (1995), a punição ocasiona uma série de efeitos colaterais, como a eliciação de respostas emocionais, diminuição de outros comportamentos e o contracontrole – que será exposto a seguir -, além de que o comportamento punido, frequentemente, só diminui ou deixa de ocorrer na presença do punidor.

O contracontrole é o comportamento de escapar ao controle aversivo. Assim, há a presença desse fenômeno quando são observados comportamentos de pôr fim a um controle exercido por meio da coerção Nas palavras de Skinner:

“Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador – pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo; apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando – ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole” (Skinner, 1974, pág 164).



O caso do megaupload é um bom exemplo social e recente para falarmos de controle aversivo e contracontrole. O site permitia fazer download gratuitamente de diversos arquivos como músicas, filmes, vídeos, etc. Existia também a possibilidade de pagar uma quantia mensal e obter uma forma mais rápida de download de arquivos ilimitados. O fechamento dele foi só a última parte. A história é bem mais longa e traz um processo constante de controle aversivo e contracontrole, e iniciou muito antes da própria criação do Megaupload.

Fica impossível localizar o fio da meada, mas será inicialmente exposta a expansão da mídia de CD’s e do seu alto preço no mercado. Um cd continha em média 10 a 15 músicas e o seu preço era em média, 15 a 20 reais e, dependendo do CD, poderia ser até mais caro! Essa situação funcionou como um controle aversivo para a população, em especial a de baixa renda, que não dispunha de dinheiro suficiente para investir nessa tecnologia, e por isso ficava privada desse tipo de lazer.

E agora? Fica visível o exemplo de coerção nessa história?

Paralelamente a isso, havia o desenvolvimento da internet e dos sites com possibilidade de cópia e download de arquivos gratuitamente. Assim, houve o desenvolvimento da pirataria dos CD’s. No início de uma forma mais tímida, com a venda de CD’s gravados em casas e vendidos a um preço mais acessível à população. Entretanto, essa gravação foi se multiplicando, de forma que hoje não seria exagero afirmar que quase toda residência faça downloads de arquivos diariamente.

A pirataria de CD’s pode ser interpretada, dessa forma, como contracontrole: o modo como as pessoas encontraram de escapar do controle aversivo pelo alto preço dos CDs. Devido ao avanço da pirataria, gravadoras e lojas de CD’s e DVD’s passaram a perder muito dinheiro. De acordo com o que foi publicado nos jornais, as autoridades americanas afirmaram que só o site de compartilhamento Megaupload causou US$ 500 milhões em perdas dos direitos de propriedade intelectual das companhias. Ora, o nosso comportamento de fazer downloads, mantido pelo reforçamento negativo de não perder dinheiro funciona como punição negativa para as gravadoras de CD’s, ou seja, eles também estavam sob contingências aversivas.


Nesse contexto, o primeiro tipo de reação observada foi a queda dos preços dos CD’s, ocasionando, inclusive, o fechamento de algumas lojas. No entanto, o reforçamento de ouvir músicas gratuitamente em casa era eficaz e o comportamento do consumidor não sofreu grandes variações após a queda dos preços. Logo, outras medidas foram tomadas, como a criação de leis anti-pirataria e a repressão em defesa dos direitos autorais. Mais uma vez, a população manteve seu comportamento de contracontrole. A coerção ficou, então, mais forte. Houve o fechamento do Megaupload, citado no início, e a prisão de três envolvidos, entre eles o fundador do site, Kim Schmitz. Tudo isso ocorreu em meio a uma polêmica nos Estados Unidos sobre dois projetos de lei antipirataria, o Sopa (Stop Online Piracy Act), que corria na Câmara dos Representantes, e o Pipa (Protect Intelectual Property Act), que era debatido no Senado. Ora, essas reações repressivas podem ser interpretadas como resistência à extinção, uma vez que as coerções exercidas não estavam mais surtindo efeito, o comportamento coercitivo dos donos de gravadoras não obtinha reforço.

