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quinta-feira, 26 de maio de 2011

[Entrevista Exclusiva] - Prof. Ângelo Sampaio (VII JAC Salvador)

O prof. Ângelo Sampaio, referência no país em estudos sobre Metacontingências e Práticas Culturais, concedeu uma entrevista exclusiva ao Comporte-se durante a VII JAC Salvador. Ele falou sobre a formação e disseminação da Análise do Comportamento, bem como da área no Nordeste do Brasil. Confiram abaixo:


Aline - Ângelo, para começar, queria saber um pouco sobre a sua trajetória na Análise do Comportamento. Como foi que você se interessou pela abordagem e, mais especificamente, pela área de Metacontingências e Práticas Culturais?

Ângelo Sampaio – Acho que já entrei para a faculdade com uma tendência a estudar cultura e práticas sociais. Na época, eu pensava: “quero fazer Psicologia para mudar o mundo”. Me vi entrando assim, na UFBA.

Nos primeiros semestres me atraí bastante pelas discussões da Psicologia Comunitária e Social. Só depois de um tempo, cursei as disciplinas de Teorias e Sistemas Psicológicos I, II e II, momento em que acho que passei por uma confusão que todo mundo enfrenta. Que confusão! Cada uma [abordagem] falava uma coisa, partia de lugares diferentes para chegar em lugares diferentes.

Peguei uma professora, que hoje em dia nem trabalha mais com isso, que me apresentou a Análise do Comportamento; abordagem que, para mim, pareceu mais coerente. Então, comecei a estudar esta disciplina, especialmente a partir do livro Compreender o Behaviorismo, do William Baum.

Continuei estudando Análise do Comportamento a graduação inteira. Depois disso, envolvido com a área, fiz extensão, estágio e emendei com o mestrado. O estudo de metacontingências meio que casou a abordagem epistemológica que eu tinha escolhido e o interesse que eu tinha. Comecei a me interessar e, por conta disso, fiz o mestrado na área.

AA Análise do Comportamento é uma abordagem que, por ir contra muito do que a cultura ensina, costuma sofrer bastante rejeição, mesmo diante de seus resultados. Em sua opinião, o que pode ser feito pelos profissionais desta abordagem para vencerem esta dificuldade e tornarem-na uma abordagem mais reconhecida?

AS – Isso é difícil. Acho que em parte, no geral, em especial porque essa coisa de resultados não importa tanto na Psicologia, infelizmente. Acho que os professores deveriam enfatizar mais isso.

Existe muita discussão na Psicologia sobre “qual é a melhor estratégia”, independente dos resultados: “qual te agrada mais?”; “com qual você se sente mais à vontade?”. Acho que isso deve ser evitado ao máximo. No mais, é continuar produzindo e mostrando resultados. Uma coisa que iria ajudar seria dialogar mais com outras áreas com as quais partilhamos certos pressupostos, como a Biologia, Economia e por aí afora. Tenho a impressão que essa visibilidade externa à Psicologia pode ajudar, inclusive, dentro da própria Psicologia.

AVocê é professor da UNIVASF (Petrolina) e se formou aqui pela UFBA (Salvador). Como você avalia o desenvolvimento científico da Análise do Comportamento na região Nordeste? E quanto à adesão de novos profissionais, estudantes e pesquisadores?

AS – Não conheço detalhes da história da Análise do Comportamento na região como um tudo, mas tenho a impressão de que não havia praticamente nada dela até meados da década de 90.

Lá na UFBA, acho que havia apenas dois professores. Em outras capitais do Nordeste era muito parecido ou ainda pior. A partir daí, aqui em Salvador – com as faculdades particulares –, as coisas começaram a crescer. Mas acho que reflete o que aconteceu no Brasil como um todo, também. Acho que agente tem decolado bem rápido, caminhando na direção certa, com muita gente se envolvendo, muita gente se formando.

Estava comentando com um colega que ainda não temos doutores para fazer concursos para as matérias, e isso é um problema. Mas acho que aos pouquinhos as coisas têm mudado, embora ainda estejamos longe do ideal.

