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segunda-feira, 28 de maio de 2012

[Entrevista Exclusiva: Olga Mitsue Kubo e Ana Lúcia Cortegoso] - Eventos Regionais em Psicologia Comportamental

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica pelo Prof. Dra. Olga Mitsue Kubo, durante a XI JAC UFSCar. O evento foi promovido pela UFSCar- Universidade Federal de São Carlos, entre os dias 20 e 22 de abril de 2012.



Olga Mitsue Kubo é professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), lotada no Departamento de Psicologia desde 1999. Possui graduação em Bacharelado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1977), graduação em Bacharelado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1980), graduação em Formação de Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1981), especialização em Análise e Programação de Condições de Ensino pela Universidade Federal de São Carlos (1985), mestrado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1986) e doutorado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1989). Foi professora adjunta no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (SP), no período de 1989 a 1999. Foi vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Educação Especial e chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. É professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia, na Linha de pesquisa sobre Análise do Comportamento e processos organizacionais e de trabalho. Tem supervisionado estágios de alunos de graduação em Psicologia no campo da clínica com Análise de Comportamento (processos psicoterapêuticos) e no campo das organizações de ensino, desde 2000. Como área de conhecimento trabalha com seguintes fenômenos: processos comportamentais nos processos de aprendizagem e de ensino e nos processos terapêuticos. 

A entrevista contou com contribuições da professora Ana Lúcia Cortegoso, professora associada do Departamento de Psicologia da UFSCar. 

Você acredita que eventos regionais tem contribuído para a identificação de campos de atuação e áreas de conhecimento na psicologia? Se sim, como eles tem feito isso? Se não, que outros acontecimentos favorecem isso? 

Olga Kubo: A princípio a resposta é sim, eu acho que são úteis. Mas é como uma decorrência que vai depender muito do envolvimento das pessoas e do quanto elas vão conseguir extrair de útil e produtivo pras suas decisões. Tem algo que a ajuda muito que é o fato de você conseguir juntar pessoas que vem de diferentes lugares. Tem uma vantagem também que eu acho que o intercâmbio entre os alunos é mais fluida e natural. Acho que isso facilita por que eu estou pensando em eventos de alunos. 

Os grandes congressos fazem isso, mas acho que eles giram muito em torno dos figurões. Eu acho que a JAC tem algumas vantagens como, por exemplo, eu acho que a aproximação de alunos fica legal. Acho que as JAC’s não deveriam ser uma miniatura dos congressos. Acho que pra potencializar esta difusão e identificação de novas áreas, eu acho que os alunos deveriam ter um momento em que vocês conversassem entre vocês sem a presença de uma figura que fosse lá o “pai” ou a “mãe” de vocês da análise do comportamento. 

Junto com o aproveitar que tem pessoas mais velhas que estão aí ajudando a pensar o que e como está se fazendo análise do comportamento, também deveria haver uma marca de vocês nestas jornadas. Que vocês se juntasse para saber “Meu, como está a análise do comportamento lá em Bauru, Santa Catarina?” por exemplo. Pra aproveitar isso como um diferenciador de um mini-congresso. Ele não é um mini-congresso. Ele está muito com a cara de um, mas acho que não deveria ser só isso. 

Percebam que vocês não têm professores aqui. Alguns professores passam por aqui, realizam suas atividades e vão embora pensando que devem ser atividades do tipo “primeiros passos” justamente pelo fato de essas jornadas serem organizadas por alunos. Se é um congresso de vocês, então façam de vocês. 

Ana Lúcia Cortegoso: Na economia solidária, muito comumente esses eventos produzem oficinas que são as próprias pessoas das incubadoras trocando experiências do que elas fazem. Este formato de oficina em que se tem um produto pode ser um exemplo do que a professora Olga está falando. 

Olga: Outra coisa que vocês precisam criar é uma oportunidade de conhecer os alunos de graduação e pós-graduação de outros cursos. Vocês tem uma ficha de avaliação do evento todo, mas é necessário também ter informações dos interesses das pessoas que estão aqui. 

Ana Lúcia: Que é uma coisa que o pessoal do Fórum de Psicologia faz: os eventos que são do Fórum tem todas essas modalidades. As atividades variam desde as grandes palestras até encontros de alunos para comentar o que estão fazendo. Ele se unem pra conversar e tirar coisas. 

Olga: Isso. Por meio de perguntas do tipo “O que você está fazendo?” e dar a oportunidade de falar é que é possível gerar campo para alguém que nem imaginava que alguém poderia trabalhar com aquilo. Aí sim fica concreto. Se não, as pessoas vão depender de um figurão (ou uma figurinha) para dizer como se trabalha. 

Ana Lúcia: Aí eventualmente um outro tipo de atividade em que as pessoas sejam provocadas a dizer “A partir do que você ouviu, o que você acha que dá para fazer? Como você poderia usar isso? Onde há chances de ampliar a atuação que a gente já conhece?” 

Olga: Aí eu acho que fica efetivamente um fórum que você consegue ampliar a perspectiva, não só de áreas do conhecimento em projetos de pesquisa, mas também de intervenção sabendo coisas do tipo “O que as pessoas estão fazendo? O que chama atenção na Análise do Comportamento? O que elas têm como expectativa?” até pra se pensar a JAC do ano que vem pautada em demandas que aparecem agora.


[Entrevista Exclusiva: Maria Helena Leite Hunziker] - Diálogos da Análise do Comportamento com outras áreas

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica pela Prof. Dra. Maria Helena Leite Hunziker, durante a XI JAC UFSCar. O evento foi promovido pela UFSCar- Universidade Federal de São Carlos, entre os dias 20 e 22 de abril de 2012.




A professora Maria Helena Leite Hunziker é licenciada, bacharel e psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1973 e 1974), mestre, doutora e livre-docente em psicologia experimental pela Universidade de São Paulo (1978, 1982 e 2003, respectivamente). Pós-Doutorado no Reed College - USA (1993-1994) e na Universidad de Sevilla - Espanha (1999). Foi docente na Clínica do Comportamento (Campinas), na Faculdade de Psicologia da PUC – São Paulo e na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP (Departamento de Farmacologia). Atualmente é Professora Associada na Universidade de São Paulo (Instituto de Psicologia - Departamento de Psicologia Experimental), onde exerceu cargo de coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia - área de concentração Psicologia Experimental (1994-1997) e de chefe do departamento (2004-2008). É orientadora nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia Experimental (PSE) e em Neurociências e Comportamento (NeC), e Pesquisadora do CNPq (2A). Coordena o Laboratório de Análise Biocomportamental (www.usp.br/labc), onde desenvolve pesquisa básica utilizando prioritariamente animais como sujeitos. Suas linhas de investigação sobre o comportamento abrangem os temas desamparo aprendido e variabilidade operante, inserindo-se nas grandes áreas denominadas Controle Aversivo e Análise Biocomportamental. 

Nesta edição da JAC vem buscado dialogar com outras áreas, por exemplo, com a área de economia comportamental. Também noto isso com o trabalho desenvolvido pelo seu laboratório que analisa fenômenos observados nas neurociências sob o viés da análise do comportamento. Eu gostaria fazer uma colocação e saber em que pontos você concorda e discorda dela: está havendo um esforço de analistas do comportamento em se comunicar com outras áreas. O que você acha? 

Olha,eu vou dar uma opinião bem minha. A Análise do Comportamento passou por um período muito intenso, no qual precisou se firmar como uma ciência de características próprias, uma vez que seu objeto de estudo difere do objeto de estudo da Psicologia Tradicional. Nós não estudamos a Mente, mas sim, o Comportamento.