Frente a esses projetos, muitos sites se manifestaram, entre eles, o site Wikipédia, interrompendo seu acesso no dia 18 de janeiro, e o Google, mascarando sua logomarca. O protesto foi chamado pelos manifestantes de apagão ou blecaute – e por nós, de contracontrole. Outro comportamento com a mesma função foi emitido por um grupo de hackers dos Anonymous: eles bloquearam temporariamente o site do Departamento de Justiça americano, do FBI, da produtora Universal Music, entre outros, na noite de 19 de janeiro. De acordo com os hackers, foi o maior ataque já promovido pelo grupo, com mais de cinco mil pessoas ajudando. Além disso, houve um aumento considerável do uso da rede de compartilhamento de arquivos P2P (peer-to-peer), que permite troca de arquivos entre PCs conectados.

Ademais, usuários do Megaupload que ficaram sem acesso aos seus arquivos após o fechamento do site planejam processar o FBI. De acordo com eles, as pessoas que tinham arquivos pessoais hospedados no site não estavam infringindo as leis do direito autoral. Outros serviços semelhantes ao Megaupload também tomaram algumas medidas para tentar escapar do mesmo destino do concorrente: declarações mostrando diferenças entre os serviços em uma tentativa de se distanciar das acusações de atividades ilegais, até o bloqueio de compartilhamento de arquivos (confira lista aqui).

Diante disso, pode-se observar uma infinidade de contingências coercitivas aplicadas socialmente. Como destacou Skinner (1953, 1974, 1987), a nossa sociedade é permeada de controle aversivo, o que gera comportamentos de fuga e contracontrole, muitas vezes, também de forma coercitiva, como é possível observar na descrição desse vai-e-vem de contingências aversivas descritas acima.


Referências

Terra Notícias. Disponível em < http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5579378-EI12884,00-Fechamento+do+Megaupload+leva+a+aumento+da+rede+PP.html>. Acesso em 29/01/2012.

Sidman, M. (1995). Coerção e suas implicações. São Paulo: Livro Pleno, 2004.

Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. 15ª Ed. São Paulo: Editora Cultrix.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. 11ª Ed. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).

Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? in: Skinner, B. F. Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Artigo do Comporte-se obtém destaque em site dos Anonymous


É com grande entusiasmo que compartilhamos que o texto Quem são os Anonymous e como podemos analisar funcionalmente suas práticas obteve destaque no site Anonymous - we are a legion, administrado pelo coletivo! O artigo publicado no Comporte-se: Psicologia Científica há alguns dias apresenta uma análise do grupo enquanto contracontrole ao governo e suas práticas coercitivas. Esse reconhecimento é também da Análise do Comportamento enquanto ciência aplicada à compreensão de fenômenos sociais, pois demonstra a efetividade e valorização do conhecimento produzido por nossa comunidade! Acessem e confiram!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quem são os Anonymous e como podemos analisar funcionalmente suas práticas?

Texto elaborado em conjunto por Elayne Esmeraldo Nogueira e Esequias Neto




Quem são os Anonymous? Esta é a pergunta que tem tirado o sono do governo e da mídia nos últimos meses. Vários ataques a sites oficiais, sites de grandes empresas de mídia e de instituições financeiras tem sido atribuídos ao coletivo, que cada vez mais, vem ganhando a simpatia popular. Embora poucos saibam do que realmente estamos falando quando nos referimos a eles, uma coisa é certa: os Anonymous entraram para a história.

Este texto propõe uma visão analítico-comportamental das práticas dos Anonymous, e, porque não, da prática cultural “Anonymous”, partindo de uma análise skinneriana do contexto social em que vivemos e do surgimento desse grupo! Para isso, vamos começar falando das práticas culturais e das Agências de Controle na visão analítico-comportamental.