AEste ano o Nordeste irá sediar a ABPMC pela primeira vez. Que importância a realização do evento em Salvador tem para o desenvolvimento da abordagem na região?

AS – Acho fundamental, muito importante, tremendamente importante, por vários motivos. Primeiro, porque boa parte do público da ABPMC é sempre de estudantes, então acho que muitos estudantes aqui da região vão ter, pela primeira vez, oportunidade real de participar do evento que, também pela primeira vez, ocorre aqui mais perto. Sempre foi em São Paulo, Londrina ou Brasília; até mais perto, mas mesmo assim, para o pessoal daqui, do Pará, e tal, continuava bastante difícil.

Acho que vai ser importante para apresentar melhor a área para os estudantes e profissionais da área aqui do Nordeste, trocar idéias, fortalecer os laços, se conhecer melhor. E acho que vai ser importante para a região em relação ao resto do Brasil, pra gente ter a chance de mostrar o que tem sido feito aqui; e talvez, “chacoalhar” a galera, pois para uma região que corresponde a um quarto do Brasil, a gente tem muito pouca coisa.

APra finalizar, gostaria que você falasse um pouco sobre o II Encontro de Análise do Comportamento do Vale. Como está a organização do evento? O que ele promete?

AS – A gente vai realizar, agora no início de junho, o II EAC do Vale lá em Petrolina. Já estamos com a programação basicamente fechada. Seguiremos um pouco a linha do primeiro: sem uma temática específica, tratando de várias questões relacionadas à Análise do Comportamento; trazendo gente de fora, mais tradicional e reconhecida na área. A prof. Deisy de Souza, da Ufscar confirmou presença.

Também vamos trazer o Marcelo José, da Petrobrás, pra falar de Organizacional. E temos sempre tentado trazer alguém da região para, aos poucos, estreitar estes laços. Thiago Ferreira, aqui de Salvador, também vai estar lá. E como sempre, a gente tem tentado valorizar a produção lá da UNIVASF. Teremos alguns estudantes que defenderam sues trabalhos de conclusão de curso se apresentando.

A gente aprendeu algumas coisas com o primeiro evento, que ajudarão a fazer o segundo ainda melhor. Estamos com expectativas muito boas. A resposta do primeiro foi ótima e a organização deste está bastante adiantada. Acho que vai ser muito bom.

Quem estiver por perto, então... [risos]. Salvador é a capital mais próxima, então você tem que aparecer por lá.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Resumo - VII JAC Salvador 2011

A VII JAC Salvador contou tanto com a presença de temas clássicos na Análise do Comportamento quanto com comunicações sobre assuntos inovadores na área. Foram três dias muito gratificantes para quem conhece, para quem está iniciando e para quem se interessa pela Análise do Comportamento. A seguir, um resumo das palestras e minicursos apresentados nos três dias do evento.


Primeiro dia - Minicursos
Meio século do livro Verbal Behavior de B.F. Skinner: contribuições à compreensão da criatividade e genialidade humana (Martha Hübner – USP/SP)
Martha, uma das maiores autoridades no estudo do Comportamento Verbal no Brasil, fez um elegante tributo a um dos livros mais fundamentais do Behaviorismo Radical, considerado pelo próprio Skinner como o seu mais importante trabalho – tributo que foi também um resgate, já que o Verbal Behavior é um livro pouco lido no Brasil, além de mais conhecido pela famosa polêmica com as críticas de Noam Chomsky do que propriamente pelo seu conteúdo. Além da apresentação do livro, Martha fez uma passagem pelas pesquisas na área de Comportamento Verbal que foram e vêm sendo produzidas, falou de alguns conceitos fundamentais desse tipo de estudo e fez análises muito interessantes sobre comportamentos criativos (focando em música e poesia), e de comportamentos relacionados ao humor.
Como fazer análise de contingências na clínica comportamental (Ana Lúcia Ulian - UFBA /IBAAC-BA)
Ana Lúcia apresentou um tema caro a todo terapeuta comportamental, que é a análise de contingências na clínica. Mais do que mostrar o passo-a-passo e as pesquisas que fez sobre a formação de analistas do comportamento em estágio clínico, destacou a importância da prática contínua – por mais que se ofereçam modelos e regras, nada substitui o contato direto com as contingências.