Eu acho que ela é uma das abordagens que estão relativamente fortes, apesar de ainda não ser "prioritária", uma vez que é apoiada por uma pequena minoria. Então vejo que agora a Análise do Comportamento está se propondo a conversar com outras áreas, porque é praticamente impossível se propor a estudar o comportamento sem realizar este trabalho multidisciplinar com outras ciências que também se propõe a estudar o comportamento.

Há pouco tempo tivemos uma palestra na USP,  ministrada por um geógrafo e, queira ou não, a geografia é uma ciência que estuda o homem se comportamento em seu ambiente. Ela estuda o ambiente social se desenvolvendo de acordo com o ambiente físico e vice-versa, o que tem tudo a ver com a Psicologia; mas, em geral, não conversamos com esta ciência. Para quem tem interesse de trabalhar com práticas culturais, ciências como a geografia, a sociologia e a antropologia são muito importantes.

Atualmente tenho uma aluna de mestrado, graduada em Psicologia e Economia, que também estuda Economia Comportamental. O trabalho dela ressalta a importância da junção entre as duas ciências e as dificuldades encontradas, porque como cada área tem sua terminologia e forma de caminhar, no começo o diálogo não é fácil. Ninguém quer abrir mão de sua linguagem. Entretanto, acho que nós temos muito a contribuir com os economistas, e os economistas, por sua vez, tem muito a contribuir conosco.

Na parte mais  biocomportamental  (que é a há área que trabalho com neurofisiologia, farmacologia, entre outras, acho que a tentativa de junção já existe a mais tempo, mas ainda há uma resistência muito grande em função do modelo médico tradicional, o qual propõe que as causas de certos comportamentos são internas ao organismo, enquanto a Análise do Comportamento, tende a atribuir uma explicação diferente. Algumas pessoas (analistas do comportamento) tem medo de que possamos estar dando um passo atrás ao juntar os temas, correndo o risco de cair em explicações "internalistas".

O que eu vou falar hoje a tarde envolve explicar porque isso não é verdade e como nós podemos contribuir com as neurociências, bem como elas podem contribuir conosco. Podemos muito bem continuar uma ciência autônoma, sem perdermos nossas características próprias, ganhando força e fornecendo dados. Acho que tem mais coisas com as quais a Análise do Comportamento dialoga, como a propaganda, o Marketing, entre outros. Mas eu acho que precisa ainda mais.

Os eventos regionais tem parte nesta aproximação entre áreas que está acontecendo? 

A primeira coisa que é significativa para mim é ver como a análise do comportamento está sendo partilhada em diferentes lugares. Então este contato com a audiência (alunos, profissionais...) está sinalizando que coisas estão interessando mais e que coisas estão motivando as pessoas a irem atrás de novas informações. E tem sido muito bem ver como há pessoas nos mais diferentes lugares que estão com o interesse de pesquisar e de conhecer dessa perspectiva de mundo. 

Os eventos também cumprem uma parte social muito importante por que em parte já conhecemos grande parte das pessoas que iremos encontrar. Uma conversa em um almoço ou em um cafezinho também são muito importantes neste sentido, por que você fica sabendo de pessoas interessadas em trabalhar em temas e de projetos que estão acontecendo. Mas, para mim, o que é mais crítico são os interesses que têm sido mostrados pelo pessoal que está organizando e participando. 

Você acha que nós, analistas do comportamento, somos acadêmicos demais? 

Eu acho que nós cometemos uma falha que eu até entendo o motivo, mas acho que precisa ser revista: nós vendemos nosso peixe muito mal. Na hora que nós não vamos falar para uma plateia que não é muito familiarizada com a área, acho que precisamos usar uma linguagem mais acessível, sem muito rigor de linguagem, por que senão fica uma coisa muito hermética. 

Talvez este nosso hermetismo atrapalhe na hora da troca com outras áreas, então eu acho que precisaríamos nos preocupar mais em se mostrar para os “não analistas do comportamento”. Eu participei de uma banca sobre marketing na ECA mostrando como as várias abordagens da psicologia contribuíram para o marketing e, na hora que ela falou do famoso behaviorismo, eram aquelas coisas horríveis que a gente está careca de ver: mecanicista, simplista. Eu passei a arguição inteira falando “não é muito bem por aí” e apresentando os motivos. Quando perguntei “de onde vem estas informações” eles disseram “olha, os livros de marketing apresentam desta forma”. 

O que a gente tem que fazer e que eu tenho conversado com o meu grupo é nós temos que publicar coisas mais acessíveis pra que as pessoas saibam o que estamos fazendo. Um aluno meu recentemente publicou um artigo em uma revista leiga que não é considerada uma publicação científica, mas este esforço é importante para mostrar nosso trabalho. É importante garantir que estas publicações com vocabulário simples estejam sendo feitas do jeito certo, baseadas em dados confiáveis.

[Entrevista Exclusiva: Isaías Pessotti] - Jornadas de Análise do Comportamento

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica pelo Prof. Isaías Pessotti, durante a XI JAC UFSCar. O evento foi promovido pela UFSCar- Universidade Federal de São Carlos, entre os dias 20 e 22 de abril de 2012.


O professor Isaías Pessoti possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1955), mestrado em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1974) e doutorado em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1969). Também é Mestre em Filosofia e Metodologia das Ciências, pela Universidade Federal de São Carlos (2004). Professor Titular, por concurso público de títulos e provas: do Centro de Educação e Ciências Humanas, da Universidade Federal de São Carlos (1982); de Psicologia Educacional da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP (1983); de Psicologia (Médica), da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (1984) e da cátedra de Metodologia Científica da Universidade de Urbino (Itália), em 1997. Tem experiência na área de História da Psicologia, com ênfase em História das Ciências, atuando principalmente nos seguintes temas: loucura, psicopatologia, aprendizagem, e historia da psicopatologia. 

Como tem sido a sua participação nos eventos regionais? 

Muito mais intensa do que era antes. Há uma proliferação de JAC’s por aí que é muito bonita, muito promissora. Agora eu nunca pensei que tanta gente pudesse se juntar tantas vezes para uma área que, afinal de contas, “não é a psicologia” ou o jeito de fazer psicologia. Isso realmente expandiu demais e São Carlos é um centro de irradiação e de vanguarda nas figuras da Deisy, Júlio e outros. Eles são figuras de importância internacional. 

Eu conversava hoje no almoço que as graduações hoje formam cada vez piores profissionais por que a graduação não rende memorial e não acrescenta em currículo para ninguém. Chega a ser perda de tempo do ponto de vista de alguns professores. As universidades federais ainda estão de uma certa forma livres desta supervalorização e da pesquisa publicada o que garante igual ênfase na pós e na graduação. 

Você acha que os eventos regionais tendem a favorecer a aplicação da análise do comportamento em outros contextos? 

Sim, por que nestes eventos vocês juntam o filósofo, o crítico, o clínico, o experimentador com animais. Junta gente de todas as maneiras de trabalhar em psicologia. Não é “JAC sobre alguma coisa”. Não, aqui eu venho falar de loucura, por exemplo. Então eu acho que propicia encontros de posições diferentes, seja na mesma área, seja de áreas diferentes. Isso em qualquer congresso, mas estes particularmente por que o pessoal está acertando em não ficar muito sectário na programação com uma preocupação constante com os principiantes. Isso é muito positivo por que propicia a vitalidade das ideias.

[Entrevista Exclusiva: Alexandre Ditrich] - Análise do Comportamento e Cultura

Entrevista concedida ao Comporte-se: Psicologia Científica pelo Prof. Dr. Alexandre Ditrich, durante a XI JAC UFSCar. O evento foi promovido pela UFSCar-  Universidade Federal de São Carlos, entre os dias 20 e 22 de abril de 2012. 