Skinner e as agências de controle

Skinner (1987) afirma que os grandes problemas sociais são fruto de práticas culturais de alguns grupos que são mantidas por consequências a curto prazo, mas que, a longo prazo, são desastrosas para um grupo maior de pessoas. Para a resolução desses problemas, o autor explica que, muitas vezes, propõe-se uma “conscientização”, ou seja, mostrar às pessoas que consequências seus comportamentos estão gerando. No entanto, muitas vezes a estratégia não é eficaz, pois quando se mostram as consequências contingentes aos comportamentos, elas já o controlam por uma história de reforçamento. O que dificulta ainda mais a mudança, é que quando se propõe agir de outra forma, os novos reforçadores ainda não estão presentes para controlar o novo comportamento.

O autor lembra ainda que, para seguir conselhos e sugestões de mudanças de comportamento, uma pessoa tem que ter em seu repertório o comportamento de seguir regras. Além disso, os conselhos oferecidos acerca de problemas sociais são descrições de consequências relativamente distantes da emissão de comportamentos, o que diminui a probabilidade de serem seguidos. Ressalta também que determinados comportamentos são ainda mais difíceis de serem modificados, pois embora apresentem consequências punitivas a longo prazo, no momento, são mantidas por consequências reforçadoras.

Dessa forma, Skinner (1987) propõe que sejam arranjadas contingências imediatas para controlar a emissão desses comportamentos. Ressalta que frequentemente isso é realizado pelas discussões éticas em nossa cultura, e alguns comportamentos que seriam naturalmente reforçados, passam a ser punidos socialmente, ao serem denominados de “vergonhosos”. Nesse sentido, Skinner sugere que os estudiosos do comportamento humano desenvolvam trabalhos que tornem capaz a predição e o controle dos comportamentos de pessoas em grupo, a fim de serem desenvolvidas soluções para os problemas sociais.

Skinner (1953/2003) dedica metade das sessões de seu livro Ciência e Comportamento Humano ao comportamento de pessoas em grupo, sendo uma delas destinada à questão das agências controladoras, que, segundo ele, são o governo, a religião, a psicoterapia, o controle econômico e a educação. Para o autor, essas agências controlam o comportamento humano de um modo especial, pois frequentemente são grupos mais organizados que o restante da população, exercendo sobre ela o poder de reforçar ou punir seus comportamentos. Em suas palavras:
“Uma agência controladora, juntamente com os indivíduos que controla, constitui um sistema social, (...) e nossa tarefa é dar conta do comportamento de todos os participantes. Dever-se-á identificar os indivíduos que compõem a agência e explicar porque têm o poder de manipular as variáveis que a agência emprega. E também analisar o efeito geral no controlado, e mostrar como isso leva à retroação reforçadora que explica a continuação da existência da agência.” (Skinner, 2006, p. 365).
Skinner (1953/2003) afirma que um dos grupos mais obviamente interessados no controle do comportamento humano são as agências governamentais. Historicamente, os governos agem de forma a aumentar ou diminuir a frequência dos comportamentos dos governados, criando teorias e princípios que justifiquem tal prática. O autor propõe a análise dos processos comportamentais pelos quais o governo exerce esse controle. Para isso, torna-se necessário o estudo e a análise do comportamento do governado e como esse comportamento mantém o controle por parte do governo.

Skinner traz que uma das principais formas de controle do comportamento humano por parte do governo é  se utilizando da punição, logo, uma vez que um grupo de pessoas esteja no poder, provavelmente, vai se utilizar da punição para aí se manter. É interessante notar que o uso da punição por parte do governo é uma técnica que se mantém há muito tempo, mesmo que o grupo que está nessa posição mude, posto que o que mantém o uso dessa técnica é comportamento dos governados. O efeito da punição é o de enfraquecimento dos comportamentos considerados inadequados para o governo. Dessa forma, o governo pune e seu comportamento de punir é reforçado positivamente pelo comportamento da população.