Segundo dia - Palestras
A análise do comportamento no Brasil e no mundo: breve histórico e desenvolvimento crescente da área (Martha Hübner - USP-SP)
Martha, na condição de presidente da ABPMC (Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental) e representante internacional da ABAI (Association for Behavior Analysis International), apresentou um panorama geral do desenvolvimento da Análise do Comportamento. Foram apresentadas as ações da ABAI que buscam disseminar e promover o conhecimento em AC, como as delegações internacionais (que visitam países onde a AC ainda não se desenvolveu para apresentar a abordagem) e as publicações e sociedades de fomento à pesquisa. Martha também falou do início da história da AC no Brasil, tendo como marco histórico inicial a vinda do prof. Fred Keller (1899-1996) à USP, e como importante passo para seu desenvolvimento a criação da ABPMC em 1991, pelo Dr. Bernard Rangé. Hoje, o Brasil é a maior potência em AC fora dos EUA.
A intervenção comportamental no autismo (Juliana Godoi Fialho - Núcleo Gradual-SP)
Juliana apresentou um panorama bastante completo sobre o autismo e as intervenções comportamentais que são feitas quanto ao transtorno. Ela falou das diferenças entre o modelo médico e o comportamental para diagnóstico, além das bases para o tratamento, focadas na análise de contingências. Juliana apresentou os diversos instrumentos que já existem para auxiliar no tratamento do autismo: testes padronizados, formas de análise funcional focadas no que mantém os comportamentos relacionados ao transtorno e intervenções de ensino voltadas para a aquisição, manutenção e generalização de novos repertórios comportamentais.
Terapia Comportamental em Grupo aplicada à crianças que apresentam dificuldade de aprendizagem (Simone Calatrone - CAPSia-SSA)
Simone palestrou sobre terapia comportamental infantil em grupo, baseando-se na sua experiência com um grupo construído por ela de crianças com dificuldade de aprendizagem em um CAPSia local. A terapia proposta baseia-se na construção de repertórios comportamentais mais adaptativos, e o grupo se configura como um “pequeno laboratório” por produzir situações muito semelhantes ao ambiente natural das crianças na escola, dando a oportunidade de trabalhar questões ligadas a essas contingências. O grupo de Simone contou também com o trabalho com pais e professores das crianças, parte importante do ambiente delas. A terapia realmente mostrou resultados, ampliando o repertório das crianças quanto à realização das tarefas escolares e a relação com a escola como um todo.
A produção de variabilidade comportamental e sua extensão para outras tarefas em crianças com desenvolvimento atípico (Juliana Godoi Fialho – Núcleo Gradual-SP)
Juliana apresentou os resultados de um experimento feito como parte de sua dissertação de mestrado, onde se buscava responder se a variabilidade comportamental poderia ser de fato produzida em autistas e se, a partir de uma tarefa proposta com esse intuito, a variabilidade poderia ser generalizada para tarefas com topografia semelhante e/ou diferente. O estudo produziu resultados bastante interessantes, demonstrando que em geral a variabilidade pode ser produzida, mas é mais generalizada para tarefas de topografia semelhante que de topografia diferente, além de levantar questões sobre o papel do reforçamento da variabilidade comportamental nessa produção – e de como tais resultados podem fomentar intervenções nesse sentido com pessoas portadoras do autismo e outros TIDs que tem a estereotipia comportamental como característica.
Coaching, uma nova área para o Analista do Comportamento? (Alda Marmo - Núcleo Paradigma-SP)
Alda apresentou uma área pouco conhecida de aplicação da Análise do Comportamento, a do coaching. O coaching se parece com a terapia, no entanto, é mais focada para o alcance de objetivos preestabelecidos entre cliente e coach em um período mais curto de tempo. O coaching é bastante conhecido no mundo organizacional, embora também possa ser aplicado à vida pessoal em alguns casos. O coach analista do comportamento, então, irá analisar as contingências da vida do cliente que impedem a realização destes objetivos, promovendo o autoconhecimento e possibilitando o alcance de metas.