O professor Alexandre Diitrich possui graduação em Psicologia pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (1999) e doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (2004). Atualmente é professor efetivo da Universidade Federal do Paraná. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em História da Psicologia e Teorias e Sistemas em Psicologia, atuando principalmente nos seguintes temas: behaviorismo radical e análise do comportamento, epistemologia da psicologia, história da psicologia, ética, política e psicologia. Membro do Grupo de Trabalho "Investigações Conceituais e Aplicadas em Análise do Comportamento" da ANPEPP (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia). 

Há diversos trabalhos sendo realizados pelo Brasil que visam mudança de práticas culturais, sejam eles sob o viés da análise do comportamento ou não. Quão capacitados nós, analistas do comportamento, estamos para atuar como planejadores de contingências para estas mudanças? 

A palavra “capacitado” é muito ampla. Ela pode, em primeiro lugar, dizer respeito a uma competência técnica para auxiliar a modificação do comportamento das pessoas em um nível tecnológico amplo. Supostamente, nós temos as armas conceituais e técnicas para auxiliar e produzir mudanças em práticas culturais em ambitos sociais que são relevantes, então nós temos competência neste sentido. Tem uma coisa que o [Professor Silvio Paulo] Botomé sempre fala é o seguinte, nada nessa vida se mede 8 ou 80, sim ou não. Quer dizer, competência também se dá em torno de graus e eu acho que a gente tem um grau interessante de competência técnica e conceitual para fazer aquilo que a gente quer. Há uma ciência e uma teoria que apoiam isso com muita consistência. 

Tem uma questão a parte desta que eu não consigo deixar de analisar também que é a questão ética. Isto é, quais são os objetivos que a gente quer produzir quando a gente aplica a análise do comportamento e em que medida as pessoas que estão envolvidas nesta transformação do comportamento estão também envolvidas no planejamento dos objetivos que a gente quer produzir ali. 

Como avaliar se estes comportamentos que estamos querendo promover são proveitosos para uma cultura? 

Se um comportamento é “proveitoso para uma cultura” depende muito da ótica de análise que a gente vai utilizar. Mesmo que a gente utilize parâmetros relativamente consensuais como “sobrevivência de uma cultura” ou mesmo “benefícios para uma cultura” a gente não tem como ter uma previsão absoluta de que aquilo vai colaborar de uma maneira relevante para isso. 

No fim das contas, acho que a gente acaba selecionando objetivos de menor monta, de mais curto prazo que é, por exemplo, no caso de vocês [da economia solidária], fazer com que aqueles camaradas da economia solidária (que é considerado como um movimento econômico interessante logo de saída) consigam ser bem sucedidos naquilo ali para que aquela prática cultural específica se perpetue. A gente pode fazer isso partindo do pressuposto de que aquilo tem uma contribuição de longo prazo, até para espalhar aquele modelo econômico para a sobrevivência das culturas, mas não há como ter uma absoluta certeza em relação a isso. 

Qual foi a sua motivação pra começar a trabalhar com cultura? 

Na minha graduação, me identifiquei em um primeiro momento com fenomenologia. Em um segundo momento com psicologia sócio-histórica (Vygotsky, Marx) e isso foi importante por que, quando eu me identifiquei cientificamente com a análise do comportamento, eu vi uma solidez ali. Pensei “aqui tem ciência e tem gente fazendo ciência”. Mas eu não via, pelo menos aqui no Brasil e depois constatei que havia poucos fora daqui também, exatamente este tipo de reflexão ética e política que eu acho que lida com consequências de mais longo prazo e achava que era importante que os analistas do comportamento fizessem. De uma maneira extremamente pretensiosa, eu que nunca tive um bom treinamento como analista do comportamento fui me meter a falar sobre isso e fui bem recebido pela comunidade dos analistas do comportamento. As pessoas eventualmente comentam, gostam e dizem que pode ser uma contribuição legal. Assim o trabalho foi evoluindo e, como eu escolhi o tema ética e política, a ligação com a cultura foi quase que automática. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Dentre as condições que mantêm o comportamento de consumir está a constante sinalização de potenciais reforçadores.

Nenhuma instância faz isso de forma mais eficiente do que a grande mídia.

Ela é responsável pela apresentação das condições positivas de compra de um determinado produto. O grande problema é quando ela o faz de forma parcial, incompleta ou, eventualmente, não correspondente (mais conhecido como "mentirosa").

Este assunto é ainda mais delicado quando um produto em especial é voltado para uma criança. Elas são uma condição constante para o comportamento de consumir dos pais ou responsáveis. 

Na grande maioria das vezes a criança não é ensinada a pensar nas consequências a médio e longo prazo daquele comportamento. Isto resulta em um comportamento voltado para as consequências mais imediatas.

Por exemplo: Um almoço com arroz, feijão, carne e salada começa a competir com um almoço composto por chips, pães e bolachas. As consequências a curto prazo (sabor agradável do alimento) prevalecem sobre as consequências a longo prazo (desenvolvimento saudável).

Além de itens alimentícios também podemos citar os tecnológicos e de estética, entre outros.

Quando não bem estabelecido um horário, os itens tecnológicos podem concorrer com todas as atividades de uma criança ou adolescente. As consequências a longo prazo são um desinteresse por assuntos acadêmicos e baixo desempenho.

Quando não controlados, os itens de estética podem causar danos físicos como é o caso do uso de cosméticos e procedimentos artificiais para tratamento de pele e cabelo. Uma possível consequência a longo prazo é a obsessão pela aparência.

Quem consome estes produtos e serviços são os pais/responsáveis. Para que que eles possam controlar o uso daqueles itens com eficiência, é necessário que eles se mantenham informados sobre as possíveis consequências a médio e longo prazo e que o comportamento também ocorra sob controle delas.

Em um artigo publicado pela Dra. Noemia Perli Goldraich em "Carta Maior" (www.cartamaior.com.br), a autora diz o seguinte:

"Há 40 anos trabalho como Nefrologista Pediátrica. Não recordo de ter identificado, antes dos anos 90, um único caso de pressão alta em criança que não estivesse relacionada a algum problema grave como doença nos rins, nas artérias renais, na aorta ou a tumores raros."

Ela trata no artigo sobre a substituição de itens saudáveis do cardápio infantil por itens pré-preparados, congelados, embutidos e predominantemente industrializados. No artigo ela aponta a enorme influência que a mídia tem nesta substituição.

"Sem entender o que leem ou sem ler o que informam os rótulos, os pais também se seduzem pelos coloridos sinais de adição a anunciar + ferro, + cálcio, + vitaminas. Na verdade, estão comprando gordura, sal e açúcar, crentes de que seus filhos estão sendo bem alimentados."

Tendo em vista as possíveis repercussões deste consumo voltado para crianças, o Instituto Alana (www.alana.org.br) desenvolveu o projeto Criança e Consumo com o intuito de apresentar as possíveis repercussões deste consumo voltado para crianças bem como formas de contorná-lo e denunciá-lo quando feito de forma imprópria.

O instituto estabelece uma condição para mudança de práticas culturais baseada no conhecimento acumulado na área. Funciona como intermediador entre o consumidor e o poder público, o que diminui o custo de resposta para a mudança dessas práticas.

Para discussão:
- Trabalhar comportamento governado por regras e comportamento governado por contingências;
- Trabalhar controle por consequências a médio e longo prazo.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pesadelos de consumo

Gostaria de abrir este post com as seguintes perguntas:

- Você precisa de todos os bens materiais que possui?
- Você precisa de todos os serviços que solicita?
Se você estiver em sua casa, basta olhar ao redor para fazer uma breve análise de suas posses e classificá-las de acordo com a necessidade que você tem delas.