Diante do que foi apresentado, é possível observar que o controle exercido pelo governo em nossa sociedade é semelhante ao que descreve Skinner, apesar de sua descrição ter sido realizada na década de 50. A maioria dos atos governamentais visa uma diminuição dos comportamentos realizados em massa pela população. As greves e manifestações muitas vezes são enfrentadas pela polícia com o objetivo de dispersão popular. Outra prática relativamente comum aos governos é a extinção dos comportamentos populacionais de lutar pela resolução dos problemas. É possível observar, por exemplo que um sentimento de desilusão vem crescendo nas pessoas. As nossas formas de lutar não são consideradas, as nossas manifestações contra os atos governamentais não são ouvidas. Talvez, pelo que disse Skinner (1953): o governo e as outras agências de controle “(...) são geralmente mais bem organizadas que o grupo como um todo e, frequentemente, operam com maior sucesso”. Nesse sentido, é preciso que a população seja organizada para emitir o que Skinner denominou de contracontrole, que será exposto a seguir.


Contracontrole diante do controle exercido

Skinner (1953, 1974) adverte que o uso da punição ocasiona uma série de efeitos colaterais, como a eliciação de respostas emocionais, diminuição de outros comportamentos e o fato do comportamento punido muitas vezes só diminuir na presença do punidor. O autor chama a atenção ainda para um efeito colateral em especial: o contracontrole. O contracontrole é o comportamento do organismo de tentar escapar ao controle quando está sendo utilizada a coerção. Nas palavras de Skinner (1985)
“Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador – pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo; apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando – ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole” (Skinner, 1974)
Diante disso, como analisar o comportamento do governo nos últimos anos e o surgimento dos Anonymous?

Anonymous como contracontrole



Segundo os próprios ativistas que se denominam Anonymous, seu objetivo é lutar contra a corrupção e contra o controle governamental e social que ferem os direitos humanos ou que causem sofrimento e dificuldades à maior parte da população mundial. De acordo com um vídeo¹ disponível no youtube, denominado o que são os anonymous e qual seu plano, 22 mil crianças morrem por dia devido à pobreza, situação que atinge 1 bilhão de pessoas no mundo. Paralelamente a isso, o armamento mundial cresce assustadoramente e foram gastos quase 1,6 trilhões de dólares em 2010, representando um crescimento de 50% desde 2001.

Para os Anonymous, as agências de controle "Governo", em todo o mundo, são responsáveis por esses dados. E é contra essas agências e seus atos que tentam lutar. Dessa forma, não é difícil comparar os anonymous ao conceito de contracontrole da Análise do Comportamento. Os primeiros ativistas inspiraram-se no filme “V de vingança” que traz uma célebre frase: “O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo.”. O povo teme seu governo devido ao controle aversivo. Mas o governo é que deve temer seu povo, que tem o poder de contracontrole.

Os anonymous são famosos midiaticamente por hackearem sites do governo, entretanto, nem todos os atos que lhe são atribuídos são de sua autoria. Segundo os ativistas, quaisquer atos que venham a prejudicar uma massa trabalhadora fogem a seus objetivos e ideais. Os sites hackeados do governo cuja autoria é reivindicada pelos anonymous tem o objetivo de chamar a atenção da população para a corrupção e outros atos governamentais relacionados ao órgão responsável pelo site. Como exemplo desses sites, temos os ataques em 2010 às empresas de cartão de crédito, quando, na ocasião, essas empresas haviam bloqueado um site que divulgava informações comprometedoras do governo americano. Outro exemplo são os recentes ataques aos bancos brasileiros, cujo objetivo foi chamar atenção das pessoas aos cortes orçamentários e a corrupção em nosso país. Um outro exemplo das ações dos Anonymous no Brasil, foram os ataques realizados aos sites dos governos da Bahia e do Rio de Janeiro em apoio a greve dos policiais militares e bombeiros.