Terceiro dia – Palestras
Contribuições da Neuropsicologia para o tratamento Analítico Comportamental do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (Sandro Iêgo - IBAAC-BA)
Sandro falou sobre o tratamento da Análise do Comportamento para o TOC, apresentando o modelo psiquiátrico e as divergências com o modelo da AC. A Análise do Comportamento enxerga o TOC como, em geral, um conjunto de comportamentos respondentes (ligados à sensação de ansiedade experienciada no transtorno) e operantes (majoritariamente ligados à remoção do estímulo aversivo que causa essa ansiedade, além de possíveis contingências de reforçamento positivo). A aquisição do TOC se dá por diversos processos, tanto por contingências diretas e acidentais (como as que produzem o comportamento supersticioso) como por modelos e comportamento guiado por regras. A neuropsicologia tem demonstrado que estudos de memória com pessoas portadoras do distúrbio parecem ter dificuldade para controlar impulsos, bem como confiam pouco na própria memória (o que ocorre no caso dos chamados checkers, aqueles que conferem algo que foi feito várias vezes). A terapia vai proporcionar o contato sistemático e gradual com as contingências nas quais o paciente costuma ter respostas de esquiva, possibilitando então a modificação desses comportamentos.
Uma interpretação comportamental do papel das emoções no comportamento econômico (Diogo Seco - UFS-SE)
Diogo falou dos estudos sobre emoções e suas relações com o comportamento econômico. Muitas teorias mais antigas sobre emoções e economia colocam as duas em pólos opostos, com a economia fazendo parte do domínio da “razão”, mas isso vem mudando, sendo finalmente considerado o papel das emoções como imbricadas em comportamentos relacionados à economia. Com isso, Diogo apontou estudos já existentes sobre o assunto e desafios para a Análise do Comportamento nessa área, ainda pouco explorada.
Sustentabilidade, Comportamento Humano e o Futuro das Culturas (Ângelo Sampaio - UNIVASF-BA/PE)
A palestra de Ângelo trouxe um tema bastante em voga e, não por acaso, de destaque no XX Encontro da ABPMC neste ano: a sustentabilidade. Ângelo falou de um aspecto da sustentabilidade que é frequentemente esquecido quando se tratam de políticas públicas – o estudo do comportamento humano e de como promover comportamentos que favoreçam não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas da espécie e do grupo, que por sua vez garantirão melhores condições de vida para todos. A área de estudos de Práticas Culturais na AC, embora ainda jovem, fornece bastante subsídio para o desenvolvimento de tecnologias que possam, enfim, nos ajudar a permanecer no mundo.
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Agradecimentos:
  • Aos profissionais entrevistados durante o evento: Profª. Martha Hübner, Profª. Ana Lúcia Ulian e Prof. Ângelo Sampaio. Todos foram muito simpáticos e solícitos em conceder um pouco do seu tempo para responder às minhas perguntas. Muito obrigada!
  • Às minhas amigas que funcionaram como meu staff jornalístico: Inis Leahy, Pétala Guimarães e Roberta Leone. ;) Valeu pela ajuda, meninas... sem vocês teria sido muito mais difícil! Infelizmente, perdemos as fotos tiradas por Inis durante o evento por problemas técnicos que fugiram ao nosso controle. Mas, de qualquer forma, a ajuda foi muito valiosa.
  • A toda a Comissão Organizadora do evento, que sempre esteve pronta a me responder e auxiliar no que foi preciso. Agradeço muito.