Normalmente, os itens de menor frequência de uso estão em prateleiras altas de difícil acesso e os itens de maior frequência de uso estão ao redor do local onde você permanece a maior parte do tempo.

Alguns destes itens mudam com uma certa frequência. Um exemplo deles é o celular: alguns meses após sua compra, há uma versão mais nova daquele aparelho. Isto é conhecido por obsolescência programada. A garantia de seu celular expira e seu conserto se torna mais custoso do que sua troca.

Para onde vão os celulares?


Acredito que não seja novidade que os celulares viram lixo e seus compostos eletrônicos são dificilmente reaproveitados ou reciclados. Isto faz com que compostos nocivos sejam liberados no ambiente causando complicações já conhecidas nossas (contaminação de solo, lençóis freáticos, acúmulo de substâncias na cadeia alimentar, entre outros).

Mas, como estamos falando de comportamento humano, vamos tentar entender como este processo de obsolescência programada pode afetar o comportamento de indivíduos e/ou práticas culturais.

Para começo de conversa, acredito que um aspecto que deve ser levado em conta são as propriedades discriminativas dos estímulos antecedentes que tem maior chance de controlar nosso comportamento.

Quais são elas?

Primeiro, vamos pensar em "porque" compramos um celular.

Compramos um celular por que há celulares à venda.

Por mais óbvio que isso possa parecer, há um motivo de estar na lista: a presença de determinados itens no mercado pode ou não fazer com que surja uma demanda para a obtenção destes itens. Estamos de acordo?

Os celulares criaram uma demanda. Os pagers, nem tanto.

O que mais pode sinalizar que "comprar um celular" é adequado?
  1. Uma solicitação de pessoas (pais, responsáveis, chefes, amigos, entre outros) para a obtenção de um celular; 
  2. Atividades (sociais, de estudo, de trabalho) que podem ser realizadas com o auxílio de ferramentas oferecidas pelo celular. 
Além disso, o que deve ser levado em consideração para "comprar um celular"?
  1. Recursos financeiros necessários e disponíveis para realizar a compra; 
  2. Outros meios de comunicação disponíveis bem como propriedades de seu alcance (quantas pessoas e que área são abrangidas por estes meios de comunicação, entre outros); 
  3. Recursos que os diferentes tipos de aparelho disponibilizam; 
Apenas listo aqui alguns exemplos de propriedades das condições antecedentes daquele comportamento.

Convido agora vocês leitores a refletirem sobre a seguinte questão: quando essa demanda surgiu? Celulares eram itens de luxo, hoje são aparelhos triviais que são utilizados, na maior parte do tempo, para cumprir diferentes funções que não apenas "realizar chamada de voz".

sinalizadores de consequências reforçadoras cada vez mais evidentes para o comportamento de comprar um celular uma vez que há um número cada vez maior de pessoas com celular frequentemente evidenciando estas consequências. Além disso, as consequências do "comprar um celular" estão frequentemente na mídia.

mais pessoas apresentando mais modelos e evidenciando mais as consequências. A partir de um certo ponto, "não ter um celular" passou a ser prejudicial.

Podemos distinguir então duas classes de comportamentos descritas a partir da mesma resposta ("comprar um celular").
  1. O comportamento mantido pelas consequências potencialmente reforçadoras (operação de reforço positivo). 
  2. O comportamento mantido como forma de evitação às consequências aversivas (operação de reforço negativo). 
Faço referência aos celulares, mas aponto que é possível atribuir a mesma análise (ou análises parecidas) a outros itens, principalmente tecnológicos.

Eu havia me proposto a analisar problemas que vão além da esfera ambiental, e vou começar a fazê-lo agora. Não vou terminar de fazê-lo neste post, então espero que os colegas me ajudem a enriquecer o debate.

Gostaria que este post se tornasse um fator de motivação por mostrar elementos aos quais normalmente não temos acesso para a análise de uma contingência muito complexa que é a do consumo de celulares. Convido-os a assistirem o trailer de 2'48'' sobre a extração de minérios para a produção de celulares chamado "Blood in the Mobile" com legendas em espanhol (porém de fácil compreensão).


O documentário se propõe a apresentar elementos da cadeia de produção que não são discriminativos para os consumidores no momento da compra. Além de temporalmente e espacialmente distantes de onde o comportamento ocorre, não há alterações imediatas entre a apresentação da resposta de comprar o celular e o desenvolvimento do trabalho compulsório naquela região, o que dificulta o consumidor perceber que há uma relação entre os dois eventos. Nossa prática usual de consumo está sob controle de antecedentes e consequências mais próximos ao nosso comportamento. 

De acordo com Cortegoso (2008), para que esses elementos sejam percebidos como relacionados entre si, é necessário que haja uma explicitação dos elementos das contingências em vigor a curto e longo prazo. Isso pode ser o primeiro passo para tentativas de alterar a probabilidade de ocorrência de determinado comportamento.

Entretanto, um dos fatores que dificulta a ocorrência de comportamentos, também mencionado pela autora, é o custo de resposta. Por exemplo, consumir produtos orgânicos pode ser pouco viável se houver necessidade de ir até a casa do produtor para adquiri-los, mas pode ser mais provável se eles estiverem à exposição nas prateleiras do mesmo supermercado no qual você faz compras regularmente.

No caso do celular, há possibilidades, por exemplo, de manter contato por outros meios de comunicação, entretanto isto pode exigir a reestruturação de organizações inteiras sem a garantia de que os outros meios de comunicação não apresentem problemas similares. Ou seja, qualquer medida do tipo vai completamente contra o desenvolvimento econômico do país, e isso, convenhamos, é um belo custo de resposta.

A proposta de Serge Latouche de decrescimento, tendo em vista os problemas econômicos que podem ser ocasionados por medidas drásticas no consumo, faz uma distinção entre "decrescimento" e "crescimento negativo". Ele afirma que a necessidade de agora não seria destruir o que já foi construído, mas sim perceber que o que já foi construído é suficiente para muito mais do que pensamos que é. Em entrevista dada ao jornal do MAUSS, ele afirma:

"Uma lógica de crescimento [econômico] e um projeto de decrescimento são incompatíveis, mas o projeto de decrescimento visa fazer crescer a alegria de viver, restaurando a qualidade de vida (um ar mais sadio, água potável, menos estresse, mais lazer, relações sociais mais ricas etc.)."

Para Mance (2002) consumir de forma responsável consiste em: 

"[...] consumir bens ou serviços que atendam às necessidades e desejos do consumidor, visando: a) realizar o seu livre bem-viver pessoal; b) promover o bem-viver dos trabalhadores que elaboraram, distribuíram e comercializaram aquele produto ou serviço; c) manter o equilíbrio dos ecossistemas; d) contribuir para a construção de sociedades justas e igualitárias. "

O consumir responsável é aquele que favorece a felicidade e a liberdade de uma comunidade, e não que os aprisiona em minas e nos torna escravos de algo que tem data marcada para ficar obsoleto.

Referências:

CORTEGOSO, A. L. Consumo ético e responsável na Economia Solidária: compreensão e mudança de práticas culturais. Em Cortegoso, A. L. e Lucas, M. G. (Organizadores) Psicologia e economia solidária: interfaces e perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008, pp. 165-180.

Jornal do Periodico del MAUSS, Entrevista com Serge Latouche. Disponível em <http://www.jornaldomauss.org/periodico/?p=1609>

MANCE, Euclides André. Consumo solidário. 2002b. Disponível em: <http://www.solidarius.com.br/mance>

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Sustentabili...o quê?


Há sérios equívocos no uso da palavra "sustentabilidade", sabia?