Entretanto, os anonymous não podem ser considerados simplesmente um grupo de hackers. Os ataques mencionados acima não constituem a maior parte de suas manifestações, apenas são as mais divulgadas pela mídia. As manifestações em prol da chamada “primavera árabe” tiveram grande apoio dos ativistas. Em nosso país, houve o apoio a diversas passeatas e protestos em diversos estados e cidades. Uma rápida busca no youtube com as palavras “Passeatas Anonymous” traz vídeos de vários destes protestos, que ao contrário do que aconteceu nos países árabes e no Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, não reuniu uma grande quantidade de pessoas. Aparentemente os Anonymous brasileiros não estão no mesmo ritmo dos americanos e europeus, que com ataques mais efetivos, tem promovido mudanças mais práticas na sociedade e gerado efeitos mais significativos em relação à mobilização social.

Há ainda um site criado pelos Anonymous brasileiros, o CorrupçãoLeaks, que foi desenvolvido com o objetivo de facilitar a denúncia de corrupção em nosso país. De acordo com os ativistas Hackers que coordenam o site, as denúncias devem ser enviadas junto a algum tipo de evidência ou prova que garanta a sua veracidade, para então, membros ligados aos Anonymous ou jornalistas parceiros possam investigar e tornar públicas as denúncias. O site está em plena atividade e várias investigações já estão sendo realizadas.

Nas ações mencionadas, é possível observar que os comportamentos dos anonymous podem ser analisados como contracontrole aos diversos controles exercidos pelos governos nos diferentes países. Tratam-se de tentativas de escapar ao controle aversivo e chamar a atenção da população à coerção presente em nossa sociedade. Nesse sentido, parece mesmo que os ativistas conhecem a visão de Skinner sobre o controle, que nos chamou a atenção de que quanto maior a organização e o número de pessoas de um grupo, maior é o seu poder. No caso dos anonymous, quanto maior for o número de pessoas reunidas sob esses ideais e quanto maior for sua organização, maior será sua capacidade de contracontrolar o governo.

sábado, 9 de abril de 2011

Sobre a (in)explicação do massacre em Realengo

A tragédia no Realengo deixou o brasileiro sedento por uma explicação racional e conclusiva do que pode levar alguém a invadir uma escola, matar 12 crianças, ferir diversas outras e se suicidar quando confrontado pela Polícia. E quem sabe, se tivesse sobrevivido, destruir um dos maiores símbolos brasileiros, o Cristo Redentor, conforme noticiou o jornal O Tempo [aqui], de Minas Gerais. 



Mas a verdade é que não existe uma explicação racional e conclusiva para isto. O máximo que qualquer especialista em comportamento humano, criminalística, psicopatologia ou qualquer outra coisa pode fazer, é levantar hipóteses. Algumas mais condizentes com as evidências do que outras, mas apenas hipóteses. 


A Psicóloga e Analista do Comportamento Ana Arantes, com formação, mestrado em Educação Especial e concluindo do doutorado em Psicologia: Comportamento e Cognição pela UFSCar publicou um excelente texto a respeito, no qual discute esta busca desenfreada por uma explicação e a maneira como os profissionais tem se portado diante dela. Quem quiser ter acesso ao texto completo, poderá acessá-lo por meio deste link [aqui]. 

A autora discute também uma das hipóteses mais plausíveis apresentadas até o momento, que é a de que Wellington era portador de Esquizofrenia. Apresentando dados oficiais sobre a prevalência da doença, ela explica que se de fato a mãe do garoto tiver sido portadora de esquizofrenia, existem grandes chances de que ele também seja. São 10% maiores as chances de desenvolvê-la entre parentes de primeiro grau de pessoas que a possuem. 