[Entrevista Exclusiva] - Profª Ana Lúcia Ulian (VII JAC Salvador)

Última entrevista da série feita durante a VII JAC Salvador, dessa vez com Ana Lúcia Ulian, professora aposentada da Universidade Federal da Bahia e coordenadora do Instituto Baiano de Análise do Comportamento (IBAAC). Ana falou sobre a formação de analistas do comportamento, área de interesse dos seus estudos, e da expectativa para a realização da XX ABPMC. 


Aline - Queria saber um pouco sobre a sua trajetória como analista do comportamento e sobre a sua formação. Como foi que você se aproximou da análise do comportamento e da área clínica, que é seu foco de pesquisa?

Ana Lúcia Ulian – De fato, não tive bem uma escolha como vocês estão tendo a oportunidade de ter. Me formei na Universidade Estadual de Londrina e o curso de lá foi montado por Analistas do Comportamento de Brasília, como Fred Keller, Carolina Bori e Maria Amélia Matos. O curso de Londrina era eminentemente comportamental. Nós tínhamos pouquíssimas disciplinas de outras áreas. Acabei me tornando uma Analista do Comportamento por causa da escola que eu tive.

Depois continuei estudando esta área, pela qual me apaixonei. Ela me ajuda a viver a vida, entender as coisas do mundo com o respaldo que a AC tem na filosofia do Behaviorismo Radical, que por sua vez tem respaldo da filosofia da ciência... No momento me sinto bem com esta abordagem.

A trajetória de Terapeuta Analista do Comportamento aconteceu por força da minha atividade na Universidade Federal da Bahia. A princípio eu era uma professora de princípios básicos, mas gostava muito de ler sobre a área clínica e sempre frequentava, pelo menos uma vez por ano, a reunião da atual Sociedade Brasileira de Psicologia. Na época se chamava Associação Brasileira de Psicologia de Ribeirão Preto (SBPRP) e só depois se tornou SBP.

Na SBPRP, a maioria das pessoas também era Analista do Comportamento naquela época. Isso até os anos 80, depois [a SBPRP] foi abrangendo mais. Nessas reuniões surgiu a idéia de montar uma nova associação, uma associação de terapia, mesmo porque a gente viu que começou a ficar bastante generalizado o congresso. Não só na área de metodologia experimental, que era forte, mas em outras áreas da Psicologia também. Então o Bernard Rangé e o Ricardo Gorayeb propuseram dar início a uma associação de Terapia Comportamental; e assim, naquele ano – isso tem 20 anos –, foi feita a primeira reunião da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental, como ela foi chamada na época.

O Bernard Rangé é cognitivo-comportamental, muito ligado a psiquiatras; inclusive, existem livros organizados por ele que tratam de transtornos psiquiátricos. Por isso que a ABPMC ficou com esse nome. Havia muitos psiquiatras que adotavam a abordagem comportamental em suas clínicas. A primeira reunião foi no Rio de Janeiro e só não fui nesta e em outra porque estava na época do doutorado, muito atarefada. Foi nesse contexto, na época da Associação de Ribeirão Preto, que surgiu a Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental. Com isso Analistas do Comportamento tiveram um campo maior não só para divulgar seus trabalhos, como também para discutir, se reunirem, trocar idéias e conhecimento.

Hoje em dia, participam da ABPMC uma média de 1 500 pessoas. Ela começou com 100. Eu me lembro que no segundo ano que fui, foi em Campinas. O Hélio Guilhardi tinha reservado um hotel pra fazer a reunião. Era um hotel pequeno, com um salão comum. Foram umas 400 pessoas. Ele não esperava que fosse tanta gente e teve que arrumar um galpão de última hora. Foi uma confusão! Mas enfim, foi crescendo mais a cada ano e agora, nós estamos com esta expectativa para esta comemoração de 20 anos da ABPMC.

Geralmente estas reuniões ocorrem no local onde a diretoria está. Por isto, só esteve uma vez em Londrina e outra em Brasília; e agora, ocorre aqui, mesmo sem a diretoria ser daqui. A diretoria é de São Paulo e eles toparam fazer o encontro aqui.