Comercialmente, esta palavra é imediatamente associada a alguns estímulos que remetem ao meio ambiente. Usualmente, o conjunto de conceitos que fomenta a idéia de sustentabilidade é meramente ambiental: ser sustentável significa se comportar de forma ecologicamente correta.

Por exemplo, de acordo com algumas organizações, ser sustentável significa parar de imprimir papel para contas ou deixar de entregar sacolas plásticas descartáveis para transporte de produtos.

Ótimo, mas por que só isso não basta?


Simples, um comportamento é considerado sustentável quando ele permite a manutenção de uma cultura utilizando recursos de forma a não prejudicar seu desenvolvimento e de seus indivíduos a curto e longo prazo.

Isso envolve NÃO SÓ preservar o ambiente, mas também criar condições para fortalecer práticas que favoreçam o desenvolvimento daquela cultura e retirar práticas que o prejudicam. É essencial, então, que sejam criadas certas condições de ensino para que práticas adequadas sejam ensinadas para outros membros.

Para que uma comunidade seja sustentável é necessário apenas que ela sobreviva?

O que Skinner (1953) afirma é que, simplesmente levar em consideração a "sobrevivência" de culturas pode não ser o melhor critério para avaliá-la. Há outros indicadores como, por exemplo, felicidade, liberdade, saber e saúde de seus membros.

Serge Latouche¹ afirma que há um equivoco muito grande em mensurar o desenvolvimento de um país simplesmente por seu Produto Interno Bruto (PIB) per capta. Ao utilizar este índice, estamos reduzindo o bem estar de uma nação àquilo que é economicamente mensurável.

Levar em consideração apenas a sobrevivência de uma cultura (ou de um conjunto de práticas) e utilizar índices parciais para avaliar seu desenvolvimento seria realizar uma avaliação reducionista para classificar aquela cultura.

O que precisamos levar em consideração para classificar uma cultura como sustentável?

Há um conjunto de definições sobre o que é sustentabilidade. Uma delas (bastante interessante) é apresentada no website sustentabilidade.org.br que é dedicado ao ensino de práticas sustentáveis:

"Sustentabilidade é um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana."

Este conceito apresenta a importância de serem consideradas várias áreas do conhecimento na avaliação de uma cultura ou de práticas, o que corrobora com a idéia de Latouche que o PIB per capta não é uma referência necessária e suficiente para fazê-lo.

Vamos parar para pensar um pouco no que consiste uma comunidade sustentável.

Podemos convencionar, de forma geral, para fins de entendimento, que uma comunidade sustentável é aquela cujos membros produzem e utilizam apenas recursos necessários para se manter de forma estável, satisfeita e saudável por um período indefinido de tempo. Nesta comunidade também há condições de ensino de práticas adequadas e recursos para os membros decidirem diretamente sobre arranjos de contingências daquela comunidade (o que incluiria o uso dos recursos produzidos por ela, os procedimentos adotados nela, entre outros).

Faz sentido?

No mesmo website apresentado anteriormente, há a seguinte menção:

"A sustentabilidade abrange vários níveis de organização, desde a vizinhança local até o planeta inteiro."

Qual a diferença entre analisar a vizinhança local e o planeta inteiro?

O conhecimento acumulado em análise do comportamento permite concluir que algumas propriedades dos estímulos alteram o valor das consequências. Vamos considerar, por hora, as seguintes propriedades:

  1. quão forte é aquele estímulo (intensidade); e
  2. qual é o intervalo de tempo transcorrido entre a apresentação da resposta e do estímulo (proximidade temporal).

O que uma pequena comunidade permite ver com mais facilidade?

Em uma pequena comunidade, a quantidade de recursos disponíveis é mais evidente e a identificação de sua diminuição é temporalmente mais próxima. Além disso, uma pequena comunidade tem relativa facilidade em decidir sobre o uso dos recursos disponíveis e a ensinar seus membros a utilizá-los de forma ética, responsável e solidária minimizando competições e brigas e, consequentemente, aumentando o conforto e satisfação dos membros.

Lidamos com um problema quando a comunidade ganha maiores proporções e estas dimensões (de intensidade e temporalidade) não são tão evidentes assim: não há clareza dos recursos necessários para produzir nem da iminência de seu esgotamento e dos impactos causados pelo seu descarte inadequado. Também fica cada vez mais difícil uma comunidade decidir sobre o uso dos recursos uma vez que há um número maior de pessoas envolvidas. Para facilitar a distribuição e aumentar a vida útil são adicionados agentes químicos cujo efeito na saúde da população não é conhecido.

A proposta de Skinner para uma comunidade como Walden II leva em consideração os fatores acima ao afirmar que, para atingir os critérios de uma comunidade sustentável, ela deve ser pequena (chegando ao limite de 1000 membros).

Mas, ensinar práticas adequadas de uso dos recursos não ajuda no caso da comunidade crescer?

Ajuda sim, entretanto, os estímulos que sinalizam a necessidade de comportamentos, bem como as consequências do comportamento são temporalmente cada vez mais distantes e menos intensos. Sendo assim fica cada vez mais complicado para a comunidade decidir que práticas são adequadas ou não para poder ensiná-las de forma ética e responsável.

De acordo com a análise proposta por Cortegoso (2008), também há vários elos que são criados para facilitar práticas que são conhecidamente inadequadas, por exemplo, o uso de crédito pré-aprovado, que faz com que o consumo (e todas as suas conseqüências) aumente. Ela ressalta a importância de levarmos em consideração o custo de resposta, ou seja, fatores que dificultam sua apresentação.

O que temos hoje é uma facilidade muito grande de apresentar comportamentos que prejudicam, não só o ambiente, mas também a saúde e a liberdade dos indivíduos.

A relação entre as nossas atuais práticas de comércio, descarte inadequado de lixo, entre outras, tem uma conhecida repercussão ambiental, por isso fica clara a associação entre "sustentabilidade" e "meio ambiente". Entretanto não há um questionamento sobre as nossas prioridades quando vivemos em comunidade.

Quão fácil é comprar produtos sem agrotóxicos e conservantes? Quão felizes e saudáveis somos? O que ensinamos para nossos filhos e alunos?

A tendência da comunidade em geral é criar e aprimorar recursos para lidar com as consequências das práticas atuais e não para lidar com as práticas em si.

Quer um exemplo?

Há uma grande preocupação em desenvolver técnicas de reciclagem e reaproveitamento de materiais. Entretanto não há uma preocupação tão grande em ensinar pessoas a produzir menos lixo. Também há pouca preocupação em ensinar comportamentos que sejam saudáveis e favoreçam sua felicidade e da comunidade da qual fazem parte (seja seu bairro, sua cidade, seu estado ou seu país) de forma ética, responsável e solidária.

O contrário disso é apresentar comportamentos que estejam sob controle de possíveis consequências arbitrárias que favorecem muito pouco (se é que favorecem) o desenvolvimento da comunidade da qual os indivíduos são parte.

Por exemplo, utilizar ou vestir uma grande marca pelo status ou mesmo trabalhar com o objetivo único de alcançar a autoridade de um cargo superior em uma empresa.

Aos poucos, com a proliferação de práticas que buscam status e poder, vemos costumes, danças, obras de arte e religiões desaparecerem. Junto a eles, desaparecem práticas, conhecimentos e tecnologias e isto dá lugar a uma vontade ilusória de ter algo ou pertencer a um grupo sobre o qual temos pouca ou nenhuma voz.

Quanto maior for o controle que as conseqüências arbitrárias exercem sobre nosso comportamento, menor será nossa liberdade e mais comprometida será a nossa saúde na busca de uma felicidade egoísta.