Ana Arantes alerta, no entanto, que não há e nem nunca houve o diagnóstico da doença em Wellington, e mesmo que houvesse, ela não poderia ser tomada como explicação para seu comportamento. De acordo com os dados transcritos pela autora, apenas 6,4% dos portadores de esquizofrenia e doenças afins se tornam violentos ou cometem algum tipo de crime, principalmente quando a doença é associada a álcool e outras drogas. Ela compara com os índices de criminalidade e violência entre usuários abusivos (apenas) de álcool, que chegam a 10%. Portanto, se ele de fato é esquizofrênico e agiu como agiu governado por um delírio, não foi a esquizofrenia ou delírio em sí que o fizeram cometer este crime, pois outros 93% dos portadores de esquizofrenia (que também deliram) não fazem nada parecido. 

Conforme explica Ana Arantes:

A história de interações do atirador com seu ambiente físico e social é mais determinante de seu comportamento do que o fato dele ser ou não doente mental, porque é dessa experiência que ele tira o repertório para constituir o delírio e as alucinações” que poderiam vir a influenciar seu comportamento, se é que isto aconteceu. 

A leitura do texto indicado é de extrema importância para quem busca não se deixar levar por explicações levianas sobre o comportamento do rapaz, que se proliferam em tom de verdades acabadas através da mídia. 

domingo, 20 de março de 2011

Garoto Zangief - O vídeo que virou febre na internet: vítima de Bullying reage às agressões sofridas na escola

Dia 14 de março de 2011 foi postado na net um vídeo chamado "Child finally snaps after being bullied", posteriormente apelidado de Garoto Zanguief. O vídeo mostra o australiano Casey Heynes sendo agredido por um colega em sua escola e sua reação diante disso.

O vídeo original foi tirado do ar pelo youtube em pouco tempo, por causa das cenas de agressão entre menoroes. Mas o sucesso foi tão grande, que muita gente já havia feito download, editado e recolocado no ar com nomes e edições de som e imagem dos mais diversos tipos.

Casey Heynes tem 16 anos e é aluno da Chifley College Dunheved Campus, escola localizada no estado de New South Wales, na Austrália. A direção da escola expulsou os dois envolvidos na briga, ao saber da agressão. Seria interessante saber se a instituição já havia tomado alguma iniciativa no sentido de proteger as vítimas de Bullying também, ou se só reagiu quando a situação tornou-se insustentável.

Em uma entrevista concedida a um canal de tv de seu país, o garoto relata que é vítima de Bulliyng já há muitos anos e que é raro um dia em que não sofre agressões. Diz já ter pensado inclusive em se matar, há cerca de um ano antes da reportagem.

Para assistir o vídeo em que Casey Heynes reage à agressão de seu colega da escola, clique na imagem abaixo:



Para assistir a entrevista, na qual o garoto, seus pais, irmã e diversas outras pessoas falam a respeito do acontecido, clique na imagem abaixo:



O vídeo é um verdadeiro documentário a respeito do garoto. Mostra muito de sua vida, costumes e mudanças ocorridas após o sucesso do vídeo na internet.

Casey Heynes tornou-se um ícone, um verdadeiro ídolo para as tantas outras crianças em todo o mundo que, assim como ele, são vítimas de Bullying. A diferença é que nem todas conseguem reagir. E nem sempre, reagir agredindo o Bully é a melhor solução, afinal, raramente ele está sozinho e seus colegas podem revidar a agressão: violência gera mais violência.

Além disso, nem sempre o que mantém o Bullying é a postura da vítima. O agressor geralmente comete os atos em grupo e é elogiado por seus colegas e aprovado por eles. Quem sofre a agressão, por outro lado, geralmente é isolado dos grupos, considerado "o diferente", invejado pelos outros, socialmente estigmatizado ou indefeso [1]. Como raramente esta criança tem com quem contar na escola, fica ainda mais difícil uma intervenção.

Os pais e a escola são em parte responsáveis pela agressão por não identificarem e ajudarem a solucionar o problema. Não por maldade, mas na maioria das vezes, por desconhecimento dos sintomas. Muitos pais, inclusive, culpam ou punem a criança diante do surgimento deles.