A – Falando da ABPMC, qual é sua expectativa para o evento deste ano quanto à apresentação de trabalhos sobre sua área, a clínica?

ALU – Agora que você me perguntou isso eu me lembrei de que fugi da primeira pergunta, quanto à trajetória como Analista do Comportamento.

Então... Sempre me interessei pela clínica, mas foi justamente na época que alguns alunos me pediram pra dar supervisão de estágio e não podia dar porque eu não sabia, não trabalhava com clínica, que se iniciou esta trajetória. Como é que eu ia dar supervisão de uma coisa que eu não fazia? Eu só falava. É aquilo que falei hoje: eu sabia “falar sobre”, mas não sabia “fazer como”. Aí resolvi, só na segunda e quinta feira à noite, ir pra clínica lá no próprio serviço de Psicologia. Atendia três clientes lá na escola mesmo. Meu caminho por esta área da clínica aconteceu por aí; muito por conta da exigência do aluno, senão talvez eu tivesse ficado na Universidade, como a maioria que acaba não tendo oportunidade de realmente ir à prática. A Universidade acaba não permitindo. Uma coisa que eu acho que é um contra-senso, mas enfim.

A - Então sua trajetória na clínica foi muito baseada na sua trajetória acadêmica, não é? [...] E sua tese de doutorado, em 2007, foi sobre a formação de analistas do comportamento. E desde então, você sabe de alguma mudança na área, se estão havendo mais pesquisas sobre isso, e se vai ser apresentado algo na ABPMC sobre o assunto?

ALU – Ah, com certeza. Cresceu muito esta área da formação. Inclusive fiquei feliz porque esse meu trabalho foi muito referenciado. Agora, na última reunião lá em Campos do Jordão, uma pessoa que eu não conhecia – de Botucatu –, disse: “Olha, Ana, eu tô usando o seu trabalho direto”. E vários outros tem usado. Isso é uma coisa boa, porque não fica na prateleira. Ele foi feito pra isso.

Então... Eu tenho observado que tem aparecido sim, na literatura. Ainda não foram abertas as inscrições da ABPMC, então não sabemos que trabalhos virão, mas eu tenho a impressão que virão trabalhos nesta área de formação, com certeza. Na área de aplicação, de estudo de caso – geralmente é o que mais aparece – e na área de pesquisa básica, porque agora, a Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental foi extinta. Nós temos agora a Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. Isso porque nas reuniões aparecia muita gente da área de Análise do Comportamento que não atuava na clínica, mas que dava respaldo importante para a clínica. Por isso que a gente precisa da pesquisa básica.

Nós, que estamos na ativa, precisamos dizer para o pessoal da básica as nossas dificuldades. E eles, que estão lá na básica, vão resolver. Vão lutar para resolver.

A – Dificuldades conceituais, não é?

ALU – Isso.

A – Hoje você está aqui, falando na JAC, e deu um minicurso sobre o assunto. Queria saber de você, que foi e ainda é uma formadora de Analistas do Comportamento, qual é o papel das JACs na disseminação e na formação dos Analistas do Comportamento?

ALU – Extremamente importantes essas reuniões. [...] Uma Jornada é um período curto que traz pessoas que podem explicar e divulgar qual é a nossa pretensão, a pretensão do analista do comportamento, que de certa forma é promover a recuperação de vidas. Eu estou falando aqui uma coisa grande demais, aparentemente, mas é isso... É uma filosofia de vida. E que na medida em que você adota uma filosofia dessas, de olhar para você mesmo e olhar para o contexto em que você vive, a probabilidade de você saber gerir sua vida de forma mais adequada existe. [É melhor] do que ficar com elucubrações... [como quando] a nossa sociedade, nossa cultura acaba incentivando as pessoas a sonhar e a criar expectativas que nunca se realizarão – quer dizer, a probabilidade é pequeníssima. Então eu acho que é muito mais pé no chão... E saudável.