Bibliografia:

CORTEGOSO, A. L. Consumo ético e responsável na Economia Solidária: compreensão e mudança de práticas culturais. Em Cortegoso, A. L. e Lucas, M. G. (Organizadores) Psicologia e economia solidária: interfaces e perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008, pp. 165-180.

SKINNER, B.F. Science and Human Behavior. New York, 1953: MacMillan.

SKINNER, B. F. (1972); Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: Herder.

CHACON, S. S. Entrevista com Serge Latouche – Decrescimento (2011). Disponível em: http://desenvolvimento-regional-sustentavel.blogspot.com/2011/11/entrevista-com-serge-latouche.html

REDE DA SUSTENTABILIDADE. O que é sustentabilidade? (2012) Disponível em: http://www.sustentabilidade.org.br/


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sábado, 29 de outubro de 2011

Comportamento do Consumidor

Nota inicial: Este ensaio tem como objetivo provocar novas formas de pensar o consumo e não apresentar realidades absolutas ou esgotar a reflexão. O processo de produção de conhecimento é fluido. Não cabe à comunidade científica ditar o conhecimento a ser produzido, mas apontar a necessidade de sua produção e criar condições para que ele traga benefícios efetivos. 

Arthur Damião Médici, 

São Carlos, Outubro de 2011 

É sempre uma surpresa nova ouvir réplicas de amigos ao revelar a informação que eu atualmente estudo o “comportamento do consumidor”. 

“Quer dizer que você analisa cores e formas que fazem com que as pessoas comprem mais?” 

Exatamente o oposto, Fernandinho. Meu objetivo é entender o que faz com que você compre sem dinheiro, sofra para pagar prestações, produza toneladas de lixo por ano e, ainda assim, viva uma vida tão vazia sem uma bolsa de marca. 

Hoje em dia, pensar em sustentabilidade é moda. Também é muito simples: basta não usar sacolas plásticas no supermercado, certo? 

Errado. 


O conceito de sustentabilidade, além de ir muito além do uso de sacolas plásticas, vai muito além da noção de preservação ambiental. A nossa cultura também está desaparecendo e dando lugar para uma cultura moldada por grandes marcas e grandes corporações que vêm de muito longe (na maioria das vezes, de outro país) fazendo com que o produto próximo a você, da sua própria comunidade, tenha valor muito baixo (se é que tenha algum).

Uma comunidade pode ser considerada sustentável a partir do momento em que produz e consome o necessário para sua sobrevivência e providencia condições para que os excedentes sejam reaproveitados ou reabsorvidos pelo meio ambiente sem causar danos a ele. Esta mesma comunidade será sustentável se toda a tecnologia desenvolvida para a produção e aproveitamento de recursos seja acessível e passível de modificação de acordo com o interesse do coletivo... e não de apenas uma pessoa. 

Vamos analisar uma condição de supermercado: 

Você tem a total liberdade de escolher entre quatro tipos de queijo: (a) uma marca internacional, (b) uma marca nacional, (c) uma marca local e (d) feito por um pequeno produtor. Qual você escolheria? Responda honestamente. 

Pois bem, sem ter conhecimento de sua resposta, eu poderia dizer que você, para tomar esta decisão, está sob controle de duas variáveis importantes: o preço e a qualidade. 

Outras coisas que você pode considerar é a quantidade de conservantes e produtos químicos desconhecidos que podem estar presentes no seu queijo. 

Você também pode considerar outros aspectos de conservação como a data de validade ou o tempo que ele irá durar em sua geladeira

Eu diria, com certa convicção, que a maioria dos leitores não está sob controle de três coisas que nós consideramos importantes para um consumo responsável: quanto resíduo foi gerado na produção, quanto resíduo será gerado pós-consumo e a quem estou beneficiando com esta compra. 

Sobre a quantidade de resíduos gerada, convenhamos: você não está levando mais sacolas de plástico para casa, mas está levando plástico de várias formas, cores e sabores em vários tipos de produtos. O que fazer com tudo isso? Vamos esperar um pouco para conversar sobre o assunto... 

O pequeno produtor, que efetivamente precisa do dinheiro para manter sua produção e providenciar recursos de qualidade de vida para sua família, dificilmente irá ganhar a briga sobre os outros três. Isto quer dizer que você, ao comprar um queijo da marca internacional, está criando pouquíssimas condições para o desenvolvimento de quem efetivamente precisa de sua contribuição e que mora logo ali, no quarteirão de cima do supermercado. O mesmo ocorre (em diferentes níveis) ao comprar um queijo de uma marca nacional ou local. 

Pequenos produtores de artesanato doméstico do interior do Piauí
“A solução então é simples: vamos comprar coisas de pequenos produtores para incentivar a produção local”. A linha de raciocínio está correta, mas o conjunto de variáveis a ser considerado é um pouco maior e mais complexo que isso. 

Se você vai comprar queijo de um produtor, por que você precisa ir até o supermercado para fazer isso? 

O supermercado beneficiado com a sua compra tem total liberdade de rearranjar a distribuição de preços da forma como quiser. Em algum momento, o queijo internacional vai ganhar a briga novamente por que vai ser dado praticamente de graça por estar próximo da data de validade. Isso sem contar que aquele pequeno produtor vai ter que rebolar para atender a demanda de todo mundo que resolveu mudar de atitude e comprar dele. 

Então pensemos... 

Há um efeito indesejado para toda mudança drástica. Da mesma forma que estamos arcando com as conseqüências ambientais e sociais das mudanças drásticas na produção e consumo nos últimos 30 anos, iremos arcar com conseqüências drásticas parecidas caso queiramos que as coisas voltem a ser como eram antes de uma hora para outra. 

Também acredito que temos um problema maior a contornar: aquele plástico que você deixou de levar pra casa da sacola do supermercado (lembra?) agora está em inúmeros outros lugares, embalando inúmeros outros produtos e sendo consumido, não só junto ao produto, mas também no processo de produção dele, bem antes de você ver o produto impecável na prateleira. A falta de informação pode fazer com que você esteja favorecendo a degradação social e ambiental sem querer. 

Região de captação de plástico por correntes marinhas do oceano Pacífico próxima à costa oeste do México
Que papel a análise do comportamento tem nisso? 

Antes nós precisamos ter claro que o comportamento é uma relação entre as condições antecedentes a uma ação do sujeito (classes de estímulos e condições consideradas antes da ação ser apresentada) e condições subseqüentes a esta mesma ação (resultados, produtos ou efeitos gerados pela apresentação daquela ação naquelas condições). Também é preciso ter claro que a relação entre as condições antecedentes e subseqüentes são probabilísticas: determinadas condições podem ou não exercer maior ou menor efeito em determinados momentos a depender da intensidade dos antecedentes e do valor das conseqüências. 

Conclusão do parágrafo anterior: não dá pra falar de comportamento sem falar do que vem antes e depois da ação. Vamos em frente. 

Nós podemos olhar para o comportamento de consumo de duas dimensões: 

1) Aquela em que o comportamento de um indivíduo ocorre sob controle de determinadas variáveis e produz determinados resultados, produtos ou efeitos para aquele indivíduo

2) Aquela em que um conjunto de indivíduos apresenta aquela ação em diferentes freqüências e intensidades sob controle de diferentes variáveis ocasionando diferentes resultados, produtos ou efeitos tanto para um indivíduo quanto para um cojunto de indivíduos a curto e longo prazo. 

Então... podemos analisar comportamentos de indivíduos e de grupos... como esta análise é diferente? 