O site da Câmara dos Deputados disponibilizou uma série de gravações de 30 segundos cada falando a respeito do problema [link]. Entre os temas abordados, estão a definição de Bullying, seus sintomas e consequências para a criança, dentre outras coisas.

Conforme abordado no post "Bullying - Senhor pai, o que está esperando para ajudar?" [link] aqui mesmo no Comporte-se, quem sofre Bullying geralmente:

1) Apresenta desinteresse em frequentar a escola;
2) Sente-se mal, ou até simula doenças perto da hora de sair de casa;
3) Pede para trocar de escola;
4) Evita ir sozinho à aula;
5) Procura percorrer caminhos diferentes entre a escola e sua casa;
6) Apresenta baixo desempenho acadêmico;
7) Volta da escola com material ou roupa estragados;
8) Chega em casa machucado, sem explicação convincente;
9) Apresenta sinais de angústia, ansiedade e depressão;
10) Pode ter pesadelos constantes;
11) "Perde" pertences e dinheiro com frequência;
12) Tem poucos amigos;
13) Tem dificuldades para namorar.

Além disso, a criança ou adolescente raramente conta a seus pais sobre o que está acontecendo [1]. Pode ser que ela tenha medo do que pode acontecer se um adulto intervir, vergonha de falar ou desesperança de que algo possa vir a mudar.

No texto "Comportamento em cena - Lucas, um intruso no formigueiro - Filme infantil aborda Bullying e relações hostís na infância" [1], Psicóloga Giovana Del Prette apresenta algumas dicas sobre como lidar com o Bullying. São elas:

1) Ensinar Habilidades Sociais para a criança;
2) Orientar a criança a andar com outras crianças que não praticam Bullying;
3) Desenvolver a autoestima e autoconfiança da vítima, inserindo-a em atividades que possam gerar nela um sentimento de mais valia;
4) Orientar a criança a ficar próxima dos professores ou outras autoridades da escola.

A Psicóloga ressalta que a melhor alternativa, no entanto, é uma orientação individualizada. Cabe aos responsáveis pela criança procurarem um Psicólogo para analisar a situação e propor uma intervenção adequada e válida para cada criança.

Outra possibilidade de intervenção é sobre o Bully. É importante que ele seja encaminhado a um atendimento Psicológico para que, dentre outras coisas, possa desenvolver algum sentimento de empatia.




Texto que fundamenta a discussão

[1] Boletim Paradigma - artigo de Giovana Del Prette: "Comportamento em cena - Lucas, um intruso no formigueiro - Filme infantil aborda Bullying e relações hostís na infância".

terça-feira, 8 de março de 2011

Cuidado: você pode estar sendo filmada. A observação não autorizada de terceiros enquanto fonte de prazer sexual.

Um leitor do Comporte-se enviou um Tweet pedindo para que o vídeo abaixo fosse comentado:




Observe que após mexer em um aparelho (aparentemente um celular), o garoto do vídeo se aproxima da mulher de vestido como se estivesse olhando os produtos do supermercado, mas abaixa-se atrás dela e realiza uma breve filmagem embaixo de seu vestido. Algum tempo depois, ele retorna e faz um novo filme, desta vez, mais extenso. 

Já o vídeo abaixo mostra uma reportagem que fala sobre algumas das estratégias usadas por estas pessoas para filmarem embaixo dos vestidos das mulheres nas ruas, supermercados, escadas, etc. Note que as estratégias usadas são extremamente discretas e dificilmente uma mulher percebe. Mas pode perceber, como aconteceu neste [link] ou neste caso [link]


Entre estas estratégias, estão: esconder câmeras nos sapatos, celulares em cestos de compras ou filmarem embaixo de mesas em que estão sentadas mulheres de saia ou vestido, entre outras. Muitos dos vídeos gravados por estas pessoas estão na internet, com acesso livre a qualquer um. Imagine você, mulher, dar de cara com um vídeo seu ou de sua filha por aí? E você, homem, dar de cara com um vídeo de sua esposa, filha, irmã ou mãe?