A – Para finalizar, queria saber se você tem alguma dica ou sugestão pra aquelas pessoas que estão começando sua formação em Análise do Comportamento, ou mesmo pra aquelas pessoas que já são especialistas e estão começando a prática.

ALU – A dica é: participe destes eventos, porque nestes eventos você tem oportunidade de conhecer muitas pessoas, colegas, discutir assuntos. É assim que a gente aprende. Nós, serem eminentemente sociais que aprendem com os outros, precisamos dos outros para viver. E leitura, muita leitura. Não só de uma coisa. Por exemplo, a gente está aqui estudando Análise do Comportamento, mas você deve ler outras coisas, deve frequentar muitos lugares diferentes, porque a diversidade é que faz você aprender a analisar melhor os acontecimentos. Então, quanto mais conhecimento você tiver, mais liberdade você terá.

terça-feira, 26 de abril de 2011

[Entrevista Exclusiva] - Profª Martha Hübner (VII JAC Salvador)

Mais uma entrevista exclusiva para o Comporte-se, desta vez com a Profa. Martha Hübner, presidente da ABPMC e referência nos estudos em Comportamento Verbal e Educação no país. Martha falou sobre o fortalecimento da Análise do Comportamento no Brasil e no Nordeste, que sediará o próximo encontro anual da ABPMC. Foi um prazer entrevistá-la, e o resultado vocês podem ver a seguir.

Aline - Para começar, eu gostaria que você falasse um pouco sobre sua experiência como presidente da ABPMC. Quais foram seus principais desafios e conquistas?

Martha Hübner - Ótima pergunta. A ABPMC, até então, era muito bem sucedida em fazer grandes eventos: grandes congressos e congressos muito organizados. Ela era um fórum de reunião dos Analistas do Comportamento. Faltava uma maior inserção junto aos órgãos de fomento à pesquisa e organização de eventos científicos. Faltava uma maior inserção política no país e outros projetos que fossem além da organização do evento anual.

A gente deu início a uma representação política oficial; ou seja, todas as questões relativas à Análise do Comportamento no Brasil, fossem elas polêmicas, fossem críticas, fossem rumos a serem definidos, a ABPMC tomava uma posição oficial e divulgava isso em cartas abertas. Assim, a ABPMC passou a nos representar. Junto aos órgãos de fomento, já havia uma pequena inserção desde 2003 do pessoal de Londrina, quando a Zilá entrou para o CNPQ. Depois nós tomamos isso como uma prática sistemática e então, todos os anos os órgãos de fomento (CNPQ, FAPESP e CAPES) apóiam oficialmente a ABPMC.

E em nossa gestão, com grupo composto por Denis, Roberto, Sônia Meyer, Ricardo Martone, Roberta Kovac e eu, a ABPMC começou a desenvolver projetos para à comunidade, então chamados de ABPMC Comunidade. Eles tem duas vertentes: um foi ligado a transtornos psiquiátricos, que já realizou um evento em Foz do Iguaçu, e outro ligado à educação, que se chama “10 na vida e na escola”. A professora Mirian Marinotti já foi a Foz do Iguaçu também, e ontem houve a palestra na Pestalozzi na área de autismo. Esta é uma ação importante: a ABPMC durante o ano já está realizando outras atividades ao longo do ano, além do congresso. As publicações, já vem de iniciativas anteriores. Então, na minha presidência, foi principalmente a questão da representação.

A - Como surgiu a idéia de realizar junto a XX ABPMC o I Encontro Sul-Americano de Análise do Comportamento e porque a escolha do Nordeste para sediar o evento?

MH - Vamos começar pelo Nordeste. A ABPMC representa nacionalmente a Análise do Comportamento, mas ela tem se centrado muito, geograficamente, no Sudeste, até pela sua própria origem, pelo número de sócios e membros frequentadores do congresso serem oriundos do Sudeste e Sul do País, sobretudo do Sudeste.