Quando se fala em comportamentos de um conjunto de indivíduos apresentado de forma relativamente estável ao longo do tempo, estamos falando de práticas culturais. Este pode ser um objeto de estudo interessante para as pessoas que analisam o comportamento de consumir uma vez que: 

1) Diferentes consumidores em diferentes lugares do mundo apresentam o comportamento de consumir sob controle de condições antecedentes muito similares e produzem conseqüências também muito similares

2) Os resultados, produtos ou efeitos do consumo podem assumir proporções distintas se analisados do ponto de vista de um indivíduo ou de um conjunto deles ao longo do tempo. 

3) Considerando que, o que mantém o sistema de produção funcionando é o consumo, entender a prática de consumo de grupos ao longo do tempo implica obter pistas para entender como funciona o sistema de produção que tanto tem trazido doenças e guerras e aproveitar condições para propor alternativas a este sistema antes que seja tarde. 

Uma proposta de descrição de comportamentos de indivíduos e de grupos bem como uma proposta de análise de que condições são mais ou menos prováveis de manter estes comportamentos são parte de uma tecnologia criada e desenvolvida pelas ciências do comportamento que pode nos ajudar a entender o fenômeno que vem tornando nosso planeta um centro de compras poluído e injusto cada dia mais. 

A proposta de descrição de comportamento a seguir é resultado de um período de análise de um grupo que tem como interesse o comportamento de consumir de forma ética, responsável e solidária. [1] 

(Clique na tabela para ampliar. Para retornar, aperte backspace)

Esta descrição nos diz quais são as variáveis que devem controlar este comportamento caso haja interesse em obter aqueles resultados, produtos ou efeitos. Fora isso, analistas do comportamento que efetivamente se utilizam desta tecnologia e atentam para variáveis adequadas são pessoas capazes de planejar contingências de forma ética para que seja possível que nossos filhos vivam em um planeta no qual não é necessário vender sua alma para comprar sua casa. 

Que variáveis adequadas são estas? 

Precisamos retomar a idéia de que, se determinada tecnologia não cria condições para a ocorrência de novos comportamentos, ela pode não estar de acordo com as condições que motivam pessoas a mudarem de comportamento. Isso nos diz o que é necessário ser feito para que, além de saber quais são as conseqüências do próprio comportamento de consumo, as pessoas reconheçam a necessidade de mudá-lo... o que, convenhamos, não é a mesma coisa. Então, as variáveis adequadas são aquelas efetivamente capazes de promover resultados (ou princípios de resultados) esperados. 

Um dos resultados esperados de nossa análise são “segmentos excluídos da população (...) beneficiados”. Mas nós precisamos lembrar que o sistema de produção atual está cada vez mais “preocupado” em gerar renda para estes segmentos. 

Onde está o erro neste raciocínio? 

Fácil. A medida em que estão sendo criadas melhores condições de sobrevivência para populações que realmente precisam, também estão sendo criadas condições para que os proprietários das grandes idéias e meios de produção se tornem cada dia mais ricos e que uma cultura seja cada dia mais sub-julgada a outra. Assim tecnologias sociais desaparecem e a preocupação deixa de ser “viver com qualidade” e passa a ser “se matar de trabalhar para ter sapatos de marca”. 

A ostentação, até onde se sabe, acompanha os limites da riqueza... e esta, até onde se sabe, não têm limites comprovados. 

Consumir o necessário para atender a demanda de qualidade de vida sua ou de sua família deve ser o raciocínio a pautar as discussões sobre economia do seu país, e não a necessidade ilusória de crescimento a cada ano. 

Somos ensinados a “jogar o lixo no lixo”, mas não somos ensinados a pensar se algo é realmente lixo, podendo ser funcional novamente deixando o meio ambiente em paz. 

“Reduzir” faz parte dos “Três R’s” que todos falam. Entretanto, para que seja possível reduzir o impacto ambiental é necessário reduzir lixo produzido em casa e na produção, que por sua vez, para ser alcançado, é necessário reduzir o consumo. Para isso é necessário reduzir o valor imaginário que as grandes marcas têm. Só assim conseguiremos reduzir as feridas ao nosso bem estar social e, conseqüentemente, reduzir a dor das cicatrizes deixadas em nossa cultura. 

Fora isso, a nossa última alternativa é criar condições de colonização e exploração de recursos naturais de outros planetas. Entretanto acredito que, se optarmos por esta alternativa, em breve precisaremos pensar em formas de recolonizar nosso próprio planeta. 

Que alternativa lhe parece mais parcimoniosa? 

Indicações de leitura: 

CORTEGOSO, A. L. Consumo ético e responsável na Economia Solidária: compreensão e mudança de práticas culturais. Em CORTEGOSO, A. L. e LUCAS, M. G. (Organizadores) Psicologia e economia solidária: interfaces e perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008, pp165-180. 

CORTEGOSO, A. L. ; CIA, F. ; LUCAS, M. G. (2008); Economia Solidária: O que é e como se relaciona com a Psicologia. In: CORTEGOSO, A. L. ; LUCAS, M. G. (Orgs.) Psicologia e economia solidária - Interfaces e perspectivas. 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo. 

SINGER, P. (2000). Economia solidária: um modo de produção e distribuição. In: SINGER, P. & Souza, A. R. (Orgs.); A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto. 

SKINNER, B. F. (1972); Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: Herder. 

CUNHA, R. S. T. C.; MEZZACAPA, G. G.; LEUGI, G. B.; MONTAGNOLI, T. A. S.; CORTEGOSO, A. L. Estratégias para mudança em práticas de consumo: O caso ConsumoSol. Trabalho completo. XVII Jornadas de Jóvenes Investigadores AUGM. Santa Fe, 2010. 

GLENN, S. S. Metacontingencies in Walden Two. Behavior Analysis and Social Action, 5 (1), 2-8, 1986. 

GLENN, S. S. Contingencies and metacontingencies: toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism. The Behavior Analyst, 11(2), 161-179, 1988. 

MALOTT, R. W. Rule-governed behavior and behavioral anthropology. The Behavior Analyst, 11, 2, 181-203, 1988. 


[1] Retirado de Cortegoso, A. L. Consumo ético e responsável na Economia Solidária: compreensão e mudança de práticas culturais. Em Cortegoso, A. L. e Lucas, M. G. (Organizadores) Psicologia e economia solidária: interfaces e perspectivas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008, pp165-180.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Entrevista com o Dr. Thomas Higbee - Análise do Comportamento e Autismo

Entrevistado: prof. Thomas Sean Higbee[1]
Entrevistador: Arthur Damião Médici 


Segunda feira, 18 de julho de 2011, 13:00.


A entrevista abaixo foi conduzida com o prof. Dr. Thomas Higbee, que é Professor Associado do Departamento de Educação Especial e Reabilitação da Universidade Estadual de Utah, onde trabalha desde 2002. Ele também é diretor do programa Servicos de Apoio para Autismo: Educação, Pesquisa e Treinamento (ASSERT), um serviço de intervenção comportamental precoce intensivo para crianças com autismo que fundou em 2003. O Dr. Higbee é Board Certified Behavior Analyst (BCBA-D) em nível de doutorado e publica pesquisas, bem como apresenta palestras, em conferências estaduais e nacionais sobre tópicos relacionados a estratégias de avaliação e intervenção comportamental para indivíduos com autismo e outras situações de desenvolvimento atípico. Ele é atualmente Editor Associado do Journal of Applied Behavior Analysis (JABA) e realizou ações no quadro de editores do Behavior Analysis in Practice, bem como do JABA. Por meio de workshops e consultas ele treina professores e prestadores de serviço relacionados em escolas pelo oeste dos Estados Unidos. A entrevista abaixo tem por objetivo apresentar o que é o autismo e como o Dr. Higbee tem utilizado as ferramentas proporcionadas pela análise do comportamento e seus procedimentos de pesquisa para o tratamento desta condição.