A obtenção de prazer por meio da observação de terceiros, geralmente estranhos, que estejam nús, se despindo ou em roupas íntimas, é chamada de Voyerismo pelo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais  - DSM IV [link], da Associação Psiquiátrica Americana e pelo Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde [link]. O Voyerista geralmente não tenta nenhuma atividade sexual com a pessoa observada e atinge o orgasmo por meio da masturbação, que ocorre durante a observação ou mais tarde, assistindo do vídeo ou lembrando-se da cena. Em casos severos, o ato de observar torna-se a única forma pela qual a pessoa obtém prazer sexual satisfatório. Ainda de acordo com o DSM IV, o comportamento tende a ser crônico e começa antes dos 15 anos de idade.

Característica importante do Voyerismo é que parte do prazer que o Voyer tem, deve-se ao fato de a pessoa que está sendo observada não ter consciência disso. Ou seja, o Voyer não teria tanto prazer observando alguém que tenha autorizado, como por exemplo, sua esposa ou uma modelo na Playboy. A frase "o proibido é mais gostoso" aplica-se bem a estas pessoas.

Fã fotografa embaixo do vestido de Paris Hilton.

Para o direito, observar ou filmar alguém sem sua autorização é crime. De acordo com a lei 12.015, de 7 de agosto de 2009 [link], o ato configura-se como Violação Sexual, descrita no Art. 215 como "Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima":  (Grifo meu)

Observe que a lei é bastante específica com relação a utilização de um meio que impeça ou dificulte a manifestação da vontade da vítima. Na situação em discussão, a vítima está totalmente impedida de manifestar sua vontade, pois o Voyer faz a filmagem sem que ela perceba.

A pena para a Violação Sexual, nos termos descritos acima, é de 2 a 6 anos de reclusão. Se houver uso da imagem para obter lucro, haverá também uma multa. Se a vítima é menor de 18 anos, a pena é aumentada em um terço.  

O Voyerismo é apenas um dos diversos tipos de transtornos sexuais descritos pela psiquiatria. Mais especificamente, trata-se de uma Parafilia. 

O DSM IV chama de transtornos sexuais as perturbações no desejo sexual e as alterações psicofisiológicas que caracterizam o ciclo de resposta sexual, causando sofrimento acentuado e dificuldade interpessoal. O ciclo sexual é dividido nas seguintes fases, pelo manual: 

1 - Desejo
2 - Excitação
3 - Orgasmo
4 - Resolução

A perturbação pode ocorrer em qualquer uma destas fases e os critérios diagnósticos não especificam freqüência mínima ou máxima para que se considere um transtorno, nem faixas de contexto ou tipos de atividades sexuais nas quais a disfunção pode ocorrer. 

Conforme explica o site Psiqweb [link], o julgamento deve ser feito pelo clínico, levando em consideração fatores como a idade e experiência do indivíduo, freqüência e cronicidade do sintoma, sofrimento subjetivo e efeito sobre outras áreas de seu funcionamento.

As parafilias são definidas pelo DSM - IV como transtornos sexuais com impulsos, fantasias ou comportamentos sexuais intensos e recorrentes, em geral envolvendo objetos não-humanos, juntamente com o sofrimento e humilhação de si mesmo ou de um parceiro ou ainda de filhos ou outras pessoas que não concordem [grifo meu] e os sintomas devem perdurar por pelo menos 6 meses. 

Neste fórum [link] você pode encontrar uma lista com os nomes e breves explicações sobre diversas outras parafilias. Algumas são bem bizarras. Outras, são mais comuns do que imaginamos. 

**Se você também tem um assunto que gostaria de ver comentado no Comporte-se, envie um Tweet para @netoec_ ou e-mail para neto@comportese.com