Então, a gente começou a sentir necessidade de a ABPMC caminhar pelo Brasil. Ela já tinha ido ao estado do Paraná, que ainda é na região Sudeste-Sul, e a gente precisaria e gostaria de vir ao Nordeste. Nada melhor do que Salvador na Bahia, que é um dos estados que tem lutado bastante pela Análise do Comportamento, feito grandes eventos, tem organização para isso. Então, é uma grande honra, uma grande alegria, trazer a ABPMC para o Nordeste. Que esta seja a primeira de muitas.

A questão do Sul-Americano é porque se configurou que o Brasil tem uma posição de destaque no mundo, em relação à Análise do Comportamento, número de participantes e ao trabalho que vem sendo feito. Na América Latina, nós já temos vários outros países que são poderosos também em relação à Análise do Comportamento, mas o Brasil é o líder, então a gente achou melhor assumir esta liderança e fazer o primeiro encontro Sul-Americano com o apoio dos nossos hermanos.

Foi uma iniciativa em que a gente consultou primeiro estes colegas de outros países. Todos eles concordaram. Então a gente acha que é uma forma de consolidar esta liderança e ao mesmo tempo, aumentar o intercâmbio e aumentar a própria Análise do Comportamento na América do Sul.

A - Em sua opinião, qual a importância das JACs no Brasil e também aqui no Nordeste, especialmente aqui em Salvador, na difusão do conhecimento em Análise do Comportamento? Qual efeito acha que elas têm exercido sobre a comunidade de Análise do Comportamento no Brasil?

MH - Fundamental. Eu acho que elas tem exercido um papel preponderante na difusão da Análise do Comportamento. É como se elas fossem pilares, que em cada ponto onde surgem, ajudam a sustentabilidade da Análise do Comportamento.

Eu mostrei dados hoje, você viu na apresentação, que mostram que quando a gente soma o número de pessoas que frequentam as Jornadas de Análise do Comportamento em todo o país você tem quase 4000 Analistas do Comportamento se reunindo. Isto é muito forte politicamente e chega a ser do tamanho da ABA, que tem 30 anos a mais do que a gente.

Esse modelo [das JACs] tem se revelado um modelo exclusivamente brasileiro. Não tenho visto esta proposta em outros lugares do mundo. O que vejo em outros lugares do mundo são divisões regionais, mais institucionalizadas, que são menos ágeis e menos dinâmicas do que estes modelos das Jornadas. Então eu acho o modelo das Jornadas de Análise do Comportamento importante, fundamental, ágil, e é um dos pilares da disseminação da abordagem. Sem estes encontros, a disseminação da Análise do Comportamento estaria muito aquém. Veja aqui, em Salvador. A JAC de Salvador é a segunda maior do país e tem se configurado como um polo no Nordeste. A primeira, pioneira, é a de São Carlos.

A - Para finalizar, você poderia deixar uma dica ou um conselho para os interessados em Análise do Comportamento?

MH - Em um primeiro momento, eu acho que é importante se filiar como sócio à ABPMC. Sem nenhum interesse financeiro aí. É como a Sigrid Glenn coloca: se você quer que um grupo se mantenha, você tem que fortalecer este grupo. Um dos meios de fortalecê-lo, é a associação; pertencer àquele grupo, aquele clã. A ABPMC é uma sociedade científica sem fins lucrativos, que só sobrevive graças à anuidade e seus sócios.

E no Brasil, precisamos ter uma tradição que a gente já vê em outros lugares do mundo, que é uma fidelidade a esta associação. Em nosso temos tido muita instabilidade: as pessoas se associam por causa do congresso e depois não. E como a ABPMC hoje faz muito mais do que apenas o congresso, tem se tornado mais atrativo para os sócios. Essa é uma dica.

A segunda é: estudem, estudem, estudem. A Análise do Comportamento é rica, única e está em constante construção. Então, eu digo que é como ver um bom filme. É um prazer, uma alegria imensa você poder estar sempre estudando a Análise do Comportamento. E sempre mantenha um pé na ciência e um pé na aplicação. Eu acho que você ter sempre estas duas formações, é o ideal. São estas as dicas.