Arthur Médici entrevistando o prof. Dr. Thomas Higbee

O que é a educação especial e o que ela tem de diferente da educação regular? 

Educação especial, nos Estados Unidos, é o arranjo de serviços educacionais suplementares ou alternativos para estudantes que não estão apresentando progresso em situação regular de ensino. A principal diferença é que o currículo e as estratégias instrucionais utilizadas para estudantes que qualificam para serviços de educação especial são mais individualizadas para se adequarem às necessidades educacionais de cada aluno. A diversidade de serviços oferecidos para estudantes sob o guarda-chuva da educação especial é bastante amplo. 

Como a análise do comportamento pode contribuir com a educação especial. 

A análise do comportamento contribuiu e continua contribuindo para o campo da educação especial. Muitas das mais bem sucedidas técnicas de intervenção são baseadas nos princípios da análise do comportamento. Estratégias como “dicas”, “modelagem”, “esvanecimento” e “reforçamento diferencial” são todos utilizados no campo da educação especial como um todo no ensino de indivíduos com necessidades especiais. Técnicas desenvolvidas pela análise do comportamento também são práticas corriqueiras com alunos que apresentam comportamentos problema. 

O que é a análise do comportamento e como esta ciência vem mudando ao longo do tempo? 

A análise do comportamento é uma ciência natural cujo assunto de interesse é o estudo do comportamento e dos fatores ambientais que o produzem/ocasionam. Eu não diria que a ciência em si está mudando muito ao longo do tempo uma vez que os princípios básicos que explicam o comportamento humano são bem compreendidos por grande parte. A excessão pode ser o comportamento verbal e cognição como a teoria dos quadros relacionais (relational frame theory). O que está constantemente mudando, entretanto, é como estes princípios básicos são aplicados para melhorar a condição humana. O campo da análise aplicada do comportamento está crescendo rápido e é muito mais proeminente do que era no passado. Muito desta expansão ocorreu na área do autismo e desenvolvimento atípico mas os avanços também ocorreram em outras áreas como a psicoterapia, segurança no trabalho e comportamento organizacional.

Gostaria que você falasse um pouco o que é o autismo, como lidar com indivíduos com autismo e o que motivou seu trabalho com esta população. 

Autismo é uma situação de desenvolvimento atípica severa, que afeta os indivíduos em graus variados em três áreas principais: 1) comunicação; 2) comportamento social; e 3) comportamentos estereotipados e outros considerados desafiadores. O autismo consiste em um “espectro”, o que significa que afeta indivíduos de diferentes formas em graus variados de severidade. Não há causas conhecidas do autismo, entretanto pesquisas recentes sugerem que há origens tanto genéticas quando ambientais. Eu tive contato com indivíduos com autismo em meu programa de doutorado quando eu tive a oportunidade de trabalhar como um instrutor de crianças com autismo. Eu fiquei fascinado com o fato de que cada indivíduo com autismo é único e também com o fato de que, por meio de intervenção apropriada, muitas crianças com autismo podem progredir significativamente. 

Como a análise do comportamento pode contribuir com o ensino de habilidades de indivíduos com autismo? 

Analistas do comportamento sabem como entender por que o comportamento está ou não está ocorrendo e arranja contingências de reforçamento para promover comportamentos adequados e inibir comportamentos inadequados. Analistas do comportamento têm trabalhado com indivíduos com autismo desde os anos 1960. A abordagem analítico comportamental para o tratamento de indivíduos com autistmo tem sido pesquisada mais do que qualquer outra abordagem e tem consistentemente produzido bons resultados. Analistas do comportamento utilizam seu conhecimento sobre contingências de reforçamento para ensinar comportamentos adequados e inibir comportamentos inadequados e utilizam suas habilidades de coleta e análise de dados para determinar se forem bem sucedidas e realizar modificações em seu tratamento se não forem. 

Qual a importância e as limitações da pesquisa básica para o ensino de indivíduos autistas? 

Eu acredito que ainda há muitas questões importantes de pesquisa básica a serem respondidas que apresentam relevância para o ensino de indivíduos com autismo. Perguntas que levam em consideração o uso de dicas e técnicas de esvanecimento de dicas, estratégias para o ensino de discriminações condicionais, e estudos mais complexos sobre fenômenos comportamentais como ressurgência, resistência à extinção, todos tem relevância para o autismo. O truque é fazer com que pesquisadores de pesquisa básica se interessem por essas questões que têm relevância direta para o tratamento. 

Qual a importância e as limitações da pesquisa aplicada para o ensino de indivíduos autistas? 

Também há muitas perguntas de pesquisa aplicada que ainda precisam ser respondidas. Algumas delas são relacionadas a técnicas específicas de ensino como “qual dica ou estratégia de correção de erro deve-se utilizar com qual aluno”. Também há outras áreas como “estratégias para promover comportamentos sociais” que podem se beneficiar com muito mais pesquisas. 

Gostaria que você falasse sobre o que é a ASSERT, suas principais atividades de ensino e pesquisa e como é feito o envolvimento de outras pessoas no processo (pais, parentes...). 

ASSERT, que significa Servicos de Apoio para Autismo: Educação, Pesquisa, e Treinamento (Autism Support Services: Education, Research, and Training) é um programa para crianças em fases iniciais do desenvolvimento (de 3 a 5 anos) com autismo e suas familias que criei em 2003. 

O seu grupo de apoio (staff): 

· Providenciar intervenção educacional e comportamental precoce efetiva para crianças com autismo; 

· Conduzir pesquisas para melhorar intervenções educacionais e comportamentais para crianças com autismo; 

· Operar uma sala de aula modelo para treinamento para profissionais de educação da região oeste dos EUA. 

Eu iniciei a ASSERT por que havia uma demanda significativa na comunidade. Havia muitas famílias de crianças com autismo que não tinham acesso a tratamento efetivo. ASSERT também funciona como um laboratório de pesquisa para mim e para meus alunos de pós graduação. Nós investigamos novas formas de avaliação e estratégias de tratamento para ajudar crianças com autismo e suas famílias. 

A ASSERT utiliza a abordagem da análise do comportamento para o tratamento de crianças com autismo. Cada estudante do programa recebe 20 horas semanais de instruções 1 para 1 (em que cada aluno recebe instruções de um professor individualmente) de alunos de graduação da USU (Universidade Estadual de Utah). O currículo de cada um dos alunos é programado individualmente para atender necessidades educacionais e comportamentais específicas. 

O currículo de cada aluno é monitorado por um aluno de doutorado (chamado administrador de casos - case manager) que é responsável por assegurar que os alunos de graduação implementam o plano educacional com fidelidade. Nós também providenciamos treinos para famílias no programa e consultas domésticas mensais para ajudar famílias a lidar com problemas de comportamento em casa e encorajar seus filhos a se comunicarem apropriadamente. 

A ASSERT também funcionam como um sítio de treinamento para professores de educação especial atuais e futuros. Nós também construimos salas de aula da ASSERT em diferentes localidades do estado de Utah para que estudantes em outras localidades possam receber intervenções educacionais apropriadas. 

Qual é a importância de vincular a pesquisa ao trabalho de organizações como a ASSERT? 

Como um analista do comportamento, é essencial para mim que nós utilizemos apenas estratégias de tratamento que são baseadas em pesquisas clinicas publicadas. Isto nos concede as melhores chances de sucesso com nossos alunos. Nós também trabalhamos bastante para desenvolver pesquisas que vão beneficiar, não apenas nossos alunos, mas alunos com autismo de diversas regiões do mundo. 




[1] Esta entrevista não deve ser reproduzida sem autorização prévia do autor. Para maiores informações, envie um email para arthur.medici@gmail.com